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Comunidade Convidada a Confessar e Professar a Fé (9,35-38)

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3 CONSEQUÊNCIAS DA FÉ PROFESSADA

3.1 CONSTRUÇÃO DO ITINERÁRIO DO LEITOR MODELO EM JO 9,7B-38

3.1.6 Comunidade Convidada a Confessar e Professar a Fé (9,35-38)

Justamente no momento em que a narração chega ao vértice da tragicidade (9,34) reaparece a memória viva e concreta de Jesus na comunidade que se tornará decisiva. De fato, nessa última cena se realiza a segunda resolução do capítulo, ligada ao retorno de Jesus, que convida o curado a exprimir a sua própria fé (9,35- 38). O reaparecimento de Jesus é introduzido no v. 35 adiantando o verbo em relação ao sujeito (:Hkousen VIhsou/j), criando assim ulterior efeito-surpresa no Leitor, semelhante o quanto acontecerá logo depois no v. 40: :Hkousan evk tw/n Farisai,wn tau/ta oi` metV auvtou/ o;ntej361.

A ação de Jesus (eu`rw.n auvto.n: encontrando-o) tem aqui uma valência dupla: acolher o ex-cego (colocando-se, assim, em claro contraste com a conduta da Sinagoga, mas em estreita sintonia com aquele que será o comportamento do bom pastor no capítulo 10) e conduzi-lo pela mão em um caminho de aprofundamento e de expressão da fé. Por outro lado, em segundo lugar, em meio às tensões e violências, há a inclusão. O exemplo de Jesus, ao aproximar-se e acolher o curado expulso servirá de modelo para a comunidade agir em caso semelhante362.

361 Ouvindo isto, aqueles dos fariseus, que estavam com ele (o cego).

362Se a oração de Jesus em Jo 17 era para que o grupo de irmãos tivesse unidade, e ela devesse ter

implicações mais amplas, então podemos deduzir que a questão relacionada ao acolhimento daqueles que haviam sido excluídos da Sinagoga está em pauta nesta oração. É possível que houvesse grupos dentro da comunidade que não estavam aceitando aqueles que foram excluídos da Sinagoga, por seu vínculo forte com os fariseus admiradores das tradições rabínicas, ou aqueles que preferiam aproximação com pensamentos mais gnósticos. Assim, o modelo acolhedor de Jesus serviria de paradigma para estes grupos quebrarem seus desentendimentos e pensarem na unidade.

Acostumado a ser sempre interrogado, no v. 35 Jesus pergunta ao excluído para que demonstre a sua fé no Filho do Homem. Com esta pergunta que faz apelo à liberdade do ex-cego, a narração se abre finalmente a um diálogo franco e maduro, onde não há temor por parte do interlocutor em revelar sua ignorância (9,36), exigindo explicação (kai. ti,j evstin: quem é) e desejo de renovar sua própria disponibilidade de crer (i[na pisteu,sw eivj auvto,nÈ: para que eu creia?)

A estrada escolhida pelo narrador é estratégica: Jesus poderia simplesmente pedir diretamente ao ex-cego a fé Nele, talvez com uma pergunta explícita ‘crês em mim’?; contudo, há aqui algo de inesperado que desenvolve a comunicação em modo novo, fazendo saltar a técnica do delongar que, aliás, no mundo narrativo, não é uma perda de tempo, mas indica a necessidade, para os personagens e o Leitor, de refletir antes de tomar uma decisão ou de dar uma resposta particularmente importante (ECO, 1994, p. 62).

Nessa mesma lógica também se situa a nota de explicação do ex-cego. Desta vez, à luz da pragmática, a intenção do interrogante é sincera, mas também esconde algo que ainda não está claro a ele, quase que estivesse mostrando ao Leitor que o caminho de reconhecimento de Jesus como Filho do Homem não é dado como pressuposto, mas fruto de um itinerário e busca prolongada. De fato, ao usar esse título cristológico leva o ex-cego a não entender a quem está se referindo Jesus e, assim permite, não respondendo imediatamente, atrair a atenção do Leitor sobre a pergunta e, consequentemente, sobre a identidade de Jesus.

Impressiona o modo como responde Jesus (9,37): kai. e`w,rakaj auvto.n kai. o` lalw/n meta. sou/ evkei/no,j evstin: tanto viste a este quanto o que fala contigo é) Certamente o Leitor estava na expectativa de algo mais simples e explícito, como por exemplo: sou eu ou eu sou o Filho do Homem; talvez até utilizando a própria fórmula evgw, eivmi tão cara ao Quarto Evangelho, mas que surpreendentemente no capítulo 9 é reservada especificamente ao ex-cego (9,9).

Nesse momento o Leitor inteligente começa a refletir qual será o significado da expressão: o tens já visto (9,37). Na realidade, na narração o cego jamais viu fisicamente Jesus, mas somente agora. Isso, então, convida a suspeitar que o significado verdadeiro das palavras de Jesus deva ser procurado em nível simbólico e teológico mais profundo. A passagem do símbolo da fé expressa nos vários verbos

de visão (trabalhados na semântica) do capítulo 9 para a do ouvir não só prepara o terreno para Jo 10, onde as ovelhas escutarão a voz do bom pastor, mas também contrasta na comunidade a pretensão por parte dos dissidentes, e permite uma maior aderência à situação atual de quem lê, que não tem mais diante dos olhos Jesus, mas tem ainda disponível a sua Palavra para escutar e ler na comunidade. Ao final, o ponto de vista do cego se torna aquele do Leitor que, desde o Prólogo, sabe que Jesus é o Verbo e a Luz mas, simultaneamente, o ponto de vista do Leitor deve se tornar aquele do cego de nascença agora curado: é necessário, por isso, reconhecer a própria cegueira inata e a total gratuidade da revelação, relendo o próprio caminho progressivo, passando da escuridão inicial (9,1.12), às sombra presentes nas declarações imperfeitas do ex-cego (9,17.25) e àquelas ambíguas dos pais, à luz do pleno reconhecimento de Cristo (9,30-33.38).

Muito mais que um ver físico Jesus está indicando ao seu interlocutor um plano ulterior de conhecimento e, ao mesmo tempo, ele oferece uma releitura do caminho percorrido e ele se revela na sua identidade profunda. É por meio desses sinais que o texto constrói o próprio Leitor, capaz de colher o real alcance desse diálogo conclusivo entre Jesus e o que fora cego de nascimento. O êxito final, inesperado e imprevisível, coloca mais uma vez a fé em Cristo como ponto de chegada de um caminho complexo e que não economiza dificuldade. Assim, agora o Leitor (9,38) contempla feliz e segue o ex-cego que, em plena visão, verbaliza e gestualiza, como se estivesse em uma celebração litúrgica, a profissão de fé (o` de. e;fh( Pisteu,w( ku,rie\ kai. proseku,nhsen auvtw/|: Disse: Creio, Senhor!” “E se prostrou a ele), coroando assim a conclusão da narração.

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