3. A TV MAXAMBOMBA
3.3. Os programas: a complexidade de discursos
3.3.4. Diferentes, mas não desiguais (1989)
Direção: Noni Carvalho; Música: Maria, Maria – Elis Regina; Realização: TV Maxambomba; Produção: Cecip. Categoria: Reportagem.
Duração: 8’31’’
“Você sabe quais são os novos direitos da mulher na Constituinte agora?”. O
programa de pouco mais de 8 minutos traz uma temática pertinente até hoje. Isso é outro
ponto de destaque no material produzido pela TV Maxambomba: sua atualidade. A sociedade
ainda busca evoluir em assuntos como este, o direito das mulheres e a igualdade de gêneros.
A Constituição de 1988 decretou que homens e mulheres são iguais em direitos e deveres,
mas é preciso que esta mudança saia do papel, e para defender isso é preciso consciência da
causa. E é o que a Maxambomba objetiva pelo debate proposto no vídeo, despertar as
mulheres para uma nova possibilidade, para a compreensão de que as coisas estão mudando,
que elas possuem os mesmos direitos que os homens e que elas devem lutar por essa
igualdade.
Mas sem saber de tal mudança, como mudar? Por isso ela começa com o
questionamento supracitado e a maioria das mulheres desconhece apesar de admitir a
importância. Muitas mulheres são entrevistadas e falam abertamente sobre o conhecimento
que tem, o que desejam e o que falta. E parece não ser preciso que o interlocutor – que não
aparece – as estimule a falar, elas querem falar, elas têm o que falar; em algumas passagens o
microfone é delas, elas são as donas de sua fala, de seu discurso. Uma das entrevistadas
afirma que a mulher tem sim “uma coisa que é sua” e nessa diferença incide a “continuação
da espécie”, porém isso não pode implicar em desigualdade de direitos e que a mulher não
deve permitir que a opressão reduza seu amor próprio. Outra aponta que há uma liberdade
maior, mas ainda é preciso conquistar mais; muitas leis ficam só no papel, por isso, diz que
“as leis conquistadas só vão vir se a gente for atrás, se a gente correr atrás delas”, “só com
luta”. E citam o caso da legislação que garante a licença-maternidade, que não é respeitada em
muitas empresas que acabam demitindo suas funcionárias nessa situação, e o caso das
empregadas domésticas, exploradas, que quando são devidamente pagas são excessivamente
cobradas no desconto, como a senhora que diz que as madames querem descontar até “aquela
roupa velha que ela dá para a empregada”; para ela faz-se necessário ir além, organizar a
associação das empregadas domésticas e exigir o cumprimento da lei.
O vídeo conta com a fala da política Benedita da Silva, que já militava pelos direitos
das chamadas ‘minorias’. Ela afirma que a constituição trouxe “não apenas direitos, mas um
grande desafio” e que as mulheres precisam se posicionar, pois “somos mais da metade do
eleitorado brasileiro e nosso voto que define, que decide”, “temos essa responsabilidade”.
Mas para atingir esse ideal as mulheres devem se unir. Então mais do que informar e ouvir, a
TV Maxambomba convida à ação, convida os moradores a repensar sua colocação sobre
determinados assuntos a partir de uma perspectiva local, de demandas locais.
Outra entrevistada traz em sua fala a consciência do papel da família na formação da
sociedade: “os machão que tem hoje fomos nós, as mães né que fizeram, já hoje não hoje a
gente já tá educando o filho da gente pra ir pra cozinha, arrumar a cozinha, ajudar a mulher”;
uma mudança que se reflete na fala de outra mulher que divide o trabalho em casa. O vídeo
também identifica outra postura interessante quando uma entrevistada diz que agora as
mulheres possuem o “direito de ocupar a posição de chefe de família”, algo que reverbera nos
anos que se seguem. A conclusão é de que a consciência desta causa existe sim, em níveis
bem diferentes sim, e é preciso continuar lutando, “é preciso ter força, é preciso ter raça, é
preciso ter gana sempre”, como urge a música ao fundo.
