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Puxando Conversa pela raiz do samba na Baixada

No documento UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (páginas 122-129)

3. A TV MAXAMBOMBA

3.2.3. Puxando Conversa pela raiz do samba na Baixada

O Puxando Conversa tem suas origens nos primeiros anos da segunda fase da TV

Maxambomba mas só tomou forma como tal nos anos finais e foi além da configuração de um

quadro de TV, transformando-se em um projeto de memória da cultura popular contada e

recontada por nomes do samba, compositores que estão por trás de sucessos de grandes

intérpretes da música brasileira.

“O início do Puxando Conversa acontece na TV Maxambomba. Gravávamos um programa sobre o bairro de Mesquita. Dentre seus moradores estava Romildo, um pernambucano cheio de cantigas, que, segundo um amigo e parceiro, havia contrabandeado do nordeste os ritmos – o coco, a embolada, o baião, o frevo – que se encontraram com o samba carioca. Gravamos em vídeo, quatro horas de pérolas. Romildo, um militar reformado da marinha, apenas reconhecido no mundo do samba. Esse ilustre “desconhecido” tinha dezenas de músicas gravadas e entre os importantes interpretes, ele se orgulhava de ter levado, pela primeira vez na historia

da música popular brasileira, uma mulher ao topo das vendas no Brasil. Era Clara Nunes com sua música ‘Contos de areia’. [...] Era o ano de 1990. Romildo nos impressionou de tal forma que fomos gravando outros compositores sem saber bem o que fazer com o material. O projeto só tomou a forma atual em 1998, quando começamos a lançar os vídeos em rodas de samba mediadas pela linguagem

audiovisual.” (FILÉ, 20--92)

Filé

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, que coordenou o projeto, conta que Romildo faleceu logo após ter gravado o

programa e que não sabia como encaixar um conteúdo tão denso na estrutura de ‘revista’ da

TV Maxambomba. E que só se entregou ao projeto após um pedido de Roberto Lara, famoso

compositor de Nova Iguaçu, para exibi-lo na inauguração de um bar na cidade, em 1998. Aí

sim, nascia o Puxando Conversa.

A escolha dos compositores entrevistados seguia o fluxo de uma grande rede de

indicações e amizades e cada vídeo evocava uma memória esquecida do lugar, do samba na

Baixada. As gravações contavam também com muita música que se estendia para os locais de

exibição em uma rememoração prestigiada tanto pelo homenageado, amigos, familiares,

outros tantos nomes do samba e por aqueles apaixonados pelo ritmo. Esse pós-exibição, no

mesmo estilo da ‘câmera aberta’ era gravado e transmitido ao vivo no telão da Maxambomba.

A estreia com a apresentação do vídeo do Romildo foi eternizada em jornais e pesquisas do

campo e é a lembrança mais marcante da série, contando com uma participação emocionada

de sua esposa que agradeceu o trabalho da TV Maxambomba e a preservação dessa memória.

“o que aconteceu foi o seguinte, o vídeo foi gravado em 1990 e ele morreu na mesma semana e aí depois a Maxambomba fez outro vídeo com Catoni, e aí foi outro vídeo que se percebeu que havia uma história ligada ao samba, e quando surgiu o projeto Puxando Conversa [...] em geral eram compositores daqui... Sergio Fonseca, Jairo Bráulio, Evandro, aí o que aconteceu foi o seguinte quando o projeto começou a ser feito, ele começou a ser feito em praças, na verdade em bares, ele foi feito ali no BillyBar, perto da prefeitura, uma duas vezes ali na praça Santos Dumont, e Filé se envolveu com isso, se interessou por samba, sobretudo em parte pela entrevista do Romildo, é um cara grandioso da música brasileira [...] e também

Catoni, e aí ele começou já no final do projeto Maxambomba.”94

Apesar dessa memória de Filé, com o ano de 1998 sendo o marco inicial do projeto,

desde 1997 há registros sobre vídeos da série Puxando Conversa, como os que seguem

abaixo, reafirmando-o como uma iniciativa de promoção da cultura do samba na Baixada e,

por conseguinte, no Rio de Janeiro. Também no CECIP a cronologia se confunde, sendo a

produção datada de 1998, com fotos da exibição de Romildo datadas no link memórias em

92 Conforme disponível em: <http://www.samba-choro.com.br/fotos/porexposicao/exposicao?exposicao_id=9>.

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Entrevista realizada com Válter Filé em 14 de junho de 2012, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

1997. O projeto foi além da experiência da TV Maxambomba, pois com seu fim, teve

continuidade sob a coordenação de Valter Filé e investiu na valorização do samba sem o

recorte territorial de antes, expandindo-se e reunindo multidões no Museu da República, no

Centro carioca, lugar que já era utilizado para as exibições em uma fase transitória com o

agravamento da escassez do financiamento. No Rio de Janeiro, haviam um leque de

possibilidades a explorar ainda e a proposta persistiu alimentando-se dos ares de mudança que

circulavam por espaços como a Lapa e a periferia, em um momento político em que o samba

era colocado como símbolo nacional.

“Às vezes, entender o samba, se o consideramos apenas como um estilo musical ou a partir dos sucessos da indústria fonográfica e dos desfiles das escolas de samba é reduzi-lo a um produto da indústria cultural. Ele nos fala de uma cultura negra que

preza o acolhimento, a corporalidade, a oralidade, o olho-no-olho.” 95

Filé continuou então a documentar a produção do samba, mas, em Nova Iguaçu, com

o encerramento das atividades da TV Maxambomba, o projeto morreu definitivamente pela

falta de investimento. No centro do Rio, a situação não era muito melhor segundo Roberto

Lara, contudo, Filé conseguiu por meio de uma nova rede de articulações reerguer o projeto

que contava com grandes nomes do samba carioca a cada exibição, resgatando a história da

velha guarda de gigantes brasileiros.

Figura 21: Matéria sobre o início da série Puxando Conversa, em 1997, em publicação não identificada. Fonte: Acervo CECIP – Memórias – TV Maxambomba.

Figura 22: Matéria sobre a série Puxando Conversa publicada no Correio da Lavoura, de 09 a 15/08/1997. Fonte: Acervo CECIP – Memórias – TV Maxambomba.

Figura 23: Matéria sobre a série Puxando Conversa publicada no Mesquita Livre, em 23/04/1998. Fonte: Acervo CECIP – Memórias – TV Maxambomba.

Figura 24: Matéria sobre a série Puxando Conversa publicada no Jornal O Dia, em 08/06/1998. Figura 25: Matéria sobre a série Puxando Conversa publicada no Jornal Extra, em 13/07/1998. Figura 26: Matéria sobre a série Puxando Conversa publicada no Jornal O Dia, em 14/12/1998.

Fonte: Acervo CECIP – Memórias – TV Maxambomba.

Figura 27: Exibição do vídeo gravado com Romildo, 1997. Fonte: Acervo CECIP – Memórias – TV Maxambomba.

No documento UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (páginas 122-129)