Cumpre ressaltar que Rawls sempre admitiu as desigualdades, mas considera que seu aumento só se justifica quando implicar maior possibilidade de gerar benefícios ao sujeito representativo mais pobre169 ou para aquele que tem menos oportunidades170.
A percepção da necessidade de se empreender um valor da igualdade na distribuição da justiça constitui, ao menos, um primeiro passo no sentido de se caminhar rumo à igualdade material. Uma concepção instrumental que impeça uma injustiça já é um avanço em si mesmo, em relação ao liberalismo clássico da igualdade formal.
De qualquer forma, trata-se de uma teoria que sustenta, de alguma forma, um tratamento diverso, e mais benéfico, aos grupos vulnerabilizados da sociedade. As teorias abaixo relacionadas, de sua sorte, enfocam mais os resultados da distribuição de bens primários, com referências abrangentes às pessoas com impedimentos. Daí sua importância neste trabalho.
Uma pessoa com uma grave deficiência não pode ser considerada em maior vantagem apenas porque tem uma maior renda ou riqueza do que um vizinho forte e são. Na verdade, uma pessoa rica com alguma deficiência pode estar sujeita a muitas restrições às quais a pessoa mais pobre sem a desvantagem física pode não estar. Ao julgar as vantagens que diferentes pessoas têm em relação a outras, temos de olhar para as capacidades totais que conseguem desfrutar. Esse é certamente um argumento importante para usarmos, como base de avaliação, a abordagem das capacidades em vez do foco sobre a renda e a riqueza, que é centrada em recursos.
Sen, assim, propõe a perspectiva da capacitação do indivíduo como norte para a superação das necessidades que produzem desigualdades, propondo uma perspectiva da liberdade baseada na análise de privações, tendo como principal delas a pobreza.
A visão de Amartya de Sen pretende superar a visão teórica formal, que preconiza no contrato social originário a isonomia entre todos os desiguais. Ele relaciona a pobreza às privações das capacidades, tratando-a não apenas como baixo nível de renda, na medida em que as maiores capacidades para viver sua vida tendem a aumentar o potencial de uma pessoa para ser mais produtiva e auferir renda mais elevada, da mesma forma que um aumento de capacidade conduz a um maior poder de auferir renda.173
E propõe análises que envolvem o indivíduo concreto e a realidade que o cerca, acreditando que alguns problemas mais básicos podem ser identificados por observação direta ou em bases informacionais úteis para as políticas de combate às privações.174
Um dos aspectos que o autor analisa com profundidade é a questão da conversão da renda nos tipos de vida que as pessoas podem levar, sustentando haver vários tipos de contingências que podem gerar variações nessa conversão175176:
(1) Heterogeneidades pessoais: As pessoas têm características físicas díspares em relação a idade, gênero, deficiência, propensão à doença etc., tornando suas necessidades extremamente diversas. Por exemplo, uma pessoa deficiente ou doente pode precisar de mais renda para fazer as mesmas coisas elementares que uma pessoa menos adoentada pode fazer com determinado nível de renda. Na verdade, algumas desvantagens, como as deficiências graves, podem não ser totalmente corrigíveis, mesmo com enormes despesas em tratamentos ou próteses.
(2) Diversidades no ambiente físico: Quão longe determinada renda pode chegar dependerá também das condições ambientais, incluindo condições climáticas, como faixas de temperatura ou incidência de inundações. As condições ambientais não precisam ser imutáveis: podem ser melhoradas pelos esforços comuns, ou agravadas pela poluição ou esgotamento. Mas um indivíduo isolado pode ter de aceitar muito
173 SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Tradução: Laura Teixeira Motta. Revisão técnica: Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2019, p. 123/124.
174 SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Tradução: Laura Teixeira Motta. Revisão técnica: Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2019, p. 176.
175 SEN, Amartya. A ideia de justiça. Tradução Denise Bollmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo:
Companhia das Letras, s.a., posição 5219 de 9313, aplicativo Kindle.
176 Digno de nota que muitos desses fatores apontados por Amartya Sen hão de ser levados em linha de conta na apuração do grau de deficiência, na forma de impedimentos ou barreiras, na análise do direito à aposentadoria da pessoa com deficiência.
das condições ambientais dadas para converter receitas e recursos pessoais em funcionamentos e qualidade de vida.
(3) Variações no clima social: A conversão de recursos pessoais em funcionamentos é influenciada também pelas condições sociais, incluindo a saúde pública e as condições epidemiológicas, a estrutura do ensino público e a prevalência ou ausência de crime e violência nas localidades. Além das instalações públicas, a natureza das relações comunitárias pode ser muito importante, assim como a literatura mais recente sobre o “capital social” tende a enfatizar.
