Capítulo II A Leitura Literária
2. A Leitura Literária no º Ciclo do Ensino Básico
2.1. A memória, a biblioteca interna do leitor
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso .
(Herberto Helder,1996: 98)
A liberdade individual, enunciada por José Morais, é alcançada pelo leitor através da representação de imagens no pensamento que, por seu turno, se encontram guardadas na memória. Esta vertente da memória também é evidenciada por George Steiner e Alberto Manguel, como elucida Paula M. Coelho: «…os dois auto es e o da os li os i os dos a pos da o te, ou ue se Ma delsta so e i eu foi o al e te» (2011:290). Aqui destacamos a memória como a experiência do oral, em que o saber de cor é sinónimo de saúde mental ou instinto de sobrevivência elencado na liberdade de pensamento. Ora vejamos o exemplo de Milena Jesenska, a grande paixão de Kafka, que, após a sua morte, se viu confinada, em 1940, a um campo de concentração nazi. A vida de Milena transformou-se num pesadelo, e, para sobreviver à inumanidade da situação e do espaço, aplicou um método, ensinado por uma amiga, que consistia em recordar as
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histórias lidas e na memória guardadas (Manguel, 2011: 21). Assim, no campo de concentração, Milena alcançava a liberdade através do pensamento.
Neste quadro, a leitura literária fornece ao leitor matéria para guardar na memória; esta será ativada quando o próprio leitor necessitar de se evadir da realidade ou quando precisar de compreender a própria circunstância. As leituras são as bibliotecas cognitivas, o acervo individual de cada um, explicitando melhor, o reportório íntimo de experiências aprendidas, vividas, revividas por meio da leitura literária, como retrata Alberto Manguel:
As hist ias s o a ossa e ia, as bibliotecas são como que armazéns dessa memória, e a leitura é o labor através do qual podemos recriar essa mesma memória, recitando-a e dando- lhe brilho, traduzindo-a para a nossa própria experiência, o que permite que nos ergamos sobre aquilo que as ge aç es a te io es o side a a dig o de p ese aç o . (Manguel,2011: 19)
Este ponto de vista é partilhado por Paula M. Coelho, que enfatiza a importância das leituras guardadas na memória: a uilo ue ap e de os de o ai a adu e e e desenvolver-se dentro de nós, vai interagir com a nossa própria existência, modificando as ossas p p ias e pe i ias : . Neste se tido, as leitu as ue se ealiza a infância são como uma bênção, na medida em que concedem ao leitor recordações para guardar na memória, como se fosse um acervo literário (Proust, [1905] 1998:38).
Além da vertente pessoal, a memória também é transmissão cultural, um eposit io do de i hist i o e, ita do as pala as de Jos F a o, A ide tidade e a autenticidade dos povos constroem-se pela solidez das suas raízes, pelas inúmeras e a iadas efe ias ultu ais ue atiza a idada ia, o o sei a eal de u a aç o (2012: 63). A identidade cultural e histórica das nações tem as suas raízes na memória coletiva dos povos, facto que lhe atribui hegemonia cultural, como consideram os autores Manuel Gusmão e Helena Buescu:
Acredito que sem essa memória, pessoal e cultural, qualquer noção de colectividade seria radicalmente impossível, porque é ela a base da repetição, da sedimentação e da escolha imaginária que sustentam as múltiplas ideias, contínuas e descontínuas, de comunidade". (Buescu, 2013:11)
Tendo em conta a importância que tem a memória, vejamos como esta capacidade dinâmica ou ferramenta psicológica (Steiner,2007:15-16) é estimulada no contexto educativo. Nesta linha de pensamento, observemos o que refere Paula M. Coelho:
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«Stei e ale ta ai da pa a o fa to de a lite a ia elect i a ilita p e isa e te o t a essa t o p e iosa e ia, e ue o osto do écran o promove o encontro com o outro» (Coelho, 2011:290). Assim, constatamos que a expansão dos meios de comunicação e tecnológicos também teve impacto na memória, dado que, com a perda da importância da transmissão oral em cadeia, também a memória cultural dos povos definhou (Franco,2012:12).Por isso mesmo, uma das grandes dificuldades na aprendizagem da língua materna e, por consequência, nas outras áreas do saber, prende- se com o fraco desenvolvimento da memória, uma vez que no ensino impera uma
amnésia planificada , o fo e a e p ess o egistada a o a Elogio da Transmissão, de Steiner & Ladjali (2005: 46).
Por outro lado, no que se refere ao processo de aprendizagem, salientamos que os alunos compreendem os conceitos, as ideias e adquirem os conhecimentos transmitidos e, também, conseguem apreendê-los; porém, no ato de ativação inferencial de conhecimentos, constata-se uma confusão descomedida, resultante da debilidade da memória. Esta frouxidão afeta também outros domínios da língua: a escrita, a oralidade e os conhecimentos gramaticais que são quase inexistentes. Para além disso, em termos culturais, a maioria dos alunos possui pouca ou nenhuma bagagem cultural, devido às muralhas da alienação que se altearam em torno da memória sensível, como afirma Franco (2012:77). Isto significa também a necessidade de reformular estratégias de promoção da leitura literária. Assim, para exercitar a memória, a biblioteca cognitiva do leitor, é necessário empregar o método milenar de saber de cor a poesia. Por ser uma arte essencialmente oral, a poesia é transmitida a viva voz, desde os primórdios da humanidade e, por isso muitos poemas sobreviveram ao esquecimento porque eram ditos de cor (Steiner & Ladjali, 2005: 46). Por outro lado, o poema a viva voz, que o aluno sabe de cor, ficará guardado dentro dele, ninguém o pode retirar nem o proibir de recordar ou de declamar; desta feita, o saber de cor modifica o aluno e dá-lhe liberdade (Steiner & Ladjali, 2005: 44-46), uma vez que um poema é sempre expressão liberta da memória de um poeta (António Jara, 2012: 14).
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