1 O CONTEXTO DO QUARTO EVANGELHO
1.1 CONTEXTO PLURAL DA COMUNIDADE DO QUARTO EVANGELHO
1.1.4 Grupos e Conflitos da/na Comunidade do Quarto Evangelho
1.1.4.4 O Quarto Evangelho e o conflito com o pensamento gnóstico
Das várias tendências conhecidas, temos a gnóstica, muito comum na época e com livre circulação entre os pensadores105, mesmo não sendo ainda, à época,
uma doutrina sistematizada106. E justamente por isso, muito influenciou a
comunidade que deu origem ao Quarto Evangelho. De fato (HORSTER, 1996, p. 44), “entre os estudiosos do Novo Testamento do século XX tornou-se predominante a convicção de que o pano de fundo religioso do Quarto Evangelho é sobretudo o gnosticismo”107.
Bultmann (1884-1976)108 sustentava que o autor do Quarto Evangelho teria
sofrido tamanha influência do gnosticismo que veio a escrever um evangelho que transmitisse a verdade a respeito de Cristo por intermédio das lentes do mito gnóstico. Observe como ele (2004, p. 230) se pronuncia sobre o assunto:
A terminologia gnóstica serviu, sobretudo para expor com clareza o evento salvífico. Segundo ela, o redentor aparece como uma figura cósmica, como o ser divino preexistente, o filho do Pai, que desceu do céu e assumiu figura de ser humano, que de sua atividade terrena, foi elevado à glória celestial e conquistou o domínio sobre os poderes espirituais.
105 Gnosticismo é a visão de mundo baseada na experiência de Gnose, que tem por origem
etimológica o termo grego gnosis, que significa ‘conhecimento’. Mas não um conhecimento racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a episteme dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental; Sabedoria. É usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua essência eterna, centelha divina, maravilhosa e crística, pela via do coração. É uma realidade vivente sempre ativa, que apenas é compreendida quando experimentada e vivenciada. Assim sendo jamais pode ser assimilada de forma abstrata, intelectual e discursiva (NASCIMENTO, 2010. p. 45).
106 Consideramos a tendência gnóstica como fenômeno cultural mais do que como doutrina.Temos
indícios literário-textuais para ver a ligação entre o Quarto Evangelho e essa tendência gnóstica no sentido amplo.
107 Dodd (2003. p. 137) mostra que os termos ‘gnóstico’ e ‘gnosticismo’ são usados pelos escritores
modernos numa desconcertante variedade de sentidos. Etimologicamente, significa crença de que a salvação se realiza pelo conhecimento. Caso se opte por esse sentido, devem ser chamados gnósticos cristãos ortodoxos (como Clemente de Alexandria e Orígenes), judeus helenizantes (Fílon) e escritores pagãos (como os hermetistas). Essa definição é muito utilizada por autores recentes, especialmente na Alemanha. Diante de todos esses fatores, Dodd conclui que não se pode dar uma resposta exaustiva à pergunta: Qual é a relação entre gnosticismo e cristianismo? Lohse (2000, p. 243) é de opinião parecida e declara que, “apesar dos intensos esforços da pesquisa para esclarecer as origens do gnosticismo, ainda não se dispõe de informações seguras sobre seu surgimento”. Contudo, o biblista afirma que, “hoje, geralmente se reconhece a origem pré-cristã do gnosticismo, como um amplo movimento que acompanhou o cristianismo primitivo, vinculando-se a ele de muitas maneiras”.
108 Sobre a contribuição inegável e importante de Bultmann para o estudo do Quarto Evangelho,
E ainda completa à página 218:
Por natureza, um processo desses não acontece sem influência de conteúdo. E assim como o cristianismo helenista foi envolvido no processo sincretista por meio da formação do culto ao Κύριος [Senhor], tanto mais isso aconteceu pela formação da doutrina da redenção sob influência gnóstica.
Se Bultmann está correto ao afirmar que o gnosticismo exerceu real influência sobre o autor do Quarto Evangelho, deve-se esperar que o mesmo tivesse contato pessoal com tal doutrina ao ponto que pudesse absorver seus conceitos e apresentá-los de acordo com sua linguagem. Portanto, o Evangelho deve ser obra do II século, e consequentemente, João não poderia ser o autor desse Evangelho. Estranhamente, Bultmann aceita uma data no I século para o Quarto Evangelho109.
