PARTE I – Enquadramento e conceptualização 1 Introdução
1.2. A oportunidade do tema e os resultados esperados
Em conformidade com as evidências empíricas existentes, a referida tendência muito generalizada para a concessão de um grau superior de discussão à abordagem do turismo
internacional1, além de ter conduzido com frequência à secundarização do turismo interno2
e ao inferior conhecimento e acompanhamento dos seus movimentos, encerra uma contradição evidente. De facto, no plano mundial, apenas um número relativamente diminuto de pessoas desfruta da oportunidade de viajar para o estrangeiro. É a própria Organização Mundial do Turismo (2001e) que, no seu ensaio sobre as perspectivas do turismo internacional para o horizonte 2020, ao estabelecer um cenário francamente expansionista, refere que as cerca de 1561 milhões de chegadas de turistas internacionais no mundo, previstas para aquele último ano, resultarão de viagens efectuadas por apenas 7% da população mundial, sendo que no caso europeu se poderá atingir a taxa de 14%. A preponderância do turismo interno é reconhecida por algumas instâncias e autores; contudo, parece existirem algumas realidades objectivas que o contrariam, tais como, um eventual foco preferencial das políticas e estratégias turísticas nos mercados externos e uma presumível ascendência da informação sobre o turismo internacional. Neste contexto, Todd (2003) interroga-se como explicar tais ocorrências, se “ (…) a OMT estima que o
turismo doméstico em todo o mundo supere o turismo internacional por um factor de cerca de 10:1 (…)”. Em reforço desta tese pronunciam-se igualmente Cooper et al (2001), ao
indicarem: “ (...) como uma referência bastante incerta, estimamos que as despesas
mundiais no turismo doméstico possam equivaler em até dez vezes as do turismo internacional (...)”.
Por outro lado, Todd (2003) considera que: “ (…) é obvio que a magnitude do turismo
doméstico no mundo industrializado é vasta – notadamente na América do Norte e na Europa. A estatística, frequentemente citada, que indica que menos de 10% dos norte- americanos têm passaportes (apesar de os Estados Unidos serem considerados os maiores gastadores mundiais em turismo internacional, excluindo os custos de transporte) dá um sinal da enorme proporção que esse negócio pode assumir. (…) “. Também Cunha (2006)
salienta que “ (…) é o turismo interno que, na generalidade dos países, origina o maior
volume de deslocações e, em muitos casos, os efeitos mais importantes (…)”. Ainda
segundo este autor, “ (…) as receitas proporcionadas pelo turismo doméstico são sete
vezes superiores às do turismo internacional (...)”:
Neste contexto, a presente investigação orienta-se para o aprofundamento da base do conhecimento em torno do turismo interno, cuja posição subalterna em relação ao turismo internacional constitui no entendimento de Cooper et al (2001) um dos grandes mitos da actividade turística. Recordemos o seu ponto de vista: “ (…) Por fim, em muitos aspectos,
as percepções gerais a respeito do turismo estão deslocadas. O turismo está circundado por certos mitos que contribuíram de forma irreal para a sua imagem glamourosa (…)”.
E, entre vários exemplos, Cooper (2001) concretiza: “ (…) Mito: a maioria do turismo no
1 Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT, 1994) o turismo internacional abrange as deslocações das pessoas que viajam para um país que não aquele onde têm a sua residência habitual, por um período inferior a 12 meses e cujo principal motivo da visita é outro que não o exercício de uma actividade remunerada dentro do país visitado; na nova versão das Recomendações Internacionais para as Estatísticas do Turismo (ONU, 2008) substituiu-se “ o exercício de uma actividade remunerada dentro do país visitado por ” estar empregado numa entidade residente no país visitado”. 2
Segundo a OMT (1994), o turismo interno abrange as deslocações das pessoas dentro do país onde residem, para locais diferentes do seu ambiente normal de residência, por um período inferior a 12 meses e cujo principal motivo da visita é outro que não o exercício de uma actividade remunerada no local visitado; na nova versão das Recomendações Internacionais para as Estatísticas do Turismo (ONU, 2008) substituiu-se “ o exercício de uma actividade remunerada n local visitado por ” estar empregado numa entidade residente no local visitado”.
mundo é internacional; Realidade: O turismo no mundo é predominantemente doméstico (pessoas viajando em seu próprio país)(…)”.
