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Em Luta por reconhecimento, Axel Honneth procura construir uma nova proposta para solucionar as dificuldades apresentadas até então pela Teoria crítica, especialmente aquelas presentes no pensamento de Habermas. Nessa nova proposta, a questão do conflito social passa a ser central. Como aponta Marcos Nobre a respeito do diagnóstico de Honneth, haveria nos conflitos sociais contemporâneos uma “experiência de desrespeito social, de ataque à identidade pessoal ou coletiva”.192

Nesse sentido, apenas uma luta por reconhecimento seria capaz, segundo o próprio Honneth, de proporcionar uma “aquisição cumulativa de autoconfiança, auto-respeito e autoestima [pois só assim] uma pessoa é capaz de se conceber de modo irrestrito como um ser autônomo e individuado e de se identificar com seus objetivos e seus desejos”.193

Porém, para chegar a essas conclusões, o autor alemão recua na história da filosofia com intuito de identificar as primeiras formulações teóricas modernas acerca do conflito social. E nesse momento ele se depara com Maquiavel e Hobbes.

Segundo Honneth, o processo de transformação social que ocorreu no fim da idade média e início da modernidade foi guiado especialmente pelo surgimento de novos “métodos de

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MELO, R. S. Sentidos da emancipação... 2009, p.18.

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comércio, o surgimento da imprensa e da manufatura e por fim a autonomização de principados e de cidades comerciais”. A partir desse movimento histórico que se desenvolve no interior das sociedades dos séculos XV e XVI, as categorias tradicionais já não explicavam os novos contornos da vida social. Maquiavel nota essa transformação e substitui, segundo Honneth, “as premissas antropológicas da tradição filosófica ao introduzir o conceito de homem como um ser egocêntrico”.194

A principal consequência política dessa nova noção de homem é que as ações dos indivíduos passam a ser “orientadas ao êxito” e, desse modo, o “estado bruto de toda vida social [não designa outra coisa senão] os pressupostos estruturais da ação bem-sucedida por poder”. A questão a ser resolvida a partir de então é saber como direcionar o conflito em favor do poder estabelecido, ou nas palavras de Honneth, “saber de que maneira o conflito ininterrupto entre os homens pode ser habilmente influenciado em favor dos detentores do poder”. Com essa formulação, Honneth pretende mostrar que tipo de mudança Maquiavel representou nesse período de transição para o pensamento moderno, especialmente no âmbito da política. Assim, com o autor florentino torna-se manifesta pela primeira vez, segundo Honneth, “a convicção filosófica de que o campo da ação social consiste numa luta permanente dos sujeitos pela conservação de sua identidade física”.195

Foi preciso mais de um século para que houvesse uma mudança desse quadro pintado por Maquiavel. Tal mudança viria apenas com Hobbes, na medida em que ele substitui “a convicção ontológica básica” de Maquiavel por uma forma “madura de uma hipótese cientificamente fundamentada”. Essa hipótese foi possível, segundo Honneth, graças às “experiências históricas e políticas da constituição de um aparelho estatal moderno [e] uma expansão maior da circulação de mercadorias”. Mas também e, principalmente, graças ao “modelo metodológico das ciências naturais [que alcançou] validez universal” nesse pouco mais de um século que separa Maquiavel de Hobbes.196

194 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... 2009, p. 32. 195

Ibid., p. 33.

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A partir de Hobbes, as bases da política retiradas da observação cotidiana do comportamento dos homens se amparam em premissas científicas197 ou, nas palavras de Honneth, em “enunciados científicos sobre a natureza particular do homem”.198

Desses enunciados, derivam consequências políticas que levam Hobbes a oferecer, como solução para o conflito natural, a construção de um Estado soberano fundado na submissão necessária dos cidadãos ao poder estabelecido. Para Honneth, a soberania absoluta proposta por Hobbes foi a solução que o autor inglês encontrou para lidar com “as consequências negativas manifestas [pela] situação duradoura de luta entre os homens, [pelo] temor permanente e desconfiança recíproca”.199 Assim, de acordo com Honneth, tanto Hobbes quanto Maquiavel partilham das mesmas premissas sociais no que diz respeito ao “conceito subjacente de ação política”, ou seja, ambos “fazem da luta dos sujeitos por autoconservação o ponto de referência último de suas análises teóricas”.200 A diferença reside no caráter mais “científico” que Hobbes atribui ao conflito social.

Mais adiante, quando retoma o jovem Hegel e sua apropriação da filosofia hobbesiana para explicar as raízes das lutas por reconhecimento, Honneth mostra que uma luta que transcorre exclusivamente no sentido da “preservação do ser físico” não pode ser tomada como luta por reconhecimento. E ainda, continua ele, se os sujeitos “precisam abandonar e superar as relações éticas nas quais eles se encontram originalmente”201

, então a luta que procede daí é antes de tudo um “acontecimento ético”, na medida em que “objetiva o reconhecimento intersubjetivo das dimensões da individualidade humana”.202

Com essa crítica do modelo hobbesiano de luta social, Honneth aponta que Hegel introduz, de fato, um novo modo de compreender as lutas sociais. Esse novo modo se torna claro na medida em que “o conflito prático entre sujeitos pode ser

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Ainda acerca da especificidade do Estado moderno trazida por Hobbes, vale destacar que Habermas também vê no autor inglês o fundador de uma filosofia cientificamente construída que estabelece de uma vez por todas as condições para o correto ordenamento do Estado e da sociedade (cf. HABERMAS, J. The classical doctrine of politics. In: HABERMAS, J. Theory and practice. Boston: Beacon Press, 1973, p.43).

