GROSSA/PARANÁ/BRASIL
3 A PERCEPÇÃO DAS PCD SOBRE O ESPAÇO SOCIAL: O MODO INTERPRETATIVO
3.3 ESPAÇO URBANO: ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO SOCIOESPACIAL
3.3.2 AS FACILIDADES E DIFICULDADES NO DESLOCAMENTO
Os participantes desta pesquisa mencionaram que costumam se deslocar pela cidade, uns com mais frequência que outros, porém a maioria sempre está acompanhada nestes momentos. As PcD citaram o transporte público, o transporte especial do PROAMOR (Fundação Municipal de Assistência ao Menor) e transporte próprio como os principais meios de deslocamento.
A empresa que concede serviços de transporte na cidade encontra-se sob a supervisão ou competência do município. O transporte público coletivo em 2016 apresentava uma frota de 213 ônibus (Fotos 36-37-38), desses 89% adaptados para atender a demanda da população, inclusive de PcD, dos 14 bairros da cidade totalizando 101 linhas. Conforme prevê a legislação municipal lei n. 7018\2002 art. 2° a vida útil dos carros é de 10 anos. A frota de ônibus para 2017 é de 217, com uma estimativa de 100% deles serem adaptados com elevadores para facilitar a locomoção dos cadeirantes. (VCG, 2016).
Fotos 36, 37 e 38 – Ônibus biarticulado, micro-ônibus e o ônibus convencional – todos adaptados as PcD física motora
Fonte: http://www.vcg.com.br
As mudanças no transporte coletivo do município não são aleatórias, fazem parte da lei 12.587/12 da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Essa tem por objetivo a integração entre os diferentes modos de transporte e a melhoria da
acessibilidade e mobilidade das pessoas no município. No art. 5° desta estão os princípios da política é da acessibilidade universal. (PLANALTO, 2012).
Como direito fundamental da PcD e para contribuir com o deslocamento dessas, o artigo 17 da lei municipal 10.740/15, nos incisos III a VIII, garante a isenção no pagamento da tarifa à PcD. Essas para usufruírem deste direito devem comprovar renda mensal inferior a dois salários mínimos. Antes dessa lei, as PcD tinham o direito apenas a duas passagens livres ao dia, ficando limitadas se tivessem que sair mais de uma vez. Recentemente, as passagens de ônibus foram liberadas para as PcD que podem utilizar quantas vezes acharem necessário por dia. (LEIS MUNICIPAIS, 2016). O transporte especial foi criado sob o decreto n° 1461/2007 e regulamentado pela lei n° 11.400/2013, tendo por objetivo atender a demanda específica das PcD. Na Secretaria Municipal de Assistência Social, através do Departamento do Deficiente, há atualmente uma frota de oito carros especiais. Todos os automóveis são adaptados, sendo sete para cadeirantes e um para utilização de usuários com múltiplas deficiências. Lembrando que este serviço começou em Ponta Grossa em 2008 com apenas quatro carros para atender especificamente cadeirantes. Esse transporte possibilita um atendimento abrangente às pessoas que são cadastradas no Departamento e precisam deste serviço. Cerca de 590 pessoas com algum tipo de deficiência estão cadastradas para utilização dos carros. Para sua utilização, a pessoa precisa marcar no mínimo com dois dias de antecedência, indicando o horário e local de destino. (RAMOS, 2016).
As percepções das PcD em relação ao deslocamento pela cidade permitem uma avaliação tanto do transporte público como do transporte especial. As PcD física motora avaliam as dificuldades e facilidades desses serviços prestados:
O meu meio de transporte é o ônibus público e o transporte especial do PROAMOR e sempre estou acompanhada. Ônibus aqui é complicado, tinha épocas que o motorista já falou mal, o ônibus não parava, a rampa do ônibus vive estragada, não tem manutenção, mas o pior é o motorista, às vezes estão atrasados e nem param para a gente e quando param ficam reclamando, aconteceu de várias situações ruins. Já o carro especial do PROAMOR é adaptado, é bom e não preciso de acompanhante quando ia para faculdade ou casa da irmã, para outros lugares sempre estou acompanhada, mas o transporte não pode usar para tudo, eu parei de estudar, tranquei o curso, foi por falta de transporte. As pessoas acham que a PcD não precisa estudar, até mesmo o próprio pessoal da família, porque eu ganho o benefício do governo. (P - cadeirante, 35 anos, estudante de História/Aposentada).
