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A NOVA CRÍTICA DO DIREITO

No documento O direito e os direitos (páginas 56-79)

Como uma instância teorico-judicativa do saber jurídico predominante, ou seja, da "ciência dograâtica do di^ reito", aparece uraa crítica que, além de ser uma crítica ao direi^

to ê uma crítica a determinado modo de cohhecê-lo. Este pensaraen - to, esboçando um so horizonte — refletir sobre o direito e o sa ber jurídico instituídos — procura vários caminhos interdiscipli- nariamente, valendo-se de elementos conceituais auxiliares das de mais ciências do homem. 0 marxismo, enquanto mundividência especí­

fica dotada de filosofia singular construtora de categorias teori­ camente úteis, ê tambem objeto de incorporação por aquele pensamen to. Sendo assim, podemos esboçar duas vertentes as quais, embora seguindo fins próximos, fazem-no segundo trajetórias não idênti­ cas. Referimo-nos a uma crítica duplicada — que revê tanto o mar xismo ortodoxo como os discursos jurídicos tradicionais — , ao la do da qual encontramos uma crítica não marxista do direito, Esta, caracterizamo-la como crítica reduplicada; não bastando o desloca­ mento duplo operado pela crítica marxista, a crítica reduplicada ,

tambem, questiona a possibilidade de uma teoria marxista do direi­ to, bem como a suficiência do marxismo para dar conta de ura objeto como o direito.

A retomada de epistemologias . dialéticas com um sentido de engajamento histórico muito pronunciado, propon­ do um jusfilósofo, alem de observador, tambem ator relevante da ce na social, delineara um movimento constituído por pesquisadores aos quais chamaremos de os novos jusfilósofos brasileiros^^. Novos ju£ filósofos não porque são jovens cronologicamente,, senão porque , tambem o sendo, muitas vezes, assumem outra relação entre o saber e o fenômeno jurídico. Em que consiste essa relação ? — é o que tentaremos descobrir a seguir, após dialogarmos um pouco com as colocações da crítica marx:ista do direito, aquela por nós caracte­ rizada como crítica duplicada.

2 ' 1 • â crítica duplicada do direito

0 que nos interessa ver neste momento,não ê a crítica que o marócismo formula ao direito, ou seja, ãs rela ções jurídicas que ao nível das praticas sociais concretas se esta belecem heteronomamente entre sujeitos de direito, mas sim a crítj^ ca que essa filosofia formula ao saber jurídico dominante (que mo^ tra as relações jurídicas deste modo e não de outro, tentando des­ vendar as razões pelas.quais isso ocorre). Ficamos, pois, na esfe­

ra episteraologica; antes de mais nada, tentaremos localizar o lu­ gar a partir do qual o marxismo mais recente critica o direito com petente.

Referimo-nos a um marxismo crítico que se distingue, por suas colocações teóricas bem como ao nível de sua práxis, tanto do marxisino dos fundadores Marx e Engels, como do marxismo soviético, este desenvolvido na esteira das contribuições teóricas de Lênin e Trotski mais fundamentalmente, alem de Stálin,

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Kruschcv e outros . 0 materialisnio renovado seria, neste caso , aquela filosofia que soma ãs contribuições marxianas e leninistas, os deslocamentos propostos por Mao, Gramsci ou Althusser. Destes, faremos menção apenas ã vertente Althusseriana, por pensarmos, e esta e nossa hipótese, que este autor sintetiza uma epistemologia que, coincidindo, de modo geral, com o estatuto epistêmico das ciências contemporâneas, estará presente, mais tarde, nas obras de Miaille e Poulantzas, estes mais ligados ã problemática jurídica , pois, objetivam construir uma ciência crítica e marxista do direi­ to; autores com trânsito regular nos textos filosófico - jurídicos mais recentes no Brasil.

0 projeto althusseriano ê um projeto poli tico e histórico e teórico e, nesta linha, notada e inevitavelmen­ te, epistemológico. Em síntese, "trata-se de dar ao marxismo a fi­ losofia que ele merece", ou seja, a fundamentação epistêmica de que ele necessita. 0 que implica rever a ciência criada por Marx .

