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Capacidades e justiça segundo Martha Nussbaum

Cabe ao Estado intervir para lhes possibilitar a equidade, implementando políticas públicas que possibilitem condições efetivas de acesso à cidadania, observado o valor fundamental da dignidade da pessoa humana182.

Essas políticas públicas abrangem outras medidas sociais, como a educação, mas também, e talvez principalmente, a concessão e a manutenção de benefícios (de subsistência).

Porém, para Sen, deve ser feita uma análise conjunta desta última com a eficiência, pois uma das suas preocupações é com a questão dos incentivos e desincentivos, conteúdo já abordado em outra esfera183, no tocante à proteção da assistência social à PCD que vive em miserabilidade.

Focando-se nas capacidades humanas e reconhecendo a diversidade de situações, Nussbaum apresenta uma teoria alternativa às chamadas contratualistas, que buscam justificar a justiça social e a igualdade com base em contextos hipotéticos, a exemplo da formulada por John Rawls, em que a justiça só é alcançada se as pessoas se encontrarem numa situação de original igualdade187.

As capacidades são apresentadas como a fonte de princípios políticos para uma sociedade liberal pluralística. Com isso, as capacidades são inseridas num contexto de um tipo de liberalismo político que as torna objetivos especificamente políticos, livres de qualquer fundamentação metafísica específica188.

Sob tal ótica, as capacidades podem se tornar “objeto de um consenso sobreposto entre pessoas que de resto possuem concepções amplas de bem muito diferentes entre si” 189. Assim, o enfoque das capacidades seria uma espécie de abordagem dos direitos humanos internacionais, que leva em conta a dignidade da pessoa humana, o ser humano visto como um fim em si mesmo, uma teoria aplicada a todos e quaisquer países, para todo e qualquer cidadão, com pretensão de universalidade190.

Nussbaum parte de uma concepção de Aristóteles de que o ser humano desenvolve naturalmente propósitos sociais e políticos, carecendo de uma variada gama de atividades vitais, definindo o homem como um ser social e político por natureza. Ademais disso, encontra suporte teórico em Karl Marx191 (segundo ela, “apenas para propósitos políticos, não como fonte de uma doutrina abrangente da vida humana”), quando começa com uma concepção de capacidade do ser humano e da vida que seja apropriada à sua dignidade.

Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro.

São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 100.

187 Ainda a distribuição da justiça em Aristóteles e John Rawls, cf. GONÇALVES, Ionas Deda, HAIK, Cristiane Fátima Grano, ZACHARIAS, Rodrigo. A efetividade da justiça distributiva e o princípio da distributividade na seguridade social: do mínimo existencial à reserva do possível e a pandemia da Covid-19. Revista Brasileira de Direito Previdenciário, Porto Alegre, v. 11, n. 65, p. 73-95, out./nov. 2021.

188 NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 85.

189 NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 85.

190 NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 94.

191 Cf. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução, apresentação e notas de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, pp. 80-84. Nestas páginas, Marx discorre sobre o caráter genérico do homem, em comparação com os animais não humanos. Também analisa a relação do trabalhador com a natureza, bem assim sobre o estranhamento imposto a ele pelo capitalismo, quando, prestado serviços ao empregador, não colhe os frutos do seu trabalho, na medida em que, “quando mais o trabalhador produz, menos tem para consumir”. Com isso, no capitalismo, o trabalhador só se sentiria livre em suas funções animais, como comer, beber e procriar etc.

Nussbaum deixa claro que não encampa a integralidade da concepção marxista, focando-se a autora somente no aporte marxista quanto à natureza social e polícia do ser humano.

Sendo assim, o enfoque das capacidades de Martha Nussbaum parte da concepção aristotélica/marxista do ser humano, “como um ser social e político que se realiza através de suas relações com os outros”192.

