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CAPÍTULO I: MODELO TEÓRICO

2. Estado da arte

3.3.2 Movimentos, atores sociais e outcomes

É preciso definir do que se fala quando se usa o termo outcome. É possível falar de resultados de referendos sobre assuntos específicos, resultados de reinvindicações de movimentos sociais, transformações ocorridas como parte de um processo de luta social que desembocam em mudanças institucionais. Podem ser ainda alterações na percepção sobre democracia, alterações e/ou criações de uma lei através de um processo de iniciativa popular entre outras possibilidades.

Além disso, existe certa dificuldade em estabelecer conexões causais entre eventos. Um exemplo de tal dificuldade é afirmar que uma demanda dos movimentos sociais de muitos anos, por exemplo, a alteração de leis trabalhistas no brasil com relação ao trabalhador doméstico em 201419 esteja diretamente ligada às ações de organizações classistas que desde os anos 1970 lutam por melhores condições. A alteração ocorrida trata especificamente do aumento do valor da multa para o empregador que não regulariza a situação do trabalhador doméstico junto ao INSS (Instituto Nacional de Previdência Social). Essa não era, a priori uma bandeira das organizações que lutavam por direitos de trabalhadores domésticos. Entretanto, a substituição da lei anterior, de 1972, pela nova, em 2014, está ligada ao processo de luta que se estabeleceu ao longo desses 42 anos.

19 A lei Ordinária 12.964 aprovada em agosto de 2014 acrescenta a Lei 5.859 artigos que determinam multa para

casos de empregadores que não registrem seus funcionários domésticos de acordo com a Consolidação das Leis Trabalhistas brasileiras.

Por outro lado, podem existir exemplos de alterações aprovadas institucionalmente, mas com baixa ou nenhuma efetividade prática. Ou ainda, consultas populares que mesmo sem ter validade institucional acarretam processos de mudanças indiretas através de publicidade recebida e efeito junto à sociedade. Existe ainda a possibilidade de que ocorra, por exemplo, um referendo sobre determinado assunto e cujo resultado, apesar de vinculante, não seja colocado em prática por determinada razão. Portanto, é possível trabalhar com situações diversas onde existem efeitos indiretos; diretos; intencionais e não intencionais.

Os movimentos sociais envolvidos no processo de introdução de mecanismos de democracia direta têm como característica comum terem demandas nacionais, portanto, buscam benefícios coletivos para grupos em todo o território de cada um dos países. Essa opção se dá em função das características deste trabalho de analisar mudanças institucionais no nível nacional.

Por movimentos sociais entendemos grupos complexos, organizações e ações que podem ter objetivos e estratégias diferentes para alcançar seus objetivos. Esses grupos agem através de ação coletiva com o objetivo de alcançar mudanças sociais por meio de embate político com forças conservadoras e/ou status quo (Melucci, 1989). Neste trabalho, os movimentos sociais são compreendidos como a variável independente com relação a mudanças sociais, uma vez que não podemos determinar a priori se a atuação dos movimentos sociais acarreta transformações institucionais.

Tarrow (1993:580) sugere que se deve observar “sistematicamente para os efeitos dos movimentos em reformas” para que se possa melhorar o conhecimento sobre o papel dos movimentos na promoção da democracia. Giugni (1998) aponta para o “efeito combinado” como explicação para os efeitos alcançados pelos movimentos antinuclear, ecologista e de paz nos EUA entre 1975 e 1995 na produção de mudanças políticas/institucionais.

Isso significa dizer que movimentos sociais que compõem alianças políticas possuem maiores chances de alcançar sucesso quando comparados aos de atuação isolada Outras pesquisas sobre oportunidade política demonstram que a estrutura de alianças com atores institucionais aumenta o impacto e facilita a mobilização de movimentos sociais (Della Porta e Rucht , 1995; Kriesi, 1995).

Para medir a influência de movimentos sociais na introdução e uso de mecanismos de democracia direta nos três casos analisados aqui, será preciso determinar o tipo de atuação que cada um dos movimentos analisados teve no processo constituinte de Brasil, Venezuela e

Bolívia. Observando se a atuação ocorre em aliança ou independente de atores institucionalizados. E com outros grupos sociais?

O impacto dos movimentos sociais pode ser determinado por mudanças políticas produzidas de três maneiras: “alterar a correlação de forças entre desafiantes e autoridades; forçar mudanças políticas e provocar uma mudança sistêmica durável” ( Giugni, McAdam e Tilly, 1999). Entretanto, para Schumaker (1975), os resultados (outcomes) da atuação dos movimentos sociais devem ser entendidos de acordo com a responsividade do sistema político às ações e demandas e não apenas com uma oposição entre sucesso e fracasso no atendimento a demandas específicas. Portanto, uma luta conduzida por um movimento social pode acarretar transformações não previstas e tampouco almejadas, mas que são respostas ao conflito produzido.

No entanto, Giugni (1999) aponta para um problema de difícil solução: como medir a influência dos movimentos sociais? A dificuldade se dá, principalmente, em função de efeitos outros além dos políticos, como resultados culturais e sociais de ações conduzidas por movimentos sociais (Alvarez, Dagnino, e Escobar, 1998). Della Porta (2006), argumenta que a transformação do discurso público sobre o direito de protestar na Itália e Alemanha deve ser entendido como resultado da disputa simbólica entre manifestantes e autoridades. Portanto, a noção de resultados deve, aqui neste trabalho, ser entendida como efeitos diretos e indiretos, planejados e não planejados das ações de movimentos sociais.

Essa percepção pretende lidar com o problema que se encontra ao determinar a causalidade dos movimentos sociais. Como ter certeza de que um fato creditado à ação de um movimento social não teria ocorrido em outras circunstâncias? Ou ainda, como determinar se uma transformação observada é fruto de atividades de movimentos sociais ou resultado de uma ação reformista conduzida por autoridades políticas? (Giugni, 1999).

Para desenvolver a pesquisa focada no processo no qual se formam resultados, serão analisados movimentos sociais, suas relações com outros atores sociais, como partidos e governo e as ações e atitudes políticas em relação à introdução de mecanismos de democracia diretas nas constituições de Brasil (1988), Venezuela (1999) e Bolívia (2009).

Portanto, com o objetivo de identificar de que maneira os movimentos sociais se fortalecem ou enfraquecem ao longo do processo de luta dentro do período analisado e além disso, buscaremos identificar os efeitos que a introdução de MDD tem sobre a capacidade e formas de ação, identificando como participam politicamente e avaliando se há alteração em

função da possibilidade de participação institucionalizada através dos mecanismos inseridos pelas novas constituições.

Dessa forma, busca-se avaliar se há empoderamento dos movimentos sociais analisados a partir da institucionalização da participação direta ou se, ao contrário, não se nota nenhuma alteração no status desses movimentos e tampouco se identifica uso significativo destes mecanismos institucionalizados por parte dos movimentos analisados. Kriesi e Wisler (1999), ao comparar a introdução de legislação direta nos EUA e na Suíça, apontam que instituições políticas são as mais estáveis e por isso as que maior resistência impõem à atuação dos movimentos sociais e dificuldades a mudanças institucionais. Portanto, determinar se há ou não utilização por parte de movimentos sociais destes mecanismos introduzidos facilitará a compreensão dos efeitos gerados pelas mudanças institucionais reconhecidas nas constituições de Brasil, Venezuela e Bolívia.