0 projeto ê ambicioso e, tanto política como epistemològicamente , compreensível em face do momento em que se delineia; — a passagem de um tempo obscuro e negro para outro mais límpido e libertário . Ou seja, os primeiros escritos de Althusser, datados de 1965 — "Pour Marx" e "Lire le Capital" — se inserem num momento de sur - preendente criatividade e indefinição para o marxismo. São textos que testemunham, depois do XX Congresso do Partido Comunista da Uniâo Soviética — P.C.U.S. — em fevereiro de 1956, a passagem

de uma teorização ortodoxamente pauperizada para uma multiplicida­ de de retomadas teóricas, como o humanismo sartreano e as contri - buições do próprio Althusser.

0 momento, portanto, não era propício pa ra, apenas, repensar e criticar "aquele" marxismo soviético e sta-

linista, senão que tarefa mais extenuante se impunha, qual seja a reconstrução, desta vez a nível teorico, do materialismo. 0 econo- micismo e o determinismo mecânicos da era stalinista deveriam ce der passagem para instância cognoscitiva que, antes de mais nada , estabelecesse condições de possibilidade para as explicações mar - xistas. Nesse sentido, tentando fugir do dogmatismo típico da fase precedente, Althusser trabalhara no sentido de reconquistar a cien tificidade do marxismo, labor que se converte "numa preocupação qua se obsessiva"^^. Para tanto, dialogara com a filosofia das ciên cias contemporânea, o que lhe possibilita tomar de empréstimo a]^ guns conceitos de suma importância , tanto para suas teorizações como para o marxismo em geral. Isto o aproximara, de alguma manei­ ra, e longe das concepções de mundo que os apartam, das epistemolo gias das ciências humanas atuais. Isso será suficiente para marcá- lo, como teoricista (exagerado apego ãs construções teóricas em d£ trimento da práxis, e subordinando esta, em última instância, aque la) .

Para Althusser o marxismo é uma ciência re volucionária, não porque se mostre como um dos põlos antítéticos da dicotomia ciência proletária/ciência burguesa mas, ao contrário, porque tendo o meçmo estatuto de cientificidade das demais ciên­ cias , coloca seu dispositivo conceptual a serviço da revolução ( o que faz estando em relação prática cora ela)^*^. Eis porque podemos sugerir, hipoteticamente, que a diferença primeira entre as teo - rias críticas marxistas e as não marxistas reside no fato de que enquanto as primeiras falam em nome da ciência, da verdade e da re volução, as segundas fazem-no apenas em nome da ciência, da verda­ de e, eventualmente, da justiça social: — "a revolução ê privile­ gio marxista, mas a ciência não Por ciência Althusser enten­ de "uma prática específica que leva ã apropriação cognoscitiva do real ou ã produção de conhecimentos. Como em toda prática, há nela um trabalho de transformação que se exerce sobre uma matêria-prima teórica (conceitos, representações, instituições, etc.) que, de­ pois de trabalhada com os meios de produção teoricos corresponden­

tes , produz um objeto teõrico ou 'objeto de conhecimento'"^^.

Vejamos o que o pensamento althusseriano considera importante para a constituição de uma prática teórica científica. Para tanto, sintetizemos esse pensamento (em relação a

constituição do materialismo) em alguns itens: (i) oposição ciên - cia/ideologia, denunciando preocupação com o corte epistemológico;

(ii) autonomia da teoria, ainda que relativa, em relação ã prãxis; (iii) descontinuidade histórica dos saberes, e, (iv) construção do objeto, evidenciando a aceitação da divisão objeto real/objeto de conhecimento.

Antes de procurarmos o sentido dos itens, evidenciemos a vinculação desses conceitos com a ciência sem mais. listus colocuçõos, profundamento influunciadas p«ltt opistemologia contemporânea, notadamente a de Bachelard, estarão presentes em boa parte das formulações das ciências humanas. Portanto, o marxi£ mo se distinguira das ciências comuns mais pelo adjetivo "revolu -

cionãria" que acompanha o substantivo ciência, do que por uma colo ração ideológica peculiar e definida, como entendia o stalinismo . A preocupação althusseriana, presente mais tarde, embora não subs­

