CAPÍTULO 1 – APORTE CONCEITUAL
1.5. A multissensorialidade e a hegemonia da visão
De acordo com O’Connel (2010), os seres humanos dependeram da visão ao longo da história, o que acabou impulsionando a arquitetura a ser regida pela visão e pela estética. Como Pallasmaa (2011) destaca, a visão é o único sentido que é rápido o suficiente para acompanhar o ritmo da vida moderna. Desse modo, os espaços foram se tornando visuais, reduzindo ou dificultando possibilidades de explorá-los através de outros sentidos. Para Castillo (2009), a arquitetura contemporânea tem levado os arquitetos a resolverem problemas habitacionais de forma e função, sem considerar os aspectos sociais e psicológicos em termos de conforto humano e sem entender a arquitetura como o conjunto de interações e inter-relações dinâmicas dos sentidos humanos.
Fúnez (2013) alerta que a arquitetura atual se esqueceu de seu principal elemento: o ser humano, pois foi e é concebida para agradar os olhos, considerados como órgãos prediletos, em detrimento de outros sentidos, como o tato, a audição, o olfato e o paladar. Desconsidera-se, assim, o ser humano como um ser perceptivo em todos os sentidos, anulando as possibilidades de percepção do espaço através de sentidos frequentemente ignorados pelos profissionais arquitetos, urbanistas e designers de interiores. Porém, de acordo com Herssens e Heylighen (2007), a predileção pela visão é inerente ao cérebro humano, que é alimentada pela cultura ocidental. Como resultado, estamos diante de uma arquitetura deficiente. Contudo Martínez (1998) acredita que o paradigma ocularcentrista, que resulta na interpretação do mundo através do olho, pode ser enganador.
A hegemonia da visão coloca uma grande parcela da população em desvantagem, sobretudo as pessoas com deficiência visual, que geralmente estão em situações de dependência de terceiros ao confrontar o mundo repleto de referências visuais. Para Pallasmaa (2011), aqueles que têm a visão e a audição são privilegiados, visto que, nas últimas décadas, os projetos de arquitetura foram concebidos sem considerar os demais sentidos por desconhecer a sua potencialidade. Restrepo (1998, p. 31) acrescenta: “Frente a uma percepção mediada pelo tato, gosto ou olfato, o Ocidente preferiu o conhecimento dos exteroceptores, ou receptores à distância, como são a visão e o ouvido. Nossa cultura é uma cultura audiovisual”.
Sousa (2004) sugere que, apesar de as percepções tátil e visual serem diferentes, não devem ser tratadas como antagônicas, mas compreendidas como intercomplementares, pois, conforme Pallasmaa (2011), todos os sentidos são extensões do tato, inclusive a visão.
58 Pallasmaa (2011) critica ainda a maneira como a visão é mais valorizada historicamente em detrimento dos outros sentidos, empobrecendo assim a vivência multissensorial nos meios arquitetônicos e urbanísticos. Para o autor, o corpo humano é considerado como um local de percepção, pensamento e consciência, do mesmo modo como local de referência, memória, imaginação e integração.
Se arquitetos e projetistas criam ambientes “visuais” sem levar em consideração o usuário e a multissensorialidade, essa criação resulta em “espaços distorcidos” por não estarem compatíveis com as necessidades de toda a diversidade dos usuários. Portanto, faz-se necessário reconsiderar a maneira como a arquitetura é concebida e ensinada, criando projetos que provoquem não apenas a visão, como também os demais sentidos, pois o espaço não deve ser apenas funcional, mas deve transcender o mero aspecto físico, em que se pode vivenciar, além da percepção visual, o sentimento de pertencimento ao lugar (HERSSENS; HEYLIGHEN, 2007; PALLASMAA, 2011).
Nesse sentido, Castillo (2009) propõe uma arquitetura centrada na pessoa sem perder a funcionalidade, utilizando critérios de projetos de espaços sensíveis, como um produto emocional e perceptivo da memória, imaginação e senso comum, além de considerar parâmetros de conforto ambiental. Da mesma maneira, a NBR 9050 (ABNT, 2015) também sugere que os parâmetros antropométricos sejam levados em conta, assim como os fatores considerados relevantes para o desenvolvimento de projeto: o contraste visual, a iluminação atentando aos valores da luz refletida, diferentes maneiras de transmitir informações seguindo o princípio dos dois sentidos14, entre outros. É somente a partir da compreensão de como ocorre
a percepção ambiental delas que é possível conceber tais projetos.
Estas experiências ocorrem quando os sentidos, inclusive a visão, podem se fundir de maneira a sentir o espaço como algo vivo e misterioso. Merleau-Ponty (1999) explica que a percepção não é uma soma de pressupostos visuais, táteis e auditivos, pois pode-se perceber de maneira total com todo o corpo. Aldrete-Haas (2007 apud FÚNEZ, 2013, p. 74) acrescenta:
[...] cada sentido explora o objeto à sua maneira, já que cada um corresponde a um âmbito diferente, mas os sentidos comunicam-se entre si; o som modifica a percepção da cor e a cor por si só, cria sensações insuspeitas; ademais, o tato informa à vista. Além disso, a nossa percepção de um objeto ou de um espaço não está apenas relacionada com a sua geometria, como também com a sua matéria, a sua localização, seu ponto de observação, etc. incorpora aos demais sentidos do mesmo modo que a visão. Assim não apenas percebemos nosso meio ambiente (arquitetura e paisagem) com a visão como também com a totalidade do nosso corpo, nesse concerto de sensações dos sentidos e no espaço.
14 A NBR 9050 (ABNT, 2015, p. 30) estabelece que “a informação deve ocorrer através do uso de no mínimo dois sentidos: visual e tátil ou visual e sonoro.”
59 Vermeersch e Heylighen (2013) acreditam que um diálogo entre os profissionais de projeto e as pessoas com deficiência visual pode contribuir para uma abordagem de arquitetura multissensorial. Já Fúnez (2013) recomenda desenvolver um projeto arquitetônico no qual a ausência de visão seja a chave, incorporando sensações que nos levam a outros sentidos.
Para Castillo (2009), diante do império da visão no campo de arquitetura e de urbanismo, faz-se necessário integrar o conceito de arquitetura multissensorial a fim de que todos os indivíduos, com diversas capacidades e limitações, possam desfrutar dos espaços democraticamente.
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