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Precisamos ter cautela para não entendermos a noção de ordem enquanto instância ou camada seja ela profunda ou atmosférica. Ordem para Merleau-Ponty (2006a) diz respeito às relações estabelecidas entre corpo e matéria, organismo e natureza, homem e mundo. A noção de ordem vem contemplar os objetivos iniciais de Merleau-Ponty (2006a), a saber, compreender as relações entre consciência e natureza. Para Pavlov e boa parte da tradição behaviorista, o comportamento elementar ou superior se explicam pela noção de reflexo. Ou seja, as relações entre organismo e natureza são traduzidas em leis da física. Portanto a noção de reflexo não ultrapassa a ordem física não sendo suficiente nem sequer para a compreensão de uma ordem fisiológica do organismo, ou seja, uma ordem vital.

Dizemos isso porque até mesmo nos aspectos básicos o organismo desempenha comportamentos de significado vital para a espécie. Para uma descrição mais fiel da realidade do organismo e do seu relacionamento com o meio, ou seja, seu comportamento, Merleau- Ponty (2006a) enfatiza as ordens vital e humana. Mas nosso autor enfatiza tais ordens, não em detrimento da ordem física, mas fazendo-se valer da noção de estrutura para estender-se além desta ordem. ―A forma não é um elemento do mundo, mas um limite para o qual tende o conhecimento físico e que ele próprio define‖ (Ibidem, p. 221). Portanto a forma não é um elemento da natureza, mas um objeto da percepção, razão pela qual precisamos considerar como estas aparecem enquanto fenômenos:

Com efeito, à medida que uma filosofia da estrutura mantém o caráter original das três ordens e admite que quantidade, ordem e significado presentes em todo o universo das formas, são, entretanto caracteres ―dominantes‖ respectivamente na matéria, na vida e no espírito, é mais uma vez por uma diferença estrutural que deveremos dar conta de sua distinção. Em outros termos, matéria, vida e espírito devem participar de modo desigual da natureza e constituir, enfim, uma hierarquia em que sua individualidade se realiza cada vez mais (Ibidem, p. 207).

Um dos grandes prejuízos da psicologia da forma foi considerar toda a forma em termos isomórficos e homogêneos. A psicologia da forma não observou os caracteres dominantes que cada forma enquanto individualidade pode envolver. Ora se não consideramos mais diferença alguma entre o psíquico, o fisiológico e o físico então não há mais diferença alguma. Viveríamos em um mundo de exatidão e equilíbrio estático no qual a

consciência seria o que espelho inequívoco do que acontece no cérebro. É necessário, todavia, distinguir a matéria, a vida e o espírito enquanto três ordens de significados (MERLEAU- PONTY, 2006a).

Para Merleau-Ponty (2006a), uma das principais diferenças entre os organismos e os sistemas da física é que a ―unidade dos sistemas físicos é uma unidade de correlação, a dos organismos, uma unidade de significado‖ (Ibidem, p. 243). Mais especificamente a respeito da ordem humana, podemos dizer resumidamente que se discerne das outras duas pelo mesmo critério que as formas simbólicas se discernem das formas amovíveis e sincréticas. Ou seja, mais do que uma correlação regida por leis, o comportamento humano envolve uma correlação de sentido entre os organismos, entre estes e o meio e a história. ―Mas o meio cósmico, o meio do animal de modo geral não será um sistema de constantes mecânicas, físicas e químicas, não será feito de invariantes? É claro que esse meio definido pela ciência é feito de leis‖ (CANGUILHEM, 2015, p. 139). Entretanto, essas leis não podem ser tomadas como abstrações teóricas. ―O ser vivo não vive entre leis, mas entre seres e acontecimentos que diversificam essas leis‖ (Id.Ibid.). Fazia-se necessário então falar desses acontecimentos que são acontecimentos humanos, fazia-se necessário falar de comportamento humano em termos de ordem humana.

