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2. ESTRUTURA, FORMATO E ASPECTOS DA LINGUAGEM NO TEXTO

2.5 Funções da linguagem jornalística

2.5.2 A objetividade e alguns gêneros jornalísticos

A objetividade é inerente de muitas profissões, não sendo diferente com o

jornalismo, especialmente pelo produto que se trabalha, ou seja, a notícia. Tuchman

(2016) diz que os jornalistas “invocam os procedimentos rituais para neutralizar

potenciais críticos e para seguirem rotinas confinadas pelos ‘limites cognitivos da

racionalidade’” (TUCHMAN, 2016, p. 112). Para se alcançar a objetividade, além de uma

verificação dos fatos, Tuchman (2016) cita quatro procedimentos estratégicos para

alcançá-la, sendo eles:

• Apresentação de possibilidades conflituais: quando há a presença de dois

pontos de vista, algo que poderá ser problemático quando não se pode (ou

consegue), escutar mais lados que podem ter interesse em determinada

notícia;

• Apresentação de provas auxiliares: são provas que colaboram com uma

afirmação, ou seja, a citação de fatos suplementares que geralmente são

aceitos como verdadeiros;

• Uso judicioso das aspas: quando citações de opiniões de outras pessoas

são usadas como uma forma de prova suplementar, porém, por vezes, as

afirmações são buscadas conforme o que pensa o produtor da notícia;

• Estruturação da informação em uma sequência apropriada: quando a

informação mais importante de um acontecimento é supostamente

apresentada no começo do texto, assemelhando-se ao conceito da pirâmide

invertida, mas o mais importante ou interessante, o que invoca o news

judgement (perspicácia profissional).

Por fim, a autora relata que a objetividade “refere-se a procedimentos de rotina

que podem ser exemplificados como atributos formais (aspas, níveis de significância,

precedentes legais, radiografias) e que protege o profissional dos erros e dos seus críticos

(TUCHMAN, 2016, p. 131). Já para Nascimento (2009), a objetividade, no jornalismo,

seria a priorização da informação (dos acontecimentos do mundo) e para ser um relato

jornalístico ele deve portar um valor de verdade que o sustente, que o torne possível,

advindo desses termos a credibilidade (NASCIMENTO, 2009, p. 103). Dentre o que a

autora define como “um valor de verdade”, cita elementos como planejamento, pesquisa,

busca por diferentes pontos de vista a respeito do acontecimento, clareza textual, assim

como também o jornalista deve escrever em terceira pessoa, quando o “eu” do jornalista

desaparece do texto (NASCIMENTO, 2009, p. 103).

É possível identificar, no texto jornalístico, elementos que o deram, ao longo do

tempo, contornos de legitimidade. O uso de fontes permitiu o jornalismo se apoiar em

relatos (por vezes oculares, por vezes fontes oficiais), para legitimar uma notícia (o que

nem sempre pode ser a verdade). O uso da não adjetivação, compreendido como o uso de

palavras como infelizmente ou felizmente, que dão ao texto jornalístico um carater

subjetivo, diferente da objetividade, que é a busca do texto informativo. O lead, como por

exemplo, busca elementos diretos para informar o leitor, sem o conhecido nariz de cera13,

anterior a utilização do lead. Percebemos, assim como a profissionalização do jornalismo,

o texto informativo se alicerçou em elementos para buscar a sua legitimação.

13 “O nariz de cera era o texto introdutório, longo e rebuscado, normalmente opinativo, que antecedia a

narrativa dos acontecimentos e que visava ambientar ao leitor sobre os fatos que seriam narrados a seguir.

