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2 JABUTI NA TELA: O PRÊMIO JABUTI E O LIVRO DIGITAL PARA

2.1 A CATEGORIA INFANTIL DIGITAL

2.1.1 O Recuo do Prêmio Jabuti

A extinção da categoria Infantil Digital no Prêmio Jabuti, a partir do regulamento de 2018, tem que ser analisada no contexto total das mudanças propostas, mas certamente reflete a atual realidade do mercado e, sobretudo, o posicionamento da indústria do livro frente à literatura digital interativa.

Houve uma queda significativa no número de inscritos na categoria, entre o ano de implantação e o último ano de vigência. Foram 38 no primeiro ano – quando se

19Em 2018, o Conselho Curador do Prêmio Jabuti continuava a cargo de Luiz Armando Bagolin, tendo

como conselheiros: Mariana Mendes, Tarcila Lucena, Pedro Almeida e Jair Marcatti. A repercussão negativa do novo regulamento entre alguns setores, principalmente autores e simpatizantes da literatura infantil e juvenil, no entanto, culminou com a renúncia do curador, em 15 de julho de 2018 (vide: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/06/curador-do-premio-jabuti-pede-demissao-apos- polemicas.shtml, acesso em 16 jul. 2018), ficando o cargo em vacância. O regulamento do Prêmio 2018 está disponível em: https://www.premiojabuti.com.br/novo-premio-jabuti/, acesso em: 16 jun. 2018 e no Anexo F desta dissertação.

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aceitava inscrições de livros produzidos a qualquer tempo e não apenas no ano imediatamente anterior ao prêmio –, 16 livros em 2016 e apenas seis em 2017.

Em sua 60ª edição, a CBL extinguiu ou fundiu 11 categorias (foram de 29 para 18), distribuindo a nova configuração em quatro eixos, como já citado. Em entrevista coletiva realizada em 15 de maio de 2018, que gerou diversas matérias divulgadas pela imprensa, o então curador, Luiz Armando Bagolin, afirmou que o prêmio não ficou menor, que apenas houve uma “racionalização das categorias” (FACCHINI, 2018). Bagolin chegou a afirmar:

O prêmio foi se tornando carne de vaca. Todo mundo ganhava, tinha aquela cerimônia longa. Passa três meses e você não sabe mais quem são os ganhadores. Queremos tornar o prêmio mais competitivo e que ele volte a ser disputado pelos autores (BAGOLIN, 2018, apud MEIRELES, 2018).

A reestruturação afetou diretamente vários temas ligados à literatura infantil e juvenil, o que gerou muitos questionamentos por parte de autores e outros atores do campo. O descontentamento desses articuladores levou um grupo de mais de 300 pessoas a assinar uma carta, entregue ao presidente da CBL, em maio de 2018, pontuando algumas questões: a unificação das categorias Infantil e Juvenil; a categoria Ilustração ter sido alocada no chamado eixo Técnico, desconsiderando o diferencial de ser uma linguagem narrativa própria (e não meramente utilitária), e critérios de avaliação dogmáticos, com a inserção do quesito “caráter formativo em conhecimentos ou de valores” como item de avaliação na categoria Infantil e Juvenil. Na carta, pediam o início de um diálogo a respeito das considerações ali feitas20.

Preocupados com essas questões, observou-se que os autores e subscreventes sequer mencionaram a extinção da categoria Infantil Digital, mostrando que o assunto não era relevante para eles a ponto de figurar como mais uma demanda à presidência e à curadoria do Prêmio.

No dia 15 de maio de 2018, a pesquisadora enviou à CBL, por e-mail,

20Na sequência, foram realizadas duas reuniões entre a CBL e uma comissão representativa desses

autores, uma no Rio de Janeiro, antes da já citada renúncia do curador, e outra em São Paulo (com a participação da presidência da CBL e da presidência e de autores também vinculados à Associação dos Autores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil - AEILIJ). Após os encontros, foi sinalizado pela CBL que as considerações seriam objeto de discussão e análise posterior, para possíveis alterações na premiação do ano seguinte (2019). A autora deste trabalho foi signatária da carta e acompanhou todas as discussões havidas entre os autores por meio de um grupo de mensagens criado na plataforma Facebook. A carta e o documento em que constam os signatários estão disponíveis nos Anexos H e I deste trabalho.

