Bakhtin (2003) diz que o estilo está marcado pela relação social dialógica na qual a pessoa está inserida. O indivíduo faz parte dessa interação, da vivência que tem com o seu grupo nas diferentes esferas de que participa e ali aponta sua própria atitude responsiva avaliativa. O estilo está atrelado às formas típicas do enunciado que são os gêneros discursivos, sendo escolhido pelo enunciador conforme a finalidade almejada na interação comunicativa; estas comportam a construção composicional e a unidade temática, como também a relação que se estabelece entre os interlocutores. A construção do enunciado ecoa desde o início da construção do texto e leva em conta a individualidade do enunciador “pelo estilo de linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua” (BAKHTIN, 2003, p. 261); o sujeito utiliza e está ligado aos elementos extralinguísticos, desde a entonação, como a própria expressão de maneira mais ampla em função principalmente do interlocutor. Todo enunciado oral ou escrito de qualquer esfera comunicativa traz marcas pessoais do enunciador e por isso reflete com maior ou menor intensidade a individualidade da pessoa.
Mesmo nos textos mais complexos do gênero secundário, como o gênero científico, o sujeito do discurso revela a sua individualidade, o seu etilo quando mostra as seleções que faz da língua e a visão de mundo ao compor sua obra, na qual apresenta a diferenciação do seu trabalho dos outros. A estilística, o estudo do estilo, é uma forma subjetiva marcada pelas escolhas do sujeito.
Essa marca da individualidade, jacente na obra, é o que cria princípios específicos que a separam de outras obras a elas vinculadas no processo de comunicação discursiva de um dado campo cultural: das obras dos predecessores nas quais o autor se baseia, de outras da mesma corrente, das obras das correntes hostis combatidas pelo autor, etc (BAKHTIN, 2003, p. 279).
A seleção de recursos linguísticos se torna uma autêntica produção discursiva e não uma simples adequação do discurso científico para a sua propagação. Bakhtin diz que com os gêneros é possível mostrar a nossa individualidade, alguns mais e outros menos dependendo da sua padronização. Nesse sentido, Zamboni (2001) destaca que
O gênero do discurso científico oferece menos condições favoráveis para exprimir a individualidade na língua do que o gênero da divulgação científica. Este último, embora tenha no primeiro a sua fonte e mantenha com ele uma vinculação temática genética, mostra-se mais propício para o exercício da individualidade, em virtude de realizar-se fora do campo da ciência (ZAMBONI, 2001, p. 92).
Na teoria bakhtiniana, o destinatário tem papel decisivo também no estilo que está ligado ao enunciado que o enunciador constrói; por meio de questionamentos, o citado autor nos leva a perceber melhor essa idéia:
A quem se destina o enunciado, como o falante (ou o que escreve) percebe e representa para si os seus destinatários, qual é a força e a influência deles no enunciado - disso dependem tanto a composição quanto, particularmente, o estilo do enunciado. Cada gênero do discurso em cada campo da comunicação discursiva tem a sua concepção típica de destinatário que o determina como gênero (BAKHTIN, 2003, p. 301).
Cada esfera de comunicação comporta específicos gêneros, com determinada finalidade e apresentam determinados estilos. Cada gênero tem uma organização, ou seja, tem traços da posição do locutor; há gêneros em que ele se coloca de forma distanciada e em outros ele apresenta-se implicado. Bakhtin clarifica bem essa questão ao dizer que as formas menos propícias para o reflexo da individualidade na linguagem estão nos gêneros do discurso que requerem maior padronização, como os documentos oficiais. Assim os artigos científicos, as teses, as conferências e outros apresentam um padrão maior em relação aos aspectos temático, composicional e estilístico. Porém, cada autor consegue mostrar sua própria identidade, proporcionar diferenciações ligadas ao estilo pessoal, à maneira de perceber o mundo e à seleção dos diferentes recursos que utiliza.
