3.4 Múltiplas faces do contato linguístico
3.4.4 Code-switching e translanguaging
O code-switching – em português, alternância de código ou alternância de línguas – pode ser visto, segundo King e Mackey (2007, p.194), como um “processo comum entre adultos e crianças proficientes e com domínio em duas línguas”. Elas afirmam que o fato de um indivíduo bilíngue realizar code-switching com êxito indica que “o falante tem a compreensão gramatical detalhada de ambas as línguas, incluindo o que pode e o que não pode ser feito em ambas” (KING; MACKEY, 2007, p. 194).
Já o termo translanguaging (em português, translinguagem), proposto por García, Flores e Chu (2011, p. 5), designa “uma abordagem do bilinguismo centrada não nas línguas, mas nas práticas comunicativas observáveis dos bilíngues”. Os autores reconhecem que code-switching e translanguaging são termos bastante próximos, mas destacam que a translinguagem compreende outras formas de uso da linguagem híbrida que são sistematicamente engajadas na construção de sentido. Um exemplo para ilustrar esse processo ocorre quando um bilíngue ouve um discurso em uma língua e fala sobre isso em outra língua,
ou, ainda, ele lê determinado texto em uma língua e, em seguida, apresenta esse conhecimento adquirido por escrito em outra língua (GARCÍA; FLORES; CHU, 2011).
Em um blog da Universidade de Oxford21, Wei especifica as diferenças entre code-switching e translanguaging. Wei (2018) afirma que code-code-switching se refere à alternância entre as línguas em um episódio comunicativo específico, como em uma conversa ou uma troca de e-mail (WEI, 2018). Para ele, a translinguagem é, contrariamente, um processo de criação de significado e de sentido e, portanto distinto do que propõe o termo code-switching.
A translinguagem, segundo Wei (2018), busca desafiar os códigos linguísticos e os não linguísticos, porque formam um conjunto de recursos que criam significado e sentido.
Além disso, Wei afirma que é necessário ver as línguas nomeadas como convenções culturais diferentes:
Translanguaging wants to challenge the divides between the so-called
“linguistic codes” on the one hand and the “non-linguistic” means of communication on the other; they are all part of the repertoire of meaning-and sense-making resources. Likewise, Translanguaging wants to challenge the divides between named languages and view them as different cultural conventions and some people are socialised into moving between and across these conventions in their everyday communication; these are the so-called
“multilinguals”.22 (WEI, 2018)
Os multilíngues, conforme Wei (2018), são indivíduos que conseguem se mover através de convenções culturais, incluindo gestos ou placas e figuras para se expressar ou colocar sentido em sua comunicação diária. Por esse viés, a translinguagem vai muito além da linguagem convencional, incluindo posturas, estilo de fonte, exibição espacial, expressões faciais e gestos. A translinguagem contribui com a aquisição de novas formas de comunicação e com a inclusão de línguas ou de variedades que, frequentemente, são excluídos de contextos escolares.
O desenvolvimento das práticas de língua materna dos alunos em comunidades bilíngues, segundo García, Flores e Chu (2011, p. 08), é prejudicada pelos programas educacionais que separam o ensino de línguas em blocos, separando, por exemplo, o ensino de alemão no formato de aula como língua estrangeira, sem levar em conta a língua da
21 WEI, Li. Translanguaging and Code-Switching: what’s the difference? em OUPblog, 2018. Disponível em:
<https://blog.oup.com/2018/05/translanguaging-code-switching-difference/>. Acesso em: 22 jan. 2021.
22 Tradução nossa: A translinguagem quer desafiar as divisões entre os chamados “códigos linguísticos” por um lado e os meios de comunicação “não linguísticos” por outro; todos eles fazem parte do repertório de recursos de criação de significado e de criação de sentido. Da mesma forma, a translinguagem quer desafiar as divisões entre as línguas nomeadas e vê-las como convenções culturais diferentes e algumas pessoas são socializadas para se mover entre e através dessas convenções em sua comunicação diária; estes são os chamados “multilíngues”.
comunidade, que pode ser o Hunsrückisch ou o pomerano. Nesse sentido, a falta da comparação linguística entre a língua ensinada e a língua minoritária do aluno, segundo García, Flores e Chu (2011), não permite comparações interlinguísticas, as quais sirvam para estimular a consciência metalinguística das crianças ou até mesmo o uso e aceitação da translinguagem como um uso legítimo das línguas por falantes plurilíngues.
García, Flores e Chu (2011, p. 8) afirmam também que a translinguagem é um recurso importante para todos os professores de alunos em contexto de línguas minoritárias, e que o uso desse recurso pode tornar-se uma habilidade muito importante no século 21.
Acrescenta-se que os professores educam de forma mais significativa, quando utilizam todo o repertório linguístico de seus alunos.
O uso simultâneo de duas línguas em sala de aula e no ambiente familiar precisa ser aceito como uma habilidade, qual seja de gerenciar dois sistemas linguísticos. King e Mackey (2007, p. 184 e 206) destacam alguns pontos sobre o code-switching que devem ser analisados com atenção pelos familiares e respeitados na fala de bilíngues, tais como:
ato de misturar línguas para uma criança ou um aprendiz de línguas deve ser considerado normal, pois faz parte do desenvolvimento bilíngue;
Se a criança vive em um ambiente onde o code-switching é a norma, ela vai aprender automaticamente a alternar entre as línguas que utiliza;
As línguas minoritárias podem necessitar do apoio de outra língua;
Não há bilíngue que domine várias línguas perfeitamente. A aprendizagem de línguas é um processo que deve ocorrer ao longo da vida.
Por fim, o code-switching é um processo de alternância entre línguas considerado natural e automático na vida dos bilíngues que possuem a sua disposição dois ou mais sistemas linguísticos. Já a translinguagem incentiva a reflexão linguística através do uso desses sistemas linguísticos complexos e completos de forma pacífica, sem competição e sem hierarquia.
A próxima seção trata da substituição linguística (language shift), ou ainda substituição de variedade linguística (variety shift), que são os processos “mais terminais”
resultantes do contato linguístico, quando uma língua ou variedade se sobrepõe a outra.