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4. O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO

4.4. A Medida Provisória Nº 579, de 11 de Setembro de 2012

A Presidente da República, Dilma Rousseff, em pronunciamento oficial de 07 de setembro de 2012, fez uma declaração que deu início à série de mudanças regulatórias. Suas palavras foram:

Vou ter o prazer de anunciar a mais forte redução que se tem notícia neste país, nas tarifas de energia elétrica das indústrias e dos consumidores domésticos. A medida vai entrar em vigor no início de 2013. A partir daí, todos os consumidores terão sua tarifa de energia elétrica reduzida. Ou seja, a sua conta de luz vai ficar mais barata. Os consumidores residenciais terão uma redução média de 16,2%. A redução para o setor produtivo vai chegar a 28% (...). (GODOI, 2013). Quatro dias depois, no chamado 11 de setembro de 2012, do setor elétrico, o mercado conheceria a Medida Provisória nº. 579/12, que se transformou, posteriormente, na Lei nº. 12.783/13, e cuja meta primária era a de reduzir a tarifa de energia. Contudo, teve como consequências secundárias uma série de outros ajustes em função do descontentamento do setor como um todo o que desencadeou uma revolução no mercado elétrico brasileiro.

O governo brasileiro vem desenvolvendo alguns esforços no sentido de garantir uma nova política econômica, capaz de garantir a redução de custos e estimular novos investimentos, visando um novo ciclo de crescimento sustentado para o país. O setor elétrico foi o primeiro setor da economia brasileira a sofrer

modificações, aproveitando-se que ativos antigos de geração e transmissão deveriam ter seus contratos de concessão a vencer no período de 2015 a 2017.

O desenvolvimento da política econômica brasileira está lastreado na criação de novas condições de investimentos privados nos segmentos de infraestrutura de rodovias, portos, ferrovias e aeroportos, pensando-se nos grandes eventos esportivos de 2014 e 2016 (Copa do Mundo e Olimpíadas respectivamente) e utilizando-se da experiência anterior exitosa do Novo Modelo do Setor Elétrico, visando aumentar a competividade e redução do custo Brasil.

Em 2011, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), passou a discutir publicamente, inclusive com campanhas públicas na grande imprensa, a necessidade de licitações, conforme lei estabelecida, visando o barateamento das tarifas de energia. Em contrapartida, as associações de empresas geradoras e transmissoras passaram a reivindicar a prorrogação das concessões, no que era acompanhado pelos movimentos sindicais de empregados estatais.

Dentro destes objetivos, ficou evidente a discussão que o custo da energia brasileira impactava, de forma relevante, na competitividade das indústrias instaladas no Brasil, e que a redução do custo deste insumo era fundamental para a economia nacional. A MP 579/12 tinha dois objetivos básicos: a diminuição dos encargos setoriais e a redução das tarifas de energia, por meio da renovação antecipada das concessões que venceriam nos próximos 05 anos. Com isto, o governo brasileiro pretendia demonstrar, de modo transparente, o esforço em garantir um crescimento sustentável ao longo dos próximos anos para a economia brasileira.

Em relação aos encargos setoriais, a MP 579/12 determinou o fim da cobrança da Conta de Consumo de Combustível (CCC), da Reserva Global de Reversão (RGR) e diminuiu em 25% o valor da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) nas tarifas. Esta redução de encargos proposta deveria representar uma redução média de 20% na tarifa de energia.

A segunda parte desta medida impactou um volume expressivo de concessões que venceriam no período de 2015 a 2017, cujas discussões já vinham acontecendo junto ao mercado energético brasileiro, pois não se sabia o destino que seria dado a estas concessões, embora houvesse duas opções, ou seja, renovar de forma onerosa ou efetuar novas licitações para estes ativos. Estes ativos representavam 22.341 Megawatts (MW) em usinas hidroelétricas (26,1% da

capacidade instalada) e 85.326 km de linhas de transmissão (80,6% das linhas existentes).

Por meio da MP 579/12, o governo optou pela alternativa de renovação das concessões, mas dentro de uma postura legalista: a reversão dos ativos para a União, com a opção das atuais concessionárias manterem a concessão dos ativos, desde que aceitassem a antecipação do vencimento do contrato e passagem à condição de simples operadores e mantenedores das usinas hidroelétricas, passando a receber uma tarifa pelo custeio das atividades. Desta forma, as empresas detentoras dos ativos de geração passam à posição de prestadoras de serviços, não mais comercializando a energia elétrica ao preço de mercado. (...). O mesmo acontece com as concessionárias de transmissão, que passam a ser remuneradas por uma tarifa que comtemplará apenas custos de operação e manutenção. (CASTRO et al., 2013, p.16-17). As empresas tiveram 35 dias da publicação da medida provisória para analisar e concluir se aceitavam a adesão às novas condições das concessões e, nos casos positivos, tiveram os seus contratos de concessão renovados a partir de janeiro de 2013, pelo período de 30 anos. As empresas afetadas pela medida provisória foram as do Grupo Eletrobrás, CTEEP, COPEL, CESP e CEMIG.

O choque provocado pelo novo marco regulatório, introduzido pela medida provisória foi mal precificado pelo mercado de capitais, pois, as empresas do setor elétrico, principalmente as detentoras de contratos de concessão com vencimento de 2015 a 2017, tiveram baixas relevantes nos valores de suas ações ao longo do ano de 2013, em virtude da perda drástica de receita operacional e pela falta de definição da compensação (ressarcimento) dos ativos anteriores ao ano de 2000, que não foram incluídos no cálculo de indenização do Governo Federal.

As primeiras estimativas de ressarcimento do Governo Federal eram de R$ 30 bilhões (sem a definição da indenização dos ativos anteriores a 2000), enquanto a presidência da Eletrobrás indicava que o grupo tinha uma expectativa de ressarcimento de aproximadamente R$ 28 bilhões.

Uma série de depoimentos e análises, que explicam os impactos negativos da MP 579/12 no setor de energia elétrica, são apresentados no Capítulo 6 desta dissertação.