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PARTE III Educação em Direitos Humanos

1. A nova ordem mundial e os direitos humanos

Estudar a história dos direitos humanos e sua evolução no espaço-tempo é primordial para o direito internacional. Todo indivíduo deveria ter a oportunidade de conhecer as principais discussões em seus vários contextos e períodos históricos e se comprometer na proteção internacional dos direitos humanos; tão essencial à prosperidade das gerações futuras.

7 UNITED NATIONS HUMAN RIGHTS OFFICE OF THE HIGH COMISSIONER. Covid-19

and its human rights dimensions. Disponível em: <https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pa-

O ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1973, Henry Kis- singer, disse: “jamais existiu uma ordem mundial que fosse verdadeiramente global”. No seu livro Ordem Mundial,8 Henry

Kissinger comenta que a Ordem Mundial que se conhece hoje foi concebida na Europa Ocidental há quase quatro séculos em uma conferência da paz realizada na região alemã de Vestfália, em 24 de outubro de 1648, sem o envolvimento ou sequer o conhecimento da maioria do outros continentes ou civilizações. A Paz Vestfaliana consistia em um sistema de Estados indepen- dentes, com autonomia, sem interferir nos assuntos uns dos ou- tros e se limitavam aos seus próprios interesses por meio de um equilíbrio geral de poder. Cada Estado era reconhecido como autoridade soberana em seu próprio território. Por esta razão, a Paz de Vestfália pode ser considerada verdadeiro “divisor de águas” na história do Direito Internacional, momento em que se desprenderam as regras fundamentais que passaram a pre- sidir as relações entre os Estados europeus, reconhecendo-se como princípio da igualdade absoluta dos Estados, o caráter de regra internacional fundamental.9

O sistema vestfaliano contemporâneo, agora global – tam- bém chamado de comunidade mundial –, empenhou-se em mi- tigar a natureza anômica do mundo através de uma ampla rede de estruturas legais e organizacionais, desenvolvidas para fo- mentar o livre-comércio e um sistema financeiro internacional estável, estabelecer regras para a solução de disputas interna- cionais e definir limites para atuação na guerra, se vierem a ocorrer.10

No entanto, nos dias atuais, os princípios vestfalianos vêm enfrentando desafios lançados de várias direções, às vezes em nome da própria Ordem Mundial. No seu último livro Inter-

8 KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015, p.10.

9 MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Curso de Direito Internacional Público. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020.

nacionalismo ou Extinção, Noam Chomsky11 comenta sobre o

momento crítico da história humana não apenas por causa do coronavírus, mas também pela ameaça de uma guerra nuclear, de um aquecimento global e de um esvaziamento da democra- cia. Corroborando com este pensamento, ele também comenta que o Relógio do Juízo Final do Bulletin of Atomic Scientists foi adiantado em dois minutos para meia-noite e, conforme os cientistas que simulam esse estudo, o desastre cabal nunca es- teve tão perto de acontecer. Quando o relógio atingir meia-noi- te, é o desastre total do planeta Terra.

Um ponto importante a se comentar é que atualmente os Estados Unidos são considerados o “grande irmão” na defesa do sistema vestfaliano e o ataque dos seus pressupostos. Dessa forma, continuam a afirmar a relevância universal de seus va- lores na construção de uma ordem mundial pacífica e se reser- vam o direito de apoiá-lo em termos globais. Paralelamente, os

Estados Unidos e a China avançam fortemente em uma nova

ordem mundial por meio da inteligência artificial, desenvol- vimento de robôs, a forma como os seres humanos estão se relacionando, trabalhando e vivendo. Diante dessas evidências, os governantes de todos os países precisam urgentemente olhar um para o outro na avaliação de novas compensações em ter- mos de privacidade de dados, monopólios digitais, segurança on-line e tendências algorítmicas. Alavancar a tecnologia para construir o tipo de sociedade que se deseja significa acompa- nhar o impacto dessas políticas no mundo real e manter a mente aberta sobre diferentes abordagens para a governança da inte- ligência artificial.12

Na opinião de Henry Kissinger, “para que a Ordem Mun- dial evolua e tenha sucesso é necessário que se respeite tanto

11 CHOMSKY, Noam. Internacionalismo ou Extinção: Reflexões sobre as grandes ameaças à existência humana. São Paulo: Planeta, 2020.

12 LEE, KAI-FU. Inteligência Artificial: como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos comunicamos e vivemos. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.

a diversidade da condição humana como o arraigado impulso humano de buscar liberdade. Nesse sentido, a Ordem Mundial precisa ser cultivada; não pode ser imposta”.13 No entanto, os

fatos recentes ocorridos ao redor do mundo instigaram marchas e trouxeram à tona discussões sobre o racismo, a violência con- tra a mulher, o aumento da pobreza e da desigualdade social, o trabalho escravo, refugiados e minorias, o trabalho infantil, a ameaça às condições climáticas, a ameaça às democracias vigentes em vários países e, de forma geral, a preservação dos direitos humanos, demonstrando o quanto a humanidade preci- sa evoluir para que se cumpram minimamente os artigos essen- ciais da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O renomado sociólogo e ativista Jeremy Rifkin concedeu entrevista a Telos-Telefonica, em 21 de abril de 2020,14 e co-

mentou sobre o forte impacto do aquecimento global e os resul- tados da terceira revolução industrial. Segundo Rifkin, a globa- lização acabou e deve-se agora pensar na glocalização, de tal forma a resolver os problemas ambientais, de infraestrutura, de energia, de comunicação, de transporte e logística entre outros aspectos que impactam fortemente na economia e na sociedade mundial. Ele também reforça o conceito da sexta extinção que prevê que metade dos habitats e animais da Terra desaparece- rão em 8 décadas. Ele acredita fortemente na geração milenial como força motriz para a preservação de um futuro melhor. Segundo ele, essa geração está inquieta e propõe eliminar todos os limites e fronteiras, preconceitos, tudo que separa os seres humanos. Essa geração começa a se ver como uma espécie em extinção e tenta preservar as demais criaturas do planeta. Pro- vavelmente, para Rifkin, é a transformação mais importante da consciência humana na história.

13 KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015, p.16.

14 ZAFRA, Juan M. Jeremy Rifkin: Todas mis esperanzas están depositadas em la generacion

milenial. Disponível em: <https://telos.fundaciontelefonica.com/portada-telos-113-jeremy-ri-

fkin-todas-mis-esperanzas-estan-depositadas-en-la-generacion-milenial/>. Acesso em: 29 jul. 2020.