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Cap´ıtulo

1.2 A Mecˆ anica dos Fluidos Computacional

1.2 A Mecˆ anica dos Fluidos Computacional

A mecˆanica dos fluidos computacional ´e definida como o conjunto de metodologias que permitem simular computacionalmente o escoamento de fluidos [Hirsch, 2007].

Pode-se classificar o estudo de CFD de duas formas: os m´etodos experimentais e os m´etodos te´oricos. Em ambos, busca-se representar, atrav´es de um modelo ma-tem´atico, um fenˆomeno f´ısico o mais pr´oximo da realidade e assim estud´a-lo e conhe-cer suas caracter´ısticas e vari´aveis que mais o influenciam. Desta forma, a mecˆanica dos fluidos pode ser utilizada em v´arios fenˆomenos da natureza, nos quais pode-se citar o estudo de escoamentos fundamentais como camada limite, escoamentos cisa-lhantes como jatos, esteiras, ou mesmo escoamentos complexos, que s˜ao utilizados na ind´ustria como parte de projetos de aeronaves, ve´ıculos, m´aquinas t´ermicas, bombas, edifica¸c˜oes, dentre outros.

Grande parte da necessidade de simula¸c˜ao num´erica em CFD se deve ao fato de que as equa¸c˜oes de Navier-Stokes raramente tˆem uma solu¸c˜ao exata conhecida, a menos de casos extremamente simplificados. Em aplica¸c˜oes de mecˆanica dos fluidos pretende-se, invariavelmente, reproduzir virtualmente o escoamento de um ou mais fluidos em um meio, que pode ser finito ou infinito, conter obst´aculos, envolver altas velocidades e portanto grandes gradientes pr´oximos a esses obst´aculos, ser confinado ou ainda apresentar superf´ıcies livres, entre uma infinidade de caracter´ısticas pr´oprias de cada escoamento.

Uma grande potencialidade da CFD ´e a possibilidade de simular determinadas opera¸c˜oes nas quais seriam necess´arias constru¸c˜oes de unidades, riscos de acidentes, tempo e recursos financeiros consider´aveis. Um exemplo disso ´e a utiliza¸c˜ao de t´uneis de vento no estudo aerodinˆamico de autom´oveis e avi˜oes, onde tal estudo pode ser feito inicialmente em simuladores, como ferramentas complementares, utilizando recursos financeiros bem mais reduzidos de forma segura e intervalos de tempos inferiores. Essa

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area ganhou muitos adeptos, tanto que atualmente essas simula¸c˜oes s˜ao muito

utili-zadas por engenheiros, pesquisadores e projetistas para a previs˜ao do comportamento de um determinado produto de engenharia, ou uma situa¸c˜ao f´ısica sendo imposta as devidas condi¸c˜oes de contorno. Outros exemplos em que tamb´em se utiliza a CFD s˜ao: o c´alculo de sustenta¸c˜ao e arrasto em foguetes; escoamentos em torno de m´ısseis;

escoamento de ar no interior de motores de combust˜ao interna; escoamento de ar de resfriamento dentro de equipamentos eletrˆonicos e dispers˜ao de poluentes dentro de rios, oceanos e no ar atmosf´erico.

A mecˆanica dos fluidos estuda e utiliza m´etodos num´ericos e computacionais para a solu¸c˜ao das equa¸c˜oes diferenciais parciais (EDPs) associadas aos modelos ma-tem´aticos. Sistemas formados por equa¸c˜oes diferencias parciais podem ser classificados como: parab´olicos, hiperb´olicos ou el´ıpticos. Esta classifica¸c˜ao revela caracter´ısticas espec´ıficas do problema que refletem nos m´etodos num´ericos apropriados para sua resolu¸c˜ao.

As equa¸c˜oes de Navier-Stokes apresentam uma classifica¸c˜ao mista, dependendo das condi¸c˜oes do problema pode ser hiperb´olica, parab´olica ou el´ıptica. As EDPs resolvidas s˜ao normalmente as equa¸c˜oes de quantidade de movimento, massa, energia.

No presente trabalho as equa¸c˜oes estudadas s˜ao as equa¸c˜oes de Euler. Existem v´arias formas de resolver essas equa¸c˜oes, dentre elas pode-se citar os m´etodos das diferen¸cas finitas, elementos finitos, volumes finitos, entre outros.

