1. Perspectiva teórico-metodológica
1.4. A noção de fórmula em Dominique Maingueneau
Dominique Maingueneau deu vasta contribuição à AD, reafirmada em suas elaborações teóricas pela inseparabilidade entre texto e quadro social, bem como de sua produção e circulação. Esse linguista traz ao leitor novos conceitos como: discursos constituintes, sobreasseveração, hiperenunciador, destacabilidade e particitação. Conceitos estes destinados a propiciar análises que expressam a convergência entre componentes históricos e linguísticos. Em nosso caso, mobilizaremos o conceito de citação e destacabilidade para tratar de nosso material de análise.
Maingueneau (2008) começa sua inquietação teórica acerca da citação e da destacabilidade partindo do que ele chama de “constatação banal”, algo que o faz postular que na sociedade circula constantemente um grande número de enunciados curtos, que são facilmente memorizados e cujo significado e significante são considerados no interior de uma organização pregnante. Segundo o autor, esses elementos circulantes na sociedade derivam em dois tipos de fórmulas: i) as de circulação restrita a algumas comunidades; ii) as de circulação em vários setores do espaço social, algo da ordem de uma “citação célebre”. Para esses dois grupos de citações, há também dois tipos de funcionamentos, dos quais elas podem fazer parte. Assim, as fórmulas funcionam como enunciados autônomos (sendo interpretadas segundo seu sentido imediato, numa interação entre locutores que não são especialistas no tipo de discurso que originou a fórmula) e também como fórmulas citadas para marcar um posicionamento específico que se opõe implicitamente a outros.
Do grande número de enunciados que circula e que funciona como fórmulas, Maingueneau debruça-se a perscrutar aqueles que foram retirados de textos mais amplos, para melhor efetuar a análise da mecânica de destacabilidade e/ou citação. Porém, a destacabilidade desses enunciados não se aplica a qualquer material verbal, uma vez que temos numerosas fórmulas que correspondem a enunciados que, em seu texto base, apresentavam-se como destacáveis e outros que, por sua vez, não possuem propriedades de destacabilidade, todavia podendo vir a adquirir o estatuto de fórmula ainda assim.
Para exemplificar os enunciados que aspiram à destacabilidade, Maingueneau trata dos casos advindos das máximas do teatro clássico do século XVII por,
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justamente, apresentarem uma das características de ascensão a fórmulas, ou seja, serem enunciados de curta extensão, bem estruturadas, de modo a impressionar por serem facilmente memorizáveis e reutilizáveis a qualquer tempo e contexto. Embora o conteúdo possa não ser original, o enunciador oferece uma máxima “inédita” como se fosse o eco, a enésima retomada de uma sentença que já seria conhecida e evidente a qualquer espaço-temporal. Assumem as máximas, então, duas propriedades: o ineditismo e o caráter imemorial:
É precisamente nesse ponto que se encontra o núcleo do efeito buscado: o personagem produz algo memorável, isto é, um enunciado digno de ser consagrado, antigo de direito, novo de fato. É porque é digno de ser antigo que pode aspirar a um estatuto “monumental”. Ele inaugura, em refluxo, uma série ilimitada de retomadas, apresentando- se como o eco de uma série ilimitada de retomadas prévias. Esse tipo de enunciado visa, portanto, produzir na realidade aquilo que não passa de uma pretensão enunciativa: apresentando-se como uma sentença já pertencente a um saber partilhado, ele prescreve justamente por isso mesmo sua retomada ilimitada. (MAINGUENEAU, 2008, p. 77-78)
As máximas heroicas, embrenhadas nas mesmas instâncias das teatrais, ao se configurarem como portadoras deste paradoxo, no qual se entrecruzam no ato de enunciação a prescrição de si mesmo e também a todos, chama-nos a atenção, pois este ato (eu/todos) nos remete à proposta de uma narrativa para o acontecimento, onde o herói só constrói sua identidade na existência plural de si mesmo e de outros. Ou seja, o que Maingueneau nos coloca é que herói seja aquele que, na atualidade de sua enunciação, manifeste sua autonomia, aquele que por seu dizer prescreva a si mesmo e que, no mesmo movimento, prescreva a todos. Dessa forma, o herói exprime a universalidade do Sujeito Universal na singularidade do Eu enunciador:
