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GROSSA/PARANÁ/BRASIL

3 A PERCEPÇÃO DAS PCD SOBRE O ESPAÇO SOCIAL: O MODO INTERPRETATIVO

3.1 A MORADIA COMO ESPAÇO DE VIVÊNCIA FAMILIAR

3.1.3. A MORADIA COMO LUGAR DE INTERAÇÃO COTIDIANA

Em suas moradias as PcD se relacionam com pessoas de seu círculo mais imediato e cotidiano. A partir desta premissa foi-lhes perguntado quem elas recebem ou convivem em suas moradias, bem como, que tipo de relação elas mantém com essas pessoas.

Neste sentido, as participantes cadeirantes relatam sobre suas relações sociais imediatas que:

Na Associação eu me relaciono com todos, desde a presidente aqui da casa que praticamente me ajuda em tudo, sua filha e as outras meninas que não estão mais aqui. A gente se dava bem, mas no momento elas não estão aqui. A instituição está em reforma e por isso elas foram retiradas, mas me dou bem com todos os demais. (P - 35 anos, estudante de História/aposentada).

Com minha irmã principalmente e com meu pai. A minha irmã antes da morte da minha mãe já era super protetora e agora é mais, aonde vou ela vai junto, mesmo quando ela não pode ela vai. Às vezes eu preciso ir no médico, a minha maior tristeza é quando ela tem que faltar serviço para ir me ajudar a colocar na maca. Então saímos juntas nos lugares que eu vou passear. Ela vai junto comigo nos shows que eu já fui ver, ela sempre junto. O pai vai comigo no dia a dia para fazer fisioterapia, o meu pai vai junto sempre. Ele tem que me carregar, me levantar se eu precisar sair do lugar, daí ele tem que me carregar. Tem que ser ele. (S - 48 anos, vendedora/autônoma).

Vem bastante gente aqui, vêm os parentes da cuidadora, a filha dela, genro, neto as irmãs, e vem também a minha amiga Simone. Antes vinha mais gente, eu tenho bastante amizade. Meus amigos vêm aqui, fazem lanche. Quando eu estou triste eu choro bastante para eles, dos meus amigos além da Simone, a moça que dá aula para mim. (J - 52 anos, do lar/aposentada).

A participante cadeirante “P” que reside numa Associação citou as pessoas com quem se relaciona “desde a presidente, sua filha e as outras meninas que não estão mais aqui”. As meninas, ao qual ela se refere, foram morar em outra associação, pois está onde residem está em reformas. Ela menciona a presidente da Associação, ela “praticamente me ajuda em tudo”. Quando ela a conheceu, a cadeirante tinha 21 anos de idade e frequentava a Associação dos Deficientes Físicos de Ponta Grossa - ADFPG. Após ter conhecimento da história de vida complicada da cadeirante com sua família lhe fez o convite para residir na Associação. Desde o momento que foi morar ali e com a ajuda incessante da presidente da Associação, conseguiu muitas conquistas e uma delas foi a de passar no vestibular da UEPG para cursar Bacharelado em História. (Foto 17).

Foto 17– Interação entre cadeirante e a presidente da Associação onde reside

A família foi mencionada pela participante cadeirante “S”: convivo “com minha irmã principalmente e com meu pai”. A irmã sempre foi muito protetora e cuidadosa com a participante, mesmo antes da mãe delas falecer. Ela descreve está vivência: “Às vezes eu preciso ir no médico, a minha maior tristeza é quando ela tem que faltar serviço para ir me ajudar a colocar na maca. Então saímos juntas nos lugares que eu vou passear. Ela vai junto comigo nos shows que eu já fui ver”. Como se observa a relação entre as irmãs é de carinho e parceria, no entanto, a cadeirante expressa tristeza por ter uma relação de dependência para tudo. Em relação ao pai, a participante ressaltou “o pai vai comigo no dia a dia para fazer fisioterapia”. Ele a acompanha todos os dias na fisioterapia. Além de ajudar para tirá-la da cadeira de rodas e recolocá-la.

A participante cadeirante “J” relata que em sua moradia “vem bastante gente”,

porém não são pessoas de sua família, mas sim da família de sua cuidadora: “a filha dela, genro, neto as irmãs, e vem também a minha amiga Simone e a moça que dá aula para mim”. Em sua fala menciona esses momentos de interações: “Meus amigos vêm aqui fazem lanche. Quando eu estou triste eu choro bastante para eles”. Assim, observa-se que as pessoas próximas e os amigos acabam, muitas vezes, fazendo parte do convívio diário, substituindo a família que nem sempre está presente.