tancialmente, no Poulantzas de "Marx y el Derecho Moderno" e no Miaille de "Uma Introdução Crítica ao Direito", exceptualizando-se o desvio teoricista do qual falaremos mais tarde, parece jã estar presente no velho Marx. De fato, tendo Marx vivido num sêculo con­ taminado pela preocupação cientificista, e tendo sido contemporã - neo tanto do naturalismo quanto do historicismo epistemológicos , vertentes preeminentes nas construções discursivas de então, fez - se um dos construtores das ciências do homem. Tentado a fundamen - tar o materialismo como ciência, critica as ciências meramente e£ peculativas, compreensivas ou explicativas, típicas do idealismo e

empirismo de então, favorecendo a constituirão de um saber maiá: preocupado em transformar o mundo do que, propriamente, em conhe - cê-lo ou interpretâ-lo^^. Uma ciência aplicada aos homens, ciên - cia do diagnóstico da condição humana, da qual a prâxis necessi­ ta para se corrigir permanentemente em busca dos "processos revolu

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cionarios de libertação do homem" .

Talvez pelas características culturais da êpoca e lugares onde Marx viveu, percebe-se em sua obra uma luta no sentido de consolidar a legitimidade e a dignidade do matéria - lismo enquanto ciência. E nele, porque a unidade teoria/prãxis e - indissolúvel e aquela ê, em última instância, lima auto-teorização desta, 0 pensamento, enquanto trabalho teórico, deve auto-superar-

cionârio, através da retificação incessante de seus termos e ex”^ pressões conceptuais. As retificações não se dão enquanto démarches puramente teóricas m a s , relativamente ao movimento concreto da hi^ tõria, aparecem como ruturas e deslocamentos teoricos necessários para seu acompanhamento. Estes pontos são, não esquecidos, mas de£

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privilegiados pelo Althusser teoricista , desvio corrigido, mais tarde, numa segunda fase de sua filosofia, onde tenta rever posi - ções ratificando a unidade teoria/prâxis como essencial ao marxis­ mo .

A preocupação em demonstrar o rigor e a dignidade do pensamento é comum a todas as ciências; entretanto Al^ thusser radicalizará essa tendência no mamento em que instrumenta­ lizar o materialismo com um codigo justificador mais ou menos co­ mum ãs demais ciências do homem contemporâneas. Disso decorrerá a

postulação da autonomia da teoria, ou seja, da prática teórica em relação ã prática política, aparecendo uma linguagem eminentemente teórica e racionalista. Segundo esta, o muro que separa o conheci­ mento científico do pré-científico ou ideolõgico será, como em Ba­ chelard, o corte epistemologico. A partir deste conceito uma série de outros emergirão. 0 corte, como o proprio nome indica, é uma ru tura substancialmente teórica. Demarca o terreno de duas problemá­ ticas relativamente homogêneas (porque são teóricas) por um lado , e radicalmente opostas por outro, já que são zonas tomadas por es­ truturas discursivas diferentes. A problemática ideológica, se opõe outra, científica.

0 marxismo althusseriano desautoriza in­ terpretação que caracterize o desenvolvimento do saber segundo um progresso contínuo da razão. 0 que precisa ficar claro é a descon- tinuidade histórica, a qual mostra que o progresso científico se dá de modo diferente, segundo cortes conceituais. Isso evidencia outra face do conhecimento em Althusser, qual seja a provisorieda­ de do pensamento, dado a impossibilidade de o objeto real sofrer apreensão integral. 0 conhecimento do objeto somente é possível por intermédio — pela mediação — r do pensamento que constitui, para tanto, um objeto de conhecimento. Este difere do objeto real pois é a face teórica que tenta apreender aquele. Outra característica da filosofia althusseriana é a definição do objeto da ciência como objeto construído.

Como dissemos, estes pontos, mais tarde , passaram por revisões; ao primado da teoria sobre a prâxis Althus­ ser tentou restabelecer a correlação entre ambas, redefinindo a teoria como auto-teorização da prâxis. Impõe-se portanto a revisão dos conceitos atinentes ã pratica teórica, notadamente do conceito fundamental, qual seja, o relativo ao corte epistemologico. Entre­ tanto, se esse pensador renuncia ao projeto de autonomização da ciência, captando o corte como, tambem, um acontecimento historico -social, jamais deixara de chamâ-lo de epistemologico. Isso suge - r e , como denuncia Sanchez Vãsquez, algum resquício de . teoricismo permaneceu em seu discurso.

