A concepção de natureza humana elaborada por Hobbes não permite que ele possa supor uma transformação interna do comportamento natural humano. A busca pelo “próprio bem” e o “desejo de poder e mais poder” são traços imutáveis da natureza humana. O que o soberano pode fazer é atuar sobre as causas das paixões e das opiniões, mudando assim a opinião dos súditos acerca das vantagens e dos prejuízos em obedecer ao poder instituído. Diante disso, a questão que se impõe é: como fazer com que os homens aceitem as restrições, coações e limitações impostas pelo soberano para garantir a paz? Como compatibilizar, num mesmo plano, o “desejo de poder” e a “busca pelo próprio bem” com a “esperança de alcançar a paz”?379
Parece possível para o Estado afastar a guerra através da coação, restrição e sujeição dos súditos e pelo “temor respeitoso” que ele impõe. No entanto, seria insuficiente para promover a paz duradoura, uma vez que a natureza humana permanece com traços que tendem para a guerra generalizada. Eis então a necessidade de se voltar para a mudança do contexto de inscrição das paixões e interferir nas relações entre os homens para que a disputa pelos objetos de desejo e os
379 “As paixões que fazem os homens tender para a paz são o medo da morte, o desejo daquelas coisas que são
necessárias para uma vida confortável e a esperança de consegui-las por meio do trabalho” (cf. HOBBES, T. Leviatã... 2003, XIII, p.111).
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interesses particulares não sejam motivo de discórdia. Para que isso ocorra, é preciso que a interferência do soberano faça os interesses e os desejos dos súditos convergirem para a obediência civil. Essa interferência parece se dar no âmbito de uma atuação que procura alcançar uma mudança na consciência380 dos súditos. Contudo, é preciso elucidar o significado do termo consciência no interior das obras de Hobbes para que seja possível entender como ele pode ser pensado no contexto de construção da paz.
Quando Hobbes se refere à consciência, ele não compreende o termo como uma instância interna reguladora dos atos e paixões dos homens, tampouco como capaz de portar um “estatuto ontológico superior” que aponte os caminhos a partir dos quais é possível dirigir os atos e vontades humanas. O que ele pretende mostrar com a noção de consciência é o seguinte:
Os homens, quando dizem coisas com base em suas consciências, não são entretanto presumidos certamente a conhecer a verdade daquilo que dizem; resulta, pois, que aquela palavra é usada por aqueles que têm uma opinião, não apenas da verdade da coisa, mas também do seu conhecimento dela, do qual a verdade da proposição é consequente. Defino a consciência, portanto, como a opinião da evidência.381
Nesse sentido, a consciência do súdito nada mais é que sua opinião individual ou um cálculo resultante do emprego de seu raciocínio privado. Ela não possui qualquer substancialidade ou capacidade de se impor diante dos interesses e paixões individuais, ao contrário, ela mesma é um modo privado de exercício do cálculo racional. Qualquer tentativa, como foi apontado acima, de encontrar algum vestígio de internalismo ou essencialismo no pensamento de Hobbes é equivocado. Assim, uma vez mais, o papel de construir a paz recairá totalmente sobre o poder exercido pelo soberano. Ele deve também atuar na consciência dos súditos e, nesse sentido, atingir as opiniões individuais. Mesmo que, como abservamos acima, esse poder não seja capaz de transformar a natureza humana no sentido de educar o cidadão. Isso porque a “educação”382
do súdito não pode ser tomada numa chave que constitua algum tipo de
380 Assim como ressignifica conceitos da tradição como forma, matéria, acidente, essência, Hobbes toma a
consciência (notadamente em Elementos de lei) simplesmente como opinião individual. Para mais detalhes acerca dessa ressignificação dos conceitos da tradição por Hobbes, ver ZARKA, Yves-Charles. Hobbes et son vocabulaire. Paris: Vrin, 1992.