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questionamento sobre o motivo da extinção da categoria Infantil Digital, e se havia relação com a queda no número de inscrições, pedindo resposta por parte do presidente, Luiz Antonio Torelli, que não se manifestou diretamente. Na mesma data, a Assessoria de Imprensa respondeu ao e-mail, nestes termos:

Todos os livros agora serão enviados em formato digital, PDF. Exceto o eixo Livro que engloba categorias projeto gráfico, capa, ilustração e impressão, continua mantendo a obrigatoriedade do envio dos volumes. A partir desta edição não haverá mais diferenciação entre livros impressos e digitais. O Jabuti foi reposicionado por meio dos eixos, com o objetivo de aproximar-se mais do leitor. Sendo assim, todos os livros poderão ser inscritos e têm chances de serem selecionados desde que tenham relevância para o público leitor. O Prêmio Jabuti precisava ser atualizado em relação ao que está acontecendo em sua volta, tornando-se também mais racional, mais ágil e mais competitivo em relação a outras premiações que surgiram no Brasil e no exterior” (Assessoria de Imprensa da CBL, informação fornecida por e-mail).

Assim (à parte o fato importante da queda no número de inscritos), a pretexto de que todos os livros já seriam aceitos em meio digital (como PDF e também, se fosse o caso, como livros interativos21) e que poderiam concorrer entre si indistintamente, há indicações de que não houve profundas reflexões a respeito da grande diferença existente, em termos de linguagens e de materialidade, entre um livro físico, um PDF ou aplicativo, nem vontade de apostar em um futuro crescimento dessas publicações.

Samira Almeida, sócia da StoryMax, editora digital vencedora de dois prêmios Jabuti, avalia o recuo da CBL, com a extinção da categoria Infantil Digital, atribuindo-o ao desinteresse das editoras tradicionais pelo formato:

Eu acho que antes de ser um recuo do prêmio, foi um recuo das editoras. Diante de tudo isso que eu te falei sobre como elas estão vendo o negócio – óbvio, eu sei que o mercado está difícil pra caramba, que tá todo mundo demitindo, que pra eles é mais caro porque eles não sabem como fazer e não estão interessados em ter gente dentro pra fazer, querem contratar serviço, e aí fica mais caro... Diante de tudo isso... eu sei que eles têm essas dificuldades todas... Mas a verdade é que eles desistiram de tentar experimentar.

[...] quem estava ganhando [o Prêmio da categoria] eram os que estavam interessados em fazer a inovação do livro.

[...] Eles não fizeram. Os poucos que fizeram gastaram muito. Eu sei que eles gastaram muito porque eu estive em reuniões com eles e eles falaram pra mim que gastaram muito. Não tiveram planejamento de médio prazo - porque eles não tinham como saber - não tiveram planejamento de que isso ia demandar manutenção, cuidado com loja, outras coisas de modelo de negócios... Eles não

21 O item 6.2.1 do regulamento de 2018 assim anuncia: “Obras em que o conteúdo textual é integrado

a elementos multimídia, interativos ou hipertextos que contenham ISBN e Ficha Catalográfica, conforme descrito no item 1.2 deste regulamento, podem participar do Prêmio Jabuti”. Regulamento disponível no Anexo F deste trabalho.

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tinham essa visão, e eu acho que é normal eles não terem. E os prestadores de serviços de que eles estavam cercados não tiveram a preocupação de dizer isso pra eles, seja por que os caras não estavam a fim de ajudar, seja porque se eles fossem falar tudo isso ficaria ainda mais caro e ia inviabilizar. Ou eles até falaram, mas as empresas preferiram economizar onde não deviam. Aí foi um ciclo, os caras foram saindo do mercado, começou a ter menos produto no prêmio e eles pararam de fazer. Acho que ainda vai voltar... e isso, no meu caso, é quase como... sabe? Ter fé de que as pessoas querem fazer uma coisa nova e boa pro leitor (ALMEIDA, 2018, em entrevista à autora, disponível no Apêndice M).

Dessa forma, pode-se colocar assim o cenário desenhado: poucas inscrições, uma propalada democratização de formatos (por se abrir a inscrições de obras em PDF e outros meios digitais, em quase todas as categorias), a suposta redução de categorias para valorização do Prêmio, o desinteresse por parte do mercado livreiro, após algumas tentativas frustradas de comercializar livros digitais interativos. Ao analisar os acontecimentos, as repercussões e os números, pode-se supor que um dos motivos acima ou todos eles em conjunto fizeram com que a CBL, instituição que em 2015 havia apostado na inovação, desistisse de dar especial atenção aos livros digitais interativos para crianças.