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Imitação

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1.2 Vygotsky

1.2.3 Imitação

A imitação também toma outra dimensão baseada na teoria de Vygotsky. Está presente no brincar, no dia a dia da criança e no aprendizado de forma geral. A imitação não é uma atividade mecânica, a criança tem que obedecer aos limites estabelecidos pelo seu grau de desenvolvimento e querer avançar. No cotidiano, quando não se sabe como fazer algo, vai-

se atrás de modelo: pode ser um simples ofício, um modelo de dissertação, de tese, ou outro material ou situação. A imitação é um processo, confronto de conhecimento na interação social, a busca das relações para formar o próprio conhecimento, para generalizar, ter a visão do todo. Com o trabalho de sala de aula podemos exemplificar usando o nosso próprio tema de estudo: a produção do gênero de divulgação científica. Imaginemos que um aluno, ao tentar imitar o texto coletivo de divulgação científica desenvolvido pelo professor, buscará, em sua produção, pistas nos textos já lidos, procurará respostas para as dúvidas e para os questionamentos entre os colegas, professores. Ao retomar em sua mente explicações dadas, esse imitar será acompanhado de trabalho cognitivo e poderá levar a um salto em seu aprendizado. A imitação leva a uma nova significação no campo simbólico. As palavras do próprio Vygotsky nos esclarecem melhor:

Para imitar, é necessário possuir os meios para se passar de algo que já se conhece para algo novo [...]. No desenvolvimento da criança [...] a imitação e o aprendizado desempenham papel importante. Trazem à tona as qualidades especificamente humanas da mente, elevam a criança a novos níveis de desenvolvimento. Na aprendizagem da fala, assim como na aprendizagem das matérias escolares a imitação é indispensável. Portanto, o único tipo positivo de aprendizado é aquele que caminha à frente do desenvolvimento, servindo-lhe de guia. O aprendizado deve ser orientado para o futuro e não para o passado (VYGOTSKY, 1987, p 89).

Ainda sobre esse assunto, Newman e Holzma (2002), citando Vygotsky assim se expressam:

De acordo com Vygotsky, a imitação é o que torna possível o desenvolvimento das capacidades da criança em virtude de fazer o que ainda não consegue fazer. A imitação é desenvolvimento porque é organizada de tal modo que algo novo seja criado a partir do dizer ou fazer ‘a mesma coisa’. Todavia, nem sempre a imitação é atividade revolucionária. Na ausência de ZDPs, isto é, dentro de instituições tradicionais, a imitação é mero comportamento social (p. 170 e 172).

Vygotsky (1987) mostra outra maneira de se conceber a aprendizagem, neste caso a escrita, aqui destacada para efeito de estudo, e o próprio papel que ela exerce como atividade intelectual no desenvolvimento da criança. Diz que o trabalho com a língua materna tem que ser semelhante ao aprendizado da fala, centrado na interação, na mediação com sentido e dentro de um processo contextualizado, pois a linguagem é uma atividade cognitiva e social, sempre situada em contexto de uso. Aprendemos por meio de interações sociais. Aprendemos e nos desenvolvemos através de ações, de atividades mediadas pela linguagem, pela cultura e pelo outro.

A relação do sujeito com o meio social é realizada através da mediação de instrumento, seja o instrumento que transforma a natureza, como um trator, ou a linguagem

como signo que constitui o sujeito e é constituída por ela. O sujeito do conhecimento não tem acesso imediato aos objetos e sim a sistemas simbólicos, os signos (linguagem oral, linguagem escrita, sistema de numeração...) que representam o acontecimento e fazem intervenção nessa realidade. Portanto, todo aprendizado é realizado através da mediação. Os signos são criados na sociedade, lançam o sujeito a um patamar maior em seu desenvolvimento, primeiro no nível social, e depois no nível individual: “O uso de signos conduz os seres humanos a uma estrutura específica de comportamento que se destaca do desenvolvimento biológico e cria novas formas de processos psicológicos enraizados na cultura” (VYGOTSKY, 1988, p. 45).

Na escola, os professores, os colegas, o próprio material didático, o espaço compartilhado, os conteúdos lidos e debatidos e os textos interagem e medeiam a aprendizagem. Esses elementos contribuem para que a criança internalize e se aproprie do conhecimento em estudo, adquirindo, desse modo, um novo grau de desenvolvimento, compreensão, independência, modificando e ampliando as funções mentais superiores. Esse processo se constrói de fora para dentro, do social para o individual. “Sem os signos externos, principalmente a linguagem, não seria possível a internalização e a construção das funções superiores” (FREITAS, 1995, p. 91).

Segundo a teoria de Vygotsky (1998), a intervenção pedagógica proporcionada pela escola suscita progressos que não aconteceriam naturalmente. Assim, o desenvolvimento cognitivo é determinado pelo processo de internalização da interação social com os elementos da cultura do indivíduo e envolve uma atividade externa social, interpessoal, que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna, intrapessoal. Nessa troca vão se internalizando os diferentes conhecimentos. O referido autor (1988) chama de internalização a reconstrução interna de uma operação externa.

