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O HOMEM NATURAL: LIBERDADE, PERFECTIBILIDADE E PIEDADE

Uma vez que a pretensão é investigar os contornos do pensamento de Rousseau sob a perspectiva do Iluminismo, buscando compreender onde ambos se aproximam e onde se distanciam, começo esta análise pela investigação das características da natureza humana. O intuito é de trabalhar especialmente as noções de liberdade, perfectibilidade e piedade natural, de modo mais específico em duas obras: no Segundo discurso e no Contrato social.

Assim, seguirei uma distinção proposta por Starobinski, que divide as obras de Rousseau em dois grupos fundamentais: o primeiro diz respeito àquelas responsáveis por “identificar os males das sociedades” que incluiria, especialmente, os dois primeiros discursos (sobre as Ciências e as artes e sobre a Desigualdade entre os homens) e a Carta a D'Alembert; o segundo grupo (composto especialmente pelo Contrato social,Nova Heloisa, Emílio e os tratados para reforma dos governos da Córsega e da Polônia) seriam daquelas “obras conciliatórias que indicam sob quais condições os remédios e paliativos podem agir”.483

Neste trabalho, o primeiro grupo (principalmente o Segundo discurso) será tomado no sentido de identificar os males que o distanciamento da natureza e o surgimento da opinião, via comparação e estima pública, causam nos homens; o segundo grupo será tomado como uma proposta de redefinir os princípios políticos (Contrato social) e como “aplicar” tais princípios à realidade da prática política (Considerações sobre o governo da Polônia). Essa abordagem tem como objetivo, de um lado, salientar os aspectos nos quais Rousseau aposta enquanto capacidade de reformar um Estado pelos princípios racionais do direito político, o que o aproxima do “espírito iluminista”; de outro lado, apontar os aspectos que Rousseau critica em relação à efetivação desses princípios no plano histórico ou prático, sem, contudo, abandoná-los. Esse movimento constante de afirmação e crítica, que

483 Cf. STAROBINSKI, J. The accuser and the accused. Daedalus: Journal of the American Academy of Arts and

Sciences, 1978, p. 42. O autor fala também em um terceiro grupo de obras onde Rousseau se colocaria na posição de acusado. No entanto, para análise que pretendo seguir, as duas primeiras divisões são as mais relevantes.

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atravessa todo o pensamento de Rousseau, é que constitui o que pretendo nomear de Iluminismo relutante.

No trabalho escrito para o concurso da academia de Dijon, publicado em 1755, Rousseau procura fazer uma descrição da passagem do modo de vida do homem natural para o modo de vida do homem em sociedade, organizada jurídica e politicamente. Como aponta Salinas Fortes, o Segundo discurso mostra a “reconstituição dinâmica e dramática que oporá um ‘estado de natureza’ a um ‘estado de sociedade’, [recriando assim] os sucessivos cenários intermediários que conduziram de um termo a outro”.484

Para tanto, Rousseau recorre à descrição capaz de revelar que, ao contrário do que pretenderam mostrar outros filósofos, notadamente Thomas Hobbes, a natureza humana não fornece motivos ou características que nos permitam dizer que as relações estritamente naturais são pautadas pelo medo, pela competição e pela busca incessante de poder. O que ocorre, segundo Rousseau, é exatamente o inverso, isto é, se examinarmos com a retidão necessária a constituição da natureza humana e dos sentimentos que lhe correspondem, torna-se clara sua completa harmonia com a natureza e com os outros homens.485 Para Starobinski, nesse estado de “inocência original”, Rousseau mostra que “o homem não sai de si mesmo”, ou seja, ele não abandona o momento presente e por isso “vive no imediato”. Assim, “se cada sensação é nova para ele, essa descontinuidade aparente é somente uma maneira de viver a continuidade do imediato”.486

Portanto, o “melhor dos mundos” seria a manutenção dessa relação harmônica e pacífica. No entanto, o que se verifica é a corrupção crescente dos sentimentos naturais e o surgimento de paixões que distanciam progressivamente o homem da natureza. Esse distanciamento afasta a paz natural, traz a guerra e a competição, de onde surge então a necessidade de se construir regras sociais capazes de guiar os homens para um convívio recíproco e pacífico. Porém, esse convívio não é mais como aquele prescrito pela natureza, mas sim aquele construído por um acordo comum entre os homens. Desse modo, a política surge no espaço criado pela corrupção dos sentimentos naturais, isto é, ela nasce para construir as bases da

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SALINAS FORTES, L. R. Rousseau: o bom selvagem. São Paulo: FTD, 1989, p. 39.