Na condição de multiplicidade dos atos singulares que têm valor de obras, a narrativa do acontecimento é onipresente no curso das ações. Define, ao mesmo tempo, as formas singulares dessas ações e sua dimensão universalizante; ela as torna visíveis, legíveis e comunicáveis. A isso corresponde dizer que toda e qualquer pessoa (ator, protagonista, espectador, etc.) participa da narrativa do acontecimento, co-constrói esse acontecimento. De modo algum redutível ao valor referencial de um saber ou à efetividade de um dizer, ela tem à sua disposição sua própria eficiência em um mundo onde se confortam o Eu e a linguagem exterior a qualquer reificação das coisas, distante, portanto, da transformação comum dos valores em produtos.” (GUILHAUMOU, 2009, p.138)
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Ainda na esteira de Maingueneau, há outros enunciados destacáveis a partir de textos filosóficos. Este processo acontece de algumas maneiras: pelo paratexto – (elementos que preenchem os entornos de um texto propriamente: textos de capa e contracapa; dizer se é um livro de contos, romance, ficção científica; quem escreve o prefácio, quem assina como autor etc.), pelo texto propriamente dito, pela embreagem enunciativa, pela estruturação pregnante de seu significado, pelo metadiscurso et cetera. No espaço filosófico, a fórmula participa de três dimensões, a saber: a) campo, por marcar um posicionamento e pela singularidade de uma doutrina assinada; b) arquivo, ao se inscrever em uma memória; c) redes de práticas.
Ademais, as fórmulas filosóficas atuam em dois planos, em enunciados autônomos e em fragmentos extraídos de um determinado texto, e é também por esta razão tomada no interior de uma tensão constitutiva. O teórico francês atesta que a fórmula filosófica é fadada ao desdobramento, que a projeta sobre a doutrina da qual participa.
Além desses conceitos sobre citação e destacabilidade, une-se teoricamente a eles a noção de sobreasseveração e sobreasseverador, elementos que se caracterizam pela construção de um enunciado de estrutura pregnante e que possuem o estatuto de um condensado semântico, implicando uma “amplificação” da figura do enunciador. Tal fenômeno, segundo Maingueneau (2008), está presente principalmente nas mídias contemporâneas, sobretudo por meio dos slogans, enunciados breves que são retomados constantemente nos programas de informação: “De fato, é impossìvel determinar se esses slogans são assim porque os locutores dos textos de origem os quiseram assim, isto é, destacáveis, fadados à retomada pelas mídias, ou se são os jornalistas que os dizem dessa forma para legitimar o seu dizer.” (MAINGUENEAU, 2008, p. 83).
Este conceito de sobreasseveração nos possibilita problematizar as mídias como espaço em que se legitima a e pela tomada do outro, isto é, seu modo de dizer busca uma adesão do interlocutor, e o papel do sobreasseverador, para isso, é fundamental, pois, por intermédio de seu ethos – uma das instâncias da cena enunciativa, em que se tem um tom, uma vocalidade que constroem a imagem de si, seja o locutor, seja o discurso ou a voz de um dado texto, para outros – ele mostra o que diz e induz ao outro a posicionar-se conforme o que foi dito.
Pelo que podemos compreender, Maingueneau nos apresenta a fórmula como um elemento do discurso que joga com a tomada de posicionamento no interior das discursividades, principalmente quando pensado sob o conceito de sobreasseveração,
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pois, ao construir um discurso, o enunciador cria uma imagem de si através de seus argumentos, que visa à “tomada” do Outro. Isso vai configurar no que o estudioso denomina de polêmica, algo constitutivo do discurso:
Poderíamos dizer que a polêmica é necessária porque, sem essa relação com o Outro, sem essa falta que torna possível sua própria completude, a identidade do discurso correria o risco de se desfazer. É inegável, mas a essa se junta outra razão, a saber, a necessidade de mascarar a invulnerabilidade do discurso. (MAINGUENEAU, 2008, p.113).