Se o ser humano necessita de uma pluralidade rica de atividades vitais, de modo que o enfoque das capacidades também se aproveita desta ideia. Com isso, as capacidades para as quais todos os cidadãos estão autorizados são muitas, e são oportunidades para atividades, não apenas quantidade de recursos193.

Para Martha Nussbaum, as teorias contratualistas da tradição ocidental seriam falhas porque há três problemas não solucionados de justiça: a) pessoas com impedimentos; b) pessoas de países pobres ou em desenvolvimento; c) e animais não humanos. Todos os três são excluídos do pacto social e não participam da escolha dos princípios de justiça.

Eis algumas considerações da autora acerca da situação das pessoas com impedimentos194:

Nenhuma doutrina de contrato social, entretanto, inclui pessoas com impedimentos mentais195 e físicos, sérios e incomuns, no grupo daqueles em que os princípios políticos básicos são escolhidos. É claro que até bem pouco tempo, na maioria das sociedades modernas, essas pessoas não eram sequer incluídas na sociedade. Eram excluídas e estigmatizadas; não havia movimento político para incluí-las.

Principalmente pessoas com impedimentos mentais graves não tinham nem sequer mesmo acesso à educação. Elas eram escondidas em instituições ou abandonadas à morte, por negligência; jamais foram consideradas parte do universo político.

Assim, a justiça pode surgir em um ambiente em que não se encontre um estado de igualdade, porquanto as pessoas possuem diferentes capacidades. Quando fala em capacidades humanas, Nussbaum refere-se àquilo que as pessoas são de fato capazes de fazer, instruídas, de certa forma, pela ideia intuitiva de uma vida apropriada à dignidade do ser humano196.

Estabelecida que cada pessoa, em suas diferenças de capacidades, necessita de um mínimo social básico, ela formula uma lista de capacidades197, como exigências para uma vida

192 NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 103.

193 NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 90.

194 NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 19.

195 A autora, na nota de rodapé nº 13 do capítulo, acrescenta que, segundo Michel Foucault, no século XIX, a situação ficou bem pior no caso da loucura. Cf. NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 19.

196 NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 84.

197 Rogando escusas ao leitor, reputamos importante a transcrição integral da lista, ainda que extensa:

digna. Cuida-se de uma lista teoricamente aberta, sujeita a revisão e complementação, que levaria em conta o pluralismo das nações.

A lista representaria princípios políticos198 relevantes na generalidade dos países, que abrangeria todos os seres humanos, trazendo elementos essenciais para a obtenção de uma vida com dignidade, apesar das diversidades essenciais entre os seres humanos.

Nesse sentido, capacitar as pessoas – seja por meio de recebimento de valores mensais aptos a lhe assegurarem alguma dignidade, seja por meio de habilitação ou reabilitação

“1. Vida – Ter a capacidade de viver até o fim de uma vida humana de duração normal; não morrer prematuramente, ou antes que a própria vida se veja tão reduzida que não valha a pena vivê-la.

2. Saúde física – Ser capaz de ter boa saúde, incluindo a saúde reprodutiva; de receber uma alimentação adequada;

de dispor de um lugar adequado para viver.

3. Integridade física. Ser capaz de se movimentar livremente de um lugar a outro; de estar protegido contra ataques de violência, inclusive agressões sexuais e violência doméstica; dispor e oportunidades para a satisfação sexual e para escolha em questões de reprodução.

4. Sentidos, imaginação e pensamento. Ser capaz de usar os sentidos, a imaginação, o pensamento e o raciocínio – e fazer essas coisas de um modo “verdadeiramente humano” um modo informado e cultivado por uma educação adequada, incluindo, sem limitações, a alfabetização e o treinamento matemático e científico básico. Ser capaz de usar a imaginação e pensamento e conexão com experimentar e produzir obras ou eventos, religiosos, literários, musicais e assim por diante, da sua própria escolha. Ser capaz de usar a própria mente de modo protegido por garantias de liberdade de expressão, com respeito tanto a expressão política quanto artística, e liberdade de exercício religioso. Ser capaz de ter experiências prazerosas e evitar dores não benéficas.