O citado autor coloca claramente que o estilo está ligado ao gênero e diz que o estilo integra a unidade do gênero do enunciado como seu elemento; desse modo, onde há estilo há gênero. “A passagem de um estilo de um gênero para outro não só modifica o som do estilo nas condições que lhe são próprias como destrói e renova tal gênero” (BAKHTIN, 2003, p. 268). Para esse estudioso escolhemos as palavras em função do gênero e do contexto discursivo vivenciado. Quando falamos não só usamos as palavras, escolhemos também o modo de dizer, a tonalidade, a expressão. Podemos exemplificar isso lembrando uma situação de uso social como um “velório”. Nessa situação, fazemos escolhas de um tipo de gênero e de palavras que servem especificamente para aquela ocasião. Uma criança ri, corre, brinca em um “velório”; observamos, então, que ainda não aprendeu o estilo desse tipo social de gênero. Um dos objetivos do trabalho com os gêneros, seja na oralidade ou na escrita, é saber utilizá- lo adequadamente nos diferentes contextos.
Em se tratando de estilo, implica o saber fazer escolhas e estas escolhas estão relacionadas ao tipo de gênero, à sua esfera de produção, à finalidade e ao provável destinatário. A liberdade oferecida é uma liberdade controlada, pois exige que esteja dentro de um contexto e que se façam as amarrações necessárias para que haja coerência.
A vontade discursiva do falante se realiza antes de tudo na escolha de um certo gênero do discurso. Essa escolha é determinada pela especificidade de um dado campo da comunicação discursiva, por considerações semântico-objetais (temáticas), pela situação concreta da comunicação discursiva, pela composição pessoal dos seus participantes, etc. A intenção discursiva do falante, com toda a sua individualidade e subjetividade, é em seguida aplicada e adaptada ao gênero escolhido, constitui-se e desenvolve-se em uma determinada forma de gênero (BAKHTIN, 2003, p. 282). O uso do discurso de divulgação científica, quando se dirige a um grande público ou a um público não especializado, requer a seleção de variados recursos e maneiras de divulgar os assuntos da ciência e da tecnologia; mostra-se assim um estilo específico de gênero que para melhor entendimento dos interlocutores utiliza recurso lingüístico, como: metáfora, analogia, comparações, gráficos, simplificações, exemplos e comparação ligada à experiência cotidiana do interlocutor para que possa compreender com mais facilidade os conceitos linguísticos tratados. Por isso, o estilo está também acoplado ao gênero, em que o interlocutor tem maior ou menor oportunidade de se colocar, por estar dentro de uma conjuntura bastante determinada; assim, ao utilizar, na divulgação científica, um folheto para campanha de vacinação, a essência da construção composicional terá que ser mantida como tipos relativamente estáveis de enunciados, tal como apregoa Bakhtin (2003). Desse modo, terá que ser levando em conta o interlocutor (criança ou não), a esfera (educação ou outra), a finalidade, o contexto enfim.
Hila (2009) traz também contribuições nesse sentido.
Trabalhar com os elementos pertencentes ao estilo, especialmente os linguísticos discursivos, significa, portanto, selecionar aqueles elementos que são constitutivos e, principalmente, significativos do próprio gênero, levando em conta, para isso, o nível da criança e da sala. O percurso metodológico caminha do gênero, do seu conhecimento e do seu contexto de produção para a posterior seleção do ponto gramatical que seja significativo para seu processo de recepção. No ensino tradicional ocorre justamente o contrário, primeiro o professor define o conteúdo gramatical, por exemplo, o tempo verbal, depois escolhe um gênero para trabalhá-lo, ignorando os aspectos estilísticos do próprio gênero e suas condições de produção (HILA, 2009, p. 177).
O estilo não se refere ao locutor, mas a seu posicionamento inserido discursivamente dentro do próprio gênero, seu ponto de vista, sua intenção comunicativa, sua expressividade valorativa mostrando o que pensa, bem como o papel social e ideológico que desempenha. Ao colocar seu acento de valor, o locutor traz outras vozes, relações dialógicas com outros enunciados já ditos (do cotidiano, ciências, familiar, religioso, acontecimentos da atualidade). Esses fazem parte de sua construção como ser humano, como fatos, dados, opiniões, vivências que vão dar base e sustentação a sua opinião.