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Para corroborar essa afirmação vale a passagem com a qual Rousseau abre sua principal obra sobre educação; no Emílio, ele ressalta que “Tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas, tudo degenera nas mãos do homem” (Cf. ROUSSEAU, J-J. Émile ou De l’éducation. In: ROUSSEAU, J-J. Ouvres Complètes. Paris: Bibliothèque de la Pléiade, Gallimard, 1969. v. IV, p.9).

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convivência social, uma vez que a harmonia natural se perdeu com a corrupção de tais sentimentos. De acordo com Salinas Fortes, o pensamento de Rousseau opera sempre “segundo um esquema dicotômico – estado de natureza ou estado de sociedade – que o aproximou muito mais dos filósofos políticos do que dos metafísicos”. No interior desse esquema dicotômico, o autor genebrino pretende compreender, segundo Salinas, “como seria o homem antes da passagem para a vida em sociedade”. Somente após estabelecer quais seriam os princípios que regem o homem natural é que Rousseau pode “distinguir entre aquilo que ele deve a seu próprio fundo primitivo e natural, e aquilo que ele recebeu artificialmente ou deve ao livre – e, portanto, falível – uso das suas faculdades”.487

Para descrever esse movimento de distanciamento da natureza por meio da corrupção dos sentimentos, Rousseau investiga o homem em duas dimensões: a dimensão física e a metafísica. No que se refere ao primeiro aspecto, é possível sustentar que não há grandes distinções entre um homem e um animal, uma vez que ambos sofrem a influência de instintos naturais como sede, fome, desejos sexuais etc. Os homens não possuem nenhum instinto que seja exclusivo da espécie, porém são capazes de reunir de uma só vez todos os instintos animais. Com isso, eles podem satisfazer, com muito mais facilidade, todos aqueles desejos de subsistência que os animais satisfazem com muita dificuldade, por vezes até com o sacrifício da própria vida. Deixados ao sabor das intempéries da natureza, os homens tornam-se robustos e resistentes, fazendo do próprio corpo sua única ferramenta, e dessa forma carregam consigo tudo o que necessitam para a sobrevivência.

Frequentemente, o homem natural não teme os animais que fisicamente o superam em força, não apenas porque ele possui forma robusta produzida pelo próprio modo de vida simples tipicamente natural, mas também porque ele percebe que é possível superar a força física de um animal pela destreza e agilidade. Além do que, após um ou dois enfrentamentos, será possível aprender os principais comportamentos de um determinado animal, e assim ser capaz de aperfeiçoar o modo de enfrentá-lo. No caso de ataque de um animal que tenha força extremamente maior que a dos homens, é facultada a recusa do confronto, de tal modo que sempre é possível se refugiar numa árvore ou outro abrigo natural qualquer. Portanto, do ponto de

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vista das relações naturais, não há razão para deduzir qualquer tipo de tensão originária. Segundo Starobinski, Rousseau concebe a natureza humana como pré-moral; no entanto, atribui ao homem “retrospectivamente a qualificação moral da bondade”, ou seja, Rousseau confere “um valor de verdade à experiência pré-reflexiva, que ele supõe perfeitamente passiva”. Desse modo, se considerarmos o homem no estado de natureza, “em que se supõe que [ele] viva aquém da distinção do verdadeiro e do falso, Rousseau concede o privilégio da posse imediata da verdade”.488

Assim como os homens em estado de natureza não têm motivos para disputas entre si, os animais também jamais guerreiam com o homem exceto em ocasião de fome extrema, e nesse caso os homens têm sempre a possibilidade e a liberdade de se refugiarem recusando o confronto. Isso porque não precisam recorrer a nenhum elemento que não carreguem consigo mesmos, tais como a agilidade na corrida e a força para alcançar abrigos que os proteja de qualquer eventual ataque. Mesmo a disputa por alimentos não é capaz de gerar guerra ou tensão; a natureza possui em abundância tudo que o homem necessita para satisfação dessa necessidade fundamental. Se tiver sede, haverá riachos e lagos suficientes para que dessa necessidade não brote disputas; se tiver fome e for intimidado por um homem mais forte ou um animal violento, sempre poderá abandonar aquele local em direção a outra árvore que forneça o fruto necessário para seu sustento. Esses exemplos de relações naturais básicas, que se situam no âmbito da simples procura da satisfação dos desejos e necessidades mais fundamentais, pretendem mostrar que não há na natureza nenhum motivo para temer a relação entre homens e animais, tampouco entre os próprios homens. A liberdade de poder fugir de um eventual confronto, a possibilidade de aperfeiçoar-se diante de eventuais conflitos e, principalmente, o fato de que a natureza tudo fornece para satisfação dos desejos e necessidades humanas depõem a favor de uma vida solitária, tranquila e em harmonia com a natureza.