(4) Diferenças de perspectivas relacionais: Os padrões estabelecidos de comportamento em uma comunidade também podem variar substancialmente a necessidade de renda para realizar os mesmos funcionamentos elementares. Por exemplo, ser capaz de “aparecer em público sem sentir vergonha” pode exigir padrões mais elevados de vestuário e de outros consumos visíveis em uma sociedade mais rica do que em uma sociedade mais pobre (como Adam Smith observou há mais de dois séculos em A riqueza das nações). O mesmo se aplica aos recursos pessoais necessários para tomar parte na vida da comunidade e, em muitos contextos, até para satisfazer os requisitos mais elementares da autoestima. Essa variação é principalmente intersocial, mas influencia as vantagens relativas de duas pessoas localizadas em países diferentes
Com efeito, o autor salienta que as desvantagens, como deficiência ou doença, não apenas reduzem a aptidão que uma pessoa tem para ganhar uma renda, mas também tornam mais difícil converter a renda em capacidade, pois uma pessoa mais inábil ou mais doente “pode precisar de mais renda (para assistência, tratamento ou prótese) para realizar os mesmos funcionamentos (mesmos que essa realização seja, na verdade, possível)”.177
Esse fenômeno Sen denomina “desvantagens de conversão”, isto é, dificuldade em converter renda e recursos em viver bem, precisamente por causa das inaptidões. Salienta, no entanto, que muitas dessas trágicas consequências podem ser superadas de forma substancial
“com determinada assistência social e intervenção imaginativa”.178 Aduz que a intervenção social contra as inaptidões tem de incluir prevenção, gestão e mitigação
Daí que o incentivo às capacidades é fundamental para a expressão da liberdade das pessoas, cabendo a análise do desenvolvimento através da expansão das liberdades. A desigualdade, geradora de injustiça social, pode ser compreendida como privação da liberdade.
Citamos aqui outra de suas importantes passagens:
O problema da desigualdade realmente se magnifica quando a atenção é desviada da desigualdade de renda para a desigualdade na distribuição de liberdade substantivas e capacidades. Isso ocorre principalmente devido à possibilidade de algum
“acoplamento” de desigualdade de renda, de um lado, e vantagens desiguais na conversão de rendas em capacidades, de outro. Este último aspecto tende a intensificar o problema da desigualdade já refletido na desigualdade de renda. Por exemplo, uma pessoa incapacitada, doente, idosa ou que apresenta alguma outra desvantagem pode,
177 SEN, Amartya. A ideia de justiça. Tradução Denise Bollmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo:
Companhia das Letras, s.a., posição 5238 de 9313, aplicativo Kindle.
178 SEN, Amartya. A ideia de justiça. Tradução Denise Bollmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo:
Companhia das Letras, s.a., posição 5287 de 9313, aplicativo Kindle
por um lado, ter dificuldade para auferir uma renda apropriada e, por outro, também enfrentar dificuldades ainda maiores para converter renda em capacidades e em uma vida satisfatória. Os próprios fatores que podem impossibilitar uma pessoa de encontrar um bom emprego e ter uma boa renda (como a incapacidade) podem deixá-la em desvantagem na obtenção de uma boa qualidade de vida até mesmo com um bom emprego ou boa renda (...)179
Se o foco da obra do autor é o desenvolvimento como liberdade, esta última baseada nas capacidades das pessoas, a situação dos vulneráveis (física ou psicologicamente falando) mostra-se a mais sensível e grave. Se a pobreza dos capacitados já é um problema grave a ser enfrentado pelo Estado, a situação dos que possuem alguma forma significativa de inaptidão física e mental demanda ainda maior atividade voltada a operar equidade180:
Vale a pena considerar simultaneamente a eficiência por meio da liberdade do mecanismo de mercado, de um lado, e a gravidade dos problemas de desigualdade de liberdade, de outro. É preciso lidar com problemas de equidade, especialmente ao se tratar de graves privações e pobreza; nesse contexto, a intervenção social, incluindo o custeio governamental, pode ter um papel importante. Em grande medida, isso é exatamente o que os sistemas de seguridade social nos Estados do bem-estar procuram realizar, mediante diversos programas que incluem a provisão social de serviços de saúde, auxílio governamental aos desempregados e indigentes etc.
Contudo, Sen reitera a necessidade de se prestar atenção simultaneamente aos aspectos da eficiência e da equidade, “pois a interferência motivada pela equidade no funcionamento do mecanismo de mercado pode enfraquecer as realizações de eficiência mesmo se promover a equidade”, devendo, assim, ambas (eficiência e equidade), ser consideradas nos diferentes aspectos da avaliação e justiça social181.
Tratamos da eficiência e da meritocracia no item 2.5, a eficiência consistindo inclusive num dos princípios da administração pública (art. 37, caput, da Constituição). Todavia, é preciso dosar as exigências de eficiência na análise das políticas públicas de redistribuição de renda, especialmente numa época de hipercapitalismo (item 2.1).
Então, numa perspectiva que engloba eficiência, mérito, capacidades, liberdade e justiça social, engendra-se uma complexa análise do fenômeno social das incapacidades. Estas privam o ser humano em suas possibilidades de liberdade, gerando iniquidades.
179 SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Tradução Laura Teixeira Motta. Revisão técnica: Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2019, p. 160.
180 SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Tradução Laura Teixeira Motta. Revisão técnica: Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2019, p. 160.
181 SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Tradução Laura Teixeira Motta. Revisão técnica: Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2019, p. 161
Cabe ao Estado intervir para lhes possibilitar a equidade, implementando políticas públicas que possibilitem condições efetivas de acesso à cidadania, observado o valor fundamental da dignidade da pessoa humana182.
Essas políticas públicas abrangem outras medidas sociais, como a educação, mas também, e talvez principalmente, a concessão e a manutenção de benefícios (de subsistência).
Porém, para Sen, deve ser feita uma análise conjunta desta última com a eficiência, pois uma das suas preocupações é com a questão dos incentivos e desincentivos, conteúdo já abordado em outra esfera183, no tocante à proteção da assistência social à PCD que vive em miserabilidade.