CAPÍTULO IV. BOLIVIA
2.5 A nova constituição e os mecanismos de democracia direta
Após a eleição de Morales, o novo governo prometeu que convocaria uma assembleia nacional constituinte com o intuito de substituir a constituição de 1967 e suas principais alterações introduzidas pela reforma constitucional de 1994, cujo o objetivo foi reforçar o caráter republicano do país, depois de conflitos e alternância entre regimes militares e civis ao longo quase três décadas de vigência da constituição. Para isso, foram introduzidos mecanismos que garantissem a independência dos três poderes. Assim, reforçou-se o papel do legislativo no debate das leis propostas pelo executivo, o judiciário se fortalecia e mantinha o controle, através do supremo tribunal, sobre todos os tribunais departamentais e locais. Dessa maneira, buscava-se reafirmar a democracia no país.
O programa de governo apresentado pelo MAS continha 5 pontos principais que haviam sido incorporados das reivindicações apresentadas por movimentos sociais ao longo do ciclo de luta: 1) estabelecer controle sobre os recursos naturais 2) realizar una reforma constitucional que focasse os povos indígenas/originários e os menos favorecidos; 3) iniciar um processo de reforma agrária com foco nos campesinos pobres, chamado de ‘Pacto por la Tierra’59; 4) convocar um referendum sobre autonomias regionais com o objetivo de encontrar
soluções para os conflitos entre oriente e ocidente e comunidades indígenas; e 5) definição sobre a produção cocalera, estabelecendo clara diferença entre o processo tradicional de cultivo da coca e a produção de cocaína.
Dando sequencia a esses eventos, em 6 de março de 2006 o presidente eleito Evo Morales assina a lei especial convocando a assembleia nacional constituinte cujo artigo 7o definia que estava apto a ser eleito qualquer cidadão boliviano apresentado por um “Partido Político, una Agrupación Ciudadana y/o un Pueblo Indígena, o por los frenes o alianzas” ou
59O Pacto por la Tierra tinha como linhas principais: garantir a segurança jurídica das propriedades que de maneira
sustentável e comprovada exerçam função produtiva; garantir justiça no acesso a terra sancionando os especuladores a devolver as terras ao Estado; garantir atenção as demandas sociais fortalecendo a institucionalidade agrária no país, além de articular políticas de distribuição de renda com medidas de diversificação produtiva.
seja, estabelecendo a possibilidade de eleição de membros de movimentos sociais diretamente, sem a necessidade de vinculação com partido político e ainda reforçando o caráter étnico que se impunha ao processo, uma forma de transferência de poder aos grupos indígenas marginalizados do poder institucional, que ficaria mais clara na definição de Estado Plurinacional, onde as diversas etnias existentes seriam reconhecidas assim como seus direitos e tradições.
Além disso, no 1o de maio o governo aprova a lei de nacionalização de hidrocarbonetos com apoio do Pacto de Unidad mas com forte oposição de grupos empresariais, inclusive internacionais, insatisfeitos com perdas decorrentes do processo, a hispano-argentina Repsol-YPF e a brasileira Petrobrás, principais empresas do setor no país tiveram entregar todas as operações a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), empresa petroleira nacional e obtiveram um prazo de 180 dias para renegociar contratos.
Seguindo o calendário determinado pela lei convocatória, em 02 de julho, ocorre a eleição para a Assembleia Nacional Constituinte aonde 255 constituintes são eleitos para dar início ao trabalho de confecção da nova Constituição. O MAS é o partido com maior número de eleitos, 137 membros, seguido pelo oposicionista PODEMOS com 60 e diversos outros grupos que variavam entre 8 e 1 representantes.
Tabela 17: Composição da constituinte. Partido Total Porcentagem
A3-MNR 2 0.8% AAI 1 0.4% APB 3 1.2% AS 6 2.4% ASP 2 0.8% AYRA 2 0.8% CN 5 2.0% MAS 137 53.7% MBL 8 3.1% MCSFA 1 0.4% MIR- NM 1 0.4% MNR 8 3.1% MNR-FRI 8 3.1% MOP 3 1.2% PODEMOS 60 23.5% UN 8 3.1% Total 255 100%
Outro ponto importante que teve destaque na constituinte e era parte da plataforma original do governo, a reforma agrária, durante o processo eleitoral prévio a constituinte a ‘Comisión Agrária Nacional’ aprovou em 19 de julho de 2006 um projeto que alterava a lei do Instituto Nacional de Reforma Agraria (INRA), estabelecendo a lei ‘Reconducción Comunitaria de la Reforma Agraria’, aprovada pelo congresso em novembro de 2006. Além disso, em 21 de janeiro de 2009, junto ao referendum que ratificou a nova constituição, foram apresentadas duas questões sobre o tamanho das propriedades agrárias, oferecendo uma opção de 10.000 hectares e outra com 5.000 a sociedade, a segunda saiu vencedora. Contudo, na opinião de Urioste (2009) o governo perdeu pois o resultado só valerá para processos ocorridos após a aprovação, deixando de fora os latifúndios existentes, o que segundo ele deveriam ser o principal foco da reforma agrária, dessa forma, o Estado perde a capacidade de reverter os latifúndio existentes.
A tentativa aqui é demostrar que o governo MAS estabeleceu conexões importantes com os movimentos sociais com o objetivo de chegar ao poder e assim carregar consigo as demandas defendidas por esses grupos buscando soluções institucionais para as questões apresentadas. Deve-se perceber que a construção da plataforma eleitoral levou em consideração essas demandas e que, portanto, o papel dos movimentos sociais na Bolívia desde o início dos anos 2000 passa por um processo de transformação, partindo da atuação mobilizadora/contestadora vista nos episódios da crise da água, do gás e na queda dos governos de Sánchez de Lozada e Carlos Mesa até a atuação direta na confecção da candidatura do MAS, onde participam na elaboração de programa eleitoral, e depois assumindo cargos e ministérios no novo governo e ainda na fiscalização e negociação para que as reivindicações estabelecidas fossem atendidas, como exemplificadas acima.
O processo constituinte se desenrolou de maneira bastante conturbada e ficou marcado pelo conflito entre a maioria, os apoiadores do projeto defendido pelo governo e o restante dos representantes, contrários ao projeto. Esse conflito, gerado em parte pelo fato de o MAS não ter conseguido a hegemonia da assembleia mas ao mesmo tempo atuando como força principal e majoritária. O segundo grupo mais forte da constituinte, o Podemos, argumentava ter interesse em apoiar as propostas com o objetivo de avançar com a assembleia, mas contudo, os dois raramente conseguiam chegar a acordo quando era necessário a busca de um consenso.
E isso foi o que ocorreu quando os assuntos mais complexos e mais importantes foram negociados, a dizer a autonomia regional, o regime de terras e a propriedade dos recursos
em solo boliviano. Essa disputa se arrastou nas comissões, gerando um grande desgaste, principalmente em torno de como seriam aprovados os textos de cada comissão, maioria simples ou absoluta. No fim, após uma luta que envolveu o judiciário, a criação de uma lei na qual se afirmava a necessidade de aprovação com maioria absoluta a oposição, enfraquecida acabou por se afastar do processo. Assim, o projeto constitucional aprovado pela assembleia em 9 de dezembro de 2007 foi enviado para o congresso contando com o voto de 165 representantes. Uma vez aprovada no congresso, o projeto foi apresentado para a sociedade que deveria aprova-lo ou não através de um referendo.