Do ponto de vista da constituição física, os homens possuem força e habilidade suficientes para evitar qualquer confronto com os animais. Alia-se a isso o fato de que a natureza lhes oferece os recursos necessários para sobrevivência pacífica e harmônica. Diante desse quadro, é possível observar que a constituição natural dos homens foi suficientemente arquitetada. Ora, se

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todos são iguais no tocante às possibilidades e necessidades naturais, não há razões que possam gerar nos homens conflitos ou tensões; por isso sua vida nesse estado é totalmente livre de disputas e se desenvolve de maneira pacífica. Ao permanecerem entregues à própria sorte, os homens estariam sempre em harmonia com a natureza, satisfazendo todas as suas necessidades, sem que fosse preciso recorrer a qualquer artifício que não as ferramentas dispersas na própria natureza. Quase sempre “desocupado”, mas também sempre próximo do perigo, o homem natural, bem como os animais, tem o sono leve, pensa pouco e dorme quando não está pensando, de modo que a própria conservação é sua grande preocupação. As faculdades mais exercitadas são aquelas que têm por objetivo o ataque ou a defesa própria. Ele não possui qualquer delicadeza de costumes, uma vez que os órgãos responsáveis pela lassidão e pela sensualidade não são exercitados. Desse modo, Rousseau descreve o homem natural e entende que “esse é o estado animal em geral e também [...] da maioria dos povos selvagens”.489

No entanto, esse quadro de completa harmonia – do qual certamente [o homem] saiu “por qualquer acaso funesto” – não se perpetuou, e os homens pouco a pouco se afastaram das relações naturais de simples satisfação das necessidades estritamente constitutivas de si mesmos.490 É curioso o número de vezes em que Rousseau se ampara no “acaso” para explicar algumas passagens no texto do Segundo discurso. Ele atribui ao “acaso funesto” o abandono da relação de harmonia entre homem e natureza. Do mesmo modo, a descoberta e o domínio do fogo pelos homens foi efeito de um “acaso feliz”.491

Chamo a atenção para esse aspecto não no sentido de tentar compreender o peso dessa noção no processo de passagem do homem natural para a vida social. O que realmente deve ser destacado é que a noção de “acaso” nos ajuda a entender que essa descrição do homem natural parece ser muito mais uma hipótese extremamente bem fundamentada, com intenção de justificar um projeto político futuro que será desenvolvido principalmente no Contrato social, do que a descrição de uma realidade histórica existente. Ainda que Rousseau tenha se preocupado com inúmeros relatos históricos de viajantes que apontavam os selvagens de tribos indígenas na América, ou habitantes das florestas do continente africano, como exemplos do homem natural que ele descreve no Segundo discurso.

489 ROUSSEAU, J-J. Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes... Pléiade, 1964,

III, p.140-1 (edição brasileira, p. 242).

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Ibid., III, p. 171, grifo meu (edição brasileira, p. 264).

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O primeiro signo desse afastamento foi a criação de ferramentas (machado, escadas, etc.) e a utilização de animais (especialmente os cavalos) com intuito de aumentar seu poder diante de eventuais perigos. Com a posse de machados, os homens não precisam exercer seus músculos para retirar uma árvore do caminho; com uma escada já não precisam se esforçar para alcançar os frutos mais altos e com o uso do cavalo se faz desnecessário o aperfeiçoamento da corrida. A partir de então, aquele homem robusto e independente, que carregava consigo todas as ferramentas necessárias para a satisfação de seus desejos naturais, torna-se agora dependente do auxílio de pequenos objetos para realizar as tarefas de seu cotidiano.

Ao lado do auxílio dessas ferramentas para a realização de funções específicas, o surgimento da medicina também contribui para o distanciamento da natureza. Para Rousseau, os males que a natureza traz, ela mesma se encarrega de solucionar; uma ferida causada em um confronto com um animal ou com outro homem é curada ao fim de algumas semanas ou meses;492 assim se mostra desnecessária qualquer outra intervenção que não seja a mão da própria natureza. Além do que, “por mais útil que possa ser entre nós a medicina bem administrada, será sempre certo que o selvagem doente, abandonado a si mesmo, nada espera da natureza [...] senão o seu mal, o que frequentemente torna sua situação preferível à nossa”.493

Entretanto, para além de sua constituição física, há também no homem uma dimensão metafísica, e nela residem três características humanas que são fundamentais para estabelecer a completa descrição do homem natural, a saber: a liberdade494, a perfectibilidade humana e a piedade natural.