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PARTE III Educação em Direitos Humanos

4. Sociedades desiguais e os direitos humanos

A pobreza e a desigualdade social há séculos têm sido um grande problema no mundo. São dois temas de debates com- plexos em grandes fóruns internacionais. Nelson Mandela, um dos mais importantes símbolos da luta pelos direitos humanos na história, proferiu uma frase que expande os pensamentos de todos no tocante a pobreza: “a pobreza não é um acidente. Assim como a escravização e o Apartheid, a pobreza foi criada pelo homem e pode ser removida pelas ações dos seres huma- nos”.36

É propício citar o artigo 25 da Declaração dos Direitos Hu- manos, o qual abrange uma ampla gama de direitos, incluindo o acesso à alimentação adequada, à água, ao saneamento, ao vestuário, à habitação, à educação e aos cuidados médicos e a demais direitos.37 Entretanto, embora registrado na Declara-

ção dos Direitos, esses direitos pouco têm feito para erradicar a pobreza no planeta. Como consequência, tem-se a certeza de que a fome está fortemente interligada à pobreza e envolve in- terações entre uma série de fatores sociais, políticos e demo- gráficos.

36 THE TELEGRAPH. A pobreza, como o Apartheid é causada pelo homem, diz Mandela. Disponível em: <https://www.telegraph.co.uk/news/uknews/1482735/Poverty-like-apartheid- -is-man-made-says-Mandela.html>. Acesso em: 27 jul. 2020.

37 NAÇÕES UNIDAS. Direito a um padrão de vida adequado. Disponível em: <https://na- coesunidas.org/artigo-25-direito-a-um-padrao-de-vida-adequado/>. Acesso em: 06 jul. 2020.

Apesar do grande desafio de reduzir ou eliminar a pobreza, há países que têm obtido sucesso em combater a pobreza. Sen- do que os 10 países que obtiveram maior sucesso na redução do número total de pessoas famintas na proporção de sua popula- ção nacional são Armênia, Azerbaijão, Brasil, Cuba, Geórgia, Gana, Kuwait, São Vicente e Granadinas, Tailândia e Vene- zuela,38 fazendo uso de políticas públicas que levam a estudos

que mostram o porquê de muitos indivíduos não conseguirem quebrar o ciclo da pobreza. Esses estudos criam métodos, pro- tocolos e estratégias de atuação de órgãos internos para que seja possível obter uma diminuição expressiva da desigualda- de social. Entretanto, a crise política e econômica gerada pela pandemia do covid-19 emergiu assustadoramente a pobreza e a desigualdade social ao redor do mundo, notadamente nos paí- ses subdesenvolvidos e em desenvolvimento.

A ONU define como pobre o indivíduo que vive com me- nos de US$ 2 ao dia e como extremamente pobre pessoa que

vive com menos de US$ 1 diário.39 Em pleno século XXI, é

absurdamente assustador saber que algum governante acredi- te que um indivíduo consiga sobreviver recebendo uma renda vergonhosamente limitada. O resultado disso significa que o indivíduo não tem condições de enviar seus filhos para a escola com dignidade. A alternativa que os pais têm é deixar os filhos saírem em busca de trabalho, mesmo aquele trabalho sub-hu- mano, para ajudar a sustentar a família. Ainda que a criança tenha a sorte de ir para a escola, sua desnutrição a impede de aprender ao máximo o que sua capacidade permitiria. Seguin- do esse raciocínio, fica evidentemente claro que em condições financeiras como essas, se forma um ambiente onde os níveis 38 ORGANIZAÇÃO ALIMENTAR E AGRÍCOLA DA ONU. O estado da insegurança ali-

mentar no mundo em 2014. Disponível em: <http://www.fao.org/3/a-i4037e.pdf>. Acesso em:

21 jul. 2020.

39 NAÇÕES UNIDAS. Banco Mundial: quase metade da população global vive abaixo da

linha da pobreza. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/banco-mundial-quase-metade-da-

educacionais e de saúde caminham para um rumo onde não vão atender às necessidades básicas dos indivíduos que vivem nessas condições de vida. Dessa forma, instala-se assim uma situação em que para muitos o único caminho seja viver a mar- gem da lei, cometendo crimes e diversos outros atos que vão contra valores básicos de uma sociedade saudável.

Estudos mostram que no continente americano, mais espe- cificamente na América Central e América do Sul, no Continen- te Africano e em algumas regiões da Ásia, estão concentrados os maiores índices de pobreza. A ONU revelou em um estudo recente que 257 milhões de pessoas passam fome no continente Africano. Esse contingente representa 20% da população do continente. Desse grupo, 237 milhões estão na África Subsaa- riana.40

Um desenvolvimento econômico inclusivo, ações diretas e eficientes no campo da educação fomentam o desenvolvimento tanto pessoal quanto profissional de cada indivíduo. Ao longo prazo, medidas públicas voltadas para a educação de qualidade são os meios mais eficientes de se obter resultados positivos, levando a uma diminuição da desigualdade social. No prêmio Nobel de Economia de 2002, Joseph Stiglitz disse uma frase marcante sobre a sua visão em relação à economia americana: “a história que nos contaram é que a desigualdade era boa para nossa economia. Eu estou contando uma história diferente, que esse nível de desigualdade é ruim para nossa economia”.41 A

evidência é clara: não haverá fim para a pobreza extrema, a menos que os governos enfrentem a desigualdade social e re- vertam as tendências recentes.

40 NAÇÕES UNIDAS. FAO: 257 milhões de pessoas passam fome na África. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/fao-257-milhoes-de-pessoas-passam-fome-na-africa/>. Acesso em: 06 jul. 2020.

41 FRONTEIRAS DO PENSAMETO. Joseph Stiglitz: O preço da desigualdade. Disponível em: <https://www.fronteiras.com/noticias/pergunta-braskem-joseph-stiglitz>. Acesso em: 27 jul. 2020.

A união de todos em prol do combate à pobreza é a fer- ramenta mais importante para que se encontrem soluções efi- cientes e racionais, principalmente quando se encontra com um quadro em que cerca de 1,3 bilhões de pessoas de 101 nações diferentes são consideradas extremamente pobres.42 Quebrar o

ciclo da pobreza é de suma importância, pois é um problema que há séculos existe e não é resolvido; exigirá uma combina- ção certa de medidas legais e políticas públicas (social, econô- mica, trabalhista, ambiental e agrícola) para redistribuir a renda e alocar recursos orçamentários. Essas soluções devem incor- porar claramente as perspectivas de direitos humanos, gênero e sustentabilidade. Isso é essencial para ir além dos padrões atuais. Acreditar que um dia a pobreza atinja níveis extrema- mente baixos é o horizonte que todos buscam, mesmo com inúmeros obstáculos a serem superados. Encontrar soluções eficientes contra a fome e a pobreza é o principal foco a se ter. Combater a desigualdade social também é investir em desen- volvimento.