1.2 Vygotsky
1.2.2 A Oralidade e a Escrita
As investigações de Vygotsky trouxeram contribuições positivas na maneira de se perceber o aprendizado principalmente em relação ao desenvolvimento da linguagem oral e da escrita durante a idade escolar, tema de nosso interesse neste trabalho, como mencionado. O autor profere que uma criança de dois anos usa poucas palavras e uma sintaxe simples porque o seu vocabulário é limitado e ela não conhecimento das estruturas sintáticas mais complexas. Porém, a criança em idade escolar possui o vocabulário e as formas gramaticais necessárias para a escrita, já que são as mesmas utilizadas na fala oral; a escrita exige um alto nível de abstração, de trabalho consciente; é complexo o seu aprendizado para o que se faz necessária a compreensão do todo. Esse é o princípio geral que rege esse tipo de conhecimento e carece, como objeto histórico-cultural, da mediação do outro, isto é, de ser ensinado. Para Vygotsky (1987),
Ao aprender a escrever, a criança precisa se desligar do aspecto sensorial da fala e substituir palavras por imagens de palavras. Uma fala apenas imaginada, que exige a simbolização de imagens sonora por meios de signos escritos. [...] A escrita também é uma fala sem interlocutor, dirigida a uma pessoa ausente ou imaginária, ou a ninguém em especial - uma situação nova para a criança.
Os motivos para escrever são mais abstratos, mais intelectualizados, mais distantes das necessidades imediatas. Na escrita, somos obrigados a criar a situação ou representá-la para nós mesmos. Isso exige um distanciamento da situação real. A escrita também exige uma situação analítica deliberada por parte da criança. Na fala, a criança mal tem consciência dos sons que emite e está bastante inconsciente das operações mentais que executa. Na escrita, ela tem que tomar conhecimento da estrutura sonora de cada palavra, dissecá-la e reproduzi-la em símbolos alfabéticos, que devem ser estudados e memorizados antes. Da mesma forma deliberada, tem que por as palavras em certa seqüência, para que possa formar uma frase (VYGOTSKY, 1987, p. 85).
Conforme esse autor, a escrita também está ligada à linguagem oral, mas elas são de natureza diferente. Na oralidade, por exemplo, expressão facial, postura corporal, entonação, os gestos dão total diferença ao sentido do discurso. Os interlocutores participam do mesmo contexto situacional (tempo e espaço), na escrita isso não acontece. Vygotsky (1987, p. 85) diz que “A escrita é uma função linguística distinta, que difere da fala oral tanto na estrutura como no funcionamento”, assunto melhor discutido a seguir.
A criança utiliza a língua materna sem ter consciência das formas gramaticais, dos sons que pronuncia ou dos gêneros discursivos que utiliza. No que se refere à linguagem oral, a criança desenvolve os conceitos espontâneos, em vivências do dia a dia. A escrita não se baseia na oralidade, ela tem sua própria estrutura. Na aprendizagem da língua escrita fazem-se necessárias escolhas textuais, bem como aceitar a convencionalidade da escrita, a ortografia. A padronização é mais forte na escrita do que na oralidade, a escrita é uma atividade mais solitária porque leitor e escritor não estão presentes, sendo então uma operação à distância: na escrita, os leitores terão que inferir os prováveis leitores de seu texto. As variações linguísticas atingem mais a oralidade do que a escrita. As regras da escrita estão na escrita e não na oralidade. Língua escrita é representação simbólica que garante um sentido, um texto: é construção.
O sujeito, ao se apropriar do processo de conhecimento da linguagem escrita, vai tomando consciência das suas operações linguísticas e descobrindo um novo tipo de independência podendo buscar informações, manter diferentes contatos, superar o espaço físico e o tempo. A linguagem escrita e a linguagem oral têm em comum o fundamento gramatical e lexical da língua, porém é preciso saber o que pertence à escrita e o que pertence à fala. Assim, é importante que o professor tenha conhecimentos das características básicas dessas duas modalidades de linguagem para que possa sistematizar sua ação didática.
Segundo os estudos vigotskianos, o aprendizado da língua escrita na prática escolar não pode ser confundido com habilidade motora, com treinamento artificial, descontextualizado, desenvolvido de forma técnica e distante do cotidiano do aluno. Esse procedimento, sem sombra de dúvida, acabaria por ofuscar o papel e a função que a escrita exerce como um sistema particular de símbolos e signos, sistema simbólico de representação da realidade.
Sugere o citado autor que, na educação formal, sejam pensados e adotados procedimentos científicos para o ensino da linguagem escrita às crianças. Destaca a ideia de que o ensino deve ser organizado de forma que a leitura e a escrita se tornem imprescindíveis e significativas para a criança. “[...] a escrita deve ter significado para as crianças, de que uma necessidade intrínseca deve ser despertada nelas e a escrita deve ser incorporada a uma tarefa necessária e relevante para a vida” (VYGOTSKY, 1988, p. 133). Alerta esse pesquisador que o importante para a compreensão do funcionamento e dos usos da linguagem escrita é o entendimento do signo, do simbolismo da linguagem.
Assim, nossos atos de fala, escrita e leitura são em forma de enunciado. Um enunciado não é composto apenas por letras, palavras e frases, tem significado e comunica algo. A criança decodifica a leitura e a escrita no início do processo de alfabetização e terá que avançar, vencer muitas etapas para que se possa tornar um verdadeiro leitor e escritor. A aquisição do código escrito, o domínio da escrita e da leitura são processos complexos e exigem aprendizado.
Rego (2000) enfatiza que as concepções de Vygotsky acerca da importância da intervenção para o desenvolvimento das funções superiores são de grande importância para a educação; embora os processos de desenvolvimento estejam presentes na pessoa, precisam da intervenção, da colaboração de parceiros mais experientes e isso abre inúmeras possibilidades de atuação pedagógica.