O m´etodo de diferen¸cas finitas (MDF) consiste em aproximar as derivadas das equa¸c˜oes governantes por meio de diferen¸cas finitas, que s˜ao obtidas atrav´es de expans˜oes em s´eries de Taylor, truncadas no n´ıvel da ordem do erro desejada [Fortuna, 2000], [Ferziger and Peric, 1997]. Esse m´etodo pode alcan¸car uma alta or-dem de convergˆencia utilizando f´ormulas de alta ordem, sua utiliza¸c˜ao ´e mais comum a malhas estruturadas em geometrias simples.

O m´etodo de elementos finitos (MEF) surgiu para an´alise de comportamento es-trutural e desde ent˜ao ´e usado para resolver equa¸c˜oes diferenciais parciais que apare-cem nas ´areas de mecˆanica dos s´olidos, elasticidade e na dinˆamica dos fluidos. Sua

1.2 A Mecˆanica dos Fluidos Computacional 7 aplica¸c˜ao tem como base subdividir o dom´ınio do problema em pequenas regi˜oes (ele-mentos) e em cada um destes subintervalos a solu¸c˜ao ´e aproximada atrav´es de uma fun¸c˜ao, normalmente um polinˆomio [Zienkiewicz and Taylor, 2000]. Uma importante vantagem apresentada por este m´etodo ´e sua habilidade de lidar com geometrias com-plexas, uma vez que t´ecnicas para gera¸c˜ao de malhas s˜ao bem difundidas.

O m´etodo de volumes finitos (MVF) consiste em uma integra¸c˜ao das equa¸c˜oes governantes do escoamento de fluido sobre todos os volumes de controle finitos que comp˜oem o dom´ınio de interesse. A discretiza¸c˜ao requer a substitui¸c˜ao dos termos da equa¸c˜ao integrada por uma variedade de aproxima¸c˜oes do tipo das diferen¸cas finitas. Isto converte as equa¸c˜oes integradas em sistemas de equa¸c˜oes alg´ebricas [Patankar, 1980], [Maliska, 1995]. O m´etodo de volumes finitos pode ser aplicado a qualquer tipo de malha, por isso adapta-se a geometrias complexas.

Este trabalho utiliza as equa¸c˜oes de Euler discretizadas pelo m´etodo de volumes finitos. No caso compress´ıvel, essas equa¸c˜oes s˜ao hiperb´olicas, apresentando termos convectivos. Estes termos podem ser discretizados por t´ecnicas centradas ou des-centradas (upwind). A discretiza¸c˜ao utilizando t´ecnicas centradas apresentam ter-mos inst´aveis, sendo necess´aria a utiliza¸c˜ao de dissipa¸c˜ao artificial para estabilizar o m´etodo. J´a as t´ecnicas upwind apresentam na pr´opria discretiza¸c˜ao, termos estabili-zantes, n˜ao necessitando de dissipa¸c˜ao adicional.

Os m´etodos ou esquemas centrados utilizam uma discretiza¸c˜ao espacial centrada no ponto ou c´elula em quest˜ao. Desta forma, o estˆencil da aproxima¸c˜ao utiliza in-forma¸c˜ao de todos os vizinhos `a c´elula em quest˜ao de forma similar. Dentre esses esquemas, alguns foram desenvolvidos por Lax e Wendroff [Lax and Wendroff, 1960], por´em seus m´etodos s˜ao de primeira ordem de precis˜ao. Mais adiante Briley [Briley and McDonald, 1975] aplicou a segunda ordem de precis˜ao para esquemas centrados. Beam e Warming [Beam and Warming, 1976] desenvolveram esquemas centrados impl´ıcitos no tempo e Jamesonet al. [Jameson et al., 1981] desenvolveram um esquema centrado expl´ıcito no tempo utilizando o m´etodo de Runge-Kutta de

cinco est´agios para a integra¸c˜ao temporal.

Dentre os m´etodos upwind, pode-se citar o trabalho de Courant et al.

[Courant et al., 1952] como um dos pioneiros nesta ´area. No desenvolvimento de m´etodos upwind, Godunov [Godunov, 1959] propˆos a utiliza¸c˜ao do problema de Rie-mann exato para modelar o fluxo entrando ou saindo atrav´es de uma interface para o caso unidimensional das equa¸c˜oes de Euler.

Van Leer [van Leer, 1977] desenvolveu um m´etodo upwind de primeira ordem de precis˜ao, a partir dos trabalhos de Godunov. Van Leer [van Leer, 1979] discute sobre a obten¸c˜ao de altas ordens de precis˜ao para esses m´etodos. Seguindo o mesmo assunto, Roe [Roe, 1981] desenvolveu o m´etodo upwind tipo Godunov, propondo a solu¸c˜ao de um problema de Riemman aproximado, sendo um m´etodo do tipo separa¸c˜ao de diferen¸ca de fluxo (Flux-Difference Splitting).