Uma ordem humana contempla tanto o organismo como o comportamento humano pela ideia de significado e sentido e a sua originalidade ―consiste em que suas estruturas mais típicas não existem isoladamente, mas pertencem a sistemas de símbolos‖ (THOMPSON, 2013, p. 99). São as relações laterais entre esses símbolos e a própria a ideia de significado que permitem preservar a vida para além dos aspectos fisiológicos e biológicos do comportamento. A partir disso Merleau-Ponty (2006a) conclui que ―o comportamento não tem mais apenas um significado, é ele mesmo significado‖ (Ibidem, p. 193). Dizer que o comportamento é um significado é dizer que ele é intencionalidade. O relacionamento homem-mundo é um relacionamento intencional e não apenas físico. Sem intencionalidade um homem pode comportar-se da mesma maneira que um aparelho televisor ou uma câmera fotográfica.

A partir daqui Merleau-Ponty (2006a) não fala mais necessariamente em um organismo ou em um corpo vivo, mas em um corpo fenomênico. ―A percepção de um corpo vivo ou, como diremos daqui por diante, de um ‗corpo fenomênico‘, não é um mosaico de diversas sensações visuais e táteis...‖ (Ibidem, p. 244). É preciso, portanto, que ―os gestos e as

atitudes do corpo fenomênico tenham uma estrutura própria, um significado imanente, que ele seja imediatamente um centro de ações (...), um certo tipo de conduta‖ (Id.Ibid.). Esse é o embrião da noção de corpo próprio e logo que ele surge na obra do autor começa a sugerir ou demandar um olhar fenomenológico, ou seja, um olhar de sentido. É a fenomenologia que se interroga sobre a intencionalidade, é a fenomenologia que investiga o sentido dos atos e dos comportamentos.

A totalidade de um corpo ou um corpo em seu caráter fenomênico ―não é uma aparência, é um fenômeno‖ (Ibidem, p. 248). Porém não conseguimos compreender esse corpo enquanto totalidade a partir de uma soma de suas partes, paradoxalmente a totalidade do corpo fenomênico não é em si fechamento. É nesse sentido que a investigação fenomenológica em psicologia e psicopatologia há de se distinguir das demais. Em sua abordagem fenomenológica da psicopatologia, Karl Jaspers (2006) entende que é necessário ter uma percepção das totalidades, ―porém esse todo não se faz diretamente objeto, mas somente através do particular‖ (Ibidem, p. 42). O que isso quer dizer? Que a universalidade alcançada pela investigação fenomenológica da percepção não nos conduz a uma divisão ou análise mecânica do todo, mas ao todo enquanto determinação infinita. De modo especial, nossa pesquisa isso quer dizer a investigação do comportamento não no conduz a uma análise real do comportamento, mas ao corpo como totalidade significativa e expressiva.

Ainda assim, a universalidade fenomenológica não fecha nossos olhos à parte ou ao particular. Pelo contrário, sem o particular é impossível vislumbrar a totalidade e é especialmente o particular que aponta para o universal. Segundo Merleau-Ponty (1975c), a universalidade deve se conduzir pela intersubjetividade, ou seja, ―não atingimos o universal abandonando nossa particularidade, mas, fazendo dela um meio para alcançar os outros, em virtude de uma afinidade misteriosa que faz com que as situações se compreendam entre si‖ (Ibidem, p. 377). Esta é a razão pela qual uma investigação fenomenológica que se pauta na percepção pôde e pode favorecer uma compreensão psicopatológica do todo a partir de um caso59, tal como nas descrições Van Den Berg (2003) a respeito de O Paciente Psiquiátrico. Semelhantemente para Jaspers (2006, p. 72) ―muitas vezes o aprofundamento penetrante num caso particular ensina fenomenologicamente o que é geral para inúmeros casos‖.

59 ―...o paciente, cujos males aqui se descrevem existe e não existe. Não existe no sentido de que o paciente descrito seja um indivíduo identificável pelas queixas aqui relatadas; existe, sim, enquanto as suas queixas pertencem a uma só classe de paciente. Conheço esse paciente; encontro-o em cada um dos meus enfermos‖ (BERG, 2003, p. 8).