Usava uma linguagem prolixa, cheia de preciosismos e pouco objetiva. Outra marca visível do padrão

francês no jornalismo brasileiro era o excesso de títulos e uma ausência de lógica na hierarquia do material”

(GUIMARAES ET AL. 2006, p. 2)

Mas, de qualquer forma, ainda existem textos que usam da subjetividade como

elemento, por vezes confundindo o leitor para a sua opinião. Exemplos desses textos

podem ser encontrados nos textos opinativos e interpretativos. O jornalismo brasileiro

mostra, ao menos em seus principais jornais impresso, por exemplo, adaptável a noção

de objetividade, quanto que editorias, artigos, crônicas permanecem com traços da

subjetividade. Quanto notícias e reportagens, por exemplo, mantém traços da busca pela

objetividade. Mas autores como Chaparro (2003), acreditam que jornalismo constrói seu

discurso com informações e opiniões, a partir do momento que um relato não é como

aconteceu, mas sim o relato de alguém (no caso jornalista) sobre determinado fato e este

alguém pode carregar consigo a sua ideologia ou visão de mundo para a notícia. Para

Melo (1994), os textos opinativos, por exemplo, são estruturados e também elaborados

pela organização jornalística, de acordo com seus critérios e objetivos.

O jornalismo interpretativo pode ser considerado como sendo aquele que “explica

a realidade para situar o leitor de forma contextualizada e tem caráter ‘educativo’, ao

oferecer dados, localização histórica, antropológica, filosófica” (CORDENONSSI;

MELO, 2008). Esse jornalismo, ainda segundo os autores, pode ser dividido pelos

formatos de: dossiê, perfil, enquete e de cronologia. Já no jornalismo informativo, o

discurso é necessariamente assertivo (ALSINA, 2009, p. 271). Conforme já descrito,

Melo (1994) acredita que o jornalismo informativo é aquele que é estruturado

externamente da organização jornalística.

Conforme Melo (2012, p. 22) Se fizermos um breve exercício de análise factual,

aí identificaremos os protótipos dos gêneros legitimados contemporaneamente:

• Informativo: relato dos grandes acontecimentos

• Opinativo: denúncias, críticas e libelos

• Interpretativo: mapas, cartas, relatórios

• Utilitário: tabelas e estatísticas de moedas, preços de mercadorias,

movimento portuário

• Diversional: informações literárias

Apoiado nos estudos de Luiz Beltrão, Marques de Melo (1985), apresenta três

formas que o jornalismo pode ser apresentado:

a) Jornalismo informativo

Notícia

História de interesse humano

Informação pela imagem

b) Jornalismo interpretativo

Reportagem em profundidade

c) Jornalismo opinativo

Editorial

Artigo

Crônica

Opinião ilustrada

Opinião do leitor

Assim, Melo propõe sua classificação do jornalismo, que segue:

a) Jornalismo informativo

Nota

Notícia

Reportagem

Entrevista

b) Jornalismo opinativo

Editorial

Comentário

Artigo

Resenha

Coluna

Crônica

Caricatura

Carta

Nessa classificação, nota seria o relato de acontecimentos que estão acontecendo.

Notícia é o relato integral de um fato já eclodido e reportagem é o relato ampliado de um

fato que já eclodiu (MELO, 1943, p. 49). A entrevista é o relato que privilegia um ou

mais protagonistas de um acontecimento. Quanto aos gêneros opinativos, alguns se

assemelham enquanto narração, mas assumem identidades diversas a partir de sua autoria

ou ângulo. Sendo opinativos, comentário, artigo e resenha pressupõem uma autoria

definida e explicita. O editorial corresponde a opinião da instituição sobre algum

determinado assunto. Coluna, crônica, caricatura e carta temem comum a identificação

de autoria, sendo o ângulo proposto por cada um.

Já Cremilda Medina (1988), fazendo referência a vários estudos que abarcam a

notícia e o jornalismo, como Luiz Beltrão (1969), Juarez Bahia (1972), José Ortego

Costalles (1966), Robert Park (1945), dentre outros, chega ao que chama de um quadro

de tendências: jornalismo informativo, interpretativo e opinativo “ou em termos mais

adequados – informação, informação ampliada e opinião expressa” (MEDINA, 1988, p.

70).

Por esses motivos, o jornalismo informativo, que carrega com si elementos que

visam a objetividade, que visa informar o leitor com o máximo de recursos disponíveis,

para o relato do fato ser o mais próximo da realidade. São esses textos, os informativos,

que as “fake news” tentam se assemelhar e por isso são os escolhidos para a análise deste

trabalho.