A infraestrutura cicloviária vai muito além da implantação de ciclovias. É importante destacar que para obter bons resultados no retorno das bicicletas às cidades, é necessário a adoção da infraestrutura complementar, de forma a favorecer e ampliar a cultura ciclística.
Algumas medidas podem ser a implantação de mobiliário urbanos, como paraciclos e bicicletários.
Paraciclo: São caracterizados como estacionamentos de curta e média duração (até duas horas), em qualquer período do dia, de uso público e sem qualquer controle de acesso, externos e sem zeladoria. São gratuitos e implantados nos espaços urbanos e semiurbanos (BRASIL, 2007, p. 159).
Bicicletário: São caracterizados como estacionamentos de longa duração, grande número de vagas, maior tempo de guarda, controle de acesso, podendo ser públicos ou privados. Devem ser preferencialmente cobertos, vigiados e dotados de equipamentos como: bombas de ar comprimido, borracheiros e se possíveis banheiros (BRASIL, 2007, p. 166).
42 Em Cuiabá e Várzea Grande, as bicicletas são amarradas pelos ciclistas em árvores, postes, grades, guarda-corpo, muretas, assentos, e onde houver possibilidades nos espaços públicos abertos como praças, parques, jardins e na orla do rio Cuiabá.
Também inexistem paraciclos dentro do Parque Estadual Massairo Okamura e do Parque Estadual Mãe Bonifácia, onde não é permitida a circulação de ciclista. Já locais como shopping centers foram readequados, com instalação de bicicletários em áreas de estacionamento coberto, o que inclui o ciclista como um potencial consumidor.
Outras medidas podem ser bicicletas públicas de aluguéis, integração da bicicleta com os transportes públicos, aplicação das ciclorrotas, pontos de apoio e descanso, marcos quilométricos, medidas de moderação do tráfego motorizado como o Traffic Calming ou áreas acalmadas.
Essas áreas permitem a convivência e o deslocamento, com estreitamento de vias e ampliação do calçamento, uso de balizadores ou gradil em pontos necessários das ciclovias, aplicação do bike box9 nos semáforos, facilitando a saídas dos ciclistas em relação aos veículos, mapas, além de campanhas educativas e de promoção da bicicleta.
E, no caso de cidades como Cuiabá e Várzea Grande, cuja temperatura é elevada na maior parte do ano, seria fundamental o plantio de árvores, criando corredores verdes, de forma a favorecer e ampliando o uso das bicicletas e ajudando a cidade a ser mais climatizada.
Embora havendo conceitos, regras, normatizações técnicas para implantação das ciclovias e ciclofaixas, também existem regras e normatizações para o direito dos ciclistas percorrerem entre vias urbanas e rurais quando não houver ciclovia e ciclofaixas, de acordo com o Art. 58 da Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997 (BRASIL, 1997).
Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.
9 Espaço destinado exclusivamente ao ciclista, para que ele se posicione à frente dos veículos motorizados podendo sair com segurança.
43 3 – O SISTEMA VIÁRIO NA GRANDE CUIABÁ
3.1 – A transformação urbana das cidades de Cuiabá e Várzea Grande
É preciso considerar a construção de ciclovias e implantação de ciclofaixas em Cuiabá e Várzea Grande considerando as características de um centro urbano que emerge no Ciclo do Ouro e não se dotou historicamente de planejamento rigoroso nem para o transporte motorizado e menos ainda para o ciclístico.
Cuiabá foi elevada à condição de cidade em 17 de setembro de 1818, e em 1836, Cuiabá tornou-se capital da província do Estado de Mato Grosso localizada à margem esquerda do rio Cuiabá. O povoado de Cuiabá foi se reorganizando com o povoado da região do Porto. Assim, a malha viária foi se formando e ganhando contornos ligando as ruas de baixo (Galdino Pimentel), do meio (Ricardo Franco), e rua de cima (Pedro Celestino).
A antiga rua Bella do Juiz, que atualmente rua 13 de junho. Foi uma rua nobre à época e que liga atualmente até o Porto, também faz conexões com as ruas transversais ligando com o córrego da Prainha, o antigo largo da Matriz a atual Praça da República, o Largo da Mandioca e a Igreja da Boa Morte (PMC, 2019).
Figura 17 – Ciclista e bicicletas estacionadas na Praça da República em Cuiabá-MT.
Fonte: Secom-MT
44 Com o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870) assentou-se o acampamento militar Couto Magalhães à margem direita do rio Cuiabá, surgindo então um bairro novo com instalações militares e uma cadeia pública. A cidade de Várzea Grande foi fundada em 1867, mas somente desmembrada de Cuiabá em 1948, quando ganha sua emancipação e também com a chegada da luz elétrica.