É por esse motivo que a totalidade fenomenológica do corpo e a vida psíquica60 não se dão por um aglomerado orgânico com um anexo psicológico. O comportamento humano envolve uma totalidade que explicita sentido e significado. É nesse sentido que o corpo e o comportamento se dão à descrição enquanto forma. Nas palavras de Jaspers (2006, p. 42) ―o todo precede as partes; o todo não é a soma das partes, é mais; o todo é uma origem autônoma, é forma (Gestalt). [...] Não se pode derivar o todo dos elementos (mecanicismo) nem os elementos do todo (hegelianismo)‖. O olhar que adotamos aqui não pode esvair-se unicamente em uma sensação fisiológica, mas no movimento perceptivo dessa totalidade.

Assim sendo, entendemos que esse olhar é desenvolvido em termos de uma fenomenologia da percepção, pois se o comportamento é estrutura, ou seja, Gestalt, então ele tem por princípio um caráter ambíguo de figura e fundo. Merleau-Ponty (2006a) entende que a ―função ―figura e fundo‖ só tem sentido no mundo percebido: é nele que aprendemos o que é uma figura e o que é um fundo‖ (Ibidem, p. 145). Nesses termos o ―percebido seria explicável apenas pelo próprio percebido, e não por processos fisiológicos‖. Em sínteses, uma ―análise fisiológica da percepção seria pura e simplesmente impossível‖ (Id.Ibid.). Doravante o comportamento se é Gestalt, assim como o corpo, logo deverá ser considerado no campo da percepção e não da sensação.

O comportamento emerge como figura de um fundo que é a própria existência do indivíduo como organismo com uma história e com um certo estilo de ser no mundo. Contudo, ―não é o mundo real que faz o mundo percebido‖ (Ibidem, p. 139). A percepção ―é um momento da dialética viva de um sujeito concreto, participa de sua estrutura total e, correlativamente, tem como objeto primitivo (...) as ações de outros sujeitos humanos‖ (Ibidem, p. 258). Sendo assim, a percepção não é um resumo ou um produto da natureza, mas a reversibilidade, o movimento ambíguo que se dá entre o homem que investe o mundo e o mundo que investe o homem de sentido. É esse investimento que leva Manoel de Barros (2013d) a dizer que ―há um comportamento de eternidade nos caramujos‖(Ibidem, p. 31, grifo nosso). Ou ainda, poderíamos recordar Goldstein (2000), quando este afirma que o sentido do organismo e o seu ser são a mesma coisa, que o sentido do organismo é o seu ser.

O leitor apressado renunciará crer que a Fenomenologia da Percepção se inicia na A Estrutura do Comportamento. Em termos gestalticos, esta primeira obra é fundo daquela

60 ―A vida psíquica consciente não é, portanto, aglomerado de fenômenos particulares isoláveis, mas um todo de referências em constante fluxo, do qual extraímos pela descrição fatos particulares‖ (JASPERS, 2006, p. 76).

segunda que lhe é figura. É por isso que Merleau-Ponty (2011) inicia sua segunda grande obra retomando uma crítica aos postulados da sensação. Só é possível compreender o comportamento como estrutura, ou seja, como Gestalt se lançamos mão de uma fenomenologia da percepção, de uma fenomenologia do corpo próprio. Tal como em sua própria titulação, o tema central de A Estrutura do Comportamento é o comportamento como estrutura, ou seja, como uma Gestalt em sua ‗natureza‘ ambígua.

A ambiguidade do comportamento se revela e se oculta pela inseparabilidade do organismo em seus aspectos fisiológicos e os aspectos expressivos do ser. O comportamento do organismo revela seu ser e não uma realidade fisiológica apenas, ele é um significado antes de tê-lo. Ainda assim só se torna possível falar de ambiguidade e de estrutura sob o primado de uma investigação fenomenológica da percepção. A percepção é o fio condutor entre A Estrutura do Comportamento e Fenomenologia da Percepção propriamente dita.

3 O PRIMADO DA PERCEPÇÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS PSICOLÓGICAS

Há uma primeira coisa a dizer: não sei se a atitude fenomenológica serve às outras ciências,

mas certamente ela serve à psicologia.

Maurice Merleau-Ponty