381 HOBBES, T. The elements of law natural & politic... 1969, VI, p. 27, grifo meu. 382
No Do cidadão, Hobbes mostra que os homens não são aptos por natureza a viver em sociedade, a convivência social só se torna possível by trainning. “Therefore, man is made fit for society not by nature, but by trainning
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“autonomia do indivíduo” – como é possível pensar numa vertente iluminista (leia-se Kant, Rousseau) – nem pode ser tomada no sentido de uma “educação para liberdade”.383 De fato, Hobbes chega mesmo a afirmar que “O homem se sobressai aos animais apenas por dar regras a si mesmo only in making of rules to himself, ou seja, porque ele lembra e raciocina corretamente acerca daquilo que lembra”. 384
Tal passagem poderia nos levar a entender que é possível pensar em algum tipo de autonomia do indivíduo, uma vez que Hobbes ressalta que o homem é capaz de dar regras a si mesmo. No entanto, como também fica claro na passagem acima, o autor mostra que essas regras são construídas graças àquilo de que os homens se lembram, ou seja, graças ao que pode ser recuperado pela memória.385 Portanto, a regra à qual Hobbes se refere nessa passagem nada mais é que a recuperação de imagens e lembranças passadas e deixadas na memória de cada homem, ou seja, dar regras a si mesmo no sentido hobbesiano é recuperar sensações evanescentes perdidas na memória e não o resultado de um cálculo racional. Nesse sentido, ainda não estamos no nível do cálculo de nomes que é o instrumento necessário para fundar o campo jurídico. Assim, quando Hobbes afirma que é possível “dar regras a si mesmo”, ele ainda está distante da compreensão forjada um século mais tarde e que pode ser entendida como “autonomia” no sentido propriamente Iluminista do termo. Assim, se não é possível apostar em uma educação para autonomia ou para liberdade, então resta ao soberano a possibilidade de intervir no sentido de conformar hábitos, criar costumes e transformar opiniões através da ação no contexto onde se forma o comportamento humano.
Mesmo que “conformar hábitos” não modifique a natureza humana, nem por isso a solução de Hobbes é ineficaz. Uma vez que a possibilidade de transformar o homem não está em pauta, o autor inglês precisa construir um mecanismo que tenha poder suficiente para convencer os homens a seguirem o caminho da obediência. Como vimos, o exercício do poder soberano se
(HOBBES, T. On the Citizen. Edited by Richard Tuck and Michael Silverthorne. Cambridge: University Press, 2000, p. 25, grifo nosso). Nesse sentido, a educação deve ser pensada menos no sentido “iluminista” de formação do homem ou transformação de sua natureza, e mais no sentido propriamente hobbesiano de treinamento, como propõe a tradução de Richard Tuck.
383 Isso porque Hobbes possui uma noção negativa de liberdade, que nada mais é que “ausência de impedimentos
externos” (HOBBES, T. Leviatã... 2003, XXI, p. 179). Segundo Frateschi, a liberdade se refere sempre à ação e não à vontade, pois o homem “não escolhe a sua escolha”, ou seja, “há causas necessárias que fazem com que os homens queiram o que querem” (sobre essa questão, ver FRATESCHI, Y. A Física da política... 2008, p.103 ss).
384 Cf. HOBBES, T. The questions concerning liberty, necessity, and chance. In: HOBBES, T. The english works of
Thomas Hobbes. London: Scientia Verlag Aalen, 1966. v. 5, p.186.
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dá de forma vertical; ele pode reprimir e conter os súditos – inclusive com a força da espada se preciso for – mas ele pode também agir conformando hábitos e criando costumes. O uso da força, quando necessário, está amparado pelo pacto; por isso, ainda que possa ser visto como “ato de hostilidade” por eventualmente causar dano imediato ao súdito, o ato é legítimo. Isso porque toda ação do soberano é legítima na medida em que sua soberania é absoluta e retira sua legitimidade386 do próprio povo através do contrato. Uma vez estabelecido o contrato, o poder soberano e absoluto se coloca acima dele, verticalizando o exercício do poder no sentido de influenciar a formação da opinião dos súditos.
