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2.3 Standard-substandard no Brasil

2.3.2 A origem dos hunsriqueanos e o uso do substandard

Desde o início da imigração alemã ao RS, em 1824, o grupo mais representativo, que se instalou nas primeiras colônias do RS, foi o dos imigrantes que deixaram a região do Hunsrück, na Renânia Central. Essa região localiza-se no centro-leste da Alemanha, nas proximidades da França e de Luxemburgo, conforme mostra a figura 4 a seguir.

Figura 4 – A região do Hunsrück

Fonte: Altenhofen e Morello et al. (2018, p. 27)

A representatividade demográfica dos hunsriqueanos, somada à origem histórica e geográfica, levou Altenhofen (1996) a denominar a variedade desses falantes de

Riograndenser Hunsrückisch. Embora o Hunsrückisch tenha em sua origem uma base dialetal do renano e do moselano, como veremos abaixo, não se pode partir do pressuposto de que a língua tenha mantido o mesmo repertório de origem, no Brasil, senão que, após anos de contato linguístico com outras variedades da língua alemã e do português brasileiro, um conjunto de variantes se impuseram, porém de forma variável e com mudanças linguísticas em todos os níveis. Essa variação interna e vinculação a uma matriz de origem fica evidente na definição que Altenhofen dá a essa “língua de imigração”:

Hunsrückisch ist der Oberbegriff für eine überregionale Varietät des Deutschen in Rio Grande do Sul/Südbrasilien, die ein Dialektkontinuum darstellt, dessen sprachliche Konstitution auf eine rhein-/moselfränkische Basis zurückgeht und eine Vielfalt sprachkontaktbedingter Elemente anderer deutscher Dialekte sowie insbesondere solche des Ptg. einschließt.14 (ALTENHOFEN, 1996, p. 27)

Com nessa definição do Hunsrückisch, é possível acrescentar, a partir dos estudos recentes do ALMA-H, que, ao menos no RS, predominam hoje as marcas linguísticas mais renanas, especialmente no nível fonético-fonológico e, portanto, mais próximas do alemão standard. Para exemplificar a variação interna do Hunsrückisch de base moselana [+ dialetal]

e renana [+ próximo do standard], vejamos o quadro 1 a seguir:

Quadro 1 – Variantes moselanas e renanas no contínuo variacional do Hunsrückisch

Variantes moselanas Variantes renanas

dat das

wat was

Korf Korb

bleif bleib

us uns

wieh weh

is isch

fest fescht

bist bischt

host hascht, hoscht

14 Tradução nossa: É uma variedade suprarregional de língua alemã de imigração no RS constituída por um contínuo dialetal que remete a uma base de origem francônio-renana e francônio-moselana, à qual se incorporaram elementos específicos do contato linguístico com outros dialetos do alemão e também da língua portuguesa (ALTENHOFEN, 1996, p. 27).

dut dot, tot

gohn, giehn gehn

Broder, Brouder Bruder

bloh blau

Fonte: adaptado de Altenhofen (1996, p. 21)

Nos dados levantados para o ALMA-H, é comum encontrar dados de famílias utilizando uma mistura de marcas moselanas e renanas no seu familioleto (cf.

ALTENHOFEN, 1996), como, por exemplo, no ponto RS08 – Alto Feliz, onde ainda é mais evidente a coocorrência de variantes das duas matrizes de origem, na microárea do médio-alemão ocidental (Westmitteldeutsch), onde o grau de proximidade da norma escrita do alemão standard é comparativamente maior do que em outras regiões.

De modo geral, entende-se que os dialetos muito distantes geograficamente também seriam aqueles que apresentariam dificuldades de compreensão mútua, por exemplo, entre camponeses do norte e do sul da Alemanha.

Em parte, nenhuma das diferenças entre dialetos vizinhos são profundas a ponto de torná-las mutuamente ininteligíveis às populações que os falam.

