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GROSSA/PARANÁ/BRASIL

3 A PERCEPÇÃO DAS PCD SOBRE O ESPAÇO SOCIAL: O MODO INTERPRETATIVO

3.2 O BAIRRO E AS INTERAÇÕES SOCIAIS

3.2.2 AS DIFICULDADES E FACILIDADES NO DESLOCAMENTO

Como pode se observar, o não gostar do bairro remete principalmente as dificuldades que ao longo do tempo vão se constituindo na vida cotidiana das PcD. Em relação ao deslocamento pelo bairro, os três grupos em análise declaram se sentir dependentes, sem autonomia para saírem sozinhos.

Seguem os principais relatos das PcD física motora:

Eu não saio muito aqui no bairro, porque não tem o que me favoreça para sair, como acessibilidade. Mas, para me deslocar no bairro é sempre acompanhada de alguém e nunca sozinha. A principal dificuldade são as ruas com descida, aquelas parecidas com uma ribanceira e que possuem muitas pedrinhas, as ruas que tem pedra, tem espinho, tem mato, inclusive já rasgou uma das minhas rodas da cadeira. Então existem mais dificuldades e poucas facilidades para me deslocar no meu bairro. (P - cadeirante, 35 anos, estudante de História/Aposentada).

Sim, sempre acompanhada pelo pai ou minha irmã. A dificuldade é qualquer meio fio mais alto, qualquer rampa muito inclinada, uma pedra que seja meio grande que pode dar um solavanco se você não segurar vai para frente, uma escada, um degrau é sempre uma dificuldade e

estas existem. Não adianta porque no final das contas não temos pernas e sim rodas e a roda é diferente. (S - cadeirante, 48 anos, vendedora/autônoma).

Saio sim, sempre acompanhada. O meu deslocamento no bairro é ruim, as calçadas me dificultam, têm buracos. Eu com a cadeira motorizada, por causa desses buracos, virou a cadeira. Sorte que não virou de frente, porque ia me machucar. O meio fio é alto, não tem rampa para subir nas calçadas, é um transtorno subir no meio fio com a cadeira, tem que ficar procurando o lado da calçada que é mais baixo para eu poder subir na calçada com segurança e tomar muito cuidado para eu não cair. Outra coisa ruim é os carros. Para atravessar a rua principal do Rio Verde, demoramos para atravessar, precisava de um semáforo para ajudar. (J - cadeirante, 52 anos, do lar/aposentada).

A participante cadeirante “P” comentou as dificuldades que tem no deslocamento no bairro: “são as ruas com descida, aquelas parecidas com uma ribanceira e que possuem muitas pedrinhas, tem espinho, tem mato, inclusive já rasgou uma das minhas rodas da cadeira”. Pelas más condições apresentadas para o deslocamento da participante no bairro, sua cadeira de roda que é seu único meio de locomoção, acabou danificada.

Acompanhada sempre da irmã e do pai, a participante cadeirante “S” expressa que seu deslocamento do bairro “é sempre uma dificuldade e estas existem”. Tais

dificuldades vão desde o meio fio alto e rampas muito inclinadas, quando eles existem, até pedras soltas, escadas, degraus e buracos. Esses empecilhos, muitas vezes, estão nas próprias calçadas de passeio e são apontadas pela participante como fatores limitadores.

Os buracos que estão nas calçadas de passeio, além de dificultar o deslocamento, já ocasionaram a queda da participante cadeirante “J”: “por causa desses buracos, virou a cadeira”. Ela mencionou outros detalhes: “O meio fio é alto, não tem rampa para subir nas calçadas é um transtorno subir no meio fio com a cadeira”. Atravessar as ruas é outro transtorno que dificulta seu deslocamento no bairro. A Foto 30 mostra a rotina da participante em seu deslocamento no bairro.

Foto 30 – Rua Pref. Fulton Vitel Borges de Macedo no Jardim Conceição – deslocamento com cadeira de roda com acompanhante

Fonte: J - cadeirante, 52 anos, do lar/aposentada

Do grupo das PcD visual, apenas a participante com visão baixa mencionou que se desloca no bairro, na maioria das vezes, sozinha e a pé:

Eu costumo me deslocar sozinha quando eu preciso, as filhas vão cedo para aula e eu tenho aula somente pela tarde na Universidade. A facilidade em andar no bairro é saber que as ruas são amplas e não tem tanto movimento de carros, é tudo terra e, ao mesmo tempo em que tem facilidades também tem as dificuldades, é os dois, depende muito do estado de espírito de cada um. (N - visão baixa, 48 anos, estudante de Serviço Social/aposentada).

Sim, eu vou em todos os lugares que é possível, mesmo todos os dias tendo dificuldades. Tem momentos que eu vou sozinho para ir a padaria, mercado e quando vou acompanhado é com a D. A maior dificuldade no bairro para a gente é atravessar a rua e depois é padrão o restante do caminho por causa da ciclovia. Para facilitar a vida, eu corto o cabelo aqui mesmo na APADEVI, tem uma moça que disponibiliza este serviço. (C - cego, 32 anos, atleta/aposentado). Sim, sempre acompanhada, não saio sozinha. Tem que estar junto alguém e isso é todos os dias de manhã que estou saindo e a noite. Em relação às ruas do meu bairro tenho bastante dificuldade, as ruas têm desnível, pedras, pregos, vidros. Mas a rua do ponto de ônibus tenho dificuldade, só que é menos, tem os postes do meio do caminho, mas acho normal o poste no meio do caminho, a bengala ajuda a identificar os obstáculos. Agora, a rua da minha casa é realmente bem precária. É que, na verdade, perto da minha casa não tem meio fio, nenhuma base para eu me guiar para chegar ao ponto de ônibus e é só barranco e sempre tem que estar alguém me levando porque não consigo me orientar sozinha. (S - cega, 19 anos, estudante de Direito/aposentada).