Bakhtin pontua que o dialogismo é o princípio constitutivo de todo discurso e que rege a produção e a compreensão de sentidos. Já a polifonia é a percepção, o discernimento das vozes que residem no discurso. Assim pelo fato de o discurso ser dialógico, ele permite a circulação de muitas vozes, a presença do outro, o que pode ser constatado algumas vezes mais facilmente e em outras nem tanto. Porém, salientamos que o discurso de divulgação apresenta características polifônicas principalmente por trazer em sua organização o discurso fonte da ciência; por inserir assuntos da atualidade, a citação dos acontecimentos do cotidiano está sempre presente. Assim, na construção do discurso de divulgação científica, a polifonia se faz perceber por meio da utilização de termos, como: segundo, conforme, afirma, indica, sugere e tantos outros. A forma assumida pelo estilo no pensamento de Bakhtin traz contribuições para a análise do discurso. Brait (2005) salienta que o estilo como elemento na unidade de gênero de um enunciado pode ser objeto de estudo específico para análise do texto de maneira geral considerando-se que os estilos têm a ver com gêneros. Além disso, outro aspecto constitutivo é o fato de o enunciado dirigir-se a alguém, de estar voltado para o outro.
O estilo está presente na relação dialógica da linguagem, isto é, na própria polifonia, assim só poderemos compreendê-lo ao estudá-lo ou analisá-lo por meio das enunciações que acontecem no processo de comunicação acompanhado das especificidades das relações estabelecidas pelo momento histórico, social e cultural vivenciados pelos interlocutores. É na construção dialógica, no enunciado, que se dá o estilo. O estilo individual, a autenticidade construída, são resultados das interações vivenciadas com os outros indivíduos, com os discursos orais e escritos e a própria vivência histórica, social e cultural:
[...] a concepção de estilo, no sentido bakhtiniano, pode dar margens a muito mais do que a simples busca de traços que indiquem a expressividade de um indivíduo. Essa concepção implica sujeitos que instauram discursos a partir de enunciados concretos, de suas formas de enunciação, que fazem história e são a elas submetidos. Assim, a singularidade estará necessariamente em diálogo com o coletivo em que textos verbais, visuais ou verbo-visual, deixam ver, em seu conjunto, os demais participantes da interação em que se inserem e que, por força da dialogicidade, incide sobre o passado e futuro (BRAIT, 2005, p. 98).
O ser humano é um ser histórico, recebe e imprime influência, no entanto, tem sua própria maneira de ver, sentir ou reagir. O estilo é demonstrado pelos procedimentos constituídos na construção linguística/dialógica; é demonstrado em relação às escolhas linguísticas, assim como na escolha do assunto, do conteúdo, da forma que envolve o gênero
em uso no momento. Agimos de uma maneira específica ao falarmos ao telefone com alguém. O nosso discurso é construído de maneira diferente em função de o interlocutor ser um amigo ou um superior da minha área profissional. Assim, o estilo está intimamente ligado ao destinatário e ao próprio gênero. O discurso realizado nunca irá se repetir pertence a um universo de relações dialógicas, não será o mesmo em outros momentos. Não é o sujeito individual, é o social que exige mudança no discurso:
[...] a concepção de estilo, no sentido bakhtiniano, pode dar margens muito mais do que simples busca de traços que indiciem a expressividade de um indivíduo. Essa concepção implica sujeitos que instauram discursos a partir de seus enunciados concretos, de suas formas de enunciação, que fazem história e são a ela submetidos. Assim, a singularidade estará necessariamente em diálogo com o coletivo em que textos verbais, visuais, ou verbos-visuais, deixam ver, em seu conjunto, os demais participantes da interação em que se inserem e que, por força da dialogidade, incide sobre o passado e sobre o futuro (BRAIT, 2005, p. 98).