Como uma instância teorico-judicativa do saber jurídico predominante, ou seja, da "ciência dograâtica do di^ reito", aparece uraa crítica que, além de ser uma crítica ao direi^
to ê uma crítica a determinado modo de cohhecê-lo. Este pensaraen - to, esboçando um so horizonte — refletir sobre o direito e o sa ber jurídico instituídos — procura vários caminhos interdiscipli- nariamente, valendo-se de elementos conceituais auxiliares das de mais ciências do homem. 0 marxismo, enquanto mundividência especí
fica dotada de filosofia singular construtora de categorias teori camente úteis, ê tambem objeto de incorporação por aquele pensamen to. Sendo assim, podemos esboçar duas vertentes as quais, embora seguindo fins próximos, fazem-no segundo trajetórias não idênti cas. Referimo-nos a uma crítica duplicada — que revê tanto o mar xismo ortodoxo como os discursos jurídicos tradicionais — , ao la do da qual encontramos uma crítica não marxista do direito, Esta, caracterizamo-la como crítica reduplicada; não bastando o desloca mento duplo operado pela crítica marxista, a crítica reduplicada ,
tambem, questiona a possibilidade de uma teoria marxista do direi to, bem como a suficiência do marxismo para dar conta de ura objeto como o direito.
A retomada de epistemologias . dialéticas com um sentido de engajamento histórico muito pronunciado, propon do um jusfilósofo, alem de observador, tambem ator relevante da ce na social, delineara um movimento constituído por pesquisadores aos quais chamaremos de os novos jusfilósofos brasileiros^^. Novos ju£ filósofos não porque são jovens cronologicamente,, senão porque , tambem o sendo, muitas vezes, assumem outra relação entre o saber e o fenômeno jurídico. Em que consiste essa relação ? — é o que tentaremos descobrir a seguir, após dialogarmos um pouco com as colocações da crítica marx:ista do direito, aquela por nós caracte rizada como crítica duplicada.
2 ' 1 • â crítica duplicada do direito
0 que nos interessa ver neste momento,não ê a crítica que o marócismo formula ao direito, ou seja, ãs rela ções jurídicas que ao nível das praticas sociais concretas se esta belecem heteronomamente entre sujeitos de direito, mas sim a crítj^ ca que essa filosofia formula ao saber jurídico dominante (que mo^ tra as relações jurídicas deste modo e não de outro, tentando des vendar as razões pelas.quais isso ocorre). Ficamos, pois, na esfe
ra episteraologica; antes de mais nada, tentaremos localizar o lu gar a partir do qual o marxismo mais recente critica o direito com petente.
Referimo-nos a um marxismo crítico que se distingue, por suas colocações teóricas bem como ao nível de sua práxis, tanto do marxisino dos fundadores Marx e Engels, como do marxismo soviético, este desenvolvido na esteira das contribuições teóricas de Lênin e Trotski mais fundamentalmente, alem de Stálin,
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Kruschcv e outros . 0 materialisnio renovado seria, neste caso , aquela filosofia que soma ãs contribuições marxianas e leninistas, os deslocamentos propostos por Mao, Gramsci ou Althusser. Destes, faremos menção apenas ã vertente Althusseriana, por pensarmos, e esta e nossa hipótese, que este autor sintetiza uma epistemologia que, coincidindo, de modo geral, com o estatuto epistêmico das ciências contemporâneas, estará presente, mais tarde, nas obras de Miaille e Poulantzas, estes mais ligados ã problemática jurídica , pois, objetivam construir uma ciência crítica e marxista do direi to; autores com trânsito regular nos textos filosófico - jurídicos mais recentes no Brasil.
0 projeto althusseriano ê um projeto poli tico e histórico e teórico e, nesta linha, notada e inevitavelmen te, epistemológico. Em síntese, "trata-se de dar ao marxismo a fi losofia que ele merece", ou seja, a fundamentação epistêmica de que ele necessita. 0 que implica rever a ciência criada por Marx .
