1. NOS RASTROS DA HISTÓRIA: A MEMÓRIA REPENSADA NA
1.1. A memória, o coletivo e a identidade
1.1.3. A memória e a identidade no contexto do lugar
Você é o que você lembra e as lembranças, como visto, são socialmente construídas,
ou seja, o outro tem um papel fundamental na formação da identidade de pessoas e grupos.
Ou é o que acredita que lembra porque justamente essa construção social e midiática é
ideologicamente enquadrada em uma história elaborada de modo a soterrar as diversas
histórias que se desenvolvem ao longo da vida de indivíduos e coletivos. No final – e essa é
uma das principais problemáticas deste trabalho – conclui-se que todo sujeito é, em parte, o
reflexo desta história cuidadosamente escrita.
O mesmo raciocínio pode ser transportado ao pensarmos em lugares. O que se conta
de um lugar, o retrato que se divulga de uma região será memorizado por muitos, ainda que a
vivência dos que pertencem àquele território ilustre algo antagônico. A mídia conquistou
maiores proporções com a globalização e se tornou a principal interface entre o homem e o
mundo, que o conhece pelo produto de seus meios. É o viver por tabela, de Pollak (1992).
Quando essa apresentação é revestida da parcialidade própria do negócio, o conhecimento
coletivo também o é, afetando inclusive os que possuem vínculo direto com aquela localidade.
Isso pode beneficiar ou não uma região. Aqui tratar-se-á da configuração abusiva deste
processo, que atende a estratégias de vendas como, por exemplo, o próprio sensacionalismo –
que visa a exploração de notícias com excessivo foco em fatores dramáticos com a finalidade
de emocionar, impressionar ou escandalizar o público, aumentando a audiência. Essa técnica
construtora de tantos estereótipos é apontada por Singer (2001) em seu estudo da
modernidade uma vez que ela se incorpora ao cotidiano do período compreendido entre o
final do século XIX e início do século XX, sendo condizente com as idéias de hiperestímulo
que permeiam a sociedade neste momento, em uma nova concepção neurológica que é
constantemente atacada por choques sensoriais. Essas hipérboles midiáticas permaneceram
até os dias atuais e ao longo do século passado marcaram a memória de muitos locais e
conseqüentemente a identidade de coletivos.
O território, além de sua característica natural – espacial – é revestido também de um
sentido simbólico, onde se situa a dimensão cultural, e é, portanto, atravessado por discursos.
É o espaço revestido de valores que transcendem o universo material e o mero estar físico,
compreendendo a ética, o afeto, a cooperação que só surgem pelo conceito de
compartilhamento; um espaço construído pela ação do homem, sua apropriação individual ou
em grupos. Haesbaert (2007), que “exporta” às ciências humanas tais questões, diz que “a
força de sua carga simbólica é tamanha que o território é um construtor de identidade” (p. 51),
ele se constitui em uma das características que somadas a tantas outras definem o que o
sujeito é no agora pelo sentimento de pertencimento que suscita em cada pessoa. E mesmo em
meio às discussões de desterritorialização que emergiram com a ordem global – o que será
discutido mais a frente –, o local é impetuosamente deslocado para o centro da cena,
valorizado por ser o espaço que abarca o cotidiano e seus desdobramentos, o que gera um
novo debate no qual se fala em uma reterritorialização onde há o entendimento do lugar como
fonte de diferenciação e referência do eu, pois como diz Haesbaert (2007), “o território é
valorizado em sua dimensão cultural, identitária, vinculado à diferenciação e à diversidade
cultural.” (p.61). A relação entre identidade e território está continuamente em movimento por
ser um espaço de vivência, de entrelaçamento da complexa trama das relações sociais que se
firmam ou se alteram com o passar do tempo.
“A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ — entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a ‘nós próprios’ nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando- os ‘parte de nós’, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, ‘sutura’) o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis.” (HALL, 2013).
A citação de Hall, que ao longo de sua obra esteve envolvido diretamente com a
temática da identidade, deixa clara a indivisível relação entre identidade e lugar. “O simples
fato de vivermos em um espaço já nos identifica socialmente, reconhecendo-se nele um
espaço vivido. Desta forma define-se a região como espaço de identidade
ideológico-cultural” (SOUZA, PEDON, 2007, p. 126). O lugar é familiar, é próximo, é seguro, é aonde o
sujeito atua e onde se relaciona com o outro, e, por isso, a ele está vinculada sua formação,
sua identidade. Cada indivíduo é uma parte na concepção do lugar e este mesmo lugar,
reciprocamente, torna-se um pedaço do que o indivíduo é. E por sua importância na
construção de identidades, é preciso atentar para os modos de sua percepção, os discursos que
o atravessam e a elaboração preferencial de imaginários, pois além dos fatores referentes a
práxis de relações que ali se desenvolvem e da sua própria história, há ainda a influência de
agentes externos na sua apresentação e, logo, na memória local. É o caso prenunciado dos
meios de comunicação.