Nesse período também foram construídos o Arsenal de Guerra, o Quartel da Legião da 1ª Linha e o Laboratório Pirotécnico, juntamente com o ordenamento das vias públicas como a 15 de novembro (PMC, 2019).
No final da década de 1930, no governo federal de Getúlio Vargas, a população foi incentivada a migrar para o oeste, pois havia muitas terras desocupadas deixando de fazer pressão populacional no centro sul do país. Este programa foi inspirado no mesmo programa Norte Americano para ocupar os vazios demográficos.
Nos anos de 1940, por meios das intervenções de Júlio Muller, as obras urbanas eram voltadas para o alargamento das vias, que rompiam os antigos padrões, como a antiga rua Poconé para atual avenida Getúlio Vargas avançando até a Praça 8 de Abril, sentido oeste. Cuiabá também ganhou novos edifícios públicos, hotéis, cine teatro e estradas novas.
Em 1960 com a construção do campus da Universidade Federal de Mato Grosso, localizada na região leste da cidade de Cuiabá, a avenida Fernando Corrêa da Costa tornou-se uma importante avenida. A partir dessa avenida surgiram novos loteamentos, comércios e indústrias que avançaram expressivamente (PMC, 2019).
Figura 18 – Avenida 15 de Novembro, 1940.
Fonte: Orro, A. de Almeida. Arquivo Público de Mato Grosso.
45 3.2 Cuiabá: das ruas antigas às vias arteriais para automóveis
A primeira ponte de Cuiabá e Várzea Grande foi construída em 1942, chamada ponte Júlio Muller. Em 1952, Várzea Grande ganhou melhorias com o sistema de abastecimento de água, e a pista de pouso de aeronaves da vila militar em 1956, e somente em 1964 se transformou no Aeroporto Internacional Marechal Rondon.
Em 1964, a ponte Júlio Muller foi reconstruída passando a ser de concreto possuindo 6 metros de largura de pista com espaço para dois veículos. Em 1948, o poder público autorizou através da Lei nº 11 a doação de terreno à Fundação da Casa Popular para construção das primeiras moradias em conjunto habitacional próximo à praça 8 de abril no entorno da avenida Getúlio Vargas. Deu-se início também a construção da Rodovia Cuiabá-Porto Velho progressivamente houve o aumento de migrantes para capital (PMC, 2019)
O governo estadual em 1966 observou o crescimento acelerado das migrações resultando na criação de Habitação Popular do Estado de Mato Grosso, muito conhecido como Cohab, nas proximidades do rio Cuiabá, ajudando a estimular o crescimento do bairro Cidade Alta e do Goiabeiras.
No centro histórico de Cuiabá algumas ruas seculares viraram calçadões. Outras medidas urbanísticas em Cuiabá em 1968 foi abrir um amplo corredor a partir da Igreja do Rosário até a região do Porto canalizando o córrego da Prainha, implantando vias em ambos os lados. Nos anos de 1970, as instalações do Palácio Alencastro tornaram-se
Figura 19 - Vista da Prainha, Avenida Tenente Coronel Duarte, 1972.
Fonte: Siqueira (2006) e Org.: Silva (2007).
46 pequena, levando a sede do governo a distribuir as secretarias e autarquias em vários edifícios públicos no centro da cidade (PMC, 2019).
Com o tempo, o centro da cidade de Cuiabá ficou muito adensado e o aumento do trânsito se intensificou ocasionando dificuldades ao público e aos serviços administrativos. Com tais motivos, o ex-governador José Fragelli, em 1974, idealizou o projeto da região do CPA, o Centro Político Administrativo, abrindo uma nova via como eixo estrutural levando acesso ao conjunto habitacional do CPA I e II. Os jornais da época diziam que em Cuiabá estava sendo construída uma nova Brasília.
A criação de um Centro Político e Administrativo para abrigar os prédios do governo estadual apresentava diversas vantagens para Cuiabá: adensar a região norte da cidade desobstruindo o centro, que concentrava, além dos órgãos do Governo Estadual e Municipal, ampla rede de comércio e serviços (FACCHINETTO, 2008).
Em meados de 1980, Cuiabá expandiu rapidamente a área urbana através dos novos empreendimentos verticais tanto comerciais como residenciais modificando a paisagem urbana. Em 1990, o córrego da prainha foi canalizado, coberto e ampliada com mais duas faixas de rolamento incluindo um canteiro central. No mesmo ano, mais uma ponte sobre o rio Cuiabá foi construída, a Ponte Mário Andreazza. Em 2002, a ponte Sérgio Motta foi inaugurada (PMC, 2019).