Na ótica de Pagels (2004, p. 42-3), que muito se dedicou ao contexto e influência ao cristianismo originário, evidencia-se, entre outras coisas, que não apenas foi necessário defender-se doutrinariamente contra as teorias gnósticas, mas que, além disso, a própria autoridade eclesiástica da comunidade do Quarto Evangelho estava sendo ameaçada e, por isso, precisava também se afirmar contra tendências contrárias. Sendo assim, o Quarto Evangelho reflete essa autodefesa nos seus textos:
João afirma, explicitamente, que escreve ‘para que creiais e para que, crendo, tenhais vida [em nome de Jesus]’. João se opõe à inclusão do que o Evangelho de Tomé ensina: que a luz divina brilha não só em Jesus, mas, pelo menos potencialmente, em todos nós. Tomé encoraja o ouvinte não tanto a acreditar em Jesus, conforme João exige, como a buscar conhecer Deus por meio da própria capacidade que lhe foi divinamente concedida, visto que somos todos criados à imagem de Deus. Para os cristãos de gerações posteriores, o Evangelho de João ajudou a criar as bases de uma igreja unificada, coisa que Tomé, com sua ênfase na busca de Deus pelo indivíduo, não fez. [...] A primeira geração de leitores (entre os anos 90 e 130, aproximadamente) não chegou a um acordo sobre ele ser um evangelho autêntico ou falso, e se devia fazer parte do Novo Testamento. Seus defensores entre os primeiros cristãos o respeitavam como ‘o evangelho do logos’ – o evangelho da palavra ou razão (logos, em grego) divina – e escarneciam dos que se opunham a ele como ‘irracionais’ (alogos). Seus detratores, por outro lado, salientaram que a narrativa de João difere consideravelmente das de Mateus, Marcos e Lucas.
Esse conflito sério é diferente de outros presentes na história da formação do Quarto Evangelho justamente porque se desenvolve em ambiente
109 Aqui também se configura a nossa escolha pela datação final do Quarto Evangelho entre os anos
90-110, período em que, possivelmente, essa tendência gnóstica e suas ideias começam a ganhar terreno. Sabemos que o século áureo do gnosticismo será o II.
intracomunitário110. Após o conflito e separação da Sinagoga, portanto ad extra,
alguns do grupo começam a negar aspectos fundamentais do cristianismo e da vivência comunitária e, por isso, foi traumático e decisivo para a comunidade, chegando inclusive a um cisma (GUERRA, 2015)111. Sobre essas correntes
gnósticas, causa e razão da ruptura, Brown (1984, p. 111) assim conclui:
A maior parte da comunidade joanina parece ter aceitado a teologia separatista a qual, tendo-se apartado dos moderados por meio do cisma, tendeu para o verdadeiro docetismo (de um Jesus não plenamente humano a uma mera aparência de humanidade), para o gnosticismo (de um Jesus preexistente a crentes preexistentes que também tinham vindo das pragas celestiais), e para o montanismo (de possuir o Paráclito à encarnação do Paráclito). Eles levaram consigo o quarto evangelho, que foi aceito primeiro pelos gnósticos, que o comentaram112.
O autor, além destas dissensões envolvidas com o tema da cristologia que citamos acima, destaca algumas posturas tomadas pelos gnósticos, que foram duramente rebatidas pelo evangelista. Dentre as principais, destacam-se: em primeiro lugar, os adversários reivindicavam uma intimidade com Deus ao ponto de as pessoas se tornarem perfeitas e sem pecado (1Jo 1,6.8.10; 2,4; 2,6.9; 4,20); em segundo, os adversários não dão muita ênfase em guardar os mandamentos (1Jo 2,3-4; 3,22-24; 5,2-3); em terceiro, os opositores são vulneráveis no que diz respeito ao amor fraterno.
Entre hipóteses e conjecturas, somos do parecer de que, apesar de ser historicamente demonstrável que certos grupos gnósticos de Alexandria e Éfeso apreciaram especialmente o Quarto Evangelho, contudo, não existe qualquer
110 Sobre o aspecto da crise interna na comunidade sugerimos ao que já fora elaborado: 1.1.2.5 Crise
interna da comunidade: anos 100-110. Julgamos já ter elucidado a questão, mesmo que não tenhamos, na ocasião, dado a devida importância especificamente à gnose, justamente porque tratávamos do itinerário vivido pela comunidade. Nesse período, em particular, há uma crise na relação entre amor e ética, entre cristologia baixa e alta, entre humanidade e divindade de Jesus.