5. Emoções. Ser capaz de manter relações afetivas com coisas e pessoas fora de nós mesmos, amar aqueles que nos ama e se preocupam conosco; sofrer na sua ausência; em geral, ser capaz de amar, de sentir pesar, sentir saudades, gratidão e raiva justificada. Não ter o desenvolvimento emocional bloqueado por medo e ansiedade (Apoiar essa capacidade significa apoiar formas de associação humana que podem se revelar cruciais para seu desenvolvimento).

6. Razão prática. Ser capaz de formar uma concepção de bem e de ocupar-se com a reflexão crítica sobre o planejamento da própria vida (isso inclui proteção da liberdade de consciência e de prática religiosa).

7. Afiliação

a. Ser capaz de viver com e voltado para os outros, reconhecer e mostrar preocupação com outros seres humanos, ocupar-se com várias formas de interação social; ser capaz de imaginar a situação do outro. (Proteger essa capacidade significa proteger as instituições que constituem e alimentam tais formas de afiliação e proteger a liberdade de associação e de expressão política.)

b. Ter as bases sociais de autorrespeito e não humilhação; ser capaz de ser tratado como um ser digno cujo valor é igual ao dos outros. Isso inclui disposições de não discriminação com base em raça, sexo, orientação sexual, etnia, casta, religião, origem nacional.

8. Outras espécies. Ser capaz de viver uma relação próxima respeitosa com animais, plantas e o mundo da natureza.

9. Lazer. Ser capaz de rir, brincar, gozar de atividades recreativas.

10. Controle sobre o próprio ambiente

a. Político. Ser capaz de participar efetivamente das escolhas políticas que governam a própria vida; ter o direito a participação política

b. quanto de bens móveis, e ter direitos de propriedade em base igual a dos outros; ter o direito de candidatar-se a empregos em base de igualdade com os demais; ter a liberdade contra busca e apreensão injustificadas. No trabalho, ser capaz de trabalhar como ser humano, exercendo a razão prática e participando de relacionamentos significativos, de reconhecimento mútuo com demais trabalhadores.” Cf. NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, pp. 91-93.

198 A rigor, as pessoas com deficiências mentais graves não poderiam ser incluídas diretamente no grupo dos que escolhem os princípios políticos, embora entendamos seu potencial para tal contribuição. Mas a falha da sua não inclusão entre aqueles que escolhem não consistiria numa injustiça, desde que houvesse uma maneira de levar em linha de conta seus interesses. Cf. NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. Deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 20.

profissional, esses últimos objetos de análise no capítulo 11 – deve ser considerado objetivo político da coletividade.

Com isso, pensamos que a teoria de Martha Nussbaum fornece uma base filosófica bastante apropriada a justificar uma melhor distribuição de recursos à PCD.

Nota-se, ademais, que as capacidades sugeridas, dada a natureza complexa do ser humano, se encontram albergadas em direitos fundamentais não apenas de segunda geração, como já salientamos.

As lições de Martha Nussbaum, para além de constituir uma teoria mais adequada à proteção da PCD quando comparada à teoria da justiça de John Rawls, oferecem elementos importantes para a compreensão de que a inclusão social da PCD não se limita ao mero pagamento de uma prestação positiva pelo Estado, cabendo-lhe capacitar tais pessoas por meio do asseguramento de outros direitos, como o direito à liberdade pessoal, ao voto, à participação política, à propriedade etc.

Nussbaum, ao ponderar que a justiça pode surgir em um ambiente em que não se encontre um estado de igualdade, porquanto as pessoas possuem diferentes capacidades, fornece-nos um instrumento valioso para uma formulação teórica acerca da concretização do direito fundamental à previdência social da PCD, sobretudo no caso tratado no capítulo 12.