0 projeto ê ambicioso e, tanto política como epistemològicamente , compreensível em face do momento em que se delineia; — a passagem de um tempo obscuro e negro para outro mais límpido e libertário . Ou seja, os primeiros escritos de Althusser, datados de 1965 — "Pour Marx" e "Lire le Capital" — se inserem num momento de sur - preendente criatividade e indefinição para o marxismo. São textos que testemunham, depois do XX Congresso do Partido Comunista da Uniâo Soviética — P.C.U.S. — em fevereiro de 1956, a passagem
de uma teorização ortodoxamente pauperizada para uma multiplicida de de retomadas teóricas, como o humanismo sartreano e as contri - buições do próprio Althusser.
0 momento, portanto, não era propício pa ra, apenas, repensar e criticar "aquele" marxismo soviético e sta-
linista, senão que tarefa mais extenuante se impunha, qual seja a reconstrução, desta vez a nível teorico, do materialismo. 0 econo- micismo e o determinismo mecânicos da era stalinista deveriam ce der passagem para instância cognoscitiva que, antes de mais nada , estabelecesse condições de possibilidade para as explicações mar - xistas. Nesse sentido, tentando fugir do dogmatismo típico da fase precedente, Althusser trabalhara no sentido de reconquistar a cien tificidade do marxismo, labor que se converte "numa preocupação qua se obsessiva"^^. Para tanto, dialogara com a filosofia das ciên cias contemporânea, o que lhe possibilita tomar de empréstimo a]^ guns conceitos de suma importância , tanto para suas teorizações como para o marxismo em geral. Isto o aproximara, de alguma manei ra, e longe das concepções de mundo que os apartam, das epistemolo gias das ciências humanas atuais. Isso será suficiente para marcá- lo, como teoricista (exagerado apego ãs construções teóricas em d£ trimento da práxis, e subordinando esta, em última instância, aque la) .
Para Althusser o marxismo é uma ciência re volucionária, não porque se mostre como um dos põlos antítéticos da dicotomia ciência proletária/ciência burguesa mas, ao contrário, porque tendo o meçmo estatuto de cientificidade das demais ciên cias , coloca seu dispositivo conceptual a serviço da revolução ( o que faz estando em relação prática cora ela)^*^. Eis porque podemos sugerir, hipoteticamente, que a diferença primeira entre as teo - rias críticas marxistas e as não marxistas reside no fato de que enquanto as primeiras falam em nome da ciência, da verdade e da re volução, as segundas fazem-no apenas em nome da ciência, da verda de e, eventualmente, da justiça social: — "a revolução ê privile gio marxista, mas a ciência não Por ciência Althusser enten de "uma prática específica que leva ã apropriação cognoscitiva do real ou ã produção de conhecimentos. Como em toda prática, há nela um trabalho de transformação que se exerce sobre uma matêria-prima teórica (conceitos, representações, instituições, etc.) que, de pois de trabalhada com os meios de produção teoricos corresponden
tes , produz um objeto teõrico ou 'objeto de conhecimento'"^^.
Vejamos o que o pensamento althusseriano considera importante para a constituição de uma prática teórica científica. Para tanto, sintetizemos esse pensamento (em relação a
constituição do materialismo) em alguns itens: (i) oposição ciên - cia/ideologia, denunciando preocupação com o corte epistemológico;
(ii) autonomia da teoria, ainda que relativa, em relação ã prãxis; (iii) descontinuidade histórica dos saberes, e, (iv) construção do objeto, evidenciando a aceitação da divisão objeto real/objeto de conhecimento.
Antes de procurarmos o sentido dos itens, evidenciemos a vinculação desses conceitos com a ciência sem mais. listus colocuçõos, profundamento influunciadas p«ltt opistemologia contemporânea, notadamente a de Bachelard, estarão presentes em boa parte das formulações das ciências humanas. Portanto, o marxi£ mo se distinguira das ciências comuns mais pelo adjetivo "revolu -
cionãria" que acompanha o substantivo ciência, do que por uma colo ração ideológica peculiar e definida, como entendia o stalinismo . A preocupação althusseriana, presente mais tarde, embora não subs
tancialmente, no Poulantzas de "Marx y el Derecho Moderno" e no Miaille de "Uma Introdução Crítica ao Direito", exceptualizando-se o desvio teoricista do qual falaremos mais tarde, parece jã estar presente no velho Marx. De fato, tendo Marx vivido num sêculo con taminado pela preocupação cientificista, e tendo sido contemporã - neo tanto do naturalismo quanto do historicismo epistemológicos , vertentes preeminentes nas construções discursivas de então, fez - se um dos construtores das ciências do homem. Tentado a fundamen - tar o materialismo como ciência, critica as ciências meramente e£ peculativas, compreensivas ou explicativas, típicas do idealismo e
empirismo de então, favorecendo a constituirão de um saber maiá: preocupado em transformar o mundo do que, propriamente, em conhe - cê-lo ou interpretâ-lo^^. Uma ciência aplicada aos homens, ciên - cia do diagnóstico da condição humana, da qual a prâxis necessi ta para se corrigir permanentemente em busca dos "processos revolu
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cionarios de libertação do homem" .