Utilizo o transporte público e o especial e sempre estou acompanhada. O transporte vem até a minha casa, a gente tem que ligar com antecedência um dia antes e dizer aonde vai e vem buscar. Volta buscar, mas nem sempre é o horário que a gente marca. A minha briga maior é neste sentido, é em relação ao transporte que é precário, é precaríssimo, não tem segurança nenhuma. Eu sou muito briguenta, é porque acho que se a gente tem um transporte desse é para a gente ter uma vida independente, de uma certa forma, mas não é isso que acontece, a gente tem que ir com uma outra pessoa junto. A demanda, a procura do táxi é muito grande, apesar que muito gente nem sabe que o táxi existe, apesar de estar muito tempo funcionando. Eu conheço pessoas que até fazem fisioterapia comigo lá no C. e nem sabe que o táxi existe. (S - cadeirante, 48 anos, vendedora/autônoma). Eu ando mais com o transporte público e sempre acompanhada da Dona T., que é de idade e tem que me empurrar. É muito difícil, os buracos, têm muitos buracos e a minha acompanhante tem dificuldade de inclinar a cadeira. Agora utilizo mais o ônibus normal. Quando tinha o táxi especial e quando dava para andar sozinha nele eu ia no mercado sozinha, eu ia no médico sozinha. Só que agora tem que andar com um acompanhante, sabe, e eu não tenho uma pessoa disponível. Parei de fazer a fisioterapia porque o motorista do TE [transporte especial] me falou que eu precisava trazer um acompanhante, tipo a rampa do C. onde eu fazia a fisioterapia, eu parei de ir porque o motorista me falou que ia ter que trazer junto comigo um acompanhante. Ele falou: não podemos subir na rampa com você, mas eu sou independente, se ele me soltasse na rampa eu ia, eu cansei de ir sozinha lá fazer fisioterapia e me ajudavam. (J - cadeirante, 52 anos, do lar/aposentada).
A participante cadeirante “P” menciona os problemas que enfrenta quando precisa se deslocar com o transporte convencional (Foto 39): “ônibus aqui é complicado, tinha épocas que o motorista já falou mal, o ônibus não parava, a rampa do ônibus vive estragada, não tem manutenção, mas o pior é o motorista, às vezes estão atrasados e nem param para a gente e quando param ficam reclamando”. Observa-se nesta fala que não basta ter a rampa de elevação nos ônibus, é necessário a manutenção constante destas. Outra questão é que os funcionários, motorista e cobradores, precisam ser treinados para saber como tratar as PcD. Segundo a empresa concessionária (VCG, 2016), há nela em torno de 1350 funcionários e destes mais de 1000 atuam na área de operação, ou seja, motoristas e cobradores. A empresa garante uma capacitação constante para seus funcionários para que estes consigam prestar serviços de qualidade aos seus usuários, mas como se observar pela declaração de “P” e posteriormente de outras pessoas, na prática este serviço prestado deixa a desejar.
Foto 39 - Transporte público convencional adaptado à cadeirante
Fonte: P - cadeirante, 35 anos, estudante de História/Aposentada
O transporte especial foi mencionado pela participante cadeirante “P” como sendo de boa qualidade. Em determinados caso este pode ser utilizado sem acompanhante, mas a regra é a necessidade de acompanhante. Mas ele não pode ser utilizado para tudo, como ressaltou “P”: “eu parei de estudar, tranquei o curso, foi por falta de transporte”. A mesma era estudante universitária e acabou abandonando o curso de História por causa do transporte, este não seguia o horário combinado ou simplesmente não aparecia.
A participante cadeirante “S” cita o transporte especial como precário, pois não possibilita a autonomia, tendo em vista a necessidade de acompanhamento para usá- lo. (Foto 40).
Foto 40 – Uso do transporte especial por cadeirante
A participante “S” mencionou ainda que nem todas as PcD tem o conhecimento deste transporte: “a demanda, a procura do táxi é muito grande, apesar de que muita gente nem sabe que o táxi existe, apesar de estar muito tempo funcionando”. Existem, conforme informado anteriormente, 590 pessoas cadastradas para uso do transporte especial, todavia, em Ponta Grossa existem aproximadamente 65.081 mil pessoas com algum tipo de deficiência. (IBGE, 2010). Daí infere-se a necessidade de ampliar a abrangência deste.
