CAPÍTULO IV. BOLIVIA
2.2 O referendo sobre a autonomia departamental
Em 02 de julho de 2006 após a campanha de coleta de assinaturas realizada pelo Comitê Cívico de Santa Cruz, na qual conseguiram 428.105 apoiadores a convocação de uma consulta popular sobre a autonomia departamental na Bolívia. Após ter sido aceita pelo parlamento, a seguinte questão foi apresentada aos cidadãos bolivianos:
Você esta de acordo com o marco da unidade nacional, em dar a assembleia constituinte o mandato vinculante para estabelecer um regime de autonomia departamental aplicável imediatamente depois da promulgação da Nova Constituição Política do Estado nos departamentos aonde este referendo tenha maioria de maneira que as autoridades sejam eleitas diretamente pelos cidadãos e recebam do Estado Nacional competências executivas, atribuições
normativas, administrativas e os recursos econômicos financeiros que estabeleça a Nova Constituição Política do Estado e as leis?
Tabela 15: Referendo, Autonomia departamental, Bolívia, 2006 Autonomia departamental Participação mínima requerida 50 %
Eleitorado 3.713.376 Total de votos 3.138.324 Percentual de participação 84.51% Votos em branco 117.368 Votos nulo 220.995 Votos inválidos 338.363 Votos válidos 2.917.329 Votos a favor 1.237.312 Porcentagem a favor 42.41% Votos contra 1.680.017 Porcentagem votos contra 57.59%
Resultado Rejeitado
Elaboração própria com base nos dados do Centre for Research on Direct Democracy
A lei do referendo aprovada em 2004 estabeleceu que os referendos poderiam ser: Nacionais, departamentais e municipais. Permitindo assim que um departamento que almeje autonomia pode convocar uma consulta a população para definir sobre sua organização política, devendo para isso coletar 8% de assinaturas do total de eleitores registrados no departamento, nestes casos, não há a possibilidade de convocação pelo poder executivo tampouco pelo congresso nacional, apenas iniciativas populares podem atuar nas esferas departamentais e municipais.
A convocação desta consulta esta intimamente conectada aos episódios ocorridos durante a crise do gás. Santa Cruz, somada aos outros departamentos de Beni, Pando e Tarija, formam a chamada “media luna” (em função da imagem projeta ao olhar o mapa boliviano), onde na votação do referendo sobre os hidrocarbonetos, houve maior oposição a proposta de nacionalização do gás. Essa região é também a mais rica do território boliviano, tendo boa parte das reservas de gás do país. Seus interesses estão ligados ao setor de exportação, bastante afetado pela decisão do referendo realizado no governo Mesa.
Além disso, desde a redemocratização, em 1982, a região, liderada por Santa Cruz, demanda maior descentralização do estado, visando assim, obter maior controle sobre os recursos naturais e autonomia de decisão sobre o comércio destes recursos. Assim, após o
episódio da crise, aliado a convocação do referendo e da assembleia constituinte, as reinvindicações dos departamentos da “media luna” se intensificaram, de forma a colidir com as mudanças que eram propostas pelos grupos políticos alçados as disputas políticas institucionais após 2003, assim como as novas instituições, referendo e assembleia constituinte.
Este conflito, ganhou novas arenas, anteriormente, era disputado entre partidos políticos, tradicionais e controlados pelo poder econômico da região da “media luna”. A ascensão política dos movimentos sociais e a construção de uma constituição voltada para os direitos da cidadania, aliada aos mecanismos de democracia direta contidos na lei do referendo, reequilibrou o jogo político boliviano, permitindo participação política de grupos tradicionalmente marginalizados.
Quando em 2005, com a convocaçãofeita pelo presidente Mesa de eleições para prefeitos departamentais o conflito de interesses se acentuou, contudo, segundo Ballivián (2006), esta medida, após primeiro momento, serviu para apaziguar os ânimos, pois permitiu as lideranças regionais certo controle sobre o território ao mesmo tempo que desviava as atenções da questão dos hidrocarbonetos.
Diante desta situação, logo nos primeiros meses de 2005, teve início a organização de uma petição para apoiar a elaboração de uma iniciativa popular para decidir sobre a autonomia departamental e descentralização do estado.