Talvez pelas características culturais da êpoca e lugares onde Marx viveu, percebe-se em sua obra uma luta no sentido de consolidar a legitimidade e a dignidade do matéria - lismo enquanto ciência. E nele, porque a unidade teoria/prãxis e - indissolúvel e aquela ê, em última instância, lima auto-teorização desta, 0 pensamento, enquanto trabalho teórico, deve auto-superar-
cionârio, através da retificação incessante de seus termos e ex”^ pressões conceptuais. As retificações não se dão enquanto démarches puramente teóricas m a s , relativamente ao movimento concreto da hi^ tõria, aparecem como ruturas e deslocamentos teoricos necessários para seu acompanhamento. Estes pontos são, não esquecidos, mas de£
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privilegiados pelo Althusser teoricista , desvio corrigido, mais tarde, numa segunda fase de sua filosofia, onde tenta rever posi - ções ratificando a unidade teoria/prâxis como essencial ao marxis mo .
A preocupação em demonstrar o rigor e a dignidade do pensamento é comum a todas as ciências; entretanto Al^ thusser radicalizará essa tendência no mamento em que instrumenta lizar o materialismo com um codigo justificador mais ou menos co mum ãs demais ciências do homem contemporâneas. Disso decorrerá a
postulação da autonomia da teoria, ou seja, da prática teórica em relação ã prática política, aparecendo uma linguagem eminentemente teórica e racionalista. Segundo esta, o muro que separa o conheci mento científico do pré-científico ou ideolõgico será, como em Ba chelard, o corte epistemologico. A partir deste conceito uma série de outros emergirão. 0 corte, como o proprio nome indica, é uma ru tura substancialmente teórica. Demarca o terreno de duas problemá ticas relativamente homogêneas (porque são teóricas) por um lado , e radicalmente opostas por outro, já que são zonas tomadas por es truturas discursivas diferentes. A problemática ideológica, se opõe outra, científica.
0 marxismo althusseriano desautoriza in terpretação que caracterize o desenvolvimento do saber segundo um progresso contínuo da razão. 0 que precisa ficar claro é a descon- tinuidade histórica, a qual mostra que o progresso científico se dá de modo diferente, segundo cortes conceituais. Isso evidencia outra face do conhecimento em Althusser, qual seja a provisorieda de do pensamento, dado a impossibilidade de o objeto real sofrer apreensão integral. 0 conhecimento do objeto somente é possível por intermédio — pela mediação — r do pensamento que constitui, para tanto, um objeto de conhecimento. Este difere do objeto real pois é a face teórica que tenta apreender aquele. Outra característica da filosofia althusseriana é a definição do objeto da ciência como objeto construído.
Como dissemos, estes pontos, mais tarde , passaram por revisões; ao primado da teoria sobre a prâxis Althus ser tentou restabelecer a correlação entre ambas, redefinindo a teoria como auto-teorização da prâxis. Impõe-se portanto a revisão dos conceitos atinentes ã pratica teórica, notadamente do conceito fundamental, qual seja, o relativo ao corte epistemologico. Entre tanto, se esse pensador renuncia ao projeto de autonomização da ciência, captando o corte como, tambem, um acontecimento historico -social, jamais deixara de chamâ-lo de epistemologico. Isso suge - r e , como denuncia Sanchez Vãsquez, algum resquício de . teoricismo permaneceu em seu discurso.
