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A mobilidade se amplia a materialidade e a vida dos objetos

No documento Maria Luiza Queiroz Brandão (páginas 108-111)

O poder de deslocamento do ser humano é um direito indispensável em nossa sociedade – por garantia de direito constitucional, o direito de ir e vir. Nessa compreensão entre mobilidade urbana e humana encontra-se a interação social, principalmente os deslocamentos casa-trabalho ou casa-escola e entre outras demandas como deslocamento para as compras, lazer, saúde e tantas outras motivações e necessidades.

No Brasil, o consumo de automóvel ainda é um sonho, até mesmo para os que não possuem condição financeira para arcar com as despesas. O sonho de consumo do veículo automotor é um dos fatores da falta de opção de transporte público.

109 Devido à falta da qualidade e de oferta de transporte público, milhares de pessoas recorrem e assumem longas parcelas de boletos para compra do veículo. Em alguns países mais desenvolvido já ocorre uma inversão de valores: muitos jovens entendem que o veículo é algo dispendioso, caro e poluente.

Com essa mudança de postura, uma parcela dos jovens pela falta de interesse no automóvel, estes procuram outras formas de se locomoverem de forma mais saudável pensando na saúde, economia e praticidade, como a volta do uso da bicicleta, tirando a antiga e boa bicicleta da garagem. Ao menos uma parcela da juventude já não pensa em ter um automóvel como nos anos de 1980 e 1990.

De acordo com Davis e Dutzik (2012), entre os anos de 2000 a 2010 uma parcela dos jovens americanos não possuía carteira de motorista, e preferiam usar transportes públicos ou alternativos como a bicicleta.

Essa diminuição do interesse pelo automóvel não é exclusiva dos Estados Unidos, mas passa a ser uma nova característica dos países desenvolvidos como Suécia, Noruega, Grã-Bretanha, Canadá, Alemanha, Japão e Coréia do Sul, e que apontam uma diminuição da carteira de motorista.

As pessoas nascidas na geração Y, que correspondem à população entre 21 a 34 anos, estão dando indícios de que preferem morar em lugares onde possam se locomover a pé ou de bicicleta, sem precisar a todo instante entrar em um carro. As pessoas estão preferindo caminhar mais, ir até a mercearia, restaurantes, lojas e ter acesso ao transporte público.

Para Jacobs (2011, p. 37), uma rua movimentada consegue garantir segurança, uma rua deserta não. Para a autora, devem existir olhos nas ruas. A segurança das ruas é bem mais eficaz quando há vigilância dos estabelecimentos e locais públicos dispostos ao longo das calçadas, como lojas e comércios variados, bares e restaurantes. Dessa forma, pessoas percorrem as calçadas, podendo circular por todo local. Na crítica de Jacobs, pedestres são ótimos guardiões das calçadas.

Com vista aos problemas gerados pelo conflito dos congestionamentos nas grandes cidades, apresentam-se elevados e graves problemas de crimes de trânsito, que levam à morte e deixando sequelas nos sobreviventes, muitas vezes em cadeira de rodas.

Trata-se de ações e comportamentos que poderiam ser evitados havendo processos educativos e culturais com ênfase em prudência e zelo no uso de automóveis. Dessa forma, dois lados são afetados: um quanto à vida humana e outra quanto aos recursos nas

110 áreas médicas que chegam a ficar escassos devido à entrada diária de ocorrências por fatalidade, envolvendo veículo motorizado.

Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) (2016, p. 13), no Brasil morreram cerca de 43 mil pessoas no ano de 2013 em acidentes de trânsito, sendo os motociclistas as maiores vítimas, que respondem cerca de 30%, seguido por motoristas de automóveis em 24%, envolvendo pedestres cerca de 20% por atropelamento, 4%

envolvendo ciclistas e 22% outros tipos de transportes. E, cerca de 70% das mortes ocorrem na faixa etária entre os 15 a 49 anos.

Os inúmeros casos de sobreviventes, após graves acidentes ocasionados na maior parte por veículos, forçou a tecnologia a se desenvolver de forma radical. São os casos de usos de próteses como extensões do corpo, muito utilizados por atletas.

Após anos e meses de recuperação, de fisioterapia, as próteses acopladas ao corpo permitiram recuperação de autoestima e melhor qualidade de vida. Entre os exemplos:

atletas de cadeira de rodas como jogadores de basquete, o handcycling25 destinados aos cadeirantes que participam de provas de velódromo, estradas e contrarrelógio26.

Em alguns casos, podem ser as bicicletas convencionais ou triciclos de acordo com o grau de lesão do atleta, e também em bicicletas tandem27 guiados por atletas ou não atletas, como casais ou famílias.

Em geral, os ciclistas são vítimas de preconceitos veicular, ou modais de transporte chamados de alternativos que compartilham as ruas das cidades. As bicicletas são as mais comuns de serem vistas na cidade, mas existem as bicicletas elétricas, os longboards ou skate longos, os patins in line, os corredores, os que utilizam patinetes elétricos, bicicletas com carrinho de bebê e até segways28.

Pode-se pensar na perspectiva do uso da vida dos objetos como o dispositivo do cinto de segurança. Criado em 1959, o cinto de três pontos do tipo estático, ajustado ao corpo do condutor, embora houvesse o impacto, o corpo seria projetado à frente, e

25 Veículo terrestre movido a força humana, movimentado por impulsos das mãos e braços, também conhecido como handbikers.

26 É uma prova esportiva de corrida, termo utilizado no ciclismo. O vencedor é aquele que fizer o percurso em menor tempo.

27 Bicicleta dotado de dois quadros, guiado por duas a três pessoas, como: casais, famílias e ou esportistas. São construídas tanto para velódromo, estradas, ou de montanhas.

28 Veículo elétrico de duas rodas, movido a bateria, que funciona a partir do equilíbrio do indivíduo que o utiliza, impulsionando o corpo para a frente ao vento, grande demais para as calçadas e lento demais nas ciclovias.

111 somente mais tarde em 1980, o modelo evoluiu para o tipo retrátil que permite maior flexibilidade e conforto ao usuário.

Segundo McLuhan (2007, p. 208), as transformações da tecnologia têm o caráter da evolução orgânica porque todas as tecnologias são extensões do nosso ser físico.

No documento Maria Luiza Queiroz Brandão (páginas 108-111)