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Diferentes, mas não desiguais (1989)

No documento UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (páginas 136-140)

3. A TV MAXAMBOMBA

3.3. Os programas: a complexidade de discursos

3.3.4. Diferentes, mas não desiguais (1989)

Direção: Noni Carvalho; Música: Maria, Maria – Elis Regina; Realização: TV Maxambomba; Produção: Cecip. Categoria: Reportagem.

Duração: 8’31’’

“Você sabe quais são os novos direitos da mulher na Constituinte agora?”. O

programa de pouco mais de 8 minutos traz uma temática pertinente até hoje. Isso é outro

ponto de destaque no material produzido pela TV Maxambomba: sua atualidade. A sociedade

ainda busca evoluir em assuntos como este, o direito das mulheres e a igualdade de gêneros.

A Constituição de 1988 decretou que homens e mulheres são iguais em direitos e deveres,

mas é preciso que esta mudança saia do papel, e para defender isso é preciso consciência da

causa. E é o que a Maxambomba objetiva pelo debate proposto no vídeo, despertar as

mulheres para uma nova possibilidade, para a compreensão de que as coisas estão mudando,

que elas possuem os mesmos direitos que os homens e que elas devem lutar por essa

igualdade.

Mas sem saber de tal mudança, como mudar? Por isso ela começa com o

questionamento supracitado e a maioria das mulheres desconhece apesar de admitir a

importância. Muitas mulheres são entrevistadas e falam abertamente sobre o conhecimento

que tem, o que desejam e o que falta. E parece não ser preciso que o interlocutor – que não

aparece – as estimule a falar, elas querem falar, elas têm o que falar; em algumas passagens o

microfone é delas, elas são as donas de sua fala, de seu discurso. Uma das entrevistadas

afirma que a mulher tem sim “uma coisa que é sua” e nessa diferença incide a “continuação

da espécie”, porém isso não pode implicar em desigualdade de direitos e que a mulher não

deve permitir que a opressão reduza seu amor próprio. Outra aponta que há uma liberdade

maior, mas ainda é preciso conquistar mais; muitas leis ficam só no papel, por isso, diz que

“as leis conquistadas só vão vir se a gente for atrás, se a gente correr atrás delas”, “só com

luta”. E citam o caso da legislação que garante a licença-maternidade, que não é respeitada em

muitas empresas que acabam demitindo suas funcionárias nessa situação, e o caso das

empregadas domésticas, exploradas, que quando são devidamente pagas são excessivamente

cobradas no desconto, como a senhora que diz que as madames querem descontar até “aquela

roupa velha que ela dá para a empregada”; para ela faz-se necessário ir além, organizar a

associação das empregadas domésticas e exigir o cumprimento da lei.

O vídeo conta com a fala da política Benedita da Silva, que já militava pelos direitos

das chamadas ‘minorias’. Ela afirma que a constituição trouxe “não apenas direitos, mas um

grande desafio” e que as mulheres precisam se posicionar, pois “somos mais da metade do

eleitorado brasileiro e nosso voto que define, que decide”, “temos essa responsabilidade”.

Mas para atingir esse ideal as mulheres devem se unir. Então mais do que informar e ouvir, a

TV Maxambomba convida à ação, convida os moradores a repensar sua colocação sobre

determinados assuntos a partir de uma perspectiva local, de demandas locais.

Outra entrevistada traz em sua fala a consciência do papel da família na formação da

sociedade: “os machão que tem hoje fomos nós, as mães né que fizeram, já hoje não hoje a

gente já tá educando o filho da gente pra ir pra cozinha, arrumar a cozinha, ajudar a mulher”;

uma mudança que se reflete na fala de outra mulher que divide o trabalho em casa. O vídeo

também identifica outra postura interessante quando uma entrevistada diz que agora as

mulheres possuem o “direito de ocupar a posição de chefe de família”, algo que reverbera nos

anos que se seguem. A conclusão é de que a consciência desta causa existe sim, em níveis

bem diferentes sim, e é preciso continuar lutando, “é preciso ter força, é preciso ter raça, é

preciso ter gana sempre”, como urge a música ao fundo.

3.3.5 A pressão (1990)

Direção: Breno Kuperman e Noni Carvalho;Produção: Noni Carvalho, Rogério Moreira e Valter Filé;

Roteiro e Texto: Noni Carvalho e Valter Filé; Seleção de atores: Noni Carvalho e Valter Filé;Seleção de

figurantes: Luiz Augusto Tigú e Valter Filé;Câmera: Luiz Augusto Tigú; Câmera adicional: Breno

Kuperman;Áudio: Rogério Moreira;Assistente de áudio: Luiz Carlos Lima;Produção de campo: Rogério

Moreira;Trilha musical: Márcia Watzl e Noni carvalho;Edição: Márcia Watzl;Assistente de edição: Noni

Carvalho;Finalização: Márcia Watzl;Computação gráfica: Flávio P. ceccon; Produção: TV

Maxambomba;Realização: Cecip.

Categoria: Ficção. Duração: 8’05’’

A pressão é um vídeo fictício, cujo elenco era formado por moradores da região, com

a encenação da história de um homem rodeado por problemas em casa e no trabalho e que vai

desabafar no bar e no ápice do estresse tem um pico de pressão e é socorrido. Seguindo a

linha de conscientização pela linguagem audiovisual do CECIP, é um alerta quanto à saúde,

neste caso, o problema da hipertensão causada por maus hábitos alimentares e sociais,

agravados em casos de estresse.