De uma maneira ou de outra, e mesmo pas - sando pelo crivo de algumas elaborações críticas, a teoria althus-
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seriana estara presente nos trabalhos de Poulantzas e Miaille. 0 universo de Poulantzas ê o das teoriza ções marxistas sobre o direito, e sua análise, nos textos estuda - dos por nos, se caracteriza por este aspecto. Diferente portanto
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do universo de Miaille o qual se caracteriza pelo espaço das for mulações dos próprios juristas contrastadas com o pensamento mar - xista. Universos onde, como dissemos, estarão presentes as concep^
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tualizaçoes althuáserianas , que aceitam a pratica teórica como dotada de certa autonomia relativa.
0 tipo de relacionamento, referido entre o marxismo e a ciência do direito identifica, grosso modo, um código de cientificidade aceito tambem pelos novos juristas brasileiros . Há neste caso, entre estas duas correntes,,certa coincidência a n^ vel epistemológico.
2.2. a crítica reduplicada do direito Importante deixar claro, mais uma vez,que pela expressão novos jusfilósofos não queremos designar um movimen to orgânico de redefinição do jurídico. Porque se o é, isto ocor re apenas acidentalmente. Em verdade não há uma escola teórica ho mogênea e organizada para revisar o direito. 0 que existe ê certa confluência de preocupações que se fazem notar a partir da análi-í se de uma produção discursiva heterogênea, a qual, de modo geral ,
guarda alguns pontos nodais constantes ; estes pontos sugerem a existência de renovado tipo de olhar perceptivo: — eis o frágil toque qualitativo que nos autoriza falar em nova jusfilosofia. Es sa busca embrionária, mas todavia corajosa, de reconstrução teóri ca evidencia outro momento para o direito, a partir do qual a dog mática jurídica passa pelo crivo de elaborações mais rigorosas. E^
tas elaborações, em geral, tendem a encará-la como manifestação ju rídico-analítica ideologicamente comprometida; disciplina que não passando de construção a-científica, necessita de üm corte favore cedor da formação do saber jurídico crítico este sim dotado de cientificidade.
Os caminhos percorridos para concluir pe la insuficiência teórica dos discursos jurídicos tradicionais, são
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os mais diversos. Elementos conceituais das disciplinas do homem são chamados e absorvidos; essa assunção consciente e necessária
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da interdisciplinariedade pretende quebrar dois mitos que con sistem em verdadeiros obstáculos ã retomada progressista do direi to. Referimo-nos ao mito da separação dos saberes, notadamente da autonomia da ciência jurídica, o qual conduz ã proclamação do esp£ cialista como único conhecedor competente do jurídico^^. Este mi to acaba por defender a utilização, pelo processo cognoscitivo, de métodos particularizados era face de presuraível especificidade do fenômeno jurídico; formulação insubsistente quando confrontada com a demonstração de que a ciência deve ser analisada não era função do método que o pesquisador utiliza — e este já é o segundo dos mitos referidos — senão que em face dos resultados teóricos que apresenta, das questões que inventaria e inaugura, e da articula - ção conceituai desenvolvida. Para o seu trabalho, pode o cientista se utilizar dos mais variados métodos; o que conta é o resultado
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final, ou seja a solidez teórica de sua construção conceituai . A cientificidade da teoria jurídica não deve ser julgada antecipada mente em face do método do qual se vale o jurista, como se existis^
se um método — este ou aquele — único para fazer ciência; deve ser avaliada relativamente ao que ela de modo sólido apresenta co mo resultado de investigação. Isto evidencia a insuficiência daque
la segunda manifestação mitológica.
A crítica reduplicada do direito, mostran do-se ora como teoria crítico-dialética do fenômeno jurídico, ora
como teoria crítica do discurso jurídico, mani£esta-se como conjun to de enunciados que, retomando o direito quer enquanto ^fenômeno real e observável, quer enquanto formação discursiva particulariza da, se propõe a constituir uma verdadeira ciência do direito, ou seja, uma ciência crítica desse objeto. Esta não satisfeita em re visar criticamente as teorizações normativistas ou sociologistas tentará compreender o direito integralmente. Não se satisfaz com elaborações teóricas setoriais, senão quando, entendidas como pas so preliminar para a compreensão totalizadora.