Como discutido anteriormente, a mídia possui papel fundamental na formação da
memória do indivíduo, de grupos e, como visto agora, de lugares também. A parcialidade que
a caracteriza e, por vezes, o uso do próprio sensacionalismo foram cruciais na formulação das
lembranças que se têm de muitos locais. Será tratado aqui, especificamente, o caso da Baixada
Fluminense do Estado do Rio de Janeiro – região periférica, entretanto, inclusa na área
metropolitana do estado – que ao longo do século XX tornou-se conhecida pelas notícias que
delimitavam um horizonte de pobreza e violência. Durante o período citado acima, a imprensa
formulou e apresentou essa concepção do território e dos sujeitos que lá vivem; mas sendo o
território constituinte da identidade do sujeito, essa identidade foi abalada também, e o
vínculo de pertencimento fragilizado. Identifica-se ao menos duas conseqüências graves nesse
processo ao afetar a autoestima dos moradores e sua disposição e capacidade de interferência
no espaço. Além disso, por retratar àqueles que não a conhecem essa versão de Baixada, a
memória comum quanto a região foi marcada pelos problemas enfatizados. Essa
estigmatização fez crescer um sentimento de rejeição, que se torna mais crítico quando é
assimilado pelos que fazem parte do local, minando sua potencialidade e reduzindo a
possibilidade da manifestação de versões diferentes. “Em lugar de poderem agir sobre sua
história, freqüentemente se submeteram a ela de bom ou mau grado”, como relata Pollak
(1989) ao demonstrar sua preocupação com a ausência da subversão em casos assim e – em
uma alusão com a história facista – o autor completa deixando claro o comprometimento ao
despertar dessas memórias submersas: “No momento do retorno do reprimido, não é o autor
do ‘crime’ [...] que ocupa o primeiro lugar entre os acusados, mas aqueles que, ao forjar uma
memória oficial, conduziram as vítimas da história ao silêncio e à renegação de si mesmas.”
(POLLAK, 1989, p. 5).
A análise da influência da mídia na elaboração de memórias de lugares, tratando
especialmente do viés abusivo, foi alvo de muitos autores que se ocuparam da desconstrução
(e reconstruação) da imagem de diversos locais. Na Baixada Fluminense do Estado do Rio de
Janeiro, esse trabalho da mídia foi avaliado intensamente pela autora Enne em inúmeras
produções acadêmicas, transpassando a questão identitária. Durante muitos anos, a região foi
alvo da estratégia sensacionalista da imprensa e Enne (2004) questiona a representação
construída problematizando a associação constante da região à violência, sem, contudo, negar
a existência deste aspecto: a autora posiciona-se contrária ao estereótipo criado, e ressalta que
além da sua história marcada por momentos violentos que ainda direciona o imaginário social
sobre o local, há uma outra realidade que foge ao estigma da marginalidade, criminalidade e
pobreza, que acaba ficando às margens da versão histórica oficial. Neste caso, o recorte
funcionou para a elaboração de um senso comum; mas para aqueles que vivem na Baixada,
constituiu-se em fonte de preconceito sustentado pela imprensa. Ao longo dos anos, a
imprensa carioca usou (e até abusou) de um recorte dos aspectos negativos da região influindo
na criação e perpetuação de uma memória coletiva marcada pelos episódios de criminalidade
e abandono do poder público, culminando em uma identidade apoiada nas idéias de violência
e descaso governamental e baixa autoestima de seus moradores.
“As identidades, longe de serem conformações biológicas, genéticas, são construções discursivas, resultados de escolhas sobre o que demonstrar e o que ocultar, em um processo pautado na realidade, mas com consequências na subjetividade de cada indivíduo. Essa fluidez e possibilidades de identidades encontram nos meios de comunicação o lugar para se efetivarem, tendo em vista que esses meios oferecem o material necessário para que as identidades atuais sejam forjadas. [...] os moradores desses lugares também têm sua identidade perpassada pela imagem do lugar. O contrário também acontece. [...] A identidade do local se confunde com a de seus moradores.” (PAULA, 2012, p.3)
Definida por esse cruzamento de discursos, a identidade perde a fixidez e segue em
fluida e constante reelaboração a medida que são alteradas as narrativas que a cercam. Isso faz
com que mesmo os indivíduos que conhecem outra versão dos fatos do que a trabalhada pela
imprensa tenham sua memória individual afetada pela idealização de memória coletiva
apresentada pela imprensa. Se a imprensa forma a memória, sua representação é elemento
constituinte da identidade individual. E Enne (2004) mostra a evolução da imagem da
Baixada Fluminense entre a década de 1950 e ao ano 2000 nesse lugar privilegiado de
memória social ao analisar o conteúdo de jornais cariocas específicos, considerados
formadores de opinião pública, sendo em parte sensacionalistas ou os quality papers, ditos
transmissores de seriedade e credibilidade. O que a autora percebeu foi a exploração da
violência como recurso para a venda dos impressos que influiu na concepção e permanência
do estereótipo do perigo local até recentemente, quando as narrativas ignoradas ganharam
espaço na mídia, particularmente em cadernos específicos que buscam atender a demanda de
informação local, modificando aos poucos a memória da região.