A ciência com seus princípios e fundamentos não é capaz de convencer todos os homens, e é nesse sentido que o uso da retórica é indispensável para auxiliá-la. Contudo, sustentar tal afirmação não significa que não existe possibilidade de estabelecer uma ciência que seja clara por si mesma, mas sim que nem todos os homens são capazes de enxergar toda a cadeia causal que caracteriza os argumentos científicos. Por isso é preciso lançar mão de outras ferramentas – que pode ser a força ou a formação da opinião, pois ambas possuem legitimidade política – para auxiliar aqueles que não estão aptos, por exemplo, a perceber que a obediência civil é a única forma de construir a paz e afastar a tensão característica do estado de simples natureza. Ou ainda para auxiliar aqueles que concluem racionalmente pela obediência, mas que são desviados dela por suas paixões ou pelas opiniões propaladas nos púlpitos das igrejas ou nos bancos das universidades. Tome-se o exemplo do tolo (fool) que, segundo Hobbes, amparado no raciocínio que leva em consideração o auto-interesse natural, decide não cumprir os pactos, uma vez que descumpri-los “não é contra a razão, nos casos em que contribui para o benefício próprio”.387 Ao agirem dessa forma, isto é, tendo como princípio da ação o “benefício próprio” e descumprindo os pactos celebrados, os tolos acabam por agir contra a própria preservação. Isso porque buscam um bem imediato sem perceberem que esse bem imediato pode vir a ser a causa da sua própria ruína. Descumprir os pactos é dar um passo na direção da manutenção do estado de tensão
386 A relação entre súditos e soberano é como uma relação entre o ator e os autores de um determinado evento. De
tal modo, o soberano é apenas o ator das leis cujo autores foram os súditos. Portanto o poder do soberano advém dos súditos na medida em que “Quanto às pessoas artificiais, em certos casos algumas de suas palavras e ações pertencem àqueles a quem representam. Nesses casos a pessoa é o ator, e aquele a quem pertencem as suas palavras e ações é o AUTOR” (HOBBES, T. Leviatã... 2003, XVI, p.138). A legitimidade do poder soberano repousa, em grande medida, no âmbito da “transferência” de poder presente na relação ator/autor que torna o pacto possível.
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natural.388 Nesse sentido, trata-se de fazer com que os homens enxerguem na obediência e no cumprimento dos pactos um benefício imediato e não uma ameaça. É certo que os homens são capazes de compreender que a “paz é uma coisa boa” e que a “justiça, a gratidão, a modéstia, a equidade, a misericórdia” são “virtudes morais”389
que se constituem em meios para alcançá-la. No entanto, não há, na natureza, nada que obrigue os homens a agirem segundo tais virtudes. Isso porque tais virtudes são ditames da razão e não leis.
A estes ditames da razão os homens costumam dar o nome de leis, mas impropriamente. Pois eles são apenas conclusões ou teoremas relativos ao que contribui para a conservação e defesa de cada um, enquanto a lei, em sentido próprio, é a palavra daquele que tem direito de mando sobre os outros.390
Assim, ainda que a razão dite aos homens certos meios para alcançar a paz, sua força não é suficiente para obrigar os homens a seguirem seus ditames. Invariavelmente os homens agem calculando os benefícios e prejuízos imediatos que suas ações podem produzir. Por isso é preciso uma lei que obrigue de fato e essa lei é a palavra do soberano, na medida em que apenas ele possui o direito de mando sobre os outros.
É preciso entender que mesmo “os pactos, não passando de palavras e vento, não têm nenhuma força para obrigar”. A única força que obriga de fato é aquela “que deriva da espada pública”.391
Nesse sentido, o ponto de partida que pretende edificar um poder político legítimo deve lidar com duas características básicas: uma diz respeito à condição de guerra que deve ser afastada com o advento do Estado soberano; a outra diz respeito a esse homem naturalmente auto-interessado que tende sempre à busca do seu próprio benefício e ao acúmulo de poder. O projeto hobbesiano será bem ou mal sucedido na medida em que conseguir lidar com essas duas variáveis que são constitutivas do quadro social e político. Portanto, a tarefa a ser realizada é
388 “O desejo dos benefícios imediatos obsta o trabalho da razão, e ele [o tolo] não consegue ver que a injustiça é
irracional porque trair os outros nunca será favorável à preservação duradoura de si”. (cf. FRATESCHI, Y. Racionalidade e moralidade em Hobbes... 2009, p.205-206).
