Pedimos paciência ao leitor para produzir as últimas linhas deste capítulo, reservadas aos direitos fundamentais.
355 SILVA, Virgílio Afonso da. Interpretação constitucional e sincretismo metodológico. In: SILVA, Virgílio Afonso da (org.), Interpretação constitucional, São Paulo: Malheiros, 2005, pp. 129.
356 Cf. jurisprudência selecionada pelo próprio autor: STF. Cf., por exemplo, RTJ 126, 48 (68 s.); 143, 57 (59);
146, 461 (465); 153, 765 (768); 161, 739 (745); 175, 1137 (1139); 177, 657 (663); 178, 22 (23, 29 s.). SILVA, Virgílio Afonso da. Interpretação constitucional e sincretismo metodológico. In: SILVA, Virgílio Afonso da (org.), Interpretação constitucional, São Paulo: Malheiros, 2005, pp. 129.
Os direitos de subsistência, prestados na seara da previdência social, objeto desta tese, constituem direitos de prestação, que envolvem uma medida positiva a ser concedida pelo Estado na forma de benefício (valor em dinheiro) voltado à subsistência do indivíduo, em respeito a sua dignidade. Lidam com a solidariedade, pois caminha rumo à igualdade entre os desiguais.
À guisa de fechamento deste capítulo, trazemos, uma vez mais, à colação as palavras de Paulo Bonavides:
Ontem, a Europa e a América do século XIX testemunharam a abertura da era constitucional, na idade moderna, em termos de universalismo.
Mas os dois Continentes inauguravam, em verdade, durante as primeiras décadas daquele século, um constitucionalismo de vocação programática e idealista, inspirado no contrato social, doutrinário e abstrato, filosófico e racionalista, desde as nascentes.
Hoje, o Ocidente, ao revés, assiste ao advento irresistível de outro constitucionalismo – o da normatividade –, dinâmico e evolutivo e, ao mesmo tempo, principiológico e fecundo na gestação de novos direitos fundamentais.
A concretização e a observância desses direitos humanizam a comunhão social, temperam e amenizam as relações de poder; e fazem o fardo da autoridade pesar menos sobre os foros da cidadania.
O novo Estado de Direito das cinco gerações de direitos fundamentais vem coroar, por conseguinte, aquele espírito de humanismo que, no perímetro da juridicidade, habita as regiões sociais e perpassa o Direito em todas a suas dimensões357.
Não faria sentido elaborar uma tese de direito constitucional acerca do tema sem que o intuito maior não fosse trazer os direitos fundamentais – aqui, especialmente os sociais – do campo programático e idealista ao mundo da normatividade e da concretização.
Para alcançar tal fim, cabe ao operador do Direito valer-se da interpretação constitucional, é dizer, cabe valer-se da redobrada atenção aos direitos fundamentais sob a perspectiva constitucional, com foco na necessária eficácia dos princípios de justiça social, para a solução dos problemas enfrentados pela PCD no âmbito da previdência social.
Esse caminho passa pela análise da ordem social, tal qual normatizada pela Constituição. É o objeto do próximo capítulo.
357 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros, 2019, p. 598. Optamos por não versarmos sobre as cinco gerações de direitos fundamentais referidas por Bonavides, por entendermos que o assunto extravasa os limites deste trabalho.
6 DA ORDEM SOCIAL
Nos capítulos anteriores, ao buscarmos fundamentar nossa tese no sentido de avançar na proteção previdenciária das pessoas com deficiência, tratamos de vários assuntos que nos pareceram relacionados ao tema sob a ótica constitucional, desde a feição compósita, social e dirigente da Constituição de 1988, até os direitos fundamentais, passando pela interpretação constitucional e pelos princípios constitucionais.
Versamos sobre esses assuntos por considerá-los, à evidência, intimamente conectados com o motivo investigado.
A partir de agora os assuntos abordados são ainda mais próximos do liberalismo igualitário, da justiça social e da distributividade.
É sempre bom não deslembrar que o intuito final da tese é identificar possibilidades de avanço da interpretação de normas constitucionais e infraconstitucionais de interesse da PCD, nas balizas destes três temas.
Decidimos, portanto, situá-los (distributividade, justiça social e liberalismo de princípios) neste capítulo 6º, acerca do Título VIII da Constituição, dedicado à Ordem Social358.
Segundo lição doutrinária, a ordem jurídica é formada por uma ordem pública, uma ordem privada, uma ordem econômica e uma ordem social, muito embora tais expressões possam ser consideradas ambíguas e dificultem a operacionalização dos conceitos.359 De todo modo, a Ordem Social pode ser compreendida como uma parcela da Ordem Jurídica.
A palavra ordem contrapõe-se à desagregação, ao caos, à desordem. O texto constitucional, assim, demonstra desprezo pela desordem, ao mesmo tempo em que indica defesa da ordem no campo das relações sociais e sua regulação, o que revela, no ver de Eros Roberto Grau, “uma preferência pela manutenção de situações já instaladas, pela preservação de suas estruturas”.360
Para Cretella Jr., quando se falar ordem social, prevalece, “além do aspecto ordeiro, o aspecto social em detrimento do individual”,361 em que pese a dificuldade de se distinguir, na solução de conflitos judiciais e mesmo na interpretação de textos constitucionais e legais, quais desses interesses devem prevalecer nos casos concretos a serem analisados.