A falta de acompanhante não possibilita a participante cadeirante “J” de utilizar esse transporte: “quando tinha o táxi especial e quando dava para andar sozinha nele eu ia no mercado sozinha eu ia no médico sozinha. Só que agora tem que andar com um acompanhante, sabe, e eu não tenho uma pessoa disponível”. Aacompanhante dela vai apenas uma vez à semana para ajudá-la e não é sempre que pode sair com ela. Portanto, ela ressalta:
“parei de fazer a fisioterapia porque o motorista do TE me falou que eu precisava trazer um acompanhante”. Hoje a opção que ela tem é o transporte convencional, que usa para fazer tudo, mais não voltou a fazer a fisioterapia e sente as consequências disso, as pernas aos poucos vão travando.
Como se observa, as três participantes cadeirantes quando se deslocam pela cidade costumam faze-lo com acompanhantes para se utilizarem do transporte público. Em relação ao transporte especial, uma das participantes acabou deixando de utiliza-lo porque não conseguia alguma pessoa para acompanhá-la em todas as suas saídas.
O deslocamento das PcD visual na cidade é feito através de transporte público convencional:
O meu meio de transporte é o público, através da V. [empresa de ônibus], e a maioria das vezes é sozinha. Eu tenho dificuldades muitas vezes para descer do ônibus, porque às vezes os motoristas param num espaço e eu não consigo ter ideia da dimensão da altura do degrau do ônibus até o chão onde piso, onde os pés vão tocar e como eu não uso bengala, para mim fica mais difícil. Abriu a porta e a gente tem que olhar e saber aonde vai pisar e eu preciso parar e olhar e meus olhos buscar essa imagem e aonde vou colocar meus pés e às vezes acabam fechando a porta antes da gente descer, prende a bolsa, coisa do tipo assim. A questão de não ter letreiros maiores no sentido de informações e avisos nas guaritas de ônibus e isso é na cidade. (N - visão baixa, 48 anos, estudante de Serviço Social/aposentada). Sim, sempre com o transporte público de ônibus, mas, de vez em quando tem umas caronas de carro, na maior parte vou sozinho. Eu que venho de uma cidade com o transporte bem complicado e precário, hoje aqui está melhor. Quando surgiu as carteirinhas nossas eram limitadas, antigamente só havia duas passagens liberadas para nós PcD e aí a pessoa tinha que conversar com o cobrador e motorista se
precisasse fazer uma coisa e descer do ônibus, aí já não dava, você teria que se virar de a pé ou pagar passagem. Agora liberam a passagem em junho de 2015, a PcD tem a liberdade de ir e vir, por exemplo, se eu quero ir ao Campus [da Universidade] vou até lá e se precisar descer em outro lugar antes de chegar em casa eu vou e depois pego o ônibus de volta, não é mais limitado, agora tem passagem suficiente para ir em qualquer lugar. (C - cego, 32 anos, atleta/aposentado).
O meu deslocamento é pelo transporte público e a minha família me acompanha até o ponto da vila e do ponto até o Terminal nem sempre tem alguém me esperando no Terminal e às vezes eu peço ajuda para o cobrador. Uma vez eu fui pedir ajuda aos cobradores e eles se recusaram, mal encostavam em mim, me colocou na linha guia [pista tátil] e ficou no meu lado, não me deu o braço nada para me ajudar e na hora de eu subir no ônibus foi me empurrando só com esse lado da mão [parte superior], deu a impressão que ele não queria encostar em mim, ele parecia que estava com vergonha, com medo. A maior dificuldade são as pessoas mesmo, porque às vezes a gente está passando com uma bengala, a pessoa está se atravessando na frente e não dá licença, e às vezes a gente acaba batendo sem querer. (S - cega, 19 anos, estudante de Direito/aposentada).
A participante com visão baixa “N” utiliza do transporte público, tendo autonomia para sair com ou sem acompanhante. A dificuldade por ter pouca visão faz com que ela demore no desembarque do ônibus gerando impaciência nos motoristas e cobradores. Já aconteceu de sua bolsa ficar pressa na porta do ônibus. Outro detalhe exposto por “N” no transporte público é “a questão de não ter letreiros maiores no sentido de informações e avisos nas guaritas de ônibus e isso é na cidade”. Esse problema com o painel informativo se repete nos três terminais de Ponta Grossa.(Foto 41).