Apenas para acrescentar um importante evento ocorrido e que teve importante papel na configuração do conflito que dividia o país neste momento, em dezembro de 2005 o MAS elege o presidente da república, Evo Morales, cuja a atuação junto aos movimentos sociais teve grande importância tanto nas greves e paralisações de 2003, como na queda de Sanchez de Lozada e principalmente, nas reinvindicações de mudanças na lei sobre os recursos naturais.
A eleição do Movimiento Al Socialismo - MAS simboliza a união de diversos grupos sociais bolivianos e é representada pela formação do chamado Pacto de Unidad aonde os movimentos sociais apoiam a candidatura e após a vitória criam condições para que o governo de Evo Morales consiga governar e além disso, possa levar adiante as propostas apresentadas durante a campanha eleitoral.
O Pacto de Unidad era composto pela ‘Confederacion Sindical Unica de Trabajadores Campesinos de Bolivia’ (CSUTCB) sua principal articuladora, o ‘Consejo
Nacional de Ayllus y Markas del Qullasuyu’ (CONAMAQ), ‘Confederación de Pueblos Indígenas de Bolivia’ (CIDOB), ‘Coordinadora de Pueblos Étnicos de Santa Cruz’ (CPESC), ‘Confederacion Sindical de Colonizadores de Bolivia’ (CSCB), ‘Federacion de Mujeres Campesinas e Indigenas de Bolivia Bartolina Sisa’ (FMCBBS), e ‘Movimiento Sin Tierra’ (MST).
Objetivo aqui é ressaltar como as transformações institucionais ocorridas na Bolívia após a crise do gás em 2003 estão intrinsicamente conectadas por dois importantes pontos: o movimento de rompimento do Status quo através da atuação dos movimentos sociais; e a criação dos mecanismos de democracia direta ‘from below’ ou seja, que possibilitem a sociedade civil, ferramentas para convocar uma consulta popular sobre determinado tema.
Esse breve quadro elaborado até aqui tem o objetivo de apresentar o momento histórico vivido na Bolívia neste período, fomentando, assim, a análise do referendo sobre autonomia departamental ocorrido em 2006.
As vitórias eleitorais que o MAS alcançou, desde a chegada a presidência da república em 2005, passando pela maioria na assembleia legislativa em 2006, incensada pela obtenção da maioria dos votos para presidente em 7 dos 9 departamentos políticos, incluindo Santa cruz e Tarija, departamentos circunscritos na esfera da ‘media luna’. Nos outros dois departamentos orientais, Beni e Pando, menores, a vitória foi do partido conservador, PODEMOS (Poder Democratico e Social). Vale ressaltar que nesta eleição a Bolívia, praticamente foi dividida em duas macrorregiões, uma vez que o PODEMOS venceu em Santa Cruz, Tarija, Pando e Beni, e o MAS venceu em La Paz, Oruro, Cochabamba, Chuquiasca, e Potosí. Esta divisão colocou em risco a unidade nacional, além de exaltar a clara distinção de opinião entre a população indígena da região do altiplano, onde venceu o MAS e a população da região oriental, onde predomina a elite econômica do país, com raízes colonizadoras.
Esse momento é, portanto, de clara divisão na sociedade boliviana, entre interesses distintos e que vão muito além dos interesses econômicos, representados pelas posições opostas sobre os hidrocarbonetos. São questões culturais que predominam no país por muitos anos. Por isso, essas duas ‘Bolívias’ já existiam, apenas a correlação de força política e econômica não permitia que todos os atores pudessem atuar na esfera política do estado.
movimentos sociais nos resultados dos referendos bolivianos. Especialmente a atuação do MAS, que foi um fator importante para construção da maioria, levando a uma divisão de forças mas de forma nenhuma acentuando a divisão existente entre as regiões bolivianas.
O resultado deste referendo favorece as reinvindicações de autonomia dos departamentos orientais, uma vitória alcançada pela oposição e que coloca a gestão do presidente Morales numa situação desconfortável, diante da clara divisão entre as propostas de utilização dos recursos naturais na Bolívia. Este episódio tem grande importância no que acontece logo em seguida, elaboração de uma nova constituição boliviana e um referendo revogatório de mandato válido para 8 dos 9 departamentos e também para o presidente da república.