Na Foto 18 tem-se a participante cadeirante “S” que, com o apoio da família, uma vez na semana faz visita a participante cadeirante “J”. Esses encontros semanais fortalecem os laços de amizade e carinho entre as duas. A importância desses encontros são as conversas que permitem descontrair e, muitas vezes, esquecer as tristezas e amarguras consolidadas ao longo da vida.

Foto 18 – Encontro semanal entre as amigas cadeirantes na moradia

Fonte: J - 52 anos, do lar/aposentada

A Foto 19 ilustra outra ocasião de encontro da participante cadeirante “J” com uma amiga da igreja que se propôs a ajudá-la no processo do aperfeiçoamento da

escrita e leitura em sua casa. A participante relatou que sua irmã é professora, mas é com a amiga que recebe incentivo e apoio para melhorar seu aprendizado.

Foto 19 – Encontro com amiga que a ajuda no processo de ensino e aprendizagem da escrita e da leitura

Fonte: J - 52 anos, do lar/aposentada

Na maioria das falas da participante cadeirante “J” esta cita a ausência da família e a falta que esses fazem em sua vida. Neste caso ela tem uma dependência emocional e não uma dependência por incapacidade. A vivência com os amigos no espaço da casa não substitui a ausência da família, mas a possibilita ter afeto, carinho e respeito.

Em relação às PcD visual, são apresentados a seguir os relatos sobre as interações que se estabelecem com familiares e amigos na moradia:

Eu me relaciono com minhas filhas, é mais com elas, mas tenho amigas também que vão até em casa. Tenho minha mãe que também vai passear em minha casa. Tenho o meu marido que ainda não é ex- marido e também frequenta minha casa, poucas vezes mais vai. Mas normalmente é uma conversa com as minhas filhas que acontece todos os dias. (N - 48 anos, estudante de Serviço Social/aposentada). Eu e a companheira temos uma amizade muito sincera um com o outro. Antes do casamento as pessoas têm que ser muito amigas, conhecer o sonho de cada uma. A gente nunca esquece aqueles dias que um cuidou do outro em dias que não se sentia bem com febre ou, às vezes, que cuidou de uma situação em um hospital. Então eu e a Dri temos uma amizade bem legal. Também vão amigos e parentes, principalmente amigos sempre estão lá na minha casa, os amigos da APADEVI [Associação de Pais e Amigos de Deficientes Visuais], meus vizinhos, eu tenho na frente da minha casa um casal de amigos bem bacana, eles vão direto lá em casa, eles foram com a gente para o show de final de semana do padre. (C - 32 anos, atleta/aposentado).

Com a minha família no geral, é uma relação normal de família. Eu tenho bastante o apoio da minha família. Se eu precisar de ajuda tenho todo o apoio deles, eu tenho quatro irmãos e moramos todos na mesma casa, eles me ajudam bastante, eles são bem compreensivos em relação à mim. (S - 19 anos, estudante de Direito/aposentada).

A participante “N” tem uma relação com diversas pessoas em sua moradia:

“filhas”, “amigas”, “mãe” e “ex-marido”. Todavia, é com as filhas que mantém uma relação maior de afeição. A participante “S” mencionou o relacionamento com a

“família”, de forma geral, e com seus “quatro irmãos” que moram “todos na mesma casa”. O participante cego “C” ressalta a relação de carinho e amizade que tem com a companheira e a ajuda mútua entre ambos. Ele menciona, entretanto, relações bastante abrangentes no convívio domiciliar com “amigos e parentes”. Salienta dois ambientes dos quais conhecem estas pessoas “os amigos da APADEVI”, que compartilham com ele a mesma deficiência, e a vizinhança.

No grupo das pessoas surdas, os três participantes demonstram um bom convívio com a família e amigos no espaço da casa:

A relação é com a esposa e filha, relação de cuidados. Vêm os parentes e sempre os amigos estão presentes e a maioria deles são surdos. Quando não são surdos a gente divide, um dia só vem surdos e no outro os amigos comuns ouvintes, que já são mais os amigos da esposa. A gente não consegue dar atenção a todos, tem surdo ali e quem não é surdo também quer se comunicar. (R - surdo, 36 anos, auxiliar de produção).