Para despertar o interesse e a preocupação com a doença, é apresentada aos

espectadores uma situação reconhecível, com cenário e prática pertencente ao seu território e

cotidiano. O uso de elementos de identificação locais, pelas histórias, cenários, perfis de

atores, vestimenta, hábitos e linguagem era um meio de fazer com que o público pudesse se

ver na mesma situação e perceber que tanto pode passar pelo mesmo problema quanto pode

fazer uso da mesma solução. E selecionar moradores da região – mesmo que agindo, como

pode ser visto no programa, de forma mais ou menos inibida frente às câmeras, afetando a

naturalidade das cenas – para participar amplia essa capacidade de reconhecimento pelo vídeo

em uma narrativa que pela familiaridade evoca memórias ao presente para pensar em uma

mudança de ação futura.

A história se concentra no diálogo de dois homens, enquanto um desabafa (“Viu só a

merda que é a minha vida”), ingerindo bebida alcoólica e alimentos gordurosos, o outro já o

alerta para a possibilidade de um problema de saúde, mas ele ignora: “Que pressão alta o que

rapá, nunca tive isso não, a única pressão alta que eu tenho é o patrão nas minhas costas!”.

Mas quando com o acúmulo de aborrecimentos culmina em uma briga ele acaba passando mal

e chega uma senhora da região para socorrê-lo questionando e alertando o personagem e toda

a população ao mesmo: “Já mediu pressão alguma vez? [...] Vocês tem que criar vergonha e

medir a pressão gente, não dói não!”.

É o caráter educativo do CECIP se destacando em uma mensagem de alerta e

cuidado à saúde, privilegiando situações e lugares corriqueiros para a população local (como a

discussão em casa, os problemas financeiros e a miséria, a exploração no trabalho e a

conversa dos bares), bem como as pessoas de lá, como ferramenta de atração para que a ideia

seja abraçada. A temática, formato, linguagem e estratégia foram exploradas em outras

produções como o vídeo Cólera? Sai pra lá! (1991), que traz dicas para evitar a doença muito

conhecida na região, mas considerando a realidade e possibilidades da Baixada, evidente no

trecho em que a moradora responde a sugestão de ferver a água: “Já viu o preço do gás?

Ferver água?! Não há dinheiro que dê!”. Em ambos os casos, apesar da participação popular,

ainda é perceptível a forte divisão entre informantes e informados na produção ainda

extremamente educativa da TV.

3.3.6 Serra de Madureira (1991)

Produção, Roteiro e Direção: Noni Carvalho; Assistente de Direção: Valter Filé; Reportagem: Noni Carvalho; Câmera: Rogério Moreira; Edição: Luiz Augusto Tigu; Música: Chico

Mário/Manassés; Locução: Noni Carvalho e Flávio P. Ceccon; Computação Gráfica: Claudia Ceccon; Produção: Cecip/TV Maxambomba.

Categoria: Documentário. Duração: 6’03’’

Como em muitos dos vídeos da TV, esse também apresenta o título do programa com

uma animação e desenhos. A Serra de Madureira ou Serra do Mendanha – hoje também

conhecida como Serra do Vulcão – é importante área de preservação ambiental na Baixada

Fluminense, cuja dimensão – atravessa vários municípios da região – é logo explicitada ao

espectador. Entretanto, o problema que se pretende discutir é sinalizado na primeira fala do

locutor: “as pessoas não ligam; aqui embaixo já tem problema demais, não sobra tempo nem

pra olhar pra cima”.

Neste vídeo, fica claro o objetivo da TV em mostrar a responsabilidade de cada um

nos problemas tão presentes na Baixada; em muitos deles, os moradores agravavam a situação

e prejudicavam a si mesmos. Então era um apagar do discurso de vítima para um entender de

culpa e de capacidade de resposta. A população, aqui, não era tratada como burra, mas

questionada para perceber por meio de suas próprias colocações o que está errado e porquê.

A primeira entrevistada – e neste vídeo o entrevistador aparece – conta que quando

era criança/jovem a mata ainda prevalecia e era fonte de água para a população local e lugar

de belas cachoeiras. Mas isso mudou. Não existe mais. Descia água pelas encostas dos morros

mas “não era tanta como agora [...] Agora a gente fica assim até apavorada entendeu... na

minha casa que não entrava água hoje em dia entra”. A moradora é estimulada a explicar o

porque da mudança e cita as queimadas.

Com uma ilustração e uma linguagem didática é explicado o processo de manutenção

da floresta e o que ocorre quando ações humanas agressivas – como queimadas, inserção de

pedreiras, desmatamento, extração de madeira, criação de gado etc. – o interrompem e

transformam, prejudicando diretamente aqueles que a rodeiam. A animação não é sofisticada

mas consegue passar a mensagem com eficácia sendo complementada com manchetes de

jornais com catástrofes locais, como as enchentes que marcaram a história da região, a fim de

associar as más lembranças as tantas ações ilegais já naturalizadas entre os moradores.

Apesar do decreto de 1988 que coloca a serra como área de proteção ambiental, o

programa deixa claro que isso não é suficiente para transpor os limites do papel. A efetiva

preservação ocorrerá com o envolvimento da população na defesa deste “bem comum”,

que poderia se tornar fonte de lazer para todos com a constituição de um parque nos moldes

da Floresta da Tijuca, e que não existe na Baixada. Na luta pela preservação da serra, os

moradores podem denunciar atitudes que agridam a região causando qualquer tipo de dano e o

programa informa os caminhos para isso.

Outros vídeos seguiram a temática ambiental como o Sombra e água fresca (1991)

onde é levantada a ação dos moradores na redução de espaços arbóreos em Belford Roxo,

indicando que o plantio nas comunidades não é exclusividade do governo e deve ser adotado

pela população, pois naquele momento, em muitos bairros da Baixada, “sombra é tão rara

quanto dinheiro no bolso do povo”. Na mesma linha, muitos outros vídeos foram produzidos.

No documento UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (páginas 136-140)