De uma maneira ou de outra, e mesmo pas - sando pelo crivo de algumas elaborações críticas, a teoria althus-

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seriana estara presente nos trabalhos de Poulantzas e Miaille. 0 universo de Poulantzas ê o das teoriza­ ções marxistas sobre o direito, e sua análise, nos textos estuda - dos por nos, se caracteriza por este aspecto. Diferente portanto

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do universo de Miaille o qual se caracteriza pelo espaço das for mulações dos próprios juristas contrastadas com o pensamento mar - xista. Universos onde, como dissemos, estarão presentes as concep^

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tualizaçoes althuáserianas , que aceitam a pratica teórica como dotada de certa autonomia relativa.

0 tipo de relacionamento, referido entre o marxismo e a ciência do direito identifica, grosso modo, um código de cientificidade aceito tambem pelos novos juristas brasileiros . Há neste caso, entre estas duas correntes,,certa coincidência a n^ vel epistemológico.

2.2. a crítica reduplicada do direito Importante deixar claro, mais uma vez,que pela expressão novos jusfilósofos não queremos designar um movimen to orgânico de redefinição do jurídico. Porque se o é, isto ocor­ re apenas acidentalmente. Em verdade não há uma escola teórica ho mogênea e organizada para revisar o direito. 0 que existe ê certa confluência de preocupações que se fazem notar a partir da análi-í se de uma produção discursiva heterogênea, a qual, de modo geral ,

guarda alguns pontos nodais constantes ; estes pontos sugerem a existência de renovado tipo de olhar perceptivo: — eis o frágil toque qualitativo que nos autoriza falar em nova jusfilosofia. Es­ sa busca embrionária, mas todavia corajosa, de reconstrução teóri­ ca evidencia outro momento para o direito, a partir do qual a dog­ mática jurídica passa pelo crivo de elaborações mais rigorosas. E^

tas elaborações, em geral, tendem a encará-la como manifestação ju rídico-analítica ideologicamente comprometida; disciplina que não passando de construção a-científica, necessita de üm corte favore­ cedor da formação do saber jurídico crítico este sim dotado de cientificidade.

Os caminhos percorridos para concluir pe la insuficiência teórica dos discursos jurídicos tradicionais, são

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os mais diversos. Elementos conceituais das disciplinas do homem são chamados e absorvidos; essa assunção consciente e necessária

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da interdisciplinariedade pretende quebrar dois mitos que con sistem em verdadeiros obstáculos ã retomada progressista do direi­ to. Referimo-nos ao mito da separação dos saberes, notadamente da autonomia da ciência jurídica, o qual conduz ã proclamação do esp£ cialista como único conhecedor competente do jurídico^^. Este mi­ to acaba por defender a utilização, pelo processo cognoscitivo, de métodos particularizados era face de presuraível especificidade do fenômeno jurídico; formulação insubsistente quando confrontada com a demonstração de que a ciência deve ser analisada não era função do método que o pesquisador utiliza — e este já é o segundo dos mitos referidos — senão que em face dos resultados teóricos que apresenta, das questões que inventaria e inaugura, e da articula - ção conceituai desenvolvida. Para o seu trabalho, pode o cientista se utilizar dos mais variados métodos; o que conta é o resultado

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final, ou seja a solidez teórica de sua construção conceituai . A cientificidade da teoria jurídica não deve ser julgada antecipada­ mente em face do método do qual se vale o jurista, como se existis^

se um método — este ou aquele — único para fazer ciência; deve ser avaliada relativamente ao que ela de modo sólido apresenta co­ mo resultado de investigação. Isto evidencia a insuficiência daque

la segunda manifestação mitológica.

A crítica reduplicada do direito, mostran do-se ora como teoria crítico-dialética do fenômeno jurídico, ora

como teoria crítica do discurso jurídico, mani£esta-se como conjun to de enunciados que, retomando o direito quer enquanto ^fenômeno real e observável, quer enquanto formação discursiva particulariza da, se propõe a constituir uma verdadeira ciência do direito, ou seja, uma ciência crítica desse objeto. Esta não satisfeita em re visar criticamente as teorizações normativistas ou sociologistas tentará compreender o direito integralmente. Não se satisfaz com elaborações teóricas setoriais, senão quando, entendidas como pas­ so preliminar para a compreensão totalizadora.

