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A Nova Identidade da Comunidade: VEgw, eivmi/Eu Sou (9,8-12)

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3 CONSEQUÊNCIAS DA FÉ PROFESSADA

3.1 CONSTRUÇÃO DO ITINERÁRIO DO LEITOR MODELO EM JO 9,7B-38

3.1.2 A Nova Identidade da Comunidade: VEgw, eivmi/Eu Sou (9,8-12)

Com a constatação da cura, a história do cego de nascença poderia terminar, mas não é o caso e, por isso, o Leitor já sabe que de agora em diante a vida do cego curado se complicará sempre mais (ALETTI, 2004) e fica, certamente, impressionado e surpreendido porque o autor do sinal, simplesmente desaparece da cena. Começa aqui, a partir do horizonte narrativo-pragmático a parte central do capítulo, considerada por Fossion (1982, p. 110) “a prova principal do inteiro drama”.

A novidade do encontro com Jesus é tal que desestabiliza os vizinhos e os conhecidos, suscitando questionamentos (9,9) sobre a identidade do cego. Esse grupo não faz perguntas sérias. Considerando-o à luz da análise pragmática, a divisão de discernimento já acontece na pergunta acerca do reconhecimento: o homem curado é o cego que eles costumavam ver ou não? Se o reconhece, pergunta pelas circunstâncias de sua cura e até quer saber onde está quem o curou, mas não vai além dessa questão. A pergunta de sua identidade não parece interessar-lhe, mas para o narrador é exatamente esta a pergunta essencial. Por isso, há uma energia evocativa, diria até uma performance na resposta do cego no v. 9: VEgw, eivmi. Porque estas são as primeiras palavras pronunciadas pelo cego, se revestem de uma força particular parecendo, aos olhos do Leitor, uma proximidade com Jesus, talvez confirmada também pela falta da mesma fórmula nos lábios de Jesus em todo o capítulo 9.

Essa é uma expressão típica dos lábios de Jesus. É uma forma de autoidentificação de Jesus (8,12.24.28.58; 10,7, 9,9; 11,25; 13,19; 14,6; 15,1). Ela revela o autoconhecimento que Jesus tem do que ele é. Ao ser usada pelo homem curado, ela indica a nova forma como ele se percebe diante dos grupos de pessoas que o cercam. O curado não tinha uma família que o apoiava, e as pessoas ao seu redor o consideravam como alguém sob o juízo divino por pecado seu ou de seus pais. A identidade no mundo antigo estava intimamente relacionada à família. Sem uma família como meio de identidade, o indivíduo ‘não é’. A profissão e a fé eram

dominadas pela família. Ser excluído da família era ser proscrito. O indivíduo assim não podia casar ou trabalhar porque tudo dependia da família. Se a situação é essa, o Leitor poderia até se perguntar se o sinal não seria um protesto de resistência contra a Sinagoga? Ou também o início de um processo de ruptura?

A partir desses fatos e da divisão se é ou não o cego e mendigo, pensamos que o Leitor já está a par de diagnosticar os problemas e os desafios reais da comunidade ao final do século I. Deseja ela celebrar a memória do Senhor Jesus morto-ressuscitado! A comunidade é a comunidade que também tem dentro de si o grupo do ‘eu sou’. Essa forma de se identificar colocava esta comunidade em plena identificação com o Jesus da memória. Uma memória perigosa: aponta para sua ‘presença real’ na vida de cada cristão (ã)! O longo caminho de confissão e profissão de fé da comunidade é o mesmo que proclamar ‘eu sou’. Excluídos como impuros e pecadores (9,16.24), agora ganhavam nova maneira de apresentarem – estes seriam dentro da comunidade os que têm uma identidade nova, os que são ‘eu sou’. Com a família padrão em crise (pai, mãe e filhos), nova perspectiva se levantava para suprir esta lacuna. O ‘monopólio da visão’ é desafiado pela pequena, excluída e mendiga comunidade que começa a enxergar e se autorreconhecer como ‘eu sou’.

O Leitor percebe que a sociedade vigente é constituída dos seguintes grupos: a comunidade, representada pelo cego curado – com seus conhecidos e vizinhos uns dos outros, os fariseus, e os judeus, os quais envolvem os fariseus, mas podem também conter elementos como os saduceus, pró-romanos, e aqueles que são os ‘outros’, vivem próximos da comunidade, mas são fortes o suficiente para arrastarem um homem para ser julgado na Sinagoga344. O Leitor nota que estes grupos têm

uma linguagem que se assemelha àquela do interrogatório experimentado pelo curado diante dos fariseus na Sinagoga:

9,10 Pw/j Îou=nÐ hvnew,|cqhsa,n sou oi` ovfqalmoi,È - Como então foram aberto seus olhos?