389 HOBBES, T. Leviatã... 2003, XV, p. 137. 390
HOBBES, T. Leviatã... 2003, XV, p. 137, grifo meu.
391
Ibid., XVIII, p.151. Segundo afirma Frateschi, “a motivação para agir em conformidade com as leis morais requer a entrada em cena de um agente externo com poder coercitivo que transforma a lei moral em lei civil tornando-a obrigatória”. Isso se faz necessário porque “os princípios morais […] não são internalizados a ponto de os homens se tornarem capazes de impor restrições a si mesmos” (cf. FRATESCHI, Y. Racionalidade e moralidade em Hobbes... 2009, p. 207).
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investigar qual a maneira de dar aos homens a possibilidade de agir de tal forma a construir uma convivência social em que a tensão natural dê lugar à paz, ainda que a natureza humana permaneça a mesma. Em outras palavras, trata-se de construir mecanismos capazes de fazer vigorar a paz entre homens marcados por interesses privados.
Para tentar entender como ocorre essa passagem é preciso investigar como Hobbes concebe o processo de tomada de decisões individuais, ou seja, como os homens deliberam. No cap. XII de Elementos de lei, Hobbes ressalta que “na deliberação o último apetite, bem como o último medo, é chamado vontade”.392
A distinção entre o último apetite e o último medo no processo deliberativo é que “o último apetite é a vontade de fazer, e o último medo é a vontade de não fazer, ou omitir”.393
Desse modo, paixões como o apetite, o medo e a esperança não são voluntárias, uma vez que elas “não procedem da vontade, mas são a vontade.” Isso nos permite afirmar, com Hobbes, que “as causas do apetite e do medo são também causas da nossa vontade”. O que importa aqui é a conclusão a que Hobbes chega a partir dessa reflexão: conceber a deliberação como um jogo entre apetites e medos – em que o último apetite antes da deliberação que antecede a ação é chamado vontade – permite ao autor afirmar que “nossas vontades seguem nossas opiniões, assim como nossas ações seguem nossas vontades. Nesse sentido, falam verdadeira e propriamente aqueles que dizem que o mundo é governado pela opinião”.394 Assim, de uma consideração acerca do jogo passional entre desejos e medos que antecede o momento da deliberação, Hobbes conclui pela afirmação de que a opinião governa os homens.
Situar a opinião como noção central no interior do processo deliberativo traz mudanças importantes também no aspecto propriamente político, especialmente ao tomarmos o contexto de transformações históricas vigentes no século XVII. Ao afirmar que a opinião “governa os homens”, Hobbes contribui de forma decisiva para o processo de ebulição e transformação em que ele está inserido. Nesse sentido, a opinião passa a ser uma noção política central, o que se constitui um passo importante inclusive na crítica ao modelo político tradicional inspirado na “autoridade dos livros”.395
Essa mudança pode ser vista como um processo de abandono de uma
392
HOBBES, T. The elements of law natural & politic... 1969, XII, p.61-62.
393 Ibid., XII, p. 62.
394 HOBBES, T. The elements of law natural & politic... 1969, XII, p. 63. 395
Hobbes crítica a tradição que encontra nos livros a autoridade necessária para construir ciência e instituir poder: “[...] esses que acreditam nos livros […] ou gastam tempo azafamando-se em torno dos seus livros [são] como aves
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época “pré-moderna” para a construção dos primeiros traços de um pensamento “moderno”. Contudo, ao mesmo tempo, é preciso perguntar qual o papel que essa opinião destacada por Hobbes possui no contexto de sua obra política. A reposta a essa questão é um dos pontos chave para o autor inglês.