Foto 41 – Terminal de Uvaranas - Painéis informativos dos horários de ônibus com fonte das letras pequenas e reflexo do vidro trazem dificuldades para passageiros com baixa visão
Em meados de 2014 foi instalado apenas no Terminal Central um painel digital para ajudar nas informações de horários dos ônibus66 (Foto 42). Foi uma ideia muito boa, mas o painel continuou com uma fonte muito pequena de letra, todavia, se encontrava melhor do que o painel informativo do Terminal de Uvaranas. O painel eletrônico informativo minimiza o problema para visualizar informações de horários de ônibus para “N” e para dos demais usuários do transporte público, mas está longe de ser um painel inclusivo para todos. (PMPG, 2014).
Foto 42 – Painel eletrônico informativo no Terminal Central
Fonte: PMPG, 2014.
O participante cego “C”, que não é natural de Ponta Grossa e sim da grande São Paulo, mencionou que na cidade de onde veio o transporte era extremamente precário. Em Ponta Grossa considera o transporte público bom. (Foto 43).
Fotos 43 – Participante cego usuário do transporte público
Fonte: C - cego, 32 anos, atleta/aposentado
66 Mais informações sobre o sistema de informação do Terminal Central instalado em 2014 disponível em:< http://www.pontagrossa.pr.gov.br/node/16448>. Acesso em: 10 Out. 2017.
O participante “C” esclareceu que anteriormente as PcD eram isentas apenas de duas passagens de ônibus ao dia, o que era uma prática inconstitucional. Em meados de junho de 2015 foi liberada o uso do transporte pela PcD para quantas vezes fosse necessário ao dia: “não é mais limitado, agora tem passagem suficiente para ir em qualquer lugar”. Essa medida ajuda a PcD que queira estudar, fazer fisioterapia, ir ao médico, passear, entre outros.
Novamente, através dos relatos da participante cega “S”, se mencionou o não preparo e a discriminação por parte dos motoristas e cobradores da empresa de ônibus. Os familiares a acompanham da casa até o ponto e do ponto ao terminal, isso quando podem. Quando não podem acompanhar, essa conta com a ajuda dos cobradores e motoristas, todavia, ela relata: “eu fui pedir ajuda aos cobradores e eles se recusarem, mal encostavam em mim, me colocou na linha guia e ficou no meu lado, não me deu o braço nada para me ajudar e na hora de eu subir no ônibus foi me empurrando só com esse lado da mão”. Como se constata, as PcD nem sempre são tratadas com respeito quando precisam de ajuda, assim, ela destaca: “a maior dificuldade são as pessoas”.
Os participantes surdos apresentam mais facilidades do que dificuldades para se deslocar, isso quando comparados a outros participantes cadeirantes e cegos:
A moto é o meu meio de transporte principal e sempre acompanhado, de ônibus é difícil. É normal, tenho mais facilidades do que dificuldades e essas são poucas, como ruas estreitas, muita subida e descida, lugares que não tem placas indicando são as principais dificuldades. (R - surdo, 36 anos, auxiliar de produção).
Tenho carro próprio, geralmente saio sozinho, mais a principal dificuldade é se comunicar. Se eu precisar me comunicar, alguém da família vai junto, se eu preciso ir no médico ou serviços de banco é sempre acompanhado da família. Para comprar algo simples é fácil e pagar contas eu vou sozinho, agora se eu precisar me comunicar a família me acompanha. (A - surdo, 40 anos, Operador de máquina). Sim, todos os dias por causa do trabalho, para ir no trabalho vou geralmente de ônibus e sozinha. Para sair passear com as crianças vou de carro. As dificuldades são para se comunicar. (E - surda, 37 anos, serviços gerais).
Os três participantes surdos têm veículos próprios que ajudam no deslocamento pela cidade. Entretanto, as dificuldades são para se comunicar e, neste caso, sempre precisam estar acompanhados. Os locais na cidade que são desconhecidos apresentam mais dificuldade, como aponta o participante surdo “R”. O participante surdo “A” mencionou que se precisar se comunicar a família sempre vai junto, mas se for só para passear tem autonomia de ir sozinho. A participante surda
“E” relatou que para ir ao trabalho vai de ônibus e se for sair com as crianças vai de carro, as dificuldades também estão na comunicação.