Esposa, familiares, amigos, vizinhos. O sogro e o cunhado vêm bastante na casa, a família no geral. A relação é tranquila. A dificuldade é em relação à comunicação, nem todos se comunicam por sinais. O sogro é o que menos se comunica por sinais e sempre tem que confirmar com ele se entendeu, sempre se comunica devagar e com calma para se entendermos e, às vezes, repete duas vezes para garantir que entendeu. A sogra é fácil, ela entende e o cunhado também, mas é o sogro que a comunicação é mais difícil. Os familiares sabem pouquíssimo se comunicar por sinais, eles se comunicam por fala labial, leitura labial. (A - surdo, 40 anos, operador de máquina). Com o marido, filhas, familiares, amigos. Os pais sempre estão na minha casa e ajudam a cuidar das filhas e ajudam com um pouco de tudo. Quando eu ganhei as meninas, eu não escutava quando elas choravam, por exemplo. De madrugada eu precisava da ajuda da mãe, dependia muito da mãe, mas agora as meninas estão grandes e as dificuldades vão diminuindo. As amigas que vem aqui é mais para conversar e a maioria delas são surdas. Eu tenho mais amigas surdas, é mais fácil para conversar, já com os ouvintes é bem difícil conversar, então eu e as amigas surdas se entendemos. (E - surda, 37 anos, serviços gerais).

A família e amigos fazem parte das relações cotidianas do participante surdo “R” em sua moradia. Ele citou “a relação é com a esposa e filha, relação de cuidados. Vêm os parentes e sempre os amigos estão presente”. Com os amigos a relação é mais tranquila porque consegue interagir melhor: “a maioria deles são surdos”. Como o grupo de amigos tem pessoas surdas e pessoas não surdas, a estratégia é reunir os grupos de forma intercalada: “A gente divide, um dia só vem surdos e no outro os amigos comuns ouvintes”. Desta forma, ele tenta interagir com todos e a convivência dele em ambos os grupos é um aspecto positivo de interação social.

O participante surdo “A” se relaciona com “Esposa, familiares, amigos, vizinhos”. Todavia, ele expõe que a comunicação é a dificuldade dessa relação, pois “nem todos se comunicam por sinais. O sogro é o que menos se comunica por sinais e aí sempre tem que confirmar com ele se entendeu”. Sem uma comunicação perfeita ficam mais complexas as relações pessoais e sociais. Ele aponta que “Os familiares sabem pouquíssimo se comunicar por sinais, eles se comunicam por fala labial, leitura labial”. Às vezes, só a comunicação labial não ajuda, porque a maioria das pessoas surdas não compreende o português e as pessoas ouvintes não conseguem compreender os gestos labiais do surdo. Dessa forma, a adaptação deve vir de ambos os lados, o da pessoa surda e também daqueles que com ele interagem.

A família é essencial na vida da participante surda “E” e no espaço da casa essa relação de convivência é positiva “os pais sempre estão na minha casa e ajudam a cuidar das filhas e ajudam com um pouco de tudo”. Na moradia as dificuldades de ser mãe surda e da dependência que tinha de sua mãe foi mencionada: “A dificuldade maior foi quando eu ganhei as filhas eu não escutava quando elas choravam”. A mãe da participante surda foi essencial neste momento, pois o marido trabalhava no período noturno e ela não podia fica sozinha com as filhas: “de madrugada eu precisava da ajuda da mãe, dependia muito da mãe, mas agora as meninas estão grandes e as dificuldades vão diminuindo”.

Observa-se, assim, a dificuldade de se efetuar tarefas simples do cotidiano sem a colaboração de acompanhantes.Ela tem amigas, surdas e ouvintes, que frequentam a sua casa e relatou que é difícil conversar com as amigas ouvintes. Ela se entende melhor com as amigas surdas, “é mais fácil”. Tem-se aí a importância da convivência também com pessoas com a mesma deficiência.

A percepção das PcD sobre com quem se relacionam no interior de sua moradia e que tipo de relação é essa, aponta novamente a família como ponto convergente. Como se observou, os relatos dos participantes indicam que a maioria

das famílias supera a visão patológica e o conceito de doença em relação a elas. Portanto, quando a PcD deixa de ser vista a partir do seu déficit e passa a ser compreendida como uma pessoa integral, plena de significados, “decorrem desse novo olhar de atitudes e posturas que possibilitarão o desenvolvimento global da mesma”. (BATISTA e FRANÇA, 2007, p. 117).

A relação entre familiares e amigos para com a PcD é de incentivo e apoio para que aprendam a fazer tudo que for possível e até um pouco mais. Fernandes (2011, s.p.) salienta que “cuidar do aprendizado específico para cada deficiência é ser responsável e humano”. Essa relação não permite que a deficiência seja motivo de dependência, submissão e descaracterização. A intenção, todavia, não é fazer dessas pessoas mais limitadas do que a própria deficiência já os faz.