Porém, antes de investigarmos em que direção ele encaminha sua resposta, é importante ressaltar que Hobbes faz uma distinção entre o aprendizado – que está diretamente ligado ao ensino das experiências vividas por um indivíduo e tornadas evidentes para outro – e a persuasão, que está diretamente ligada à opinião. Se, por um lado, o ensino é a “produção em outrem das mesmas concepções que nós tivemos por nós mesmos,”396 por outro, a persuasão “produz no ouvinte nada mais do que a simples opinião do orador”.397
Dessa distinção, poderíamos ser levados a pensar que há possibilidade de realizar, no âmbito mesmo do convívio social, algo como uma “reforma do homem”. Essa reforma seria possível desde que pautada no ensino diligente e não na mera opinião. Contudo, Hobbes não aposta em tal possibilidade, na medida em que, como vimos, a razão é incapaz de obrigar e impor seus teoremas diante da força das paixões. Além disso, ainda que a razão obrigasse de fato, ela exigiria uma diligência e um esforço que a maioria dos homens não possui. Por isso Hobbes não acredita que seja viável ampliar o ensino – enquanto transmissão evidente de experiências vividas – como forma de organização política. No Leviatã ele aponta que ainda que seja possível demonstrar toda a cadeia de causas e consequências que compõe um raciocínio científico, que seja possível também mostrar onde estão as falhas nos raciocínios dos homens, quais são as virtudes que se originam do raciocínio correto e quais são os defeitos que correspondem ao seu mau uso, ou seja, ainda que seja possível limpar o campo de onde possa brotar uma razão reta enquanto cálculo de nomes, essa possibilidade é restrita a poucos. Isso porque essa tarefa exige um esforço e diligência incomuns nos homens. A ciência, afirma Hobbes, não passa de um
que, entrando numa chaminé e vendo-se fechadas num quarto, adejam em torno da enganadora luz de uma janela, por não possuírem tino suficiente para atentarem por que caminho entraram […] aqueles homens que tiram a sua instrução da autoridade dos livros, e não da sua própria meditação, [são] tão inferiores à condição dos ignorantes quanto são superiores a estes os homens revestidos de uma verdadeira ciência” (cf. HOBBES, T. Leviatã... 2003, IV, p.34-35).
396
HOBBES, T. The elements of law natural & politic... 1969, XIII, p. 64.
146 “pequeno poder”.398
E mesmo no Elementos de lei ele deixa claro que o domínio da verdade é algo restrito e quase sempre resultado de um esforço limitado, posto que “comumente a verdade está do lado de alguns poucos, em vez de estar com a maioria”.399
É por isso que, para os fins de manutenção do poder político, uma das principais questões com as quais o soberano precisa lidar é a opinião, ainda que também seja legítimo e, por vezes necessário, fazer uso da coação e do “temor respeitoso”.
Se considerarmos os homens tal como são em seu estado de natureza no que se refere à sua força e conhecimento e em seu aspecto passional, veremos que eles são guiados pela satisfação dos desejos imediatos e pela busca por poder, o que traz como consequência o medo mútuo. A natureza humana dotou os homens de características tais que a guerra de todos contra todos é o produto mais claro que se pode retirar de sua análise, pois “os homens são, por paixão natural, de diversas maneiras ofensivos uns aos outros, e todo homem pensa o bem sobre si mesmo e odeia (hating) constatar o mesmo nos demais”.400
A exigência de ter reconhecida pelo outro a sua própria força, astúcia e inteligência faz com que os homens tenham como horizonte a expectativa de que o caminho para a satisfação de seus desejos pode ser bloqueada por outro homem. Isso ocorre na medida em que a natureza fornece igualmente aos homens o direito a tudo aquilo que eles mesmos julgarem necessário para a sua auto-preservação. Numa palavra, a natureza dá o direito para que “todo homem possa preservar a sua própria vida e membros, com todo o poder que possui”.401
A consequência desse direito assegurado pela natureza é que “os homens vivem assim em perpétua desconfiança (diffidence) e estudam como devem se preocupar uns com os outros”. Desse modo, a convivência mútua é caracterizada efetivamente como um estado de guerra que “nada mais é do que o tempo no qual há vontade de disputar e contestar por meio da força seja com palavras ou com ações suficientemente declaradas”.402
398 “As ciências são um pequeno poder, porque não são eminentes, e conseqüentemente somente são reconhecidas
em alguns homens e, mesmo nestes, em poucas coisas. Porque é da natureza da ciência que só a podem compreender