Entretanto, nem todos os novos jusfilõso- fos pensam do mesmo modo; outras linhas teóricas vão-se Ijabrindo . Afinal, a nova crítica do direito, reafirmamos, não constitui mov^ mento homogêneo e integrado; antes ê "um conjunto de vozes disso - nantes que, sem constituir-se, ainda, em sistema de categorias , propõe um conglomerado de enunciações apto a produzir um conheci - mento do direito, capaz de fornecer as bases para um questionamen-

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to social radical" . Não ê um coro a cantar em vozes tonais e era uníssono a renovação do direito; antes deve-se entendê-la como um corpo de canções nascidas a partir de lugares e pólos nimoleculares pouco próximos, mas como um mesmo objetivo. Eis porque alguns reto mam a história, oy a sociologia, e outros a semiologia e mesmo a epistemologia, a história das ciências e arqueologia ou genealogia foucaultianas como fornecedores de elementos conceituais para a re^ visão crítica do direito institucionalizado. Uma preocupação comum os anima, aproximando-os epistemologicamente: — estabelecer, con­ creta e positivamente, a cientificidade de um saber interrogante , crítico e questionador. E isso somente será possível através da de núncia, como ideológica, da ciência do direito, o que, em contra - partida, exige uma decidida recusa de dogmas. Só então restará ábff to caminho para uma teoria crítica do direito. Esta retomará — co mo Althusser no marxismo; e este ê um ponto que, em termos gerais,

une os novos jusfilósofos tanto com o marxismo crítico como com a filosofia das ciências do homem contemporânea — a epistemolo - gia legada por Bachelard, Canguilhem e Popper, como também a fou - caultiana, além de outras.

Para além das dissidências interiores ao pensamento crítico, se descortina uma relativa identidade que se traduzindo pelos seguintes propósitos comuns: (i) denúncia ideoló-

gica, (ii) recusa do dogma e (iii) reconstrução da ciência jurídi­ ca, demonstra a utilização de signos paradigmáticos de cientifici- dade semelhantes.

Persiste a antinomia ciência/ideologia : — a ciência se constitui com uma fratura inauguradora de problema tica científica distanciada qualitativamente da própria do discur­ so ideológico. Uma fratura que se manifesta como um salto qualita­ tivo sobre os obstãculos epistêmicos que impediam o avanço do co nhccimento crítico.

Essa filosofia faz-se presente em textos

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de autores como Coelho , Warat e Agostinho Marques Neto , alêm de outros. Parece ficar evidenciado o propósito de questionar a ciência jurídica dogmática, esboçado com a procura de outra ciên - cia do direito. Dã-se continuidade a uma tradição que vem desde o historicismo, qual seja a de justificar a dignidade teórica da ati^ vidade do pesquisador do direito. Parece que a possibilidade de uma ciência jurídica ê fato posto e necessário e que, para concre- tizã-la, impõe-se antes denunciar o caráter ideológico das formula ções dogmâtico-jurídicas. Cremos que aqui cabe um senão: — em nenhum momento o pensamento crítico : questionou a possibilidade cer ta do acesso da ciência do direito ao estatuto científico. Ou se­ ja, era nenhum momento da racionalidade crítica colocou em diávida o caráter científico da disciplina jurídica, enquanto ciência huma na; ao contrário, essa qualificação sempre se mostrou como fora de questionamento.

Sobre isso discutiremos no item subseqüên te, para o que convocaremos, desde já, a presença do pensamento de Foucault para nos auxiliar nas reflexões ali provocadas^®.

3. 0 JURÍDICO E 0 SOCIAL ENQUANTO SABERES

, Como pode ser científico um saber ante rior ã própria ciência ? — E, ainda, qual a necessidade dessa pretensa cientificidade ? — São questões que não podem ser re£

pondidas com facilidade; entretanto, formularemos algumas hipote - ses as quais, somente, aparecerão apos inserirmos no texto uma úl­ tima indagação: — se as disciplinas do homem se constituiram , deslig^ndoHse da filosofia, somente apos o nascimento do homem enquanto conceito e a priori histórico necessário (a priori que se situa '*ao mesmo tempo no fundamento de todas as positividades e e£' tá presente, de uma maneira que não se pode sequer dizer privile -

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giada, no elemento das coisas empíricas*' ), de que modo poderemos

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