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HONNETH, Axel, op. cit., p. 34.

199 Ibid., p. 35. Eu acrescentaria também, entre as razões que fizeram Hobbes decidir por uma soberania absoluta, o

fato de que, para ele, a natureza humana não pode ser transformada. O autor inglês não acredita que as características fundamentais da natureza humana, que podem levar os homens à guerra generalizada, possam ser modificadas por uma educação pública ou qualquer outro projeto de reforma cultural. De todo modo, trabalharei essa questão com mais detalhes no capítulo III.

200 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... 2009, p. 35. 201

Ibid., p .48.

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entendido como um momento do movimento ético no interior do contexto social da vida”.203 Aqui é importante notar que, para criticar o modelo hobbesianno de tensão natural e construir um modelo de luta que pode ser visto como um “momento do movimento ético no interior do contexto social”, Hegel precisou, segundo Honneth, “fazer uma associação pessoal de motivos hobbesianos e fichtianos”204

e também aceitar “como uma espécie de base natural da socialização humana um estado que desde o início se caracteriza pela existência de formas elementares de convívio subjetivo”.205 Foi preciso ainda incorporar ao pensamento hobbesiano um projeto aristotélico que destaca a “existência de um vínculo social entre os sujeitos”.206

Essas evidências apontam que Hegel precisou, segundo Honneth, acrescentar elementos teóricos distintos e até mesmo antagônicos ao pensamento de Hobbes para ser capaz, então, de compreender o conflito social moderno, a partir do modelo tematizado pelo autor inglês, como um “movimento ético”.207

Se, por um lado, Honneth pode dizer que Hobbes pode ser visto como o autor que legitimou o poder no Estado moderno através de “enunciados científicos sobre a natureza particular do homem”, por outro lado, o autor alemão aponta que Hobbes não tematizou criticamente as consequências que tal poder é capaz de gerar, especialmente quando é exercido de forma vertical por um soberano Leviatã. Quem primeiro realizou, segundo Honneth, esse trabalho de criticar as patologias produzidas pelo Estado moderno foi Jean Jacques Rousseau. Assim, por um lado, Hobbes estava primeiramente interessado nas “condições jurídicas que permitiam ao Estado absolutista assegurar toda autoridade e estabilidade necessária a fim de pacificar uma situação marcada pela guerra civil religiosa”.208

Por seu turno, Rousseau procurava pelas “causas da corrupção da sociedade civil [e não pelas] condições que permitiam garantir sua estabilidade”.

203 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... 2009, p. 48. No entanto, para o meu propósito neste trabalho, o

que é preciso reter é o modo cientificamente moderno com o qual Hobbes tematiza o conflito social enquanto um conflito pautado pela preservação da vida. O que me interessa é mais o Hobbes fundador do Estado moderno e menos o projeto honnethiano de encontrar, via jovem Hegel, as raízes teóricas do conflito por reconhecimento eticamente mediado. Tal reconhecimento ético só pode ser alcançado após o acréscimo de outros aspectos teóricos que, de partida, são estranhos ao pensamento de Hobbes.

204 Ibid., p. 48. 205 Ibid., p. 43. 206

Ibid., p. 41-2.

207

Como veremos no capítulo II, Hobbes não concebe a existência de qualquer vínculo ético entre os homens que vá além da relação instrumental, isto é, a consideração ou reconhecimento do outro, segundo Hobbes, ocorre sempre em função da satisfação do próprio indivíduo. A psicologia auto-interessada do homem hobbesiano é radical a ponto de não permitir qualquer reciprocidade natural ou reconhecimento ético entre os homens.

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Como bem mostra o autor alemão, no período que separa Hobbes de Maquiavel – por volta de um século – um “processo de modernização capitalista fez progressos tais que uma esfera civil de economia privada pôde se desenvolver às sombras do Estado absolutista”. Tal processo se desenvolveu “no interior de um espaço público formado por uma burguesia emergente, que reunia na França os representantes esclarecidos da nobreza e que, inclusive, nem sempre tinham a possibilidade de exercer influência política”. Desse modo, explica Honneth, “surgiu uma forma de vida social que Hobbes não pôde perceber enquanto tal”,209

mas que Rousseau, como veremos mais adiante, foi capaz de notar.

Chama atenção, na obra maior de Honneth, que reina um silêncio do autor em relação à importância de Rousseau, enquanto autor moderno, para pensar a ideia de reconhecimento. Quando reconstrói as bases da filosofia moderna para retomar a noção de reconhecimento, Axel Honneth recorre criticamente à filosofia mecanicista de Hobbes, que pouco ou quase nada pode oferecer nesse sentido, mas não analisa textos de Rousseau que, nos parece, oferecem mais indícios que apontam para necessidade de certo sentimento de “reciprocidade”. Apenas no texto sobre as “Patologias do social”, que veremos adiante, é que Honneth retoma o pensamento de Rousseau, mas dessa vez no sentido de situá-lo como precursor da filosofia social. Contudo, tratarei dessa questão no capítulo III, quando analisarei mais detidamente o pensamento de Rousseau.