3.3.5 A pressão (1990)
Direção: Breno Kuperman e Noni Carvalho;Produção: Noni Carvalho, Rogério Moreira e Valter Filé;
Roteiro e Texto: Noni Carvalho e Valter Filé; Seleção de atores: Noni Carvalho e Valter Filé;Seleção de
figurantes: Luiz Augusto Tigú e Valter Filé;Câmera: Luiz Augusto Tigú; Câmera adicional: Breno
Kuperman;Áudio: Rogério Moreira;Assistente de áudio: Luiz Carlos Lima;Produção de campo: Rogério
Moreira;Trilha musical: Márcia Watzl e Noni carvalho;Edição: Márcia Watzl;Assistente de edição: Noni
Carvalho;Finalização: Márcia Watzl;Computação gráfica: Flávio P. ceccon; Produção: TV
Maxambomba;Realização: Cecip.
Categoria: Ficção. Duração: 8’05’’
A pressão é um vídeo fictício, cujo elenco era formado por moradores da região, com
a encenação da história de um homem rodeado por problemas em casa e no trabalho e que vai
desabafar no bar e no ápice do estresse tem um pico de pressão e é socorrido. Seguindo a
linha de conscientização pela linguagem audiovisual do CECIP, é um alerta quanto à saúde,
neste caso, o problema da hipertensão causada por maus hábitos alimentares e sociais,
agravados em casos de estresse.
Para despertar o interesse e a preocupação com a doença, é apresentada aos
espectadores uma situação reconhecível, com cenário e prática pertencente ao seu território e
cotidiano. O uso de elementos de identificação locais, pelas histórias, cenários, perfis de
atores, vestimenta, hábitos e linguagem era um meio de fazer com que o público pudesse se
ver na mesma situação e perceber que tanto pode passar pelo mesmo problema quanto pode
fazer uso da mesma solução. E selecionar moradores da região – mesmo que agindo, como
pode ser visto no programa, de forma mais ou menos inibida frente às câmeras, afetando a
naturalidade das cenas – para participar amplia essa capacidade de reconhecimento pelo vídeo
em uma narrativa que pela familiaridade evoca memórias ao presente para pensar em uma
mudança de ação futura.
A história se concentra no diálogo de dois homens, enquanto um desabafa (“Viu só a
merda que é a minha vida”), ingerindo bebida alcoólica e alimentos gordurosos, o outro já o
alerta para a possibilidade de um problema de saúde, mas ele ignora: “Que pressão alta o que
rapá, nunca tive isso não, a única pressão alta que eu tenho é o patrão nas minhas costas!”.
Mas quando com o acúmulo de aborrecimentos culmina em uma briga ele acaba passando mal
e chega uma senhora da região para socorrê-lo questionando e alertando o personagem e toda
a população ao mesmo: “Já mediu pressão alguma vez? [...] Vocês tem que criar vergonha e
medir a pressão gente, não dói não!”.
É o caráter educativo do CECIP se destacando em uma mensagem de alerta e
cuidado à saúde, privilegiando situações e lugares corriqueiros para a população local (como a
discussão em casa, os problemas financeiros e a miséria, a exploração no trabalho e a
conversa dos bares), bem como as pessoas de lá, como ferramenta de atração para que a ideia
seja abraçada. A temática, formato, linguagem e estratégia foram exploradas em outras
produções como o vídeo Cólera? Sai pra lá! (1991), que traz dicas para evitar a doença muito
conhecida na região, mas considerando a realidade e possibilidades da Baixada, evidente no
trecho em que a moradora responde a sugestão de ferver a água: “Já viu o preço do gás?
Ferver água?! Não há dinheiro que dê!”. Em ambos os casos, apesar da participação popular,
ainda é perceptível a forte divisão entre informantes e informados na produção ainda
extremamente educativa da TV.
3.3.6 Serra de Madureira (1991)
Produção, Roteiro e Direção: Noni Carvalho; Assistente de Direção: Valter Filé; Reportagem: Noni Carvalho; Câmera: Rogério Moreira; Edição: Luiz Augusto Tigu; Música: Chico
Mário/Manassés; Locução: Noni Carvalho e Flávio P. Ceccon; Computação Gráfica: Claudia Ceccon; Produção: Cecip/TV Maxambomba.
Categoria: Documentário. Duração: 6’03’’