Em se tratando da leitura e da escrita, a criança dá saltos qualitativos em seu desenvolvimento com o domínio dessas capacidades. O vocabulário do aluno muda, enriquece por causa das interações reflexivas com os materiais escritos. A escrita possibilita um melhor domínio da linguagem planejada, enquanto a leitura, por sua vez, favorece a construção de própria competência linguística. Para isso, é necessário estimular os alunos a se tornarem leitores. A leitura é a base do processo de alfabetização e da cidadania. A leitura implica construção de significados, sentidos os quais não se limitam ao texto, mas são construídos pelo leitor nas relações sociais que vivencia. A escrita retrata não só o que a

criança pensa, mas a simbolização de um todo. A escrita é uma linguagem mediada por signos. Ela não só representa a fala, mas ideias, significados, conceitos etc. A escrita possibilita um melhor domínio da linguagem planejada. Para o referido autor, a escrita é uma representação de segunda ordem e se desloca para uma representação de primeira ordem à medida que se torna mais independente das ações ligadas à escrita.

De conformidade com Vygotsky (1998), a história do desenvolvimento da linguagem escrita nas crianças é complexa e exige a compreensão de muitos obstáculos. O domínio da escrita pela criança depende da mediação do outro e da cultura. As pesquisas realizadas pelo grupo de investigação desse autor mostram que esse desenvolvimento não mantém uma seqüência contínua; ele é construído de involuções e de evoluções e, em alguns momentos, concepções já construídas desaparecem ou as novas construções aparecem desvinculadas das demais. Afirma esse pesquisador que isso só se manifesta porque esse progresso intelectual da linguagem escrita é histórico, um processo unificado de desenvolvimento e não puramente evolutivo, com acúmulos graduais de pequenas mudanças. Alerta que só por meio da investigação científica poderemos compreendê-lo como processo histórico e cultural. A apropriação da linguagem escrita compreende interação entre sujeitos e entre a escrita, com suas diferentes especificidades.

A preocupação do autor com esse tema foi de grande incentivo para novas investigações no âmbito escolar. Vygotsky reconhece a importância do assunto e instiga os estudiosos a aprofundarem seus estudos na história da linguagem escrita das crianças e nos pontos essenciais pelos quais passa esse desenvolvimento, bem como o que leva as crianças a escreverem e qual a sua relação com o aprendizado escolar. O educador deve observar aquilo que ainda não ocorreu no desenvolvimento da criança, mas que pode acontecer, ou seja, o potencial que a criança tem para aprender. Assim entendendo, a intervenção do professor auxilia no salto qualitativo da aprendizagem e favorece a constituição da ZDP do aluno, como mencionado.

Vygotsky (1987, 1988) acredita que a aprendizagem escolar impulsionada pelo trabalho sistematizado intencionalmente propaga a experiência social e científica da humanidade. Além disso, ocupa um papel diferenciado no desenvolvimento, na apropriação dos valores e na experiência cultural acumulada e assimilada pelo sujeito. A escola promove, assim, um modo aprimorado no sentido de analisar, generalizar e divulgar os elementos da realidade social, diferente dos conhecimentos aprendidos da vida cotidiana. Um bom ensino

favorece a interação do aluno com esses conhecimentos científicos e proporcionam o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, em seu processo intelectual. O indivíduo se transforma, internaliza os conceitos com significado e, dessa maneira, introduz novos modos de operação intelectual. E mais: adquire novas estratégias, racionaliza através de sistemas simbólicos que representam a realidade, dá um salto em seu processo de aprendizagem. Por exemplo: ao se apropriar da linguagem escrita, o aluno adquire novas capacidades cognitivas, como generalizar, refletir, argumentar e se comunicar de maneira diferente. O sujeito, ao adquirir o conhecimento da linguagem escrita, aciona uma nova fase no seu desenvolvimento cognitivo. Segundo Rego (1994, p. 68):

O domínio desse sistema complexo de signos fornece novo instrumento de pensamento (na medida em que aumenta a capacidade de memória, registro de informações etc.), propicia diferentes formas de organizar a ação e permite outro tipo de acesso ao patrimônio da cultura humana (que se encontra registrado nos livros e outros portadores de textos). Enfim, promove modos diferentes e ainda mais abstratos de pensar, de se relacionar com as pessoas e com o conhecimento.

Ainda de acordo com essa perspectiva, o aprendiz percebe com mais facilidade o papel que a escrita exerce na sociedade e os seus diferentes usos sociais. Compreende que a escrita possibilita guardar informações, permite o diálogo e o entendimento através do tempo e do espaço. Com o seu uso favorece conhecer diversas culturas e inovações tecnológicas. E com o uso da mensagem escrita pode - se estudar, refletir, tirar dúvidas, comparar, deduzir e tantos outros benefícios que se obtêm desse importante meio cultural.

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