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CAPÍTULO 1 FAMÍLIAS MONOPARENTAIS FEMININAS E PROCESSOS DE

1.3 Arranjo familiar contemporâneo?: a monoparentalidade feminina

1.3.2 A monoparentalidade no Direito de Família

As mudanças concretas no cotidiano familiar narradas acima produziram reflexos no arcabouço jurídico do país e a concepção de família até então restrita ao casamento foi ampliada pela CF de 1988.

Em seu artigo 1° a Carta Constitucional de 1988 consagra o princípio da dignidade da pessoa humana, reconhecido como o ponto de transformação do paradigma de família. Considerando os princípios constitucionais como alicerces normativos, sobre eles se assenta todo o sistema jurídico constitucional.

De acordo com preleção de Maria Berenice Dias (2015), ao elevar a dignidade da pessoa humana a fundamento de ordem jurídica, nossa constituição opta expressamente pela pessoa, ligando todos os institutos a realização de sua personalidade. Tal fenômeno provocou a despatrimonialização e a personalização dos institutos, de modo a colocar a pessoa humana no centro protetor do direito.

No tocante a esse entendimento, nota-se o balizamento por tal princípio sobre a atuação do Estado. A este cabe o dever de promover condutas eficazes que favoreçam condições mínimas de existência para cada ser humano. Dito de outra forma, é sua obrigação garantir vida digna aos seus beneficiários.

O princípio em tela (art.1º, III, CF/ 88) abarcou vários ideais no que tange à estrutura familiar, como o matrimônio, a união estável e a família monoparental. Todos passaram a receber amparo constitucional.

Depreende-se do que foi exposto um ajustamento do conceito de família frente ao despontamento de transformações sociais. Na mesma medida, o legislador viu-se compelido a posicionar-se diante da nova realidade.

Pode-se dizer que uma das principais mudanças que propiciaram essas transformações no Brasil foi o surgimento da “Lei do divórcio”, de 1977. De acordo com Cano et al. (2009), as famílias evitavam, até então, situações de rompimento de vínculo conjugal, preocupadas com o aceite social. A Lei do divórcio alterou significativamente essa situação e conduziu muitos casais ao trâmite legal de separações conjugais.

A alteração efetuada no conceito de família no campo legal é pontuada por Santos e Santos (2008, p.31):

O conceito de família, antes restrito àquela constituída pelo casamento, foi ampliado para abranger a família monoparental. Esta espécie de família rompeu com a ideia preconcebida de que o núcleo familiar deve ser oriundo do casamento e compreender o pai, a mãe e os filhos. O fato é que esta entidade familiar pode se originar de diversos fatores e compreende, apenas, um dos genitores e seus descendentes. A sociedade passa a se confrontar com a presença de famílias biparentais e monoparentais, lado a lado, no cotidiano.

Assim, a família monoparental foi reconhecida pela Lei Maior em vigor e denominada como uma entidade familiar formada por qualquer dos pais e seus descendentes (art. 226, § 4.º). Trata-se de alteração na legislação que rege o Direito de Família no final do século XX. A partir de então, o texto da Lei substitui as concepções moralistas que envolviam a noção de família por uma compreensão assentada nos princípios da dignidade e solidariedade. Com isso, a afetividade é o elemento que passa a qualificar os laços parentais (DIAS, 2015).

Outra novidade inaugurada pela Carta Magna refere-se à isenção pelo constituinte no que tange à definição do conceito de família. Essa atitude evidencia a compreensão deste fenômeno como mutável, portanto, constantemente aberto a possíveis reinterpretações legislativas (NADER, 2016). Alterações fundamentais para diluir o estigma social a que a família monoparental esteve presa.

Os avanços constitucionais repercutiram, como deve ser, na legislação infraconstitucional, principalmente na reforma do novo Código Civil brasileiro de 2002, em que o casamento religioso foi regularizado com efeito civil e a união estável passou a ser reconhecida, inaugurando o reconhecimento da entidade familiar formada por um dos progenitores com filho. Nessa direção vai se consolidando a transição do modelo patriarcal vigente, centrado no laço matrimonial e subordinado ao poder paterno para relações familiares alicerçadas nos vínculos afetivos.