358 Os Ordens ou ordens serão gravadas aqui indistintamente com a inicial maiúscula ou minúscula.
359 GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2010, p. 41.
360GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2010, p. 45-46.
361 CRETELLA JÚNIOR, José. Comentários à Constituição Brasileira de 1988. Vol. VIII. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993, p. 4295.
Desde a Constituição de 1934, as questões trabalhista e previdenciária conquistaram status constitucional, mas somente com a atual “constituição cidadã” foi dedicado um título exclusivo à Ordem Social.
Na carta pretérita, por exemplo, de 1969, havia o título III consagrado às ordens econômica e social. Por isso mesmo, no tocante à disciplina da Ordem Social, a Constituição Federal de 1988 pode ser concebida como uma ruptura das estruturas anteriores.
O Título específico servirá não apenas para demonstrar a importância para o constituinte originário, mas também para dar continuidade ao programa hospedado no art. 6o da Constituição Federal. A Constituição de 1988 destinou o Título VIII à Ordem Social depois de prever, no começo do texto magno, lá no Capítulo II do Título II, nos artigos 6o a 11, os direitos sociais.
Uma doutrina aponta que a técnica usada pelo constituinte não foi das melhores, visto amalgamar no mesmo título matérias que pouco (ou nada) têm de sociais, como a Ciência e Tecnologia (Capítulo IV) e o Meio Ambiente (Capítulo VI).362
É preciso registrar que a ciência e a tecnologia, de um ponto de vista, são adversários de uma Ordem Social baseada na justiça social, já que um de seus efeitos inevitáveis é a eliminação de postos de trabalho.
O artigo 193, quando inaugura o Título VIII, dispõe, solenemente, que a “ordem social tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais”.
De que maneira tal norma constitucional pomposa, mas rica em significado, influencia a vida das pessoas vulneráveis tratadas nesta investigação? É o que tentaremos delinear nos tópicos seguintes, partindo de uma compreensão doutrinária das expressões “primado do trabalho”, “bem-estar social” e “justiça social”.
O importante é situar o leitor sobre uma constatação singela: no começo, tivemos constituições liberais, formais, que foram com o tempo, de modo não contínuo, enveredando-se para constituições sociais, com preocupações materiais.
Por mais estranho que possa parecer, entendemos que o liberalismo igualitário (que, apesar de igualitário, é liberalismo) tem mais a ver com essas últimas, especialmente no aspecto da necessária desigualdade protetiva em favor da PCD.
Isso não é incompatível com a noção de que o centro de gravidade da organização humana ter-se deslocado do interesse individual para o social. O indivíduo encontra-se tão
362 BULOS, Uadi Lammêgo. Constituição Federal Anotada. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 1189.
fortemente ligado aos demais, que o interesse individual e o interesse social são hoje quase que confundidos363.
Antes de avançarmos, convém elaborar breve registro sobre norma de interesse desta tese encontrada na Emenda Constitucional n. 1/1969, a qual alterou de tal forma a Carta de 1967. A Carta cuidou da ordem econômica e social nos artigos 160 a 174.
O art. 160 estabelecia que: “A ordem econômica e social tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social, com base nos seguintes princípios: (...) II – valorização do trabalho como condição da dignidade humana”.
Nada obstante, avançou ao estabelecer, em seu art. 175, § 4o, que lei especial deveria dispor sobre a assistência à maternidade, à infância, à adolescência e sobre a educação dos excepcionais, surgindo com isso a primeira menção expressa à proteção específica das pessoas com deficiência364.
O maior avanço em relação às pessoas com deficiência365 ocorreu com o surgimento da Emenda n.º 12, promulgada em 17/10/1978, que serviu de base a uma série de medidas judiciais:
Artigo único: É assegurado aos deficientes a melhoria de sua condição social e econômica especialmente mediante: I – educação especial e gratuita; II – assistência, reabilitação e reinserção na vida econômica e social do País; III – proibição de discriminação, inclusive quanto à admissão ao trabalho ou ao serviço público e salários; IV – possibilidade de acesso a edifícios e logradouros públicos.
Digno de nota, ademais, que na vigência desta Carta foi promulgada a Lei n° 6.179/74, que criou o benefício de amparo assistencial, no valor de 50% do salário-mínimo, devido aos maiores de 70 anos ou inválidos, sem atividade remunerada, e com renda inferior a meio salário-mínimo, que não fossem dependentes de outra pessoa e sem meios de prover o próprio sustento, desde que tivessem pago pelo menos doze contribuições ou exercido atividade remunerada antes não-incluída no âmbito da previdência.
Trata-se do antecedente do benefício assistencial de prestação continuada (BPC), devido a idosos e pessoas com deficiência, objeto de breve análise no item 14.1.
363 LEITE, Celso Barroso. A Proteção Social no Brasil. São Paulo: LTr, 1978, p. 15.
364 ARAUJO, Luiz Alberto David. A Proteção Constitucional das Pessoas Portadoras de Deficiência. Brasília:
Ministério da Justiça, 1997, p. 60.
365 A Lei n.° 6.179/74 criou o benefício de amparo assistencial, no valor de 50% do salário-mínimo, aos maiores de 70 anos ou inválidos, sem atividade remunerada, e com renda inferior a meio salário-mínimo, que não fossem dependentes de outra pessoa e sem meios de prover o próprio sustento, desde que tivessem pago pelo menos doze contribuições ou exercido atividade remunerada antes não-incluída no âmbito da previdência.