A participante com visão baixa “N” tem dificuldades em seu deslocamento, porém, é menos que os demais participantes cegos. Ela costuma andar pelo bairro

sozinha. Para ela, “a facilidade em andar no bairro é saber que as ruas são amplas e não tem tanto movimento de carros”. A participante garante que assim como tem facilidades, tem também dificuldades: “depende muito do estado de espírito de cada um”, ou seja, é preciso manter a força de vontade.

A participante cega “S” relata que seu deslocamento é diário e sempre está acompanhada da casa até o ponto de ônibus para ir a APADEVI. Ela fez referência a esse deslocamento: “tenho bastante dificuldade, as ruas têm desnível, pedras, pregos, vidros. Mas a rua do ponto de ônibus tenho dificuldades só que é menos, tem os postes do meio do caminho, mas acho normal”. Portanto, seu maior problema está na rua de sua casa, pois o meio fio é uma alternativa para ela se orientar: “na verdade, perto da minha casa não tem meio fio, nenhuma base para eu me guiar para chegar ao ponto de ônibus e é só barranco e sempre tem que estar alguém me levando porque não consigo me orientar sozinha. (Foto 31).

Foto 31 - Rua Hara na Vila Santa Mônica –

falta de pavimentação e meio fio dificulta a orientação para os cegos

Fonte: S - cega, 19 anos, estudante de Direito/aposentada

O participante cego “C” menciona se deslocar, na maioria das vezes, com acompanhante, pois não há acessibilidade no bairro: “eu vou em todos os lugares que é possível, mesmo todos os dias tendo dificuldades”. Para ir à padaria, ao mercadinho e ponto de ônibus ele se utiliza da ciclovia, porque tem calçamento, mas“a dificuldade maior é para atravessar a via rápida” como ele já tinha mencionado no subitem anterior. As ruas transversais à via rápida são cheias de buracos e desníveis (Foto 32). O participante procura fazer o máximo do que precisa na Associação que frequenta:

Foto 32 – Deslocamento do cego no bairro através da ciclovia

Fonte: C - cego, 32 anos, atleta/aposentado

As pessoas surdas são o grupo que tem mais autonomia para se deslocar no bairro em relação aos participantes cadeirantes e cegos:

O meio de locomoção no bairro é a pé e de moto. No bairro vou na casa do amigo, as vezes vou sozinho e acompanhado, é os dois, depende da onde vou, tem que ser acompanhado. Eu acho fácil se deslocar no bairro. A dificuldade é mesmo para pedir informações para alguém. É quase impossível à comunicação, então eu vou olhando as placas. São pelas placas que eu me oriento, mas uma vez me perdi. Quando tem árvores cobrindo as placas, tampa as informações e fica difícil, daí não sei mesmo me orientar. (R - surdo, 36 anos, auxiliar de produção).

Sim, eu me desloco mais de carro [tem o carro próprio] e de a pé. Ando pouco porque eu não posso caminhar muito, fico com dor na coluna. Então acabo me deslocando pelo bairro mais de carro, o que é perto vou de a pé. O médico falou que eu tenho que andar pouco e tem que ser devagar. Tem lugares que vou sozinho como nos comércios aqui próximo, mas se for em um lugar que não conheço eu dependo de alguém para ajudar a me comunicar. (A - surdo, 40 anos, Operador de máquinas).

Eu ando mais de a pé, às vezes vou sozinha nos lugares que não precisa se comunicar muito e quando precisa se comunicar a família sempre está junto. Tem mais facilidades do que dificuldades, pois, conheço bem o bairro, a dificuldade é na hora de se comunicar porque não entendo a língua portuguesa, sou um pouco oralizada e não uso a fala labial. (E - surda, 37 anos, serviços gerais).

O deslocamento pelo bairro é realizado pelo participante surdo “R” a pé ou com sua moto. As dificuldades estão em se comunicar: “Eu acho fácil se deslocar no bairro. A dificuldade é mesmo para pedir informações para alguém. É quase impossível a comunicação”. Geralmente, para evitar essas situações ele está sempre acompanhado. Já aconteceu

dele sair de moto e se perder, no desespero e por não conhecer o local não conseguiu se comunicar, só tarde da noite recebeu ajuda. Nas placas das vias públicas as escritas são em português, o que dificulta, pois são poucos os surdos que as compreendem, mesmo os que são oralizados.

Por problemas de saúde o participante surdo “A” desloca-se mais com o carro próprio do que a pé no bairro. Ao mesmo tempo em que tem autonomia para ir a diferentes locais, tem entraves quando precisa se comunicar: “Tem lugares que vou sozinho como nos comércios aqui próximo, mas se for em um lugar que não conheço eu dependo de alguém para ajudar a me comunicar”. As pessoas surdas, para evitar confusões, acabam sempre frequentando os mesmos lugares e ficando conhecidos nestes.

Com a mesma situação dos outros, a participante surda “E” não tem dificuldade no deslocamento, somente para se comunicar: “Eu ando mais de a pé, às vezes vou sozinha nos lugares que não precisa se comunicar muito e quando precisa se comunicar a família sempre está junto”. Tal dificuldade é por ser pouco oralizada e por não dominar a linguagem labial.