111 A partir dessa lógica Brown (1984, p. 58) coloca esse conflito interno como marca do início da
terceira fase da comunidade (mais ou menos no ano 100), já quando as epístolas estão sendo redigidas, tendo como resultado destas disputas internas o cisma na comunidade, que fica muito claro em 1Jo 2,19. Bortolini (2001, p. 19) também associa os conflitos internos na comunidade joanina com a terceira fase. Para ele, estes conflitos estão intimamente ligados com a redação das epístolas, e a primeira carta de João refere-se à essa quebra de ‘utopia’ das comunidades: Esses Anticristos saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco. Mas era preciso que ficasse claro que nem todos eram dos nossos (1Jo 2,19). A partir deste conflito, percebemos uma mudança no estilo literário do evangelista. O Quarto Evangelho, que inicialmente nos apresenta um discurso plural, de inclusão, com um tom de abertura, dá lugar à uma linguagem sectária, bem fechada, às vezes agressiva e exclusivista, percebida claramente ao longo das epístolas.
112 A comunidade dividiu-se em duas: alguns aderiram à visão representada pelo autor de 1 e 2 João
(outro escritor joanino, distinto do evangelista); muitos desertaram (ao menos na opinião do autor de 1Jo 2,18-19) e eram anticristos e filhos do demônio.
conexão vital entre os dois; parece certo bastante que na realidade, o Quarto Evangelho foi escrito como refutação das ideias gnósticas básicas, ao invés de ter sido um reflexo das mesmas113. De fato, mesmo que em algum momento a
comunidade do Quarto Evangelho quisesse expressar sua mensagem evangélica apropriando-se de categorias ou vocabulário comum também ao horizonte gnóstico, o fez tão e somente para reforçar diante da gnose as afirmações de fé como, por exemplo, a criação-redenção, como obras do mesmo Logos. Além do mais, o Quarto Evangelho expressa de forma categórica a seriedade (realismo) da encarnação como realidade estritamente histórica e inseparável da pessoa de Cristo e, nessa mesma lógica, frisa a importância da prática fraterna, no livro da comunidade (Jo 13- 17). Mas não é de se estranhar que essa fé apenas ‘intelectual’, proposta pelos gnósticos, seduzira muitos intelectuais (RUBEAUX, 1995, p. 65) e também cristãos.
A título de conclusão desse item e de nossa afirmação de que o Quarto Evangelho também foi escrito para refutar as ideias básicas da gnose espalhada pelo Império Romano, influenciando na crise interna da comunidade, nos servimos do comentário que faz Konings (2005, p. 49)114 ao analisar Jo 1,14a – a Palavra veio
a ser carne... e nós contemplamos a sua glória:
Também alhures, João insiste na “vinda em carne” de Jesus (cf. 1Jo 4,2; 2Jo 7). Podemos ver nas primeiras palavras do v. 14 uma afirmação provocadora contra os que se acham bem à vontade com a supostamente intocável posse da luz trazida por Jesus. A esses fiéis que vivem com a cabeça nas nuvens, embora com os pés na lama, e que só querem saber da glória (como brilho), João apresenta o paradoxo da encarnação (desde o nascimento até a cruz), sem o qual a existência cristã não é autêntica e completa. A carne e glória estão inseparavelmente imbricadas. O tipo de glória que é descrita só pode manifestar-se em carne. A carne não serve para esconder a glória, mas para manifestá-la.
A partir do que foi exposto, resulta que o Quarto Evangelho é um texto em situação, ou seja, não há somente a apresentação do evento Jesus de Nazaré, mas também transparecem os problemas, conflitos, grupos opositores e os eventos da comunidade para a qual foi escrito. Em todo processo hermenêutico, com efeito,
113 Sobretudo no início do II século, quando também é escrita a Primeira Carta de João que, de certa
forma, é uma resposta contundente à gnose e outras interpretações da pessoa de Jesus que colocavam a fé em risco. Se por um lado, a tática do Império Romano possibilitava e favorecia a expansão do cristianismo, por outro, sem dúvida, também favorecia a difusão de outras tendências, entre as quais a gnose. “Essa ‘religião de conhecimento’ difundiu-se pelo tempo, a partir de nossa era, desde a parte ocidental do Oriente Próximo (Síria, Palestina, Egito, Ásia Menor). Quase podemos dizer que a gnose seguiu a Igreja como uma sombra; a Igreja nunca pôde vencê-la, pois sua influência se aprofundou demais. Por causa de sua história comum, elas continuam duas – hostis – irmãs (RUDOLPH apud CROSSAN, 2004, p. 21).
sempre acontece uma espécie de fusão de horizontes: o das realidades descritas e da comunidade que interpreta os eventos e os reinterpreta à luz do evento Jesus Cristo.