Desta pesquisa resultaram aspectos menos conhecidos e susceptíveis de incorporarem novas estratégias de valorização do mercado interno, o qual possui uma abrangência muito vasta e multifacetada. De facto, desde o excursionismo aos movimentos turísticos de curta duração, passando pelas deslocações de cunho profissional (mas abrangidas pela definição universal da OMT), até ao gozo de férias fora do domicílio em meios privativos ou colectivos de alojamento, ocorrem uma variedade de situações que justificaram uma abordagem sistematizada e coerente. Este processo abarcará igualmente o estudo dos comportamentos e das motivações das pessoas para a prática do turismo interno, o levantamento das estatísticas de volume, de valor e de perfil dos visitantes, além da avaliação das políticas e estratégias de dinamização do mercado doméstico.
Se o tema do turismo interno se revela aliciante, a recente conjuntura ainda veio reforçar mais a oportunidade da sua investigação. De facto, o turismo internacional registou no quadriénio 2001/04 um enquadramento pouco favorável, como resultado não só do arrefecimento da economia mundial, como também da sua vulnerabilidade a aspectos decorrentes do aumento da insegurança (terrorismo internacional, guerra do Iraque, vírus da pneumonia atípica). Neste contexto, assistiu-se a uma redistribuição do conjunto da procura, detectando-se uma quebra nas viagens de longo curso e um claro favorecimento do turismo interno e dos mercados de proximidade (OMT, 2002a). Seguiu-se um triénio (2005/07) onde o turismo internacional e o turismo interno evidenciaram comportamentos similares, ditados por uma tendência expansionista, enquanto que a profunda crise económica e financeira que abalou o mundo a partir do segundo semestre de 2008, veio novamente despoletar uma atenção acrescida nas estratégias dirigidas nos mercados domésticos, como forma de compensação da retracção observada nos fluxos emissores de países dotados de economias consideradas fortes como, por exemplo, os EUA, a Alemanha e o Reino Unido (OMT, 2009).
Como corolário desta situação observou-se o reforço das políticas de valorização do turismo interno desde praticamente o ano de 2002, com apostas ao nível do marketing e da comunicação, sendo estas opções comuns aos governos e às empresas turísticas. Neste sentido, importa cruzar as abordagens concretizadas, sistematizando as experiências em vários países, com particular destaque para os países europeus.
No caso português, as estatísticas e estudos oficiais revelam que o mercado interno ainda possui uma dimensão reduzida, sendo fortemente concentrado em termos sazonais e dominado pela apetência para as férias de sol e praia (CESTUR, 2007). Contudo, a evolução no período 1998/2004 (CESTUR, 2007), evidenciou que se trata de um mercado com potencial de expansão e com capacidade de alargamento da base de motivações da procura. Como tal, procederemos à caracterização detalhada do mercado interno em Portugal, assegurando um diagnóstico completo sob os pontos de vista quantitativo e qualitativo, a par com o ensaio de criação de um novo modelo para o seu desenvolvimento futuro. Foram efectuadas as pesquisas de mercado consideradas convenientes, criando-se os mecanismos adequados de auscultação dos principais agentes turísticos nacionais sobre esta matéria.
Em termos de resultados esperados, pretendeu-se com a presente investigação contemplar uma avaliação integrada da expressão do turismo interno, com extensão ao plano europeu. Esta pesquisa não dispensou a já aludida óptica pluridisciplinar de análise da envolvente e dos respectivos impactos, sendo complementada com a sistematização das políticas orientadas para o mercado interno. O caso português foi alvo do detalhe já aludido, de forma a produzir-se um quadro completo sobre a sua caracterização, bem como o desenho de uma visão futura susceptível de proporcionar a valorização do mercado em apreço. O turismo é uma actividade com expressão social, económica, regional e patrimonial, daí que exista a propensão para analisar o fenómeno nas suas múltiplas relações; por outro lado, e como adiante se comprovará, o turismo interno consubstancia a forma mais expressiva de exercício das práticas turísticas, evidenciando uma forte dependência em relação a aspectos ligados à envolvente, nomeadamente nos planos político, demográfico, económico, social e tecnológico.
Tal como se explicitará detalhadamente no Capítulo 3 da presente investigação, referente à descrição da metodologia utilizada, o tipo de pesquisa efectuada insere-se na designação de
“design de metodologia mista”, conforme o pensamento de Lee (1999) citado por Oliveira
(2005), já que se recorreu a processos que pressupõem uma convergência entre métodos e técnicas de recolha de dados característicos das abordagens qualitativas e quantitativas. Por outro lado, a filosofia da investigação, na linha do preconizado por autores como Deshaies (1992), Quivy et al (1995), Demo (1995), Pardal et al (1995), Hill e Hill (2005), Oliveira (2005) e Appolinário (2006), respeitou a “hierarquia dos actos epistemológicos” (Bourdieu et al, 1968 in Quivy et al, 1995), comportando os três actos básicos do procedimento científico – a ruptura, a construção e a verificação. Por outro lado, foram definidas as questões gerais da investigação, as quais surgem sintetizadas através de uma “pergunta de partida” consubstanciada nas seguintes interrogações:
“Q1. É possível concretizar a importância do turismo interno à escala internacional e de Portugal em particular?
Q2. A aposta estratégica no turismo interno pode consubstanciar um novo modelo de desenvolvimento turístico com benefícios nos planos económico, social, patrimonial e territorial?”
Neste contexto, a primeira questão nuclear da investigação incidiu sobre a identificação da importância do turismo interno no plano dos movimentos subentendidos e dos efeitos decorrentes, bem como dos motivos que concorrem para a presumível secundarização do turismo interno ao nível da informação existente e das próprias estratégias políticas. Por outro lado, pretendeu-se que desta pesquisa resultassem igualmente contributos susceptíveis de incorporarem novas estratégias de valorização do turismo interno, pelo que o processo de potenciação deste mercado, como factor de consolidação e modelo de desenvolvimento alternativo para o sector do turismo, constituiu o segundo grande objectivo geral da investigação.
Desta forma, efectuou-se uma pesquisa empírica, crítica e abrangente sobre as relações directas e indirectas que enquadram o turismo interno nas várias vertentes, não se prescindindo da elaboração de teorias e hipóteses. Estes dois elementos pesaram na opção de construção de um modelo que assenta inicialmente numa componente indutiva (Questão
1), para numa segunda fase se optar por uma construção por dedução (Questão 2). Por outro lado, as questões centrais da investigação foram desdobradas num conjunto de questões específicas, as quais foram devidamente filtradas através da revisão bibliográfica efectuada, das entrevistas efectuadas e das fontes de informação disponíveis.
Quadro 1.2. – Questões gerais e específicas ligadas à investigação
QUESTÕES GERAIS QUESTÕES ESPECÍFICAS
Q1.1. Existe, ou não, uma subalternização do turismo interno face ao turismo receptor, ao nível da informação existente e das próprias estratégias políticas?
Q1.2. Qual a fronteira entre as práticas de lazer e o turismo interno? Q1.3. O turismo interno é, ou não, a principal forma de turismo que existe no mundo?
Q1.4. Quais os efeitos económicos, sociais, patrimoniais e regionais que pode comportar o desenvolvimento do turismo interno?
Q1.5. Que fontes de informação possibilitam a avaliação integrada do turismo interno? Quais as dificuldades de medição e que métodos utilizados? Existe harmonização internacional de dados?
Q1.6. Qual a dimensão dos movimentos e dos efeitos económicos do turismo interno no plano mundial, da UE e de Portugal?
Q1. É possível concretizar a importância do turismo interno à escala internacional e de Portugal em particular?
Q1.7. Como se coaduna o turismo interno com as características do lazer e do turismo de hoje e do futuro?
Q2.1. Que comportamentos e motivações caracterizam a prática do turismo interno?
Q2.2. Que diversidade de formas é que o turismo interno pode assumir? Q2.3. Quais as linhas orientadoras das estratégias existentes para o turismo interno no contexto das políticas turísticas nacionais dos países da União Europeia?
Q2.4. Existem, nos países da UE, estratégias de incentivo às práticas do turismo interno, devidamente articuladas com as políticas de
desenvolvimento social?
Q2.5. Existem estratégias específicas de marketing para o turismo interno no contexto das políticas turísticas nacionais dos países da União Europeia?
Q2.6. É possível identificar, ao nível do benchmarking, boas práticas no plano do desenvolvimento do turismo interno?
Q2.7. O turismo interno pode assumir-se nos países desenvolvidos como um factor de atenuação de alguns desequilíbrios decorrentes da expansão do turismo receptor?
Q2.8. Que macroestratégias se podem perspectivar para a potenciação do turismo interno?
Q2.9. Qual o tratamento que tem sido conferido ao turismo interno em Portugal, no tocante à evolução dos objectivos, das estratégias e da sua operacionalização no plano institucional?
Q2.10. Qual o diagnóstico estratégico da situação do mercado interno em Portugal?
Q2.11. Que desafios se colocam ao nível do desenvolvimento do mercado interno em Portugal?
Q2.12. Quais as linhas orientadoras, ao nível do planeamento estratégico, táctico e operacional, que devem suportar uma política de desenvolvimento do turismo interno em Portugal?
Q2. A aposta estratégica no turismo interno pode consubstanciar um novo modelo de desenvolvimento turístico com benefícios nos planos económico, social, patrimonial e territorial?
Q2.13. Pode o turismo interno, em Portugal, ter um efeito amortecedor ou correctivo dos desequilíbrios gerados pelo turismo receptor?
No Capítulo 3, respeitante à descrição da metodologia utilizada, detalhar-se-ão os aspectos principais relacionados com as perguntas de partida deste ensaio, justificando-se a sua inclusão e clarificando-se o processo de articulação com o procedimento científico adoptado. Contudo, considerou-se relevante explicitar desde já as questões de base da investigação, de forma a facilitar a contextualização dos objectivos associados e a própria percepção da sequência imprimida ao roteiro executivo da dissertação.
Neste contexto, o Quadro 1.2., inserto na página anterior, sintetiza as questões gerais e específicas, as quais serão devidamente sistematizadas através de quadros que assegurarão a ligação a cada capítulo, sendo que na parte final da dissertação se procederá à integração e resumo de todas as referências parcelares.
Assim, no modelo induzido (em torno da Questão1) construíram-se várias hipóteses cujas dimensões e componentes serão objecto de observação através de vários indicadores e instrumentos, conforme consta esquematicamente da Figura 1.1., seguidamente apresentada.
Figura 1.1. – Sistema relacional para resposta a Q1 (Questão 1)
O sistema de relações estabelecido assenta nas seguintes premissas:
A importância do turismo interno para ser aferida carece da necessária clarificação de
conceitos, o que implica sobretudo a sua diferenciação em relação às actividades de lazer (Q1.2.); por outro lado, é imprescindível a aferição das fontes de informação disponíveis para a avaliação da extensão do fenómeno (Q1.5.);
A informação disponível permitirá avaliar a dimensão dos fluxos associados ao turismo
interno (Q1.6.), bem como os seus impactos sobretudo no plano económico (Q1.4.);
A conjunção destas questões deverá demonstrar que o turismo interno constitui a forma
principal do turismo no plano geral (Q1.3.), reforçando-se esta perspectiva com as tendências desenhadas para o futuro (Q1.7.);
Q1 Importância do Turismo interno Q1.2. Lazer + Turismo interno Q1.5. Fontes de informação Q1.7. Tendências do futuro Q1.6. Dimensão do turismo interno Q1.4. Efeitos do turismo interno Q1.3. Forma dominante Q1.1. Abordagem secundária
A constatação de Q1.3. implicará o reconhecimento da contradição implícita na pouca primazia dada ao mercado interno nas políticas e na informação mediática sobre o sector do turismo (Q1.1.).
Por outro lado, a Questão 2 ao repousar no método hipotético-dedutivo, gerou “ (…)
através de um trabalho lógico, hipóteses, conceitos e indicadores para os quais se terão de procurar correspondentes no real (…)” (Quivy et al, 2005). Assim, para a Questão 2,
optou-se pelo sistema relacional de abordagem que se reproduz seguidamente (Figura 1.2.).
Figura 1.2. – Sistema relacional para resposta a Q2 (Questão 2)
Q2.1. Comportamentos e motivações Q2.2. Diversidade de formas Q2.4. Estratégias de incentivo às práticas do turismo interno Q2.5. Estratégias específicas de marketing Q2.6. Benchmarking e boas práticas Q2.3. Políticas e estratégias para o turismo interno Q2.8. Potenciação do turismo interno Macroestratégias Q2.9. Políticas para o turismo interno em Portugal Q2.10. Diagnóstico estratégico Q2.11. Desafios para o desenvolvimento do mercado Q2.12. Planeamento estratégico, táctico e operacional Q2.13.Atenuação dos desequilíbrios do turismo receptor Q2. Novo modelo alternativo de desenvolvimento turístico
Fonte: Produção própria Q2.7 Atenuação de
desequilíbrios do turismo receptor
No caso específico desta hipótese, o objectivo reside na criação de um modelo de desenvolvimento do turismo interno que se possa assumir como a base de valorização deste mercado, comportando as intervenções que acentuem os seus benefícios com reflexos em vários planos (Q2).
As hipóteses específicas devem corporizar o suporte para a definição do seu conteúdo, pelo que o esforço efectuado centrou-se na demonstração da sua correspondência com a realidade. Assim, o conhecimento dos comportamentos e das motivações associadas ao turismo interno (Q2.1.), bem como a dimensão das respectivas formas (Q2.2.) constituirão um input essencial para a definição das macroestratégias (Q2.8.). Estas, por sua vez, necessitam dos fundamentos decorrentes das experiências nacionais já existentes (Q2.3.), pelo que o exercício se prolongará através da observação das estratégias específicas de incentivo ao desenvolvimento (Q2.4.), do marketing utilizado (Q2.5.), do benchmarking ao nível das boas práticas (Q2.6.) e dos contributos para amortecer eventuais desequilíbrios provenientes do turismo receptor nalguns países (Q2.7.).
O modelo terá a sua aplicação concreta orientada para o caso português (Q2.9.), o que justifica a particularização das hipóteses específicas orientadas para o diagnóstico estratégico (Q2.10.), para a sistematização dos desafios existentes (Q2.11.), para o planeamento estratégico, táctico e operacional (Q2.12.) e para a avaliação dos eventuais efeitos correctores do turismo interno sobre os desequilíbrios resultantes da incidência da procura externa em Portugal (Q2.13.).
Tal como será detalhado na Secção 3.5., a presente investigação norteou-se pelo objectivo de fornecer contributos inovadores, quer no plano científico, quer no plano sectorial. Assim, na área científica, a pesquisa efectuada revelou uma elevada dispersão da informação e das reflexões sobre o turismo interno, além de uma fraca articulação entre a produção existente e a sua sustentação empírica. Detectaram-se referências bibliográficas sobre o turismo interno ao nível de alguns autores (Assis, 2003; Athanasopoulos e Hyndman, 2008; Baretje, 1983; Bargeman e Poel, 2006; Brey e Lehto, 2007; Cooper et al,
2001; Cunha, 2006; Fernandes, 2002; Jafari, 1987; Martínez, 2003; Massarutto, 2005;
Middleton e Clarke, 2002; Pearce e Moscardo, 2006; Pedro, 2006; Sampaio, 2000; Srivastava e Shukla, 2003), sobretudo ao nível de livros e publicações, as quais convergiram para análises parcelares sobre o fenómeno, desconhecendo-se as correlações com os restantes elementos e a sua integração na visão holística sobre o mercado.
Neste contexto, assumiu-se claramente que interessava romper com a óptica fragmentada de análise do turismo interno e optar pela sua análise holística, o que implicou o alargamento da observação a fontes institucionais e a criação de mecanismos adequados de recolha de informação através de instrumentos próprios concebidos para o efeito. O apoio facultado à investigação pela Organização Mundial do Turismo, através da disponibilização das bases de dados pertinentes, e pela Comissão Europeia, entidade esta que apoiou o desenvolvimento de uma ferramenta de observação directa junto dos Estados Membros, conferiram a possibilidade de proceder a validações do conhecimento acumulado através da análise integrada de dados. Por outro lado, no aprofundamento da temática para Portugal, através do recurso a inquéritos realizados junto de vários actores nacionais, foi possível construir uma base de informação que permitiu gerar novos saberes
e penetrar em domínios perfeitamente inovadores, nomeadamente, no plano do excursionismo e da utilização de residências secundárias.
O contributo sectorial não se quedou pelos aspectos inerentes à caracterização desta forma de turismo, tendo igualmente reflexos na apresentação de um modelo empírico inerente à sua estruturação e desenvolvimento, o qual se revela susceptível de utilização no plano de qualquer país, integrando a constelação e o relacionamento das variáveis relevantes, mas também o planeamento estratégico respeitante à sua potenciação.