PARTE I – Enquadramento e conceptualização 1 Introdução
2. Fundamentação teórica e conceptual 1 Introdução
2.3. Revisão da pesquisa e teoria sobre o turismo
2.3.3. O sistema turístico e as suas componentes
A noção de sistema afigura-se extensiva a várias disciplinas, sendo comum a atribuição de um significado que ronda em torno dos vocábulos “combinar”, “ajustar” ou “formar um conjunto”. Desta forma genérica, pode-se definir um sistema como “ (…) a combinação de
partes coordenadas entre si e que concorrem para um resultado ou para formarem um conjunto” 5.
De acordo com Beni (2004), “ (…) a Teoria Geral de Sistemas, (…), afirma que cada
variável, em um sistema, interage com as outras variáveis de forma tão completa que causa e efeito não podem ser separados (…)”. Por outro lado, o mesmo autor esclarece
que “ (…) a actividade do turismo surge em razão da existência prévia do fenómeno
turístico, que é um processo cuja ocorrência exige a iteração simultânea de vários sistemas que se somam para levar ao efeito final (…)”.
Mediante o quadro já comentado de que o turismo se desenvolve perante a junção de factores ambientais, naturais, culturais, sociais e económicos, emerge a constatação de que tem um campo de estudo muito vasto e complexo, na medida que os citados factores têm um papel interveniente na dupla perspectiva de causa ou de efeito.
Neste sentido, Beni (2004) propõe um modelo de sistema turístico integrado, o qual pretende retratar a dinâmica das variáveis e componentes inclusas, estabelecendo as inter- relações e dependências das funções turísticas. Esquematicamente, pode-se definir o sistema de Beni da seguinte forma:
5
Figura 2.3.
Este modelo perspectiva o sistema turístico em todas as suas dimensões, constituindo uma extensão clara de outras abordagens. Cooper et al (2001), por exemplo, citam o modelo sugerido por Leiper em 1979 e actualizado em 1990, onde existem três elementos básicos – os turistas, os elementos geográficos e a indústria turística. Para Leiper, o turista é o actor central do sistema; o turismo é uma experiência humana, logo é fundamental a sua definição e classificação. Leiper considera igualmente os elementos geográficos, onde destina claramente a Região Emissora de Viajantes, a Região de Destino dos Visitantes (“onde ocorrem as consequências mais visíveis e drásticas do sistema”) e a Região de Rotas de Trânsito. Finalmente, este autor considera a indústria turística, a qual define como o conjunto das empresas e organizações envolvidas na oferta do produto turístico. Cooper
et al (2001) enfatizam a aplicabilidade geral do modelo, bem como a sua flexibilidade e a
capacidade de incorporar visões interdisciplinares do turismo.
Contudo, em termos da presente investigação, o sistema de Beni (2004) recolheu uma atenção especial, atendendo a que o fenómeno em estudo – turismo interno – carece para a sua abordagem da consideração de uma generalidade de factores e de cadeias de interdependência que aconselham uma análise estruturante, muito para além da componente endógena e da simples análise do mercado. De facto, tratando-se de um fenómeno cujo desenvolvimento se cruza claramente com as condições decorrentes do relacionamento interinstitucional fora do sistema, nomeadamente com as suas intersecções nos planos económico, ecológico, social e cultural, obriga à consideração destas realidades, as quais estão fora do controlo do sistema mas influenciam fortemente o seu desenvolvimento.
Por outro lado, a compreensão do fenómeno não dispensa a consideração da complexa organização pública e privada que enquadra o mercado e que influi nas condições da produção e do consumo. Neste sentido, o modelo tem necessariamente que englobar os
inputs que derivam da política oficial do turismo, do seu ordenamento jurídico ou
administrativo e das estratégias governamentais definidas, os quais Beni define como a
superstrutura; cumulativamente, deve-se ainda considerar no plano da organização
estrutural, os vectores que decorrem da ocupação do território, da infra estruturação básica, da urbanização e das componentes de acesso e de transporte (a infraestrutura no seu conjunto). Finalmente, surge o subsistema do mercado, onde é patente uma relação entre a oferta e a procura de bens, serviços e capitais, além de uma dinâmica da distribuição que pode proporcionar o recurso a processos e canais bem diferenciados, com maior ou menor participação de intermediários.