9,15 pw/j avne,bleyen - como tornou a ver

9,19 pw/j ou=n ble,pei a;rtiÈ - Como, pois, vê agora?

9,26Ti, evpoi,hse,n soiÈ pw/j h;noixe,n sou tou.j ovfqalmou,jÈ - Que fez a você? Como abriu os seus olhos?

344 É possível notar como, no capítulo 9, permaneça um sentido de indeterminação sobre a identidade

das autoridades que interrogam o ex-cego. Por isso, no segundo capítulo da Tese discorremos sobre a identidade dos judeus no Quarto Evangelho. Aqui temos, portanto, Judeus como sinônimo dos fariseus. Nesse sentido, usaremos tanto Judeus como Fariseus, Sinagoga ou Judaísmo em Formação como sinônimos.

O Leitor se surpreende ao constatar que o primeiro interrogatório que o curado experimentou foi dentro da própria comunidade em que ele vivia (9,10). A partícula interrogativa como (pw/j) três vezes estará na boca dos fariseus em seu interrogatório dentro da Sinagoga. Olhando desta ótica, de alguma maneira, o estilo dos fariseus contra aqueles que se identificavam com Jesus e viviam fora da Sinagoga, estava disseminado dentro e fora contra a comunidade345. Por outro lado,

o modo como o cego de nascença narra sua própria cura não é neutro, mas revela uma precisa tomada de posição em favor de Jesus, na tentativa de contrapor-se às acusações e demonstrar-se que também agora a comunidade sabe se posicionar346.

Ao declarar que quem realizara o sinal fora um homem chamado Jesus no v. 11 já antecipa e deixa implícito, de alguma forma, a relação com o Filho do Homem (9,35). A pergunta de 9,12 sobre o lugar ou onde está ele (Pou/ evstin evkei/nojÈ) é uma consequência da narração dos capítulos 7-8 e, portanto, não é uma questão superficial de busca de informações espaciais, mas implicitamente uma interrogação cristológica essencial que, aliás, está na base de todo o capítulo e do Quarto Evangelho como um todo: Quem é verdadeiramente Jesus?

Diante da resposta do cego, ao final de 9,12 (Ouvk oi=da: não sei) o Leitor dá-se conta da ironia marcante e até sorri pelo ainda inseguro protagonista com relação a Jesus; contudo, se admira de sua sinceridade, permanecendo também vítima dessa ironia e ignorante sobre a identidade de Jesus, até mesmo porque, Ele desaparecera da cena em 9,7. Essa resposta não desilude o Leitor, mas o faz compreender que a fé ainda não é madura, sobretudo, sendo ele conhecedor do que acontecera com o paralítico do capítulo 5. Podemos dizer que o Leitor, em atitude de suspense, começa a projetar sobre o texto algumas esperas e temores, que serão, em parte, desmentidas pelo protagonismo do cego e também profeta347.

345 A pergunta dos discípulos, no início do capítulo, aponta para uma violência verbal. A comunidade

estava repetindo isso entre seus membros, tanto quanto era repetido fora. Depois, a comunidade externa à comunidade joanina leva, à força, o que fora curado para dentro da Sinagoga para ser julgado pelos fariseus. Finalmente, a violência em dose dupla é demonstrada dentro do interrogatório feito pelos fariseus ao cego: eles fazem violência verbal e física com a expulsão da Sinagoga.

346 Interessante que ele omite o referimento temporal ‘sábado’ seja no v. 11 como no v. 15; substitui

no v. 15 o verbo ungir (evpe,crise,n, já usado em 9,6.11 e que poderia indicar mais explicitamente uma violação do preceito do repouso sabático) com o verbo por (evpe,qhke,n); enfim, ele se silencia com relação se Jesus o havia ordenado para que andasse para se lavar à piscina de Siloé.

347 Os vizinhos têm uma função narrativa importante: são os primeiros a constatar o sinal; iniciam-se

com os interrogatórios que, posteriormente, o miraculado se tornará objeto na parte central da perícope; enfim, entronizam em cena os fariseus no v. 13.

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