Interessa observar ainda que no texto da “Constituição Cidadã”, quando a família não tem nenhuma condição de proteger seus membros, a responsabilidade passa a ser compartilhada entre a comunidade e o Estado, conforme previsto em seu artigo 227. Garantia constitucional ratificada posteriormente pelo ECA.

No entanto, Viana (2016, p. 18) faz importante ressalva ao mencionar que “[...] mesmo já existindo definição constitucional, ainda persiste um fosso entre a família biparental e a monoparental, no que se refere ao aporte jurídico infraconstitucional”. Para esta pesquisadora as barreiras impeditivas para as famílias monoparentais acessarem a proteção jurídica se agrava quando se trata daquelas famílias em situação de vulnerabilidade social, econômica e cultural. Arrematando esse posicionamento de que não há igualdade no campo real e há carência de chancela estatal, postula:

A monoparentalidade, especialmente feminina, deveria receber especial proteção do Estado brasileiro, uma vez que as mulheres ainda se deparam com empecilhos para acessar o mercado de trabalho, sendo que esta dificuldade é potencializada nos casos de mulheres com baixa escolaridade, com filhos e no limite ou abaixo da linha de pobreza. Uma série de discriminação no tratamento legal e social dos integrantes dos arranjos

monoparentais parece ainda fazer parte da realidade dessas famílias, o que sugere que o preceito constitucional de igualdade entre os modelos familiares ainda não se efetivou na prática (VIANA, 2016, p. 18).

Nesse sentido, Dias (2015) discorre em relação aos direitos da família monoparental, afirmando que, “de forma injustificável”, o legislador omitiu-se em regular seus direitos, alijando-as do Código Civil, apesar de esta ser a realidade de um terço das famílias brasileiras.

Assim, mesmo sendo reconhecida como entidade familiar, em relação aos seus direitos, não houve mudanças expressivas. Porém é preciso salientar que em nossa sociedade esse segmento tem um espaço significativo na realidade social e seria fundamental usufruírem de políticas sociais específicas, principalmente as monoparentais femininas, por representarem significativo número daqueles que acessam as políticas da Assistência Social.

Numa comprometida reflexão, Leite (2005) alerta sobre o reconhecimento da família monoparental pelo Direito Constitucional, todavia aponta a ausência de sua proteção no Direito Social, assim como no Direito Civil. Adverte: “Enquanto o Direito Civil não institui a família monoparental como sujeito de direito, o poder público não se vê compelido a auxiliá- la, [...] o que tende a agravar seu caráter discriminatório no meio social” (LEITE 2005, p. 330).

Não por menos, as famílias monoparentais femininas vulneráveis sentem os impactos das medidas neoliberais sobre as políticas sociais. Sofrem as duras consequências da mercantilização dos direitos sociais e a redução gradativa do papel de provedor desempenhado pelo Estado.

A sobrecarga nas obrigações familiares chega a seu limite e não tem o reconhecimento da esfera pública. Assiste-se ao crescimento do deslocamento de responsabilidades para a esfera privada, para o âmbito familiar. Com efeito, o Estado se mostra ineficaz na garantia dos direitos sociais dos cidadãos, evidenciando a precarização e a minimização dos mecanismos públicos, em especial às mulheres condutoras de família monoparental em situação de vulnerabilidade social.

Mioto (2004) alerta para a urgente necessidade de intervenção estatal, no que concernem às responsabilidades públicas na garantia de direitos deste modelo familiar, possibilitando o seu amparo e proteção. Essa discussão reforça a importância de se elaborarem políticas públicas pautadas na compreensão integral do objeto família, assim como projetos que visem a autonomia e emancipação de sua condição, quando for este o caso. Basta de atendimentos fragmentados e segmentados. A prestação social que ora se efetiva é débil, precisa de reformulação. A direção a ser visada por este estudo é a da

materialização de direitos. E o caminho inicial a ser percorrido precisa ser o da compreensão de como se estruturam as famílias de baixa renda e como estas estão localizadas dentro do sistema maior, o capitalista.

Destaca-se, no tocante à discussão sobre a garantia social e a política destinada às famílias de baixa renda, e de modo particular, às famílias monoparentais femininas, ser necessário tornar visível a condição feminina e os seus efeitos nas múltiplas desigualdades a que são submetidas.