Entretanto, nem todos os novos jusfilõso- fos pensam do mesmo modo; outras linhas teóricas vão-se Ijabrindo . Afinal, a nova crítica do direito, reafirmamos, não constitui mov^ mento homogêneo e integrado; antes ê "um conjunto de vozes disso - nantes que, sem constituir-se, ainda, em sistema de categorias , propõe um conglomerado de enunciações apto a produzir um conheci - mento do direito, capaz de fornecer as bases para um questionamen-
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to social radical" . Não ê um coro a cantar em vozes tonais e era uníssono a renovação do direito; antes deve-se entendê-la como um corpo de canções nascidas a partir de lugares e pólos nimoleculares pouco próximos, mas como um mesmo objetivo. Eis porque alguns reto mam a história, oy a sociologia, e outros a semiologia e mesmo a epistemologia, a história das ciências e arqueologia ou genealogia foucaultianas como fornecedores de elementos conceituais para a re^ visão crítica do direito institucionalizado. Uma preocupação comum os anima, aproximando-os epistemologicamente: — estabelecer, con creta e positivamente, a cientificidade de um saber interrogante , crítico e questionador. E isso somente será possível através da de núncia, como ideológica, da ciência do direito, o que, em contra - partida, exige uma decidida recusa de dogmas. Só então restará ábff to caminho para uma teoria crítica do direito. Esta retomará — co mo Althusser no marxismo; e este ê um ponto que, em termos gerais,
une os novos jusfilósofos tanto com o marxismo crítico como com a filosofia das ciências do homem contemporânea — a epistemolo - gia legada por Bachelard, Canguilhem e Popper, como também a fou - caultiana, além de outras.
Para além das dissidências interiores ao pensamento crítico, se descortina uma relativa identidade que se traduzindo pelos seguintes propósitos comuns: (i) denúncia ideoló-
gica, (ii) recusa do dogma e (iii) reconstrução da ciência jurídi ca, demonstra a utilização de signos paradigmáticos de cientifici- dade semelhantes.
Persiste a antinomia ciência/ideologia : — a ciência se constitui com uma fratura inauguradora de problema tica científica distanciada qualitativamente da própria do discur so ideológico. Uma fratura que se manifesta como um salto qualita tivo sobre os obstãculos epistêmicos que impediam o avanço do co nhccimento crítico.
Essa filosofia faz-se presente em textos
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de autores como Coelho , Warat e Agostinho Marques Neto , alêm de outros. Parece ficar evidenciado o propósito de questionar a ciência jurídica dogmática, esboçado com a procura de outra ciên - cia do direito. Dã-se continuidade a uma tradição que vem desde o historicismo, qual seja a de justificar a dignidade teórica da ati^ vidade do pesquisador do direito. Parece que a possibilidade de uma ciência jurídica ê fato posto e necessário e que, para concre- tizã-la, impõe-se antes denunciar o caráter ideológico das formula ções dogmâtico-jurídicas. Cremos que aqui cabe um senão: — em nenhum momento o pensamento crítico : questionou a possibilidade cer ta do acesso da ciência do direito ao estatuto científico. Ou se ja, era nenhum momento da racionalidade crítica colocou em diávida o caráter científico da disciplina jurídica, enquanto ciência huma na; ao contrário, essa qualificação sempre se mostrou como fora de questionamento.
Sobre isso discutiremos no item subseqüên te, para o que convocaremos, desde já, a presença do pensamento de Foucault para nos auxiliar nas reflexões ali provocadas^®.
3. 0 JURÍDICO E 0 SOCIAL ENQUANTO SABERES
, Como pode ser científico um saber ante rior ã própria ciência ? — E, ainda, qual a necessidade dessa pretensa cientificidade ? — São questões que não podem ser re£
pondidas com facilidade; entretanto, formularemos algumas hipote - ses as quais, somente, aparecerão apos inserirmos no texto uma úl tima indagação: — se as disciplinas do homem se constituiram , deslig^ndoHse da filosofia, somente apos o nascimento do homem enquanto conceito e a priori histórico necessário (a priori que se situa '*ao mesmo tempo no fundamento de todas as positividades e e£' tá presente, de uma maneira que não se pode sequer dizer privile -
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giada, no elemento das coisas empíricas*' ), de que modo poderemos