De “Cidade do Crime” a “Câncer Vizinho”, a Baixada Fluminense foi alvejada
durante anos pela imprensa carioca, que demonstrou uma visão excessiva e preconceituosa,
um abuso que perdurou. Toda essa construção imagética da Baixada afetou a memória que se
tem da região, inclusive a de seus próprios moradores, que assimilaram a marca da pobreza,
descaso e violência, diminuindo seu valor e do lugar a que pertencem em uma existência com
baixa ou nula autoestima, alimentando forte estereótipo sobre o “ser da Baixada”, que quando
possível era uma informação ocultada (HB, 2013) pela vergonha semeada que criava raízes no
consciente ou inconsciente, algo encontrado pela TV Maxambomba na década de 1980 e que
perdura até hoje, entranhado no discurso dos sujeitos, na memória. Um erro de viver no
passado, como lembra Todorov, que pode ainda trazer à tona o estatuto da vítima, onde se
explora e se reafirma aquele sofrimento como fonte de algum privilégio, como se manter
certas atitudes erradas (como o tratamento do lixo) se justificasse por esse histórico infundido
pela mídia, o que dificulta a alteração desse cenário massificado. Se a “memória coletiva
ajuda as pessoas a usar o passado para dar sentido ao presente”
13(ZELIZER, 1992, p. 3,
tradução nossa), e essa memória é deturpada e autorizada por um discurso parcial que a
legitima como a verdade comum, vê-se que no presente o significado negativo da Baixada
permanece para indivíduos e grupos, e seguem entre as gerações, alterando o pensar e o agir.
Os eventos são moldados de forma preferida para que atendam os interesses dos que lideram
as empresas jornalísticas, que pela autoridade cultural que detém moldam assim a memória
pública dos mais diversos acontecimentos. Entretanto, esse cenário começa a mudar nos anos
1990, em uma virada estimulada, a princípio, pelo aumento de movimentos sociais. Em meio
a essa efervescência cultural, um novo prisma da Baixada é trabalhado em cadernos
específicos que tratam os aspectos até então marginados pela mídia, promovendo – até certo
ponto – a inclusão social da região e uma nova representação. A memória vai sofrendo
influência dessa nova construção e se reelabora constantemente de acordo com as referências
sociais que cercam o indivíduo.
“O senso comum está completamente errado ao pensar que o passado é fixo, imutável, invariável, contrário ao constante fluxo de mudança do presente. Pelo contrário, ao menos dentro de nossa consciência, o passado é maleável e flexível, mudando constantemente assim como nossas lembranças reinterpretam e reexplicam
o que tem acontecido.” 14 (ZELIZER, 1992, p. 1, tradução nossa)
Portanto, a apresentação dessa nova perspectiva do passado da Baixada nos últimos
anos pode ser um gancho para ativar novos valores que tragam consigo aquelas memórias
subterrâneas desprezadas pelas narrativas oficiais transmitidas pela grande imprensa,
reelaborando a memória local e implicando ao indivíduo a reconstrução de si próprio, sua
realocação nesse lugar e na rede de sociabilidade que o atravessa. É possível concluir então
que o território permanece passível dessa força externa que é a mídia, mesmo que de forma
imperceptível, pois como Giddens (1990) afirmou todo local é, hoje, sensível a influências
distantes de seu próprio espaço, “o local não é simplesmente aquilo que está presente na cena;
a ‘forma visível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza”
(GIDDENS, 1990, p. 18). É, então, um campo de forças em constante operação.
“é importante a compreensão das relações de poder, as relações com os recursos naturais, as relações de produção ou as ligações afetivas e de identidades entre um grupo social e seu espaço. Porém é também importante a compreensão de quem domina ou influencia e como domina e influencia esse espaço.” (SOUZA, PEDON. 2007, p. 129)
A interferência midiática está inserida nessa relação de forças e, na ponta oposta,
seguindo o fluxo contrário, pode-se situar as manifestações populares que buscam contar uma
história diferente, resgatando a memória que foi recalcada ou a lembrança esquecida. E no
campo da comunicação, apresenta-se como eficaz ferramenta de contestação nesse combate
de forças a comunicação alternativa e comunitária, o caminho escolhido pela equipe da TV
Maxambomba para elaborar uma outra história de Nova Iguaçu e da Baixada Fluminense,
escapando aos silenciamentos da utopia comunicacional da mídia
15.
14
O texto em língua estrangeira é: “Common sense is quite wrong in thinking that the past is fixed, immutable, invariable, as against the ever-changing flux of the present. On the contrary, at least within our own consciousness, the past is malleable and flexible, constantly changing as our recollection reinterprets and reexplains what has happened”.
15 Conforme Barbosa (2008), que apresenta a construção do passado como idealização simbólica pelos meios de