O sistema viário do município de Cuiabá foi efetivamente elaborado a partir do Plano Diretor em 1992, com planejamento evitando-se construir ruas e calçadas estreitas e ligações sem critérios e sem infraestrutura. Como a cidade foi crescendo gradualmente movimentado pela região do porto ligado a Várzea Grande levando-se a uma mancha urbana formando a conurbação entre as duas cidades, o aglomerado urbano Cuiabá-Várzea Grande. Mais tarde, foi criado a Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá (RMVRC) e se tornou lei em 2008.
Em 2007, mais um eixo estrutural importante foi construído: a avenida Professora Edna Affi, conhecida por ‘avenida das Torres’ como é chamada pela população, devido às torres de energia que atravessam o canteiro central. Nesta avenida, foi implantada em ambos os lados da via uma ciclofaixa, neste momento inicia o processo de inclusão dos transportes não motorizados como a bicicleta nos projetos urbanístico.
Mas somente em 2010, a avenida foi liberada e inaugurada. A nova avenida ajuda a desafogar o trânsito da avenida Fernando Correia da Costa ligando os bairros mais
47 distantes com o centro da cidade e pólos geradores com grande fluxo como comércio, shopping center, supermercados e universidades.
Em 2007, o Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico de Cuiabá (PDDE) foi atualizado pela Lei Complementar nº 150 de 2007, e em 2009 foi criada a Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá (RMVRC).
Para os preparativos da Copa do Mundo foi criada uma lei complementar nº 370 em 2009, a Agecopa (Agência de Execução dos Projetos da Copa do Mundo do Pantanal), pois, em Cuiabá não havia um órgão de planejamento específico, e o IPDU (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Urbano) assim, denominado, estava extinto naquele período, somente em 2014 foi recriado o IPDU denominado como Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano.
Durante os trabalhos da Agecopa foi criado o Plano de Mobilidade e Transporte da Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá, elaborado por uma empresa chamada Oficina Engenheiros Consultores Associados.
No relatório final para a Agecopa, o relatório demonstra a importância de propostas para o sistema cicloviário, incluindo três tipos básicos de intervenções: ciclovias, ciclofaixas e vias de tráfego compartilhado (AGECOPA, p. 205, s.d).
Neste relatório, inclui-se 19 (dezenove) propostas de intervenções que contemplaria vias com tratamento cicloviário compreendendo 106,05 quilômetros de vias cicláveis e somado às ciclovias existentes o aglomerado urbano teria 125,75 quilômetros de vias cicláveis (AGECOPA, s.d.).
Contudo, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou por unanimidade a extinção da Agecopa e criou a Secopa (Secretaria Extraordinária da Copa), através da Lei Complementar Estadual nº 435 de 2011, como órgão integrante da administração pública, desconsiderando a proposta completa do plano anterior, apenas dois projetos de ciclovias foram levados em consideração.
Em 2013, foram previstas mais de 40 obras para o evento da Copa do Mundo.
Segundo Araújo (2018), as obras entregues, foram: Morro do Despraiado, as duplicações da Rodovia Mário Andreazza e a estrada da Guarita em Várzea Grande.
Em 2016, foi concluída a trincheira do bairro Verdão e Santa Isabel e os muros limítrofes da Vila Militar, da UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso e do Aeroporto Marechal Rondon. Em 2017, foi concluída as obras do Complexo Viário na região do Tijucal, incluindo a implantação de iluminação LED em toda Miguel Sutil, o complexo do Tijucal e a parte da avenida Dom Orlando Chaves em Várzea Grande.
48 De acordo com Assunção e Ribeiro (2019), nove obras ainda seguem sem conclusão, sendo elas: VLT (Veículo Leve sob Trilho), Arena Pantanal, Aeroporto Marechal Rondon, Trincheira Jurumirim, avenida Parque do Barbado, avenida Arquimedes Pereira Lima, avenida e córrego 8 de abril, COT (Centro Oficial de Treinamento) da UFMT, e o COT do Pari em Várzea Grande.
Segundo a Prefeitura de Cuiabá (2019), a Rodovia do Contorno, ou o Rodoanel está prevista a continuidade das obras da via expressa ainda em 2019. A primeira etapa foi entregue em 2013 e no atual governo prevê a finalização dos 52 km do Rodoanel.
A obra parte do km 394 da BR 364 na região sudeste do município de Cuiabá contornando a área urbana no sentido norte até chegar a região do Sucuri a oeste, seguindo para Várzea Grande passando pela Passagem da Conceição até chegar na BR 163, próximo ao Trevo do Lagarto.