4. O modelo linguístico jurídico
5.1. A palavra “preparo” e as suas consequências
Para leigos, a palavra preparo pode remeter a uma de suas denotações primeiras, ou seja: a organização ou a arrumação de algo, com a adoção de disposições preliminares para se alcançar algum objetivo. Já a palavra deserção correntemente denota o crime atribuído a militares quando abandonam o serviço militar, o quartel ou o batalhão, especialmente em situação de conflito (guerra ou batalha).
Nas lides jurídicas, não há como recorrer às suas denotações, mas sim às conotações que conduzem ao domínio específico nas quais estejam sendo empregadas, revelando outras faces da polissemia inerente à palavra. Neves (1992), apresenta no seu Vocabulário prático de tecnologia jurídica e brocardos latinos, as seguintes definições:
– Diz-se da quantia que a pessoa interessada no seguimento de uma causa deposita antecipadamente nas mãos do escrivão para o pagamento das custas. Diz-se, por extensão, do pagamento que se faz dessas custas. Pode envolver custas judiciais, custas recursais, diligências de oficial de justiça, porte de retorno, dentre outras mais específicas. (VPTJBL, Neves, 1992)
– Diz-se do perecimento do recurso em direito processual, por não ter sido devidamente preparado, remetido e apresentado, dentro do prazo legal, na inferior ou superior instância. Implica no abandono processual, omissivo ou comissivo, pelas partes em decorrência do não recolhimento das custas devidas, em prazo regimental, que pode gerar a extinção do processo. VPTJBL, Neves, 1992)
O despacho judicial proferido pelo juiz pode ter diversas interpretações para quem o examina, mas principalmente se estivermos lidando com público leigo, sem conhecimento do jargão de especialidade. O termo preparar, isoladamente, pode ter conotações
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plurais, muito diversas, até mesmo para operadores do direito com diferentes experiências processuais.Destaca-se que língua(gem) jurídica pode apresentar variações mesmo entre os ramos do direito. Por exemplo, um advogado que tenha experiência na área do Direito do Trabalho não estará necessariamente habilitado a tratar com a terminologia de outra ramificação do Direito, posto que os processos trabalhistas normalmente não estão sujeitos ao
preparo, isto é, ao pagamento de custas.
Parte dos processos trabalhistas, principalmente aqueles propostos por empregados, normalmente