Mas camponeses do norte e do sul da Alemanha, por exemplo, não se entenderiam se, ao estabelecer contato, usassem apenas de seus dialetos respectivos. (WILLEMS, 1946, p. 274)

A comunicação desses alemães, provenientes de diferentes regiões da Alemanha, teria que ocorrer de alguma forma ao entrarem em contato com outros grupos étnicos na nova pátria. O Hunsrückisch, pode-se dizer, funcionou assim como uma língua comum (cf.

Gemeinsprache, Verkehrssprache) de interação e intercompreensão entre os diferentes grupos dialetais, legitimada por sua maior proximidade com a norma escrita do alemão standard. Em outra via, o contato com indígenas, italianos e outros grupos imigrantes também ocorreu por meio de uma língua comum, no caso o português, acrescida dos resquícios culturais e linguísticos próprios das comunidades étnicas muitas vezes híbridas.

Willems (1946, p. 277) aponta três fatores, em comunidades teuto brasileiras, que impulsionaram as mudanças linguísticas entre os imigrantes alemães.

1) O meio físico brasileiro era muito diferente do meio ambiente europeu e impunha mudanças culturais e a aquisição de terminologias locais que preenchessem as lacunas linguísticas; 2) Em geral, as comunidades teutas

eram compostas de imigrantes culturalmente heterogêneos e com variedades linguísticas muito diferentes. O contato entre dialetos e padrões provinciais originou o linguajar atualmente falado, o qual ficou impregnado de traços fonéticos e gramaticais dos padrões absorvidos (ou seja, da língua mais representativa da região). 3) Os imigrantes conviviam com grupos culturalmente diferentes. Assim, essas relações formavam um canal de aquisição de novos elementos oriundos das culturas circunvizinhas.

Para Willems (1946, p. 278), o espaço físico-geográfico impôs duas possibilidades de mudanças linguísticas no repertório dos falantes alemães em terras brasileiras. Em primeiro lugar, teria ocorrido o uso da própria língua para nomear coisas, objetos, seres vivos ou plantas desconhecidas, formando assim, novas palavras. Selecionamos dois exemplos fornecidos pelo autor para ilustrar a criação ou tradução de vocábulos: para a cidade de Estrela, os alemães dizem Strehle (germanização do topônimo do português Estrela, embora a denominação para o português estrela continue sendo der Stern, ou melhor, Stenn em Hunsrückisch); já no caso do serrote, muito provavelmente, esse objeto foi associado ao rabo de uma raposa, pois ainda hoje se denomina de Fuchsschwanz. Segundo Willems (1946, p.

278), o termo Fuchs também seria utilizado em determinadas localidades para se referir à foice, o que também poderia ser transferido para o serrote, já que são dois objetos cortantes e de uso muito corriqueiro nas colônias. Nesse caso, trata-se de uma ressemantização. Por outro lado, em comunidades de imigração alemã do Rio Grande do Sul, também circula a variante standard die Sichel (em português a foice).

Em segundo lugar, há que considerar também o empréstimo de termos em uso pelos grupos étnicos próximos, em especial do português. Willems (1946, p. 281-297) destaca uma lista de palavras novas que ganharam espaço no falar dos imigrantes alemães. Entre elas, estão: amigo, deputado, charque, primo, praça, soco, entre outras.

A história de formação do Hunsrückisch, conforme Altenhofen e Morello et al.

(2018, p. 37), está ligada aos contatos linguísticos, às migrações e à função que essa língua de imigração exerceu como norma de oralização local. Nos termos de Thun (2010), pode-se considerar o Hunsrückisch no Brasil um complexo variacional que integra elementos de diferentes origens, em função do contínuo de variantes linguísticas que fazem parte do repertório de seus falantes, atualmente.

A seguir, segue um resumo dos principais aspectos que caracterizam o segundo grupo analisado nesta tese, dos pomeranos, que se instalaram a partir de 1858, em Nova Petrópolis, mais especificamente no entorno de Linha Temerária e Fazenda Pirajá. Vejamos.