Nesta perspectiva abrangente insere-se o entendimento de que o desenvolvimento do turismo (nomeadamente o interno) deve atender à conciliação dos interesses correspondentes aos quatro grandes grupos de actores do sistema, numa base de partilha de responsabilidades e de complementaridade de intervenções. Assim, o turismo deve gerar bem-estar e riqueza para as populações, em pleno respeito pelos condicionantes decorrentes dos recursos humanos e materiais e da própria sustentabilidade ambiental, social e económica. Em segundo lugar, o turismo para ser potenciado necessita de empresas dinâmicas e modernas, capazes de assegurarem a existência de produtos interessantes e adaptados aos requisitos dos consumidores. Em terceiro lugar, o turismo tem que contar com um sector público (central, regional e local) que articule as políticas sectoriais e intersectoriais e que saiba fixar a sua acção predominante na esfera da regulação e de definição das condições que facilitem a actividade empresarial e as grandes parcerias estratégicas. Finalmente, os visitantes, que esperam sempre da oferta turística a correspondência às expectativas geradas e que cada vez mais, procuram produtos e serviços turísticos segmentados, personalizados e com uma boa relação qualidade/preço. O bom funcionamento do sistema turístico depende do desempenho de todos os actores, com particulares responsabilidades para os que organizam a oferta. Neste contexto, importa relevar a importância das parcerias, sem as quais não será possível gerar os consensos que permitam o desenvolvimento sustentável. E, se as boas estratégias empresariais são fundamentais para o turismo, também a coerência das políticas se afigura como primordial, tendo o poder público um papel importantíssimo neste domínio.
Tal como reconhece Buhalis (2000), “ (…) um compromisso que envolva todos os
interesses é extremamente difícil ou até mesmo impossível, mas é a chave para o sucesso de longo prazo (…)”.
Do referido anteriormente enfatiza-se a noção de que o turismo é uma actividade multidimensional e multifacetada, o que de certo modo pode ajudar a explicar o facto dos esforços para a sua definição serem relativamente recentes. Assim, tal como acentua Cooper (2001), “ (…) as definições de turismo têm uma característica particular, já que
foram mais motivadas por considerações da procura do que da oferta (…)”. Trata-se de
uma realidade objectiva e surpreendente para alguns autores6, sendo evidente que o
principal problema relacionado com as definições baseadas na oferta, residiu na
6
“Definir o turismo em termos de motivações ou outras características dos viajantes seria como tentar definir os
profissionais da área médica através da descrição de uma pessoa doente” – Smith (1989; 33) citado por Cooper et al
dificuldade que existe em isolar algumas actividades dedicadas aos turistas, daquelas que de um modo indiscriminado também servem os residentes e outros mercados e sectores. Neste contexto, importa reter os progressos observados nas definições do turismo baseadas na procura, as quais surgiram para corresponder a necessidades e situações específicas. Alguns autores, como Cooper et al (2001), têm dificuldade em encontrar uma base de coerência na abordagem às definições de turismo, mas reconhecem a necessidade da sua concretização, argumentando neste sentido, com base no desejável reforço da credibilidade da actividade, na indispensável concretização da sua medição e no suporte ao próprio processo legislativo. Cooper reconhece que estas dificuldades resultam da complexidade das actividades e das relações que as viagens turísticas geram, das rápidas mutações observadas neste plano e pela “imaturidade do turismo como campo de estudo”.
2.3.4. O conceito de turismo e as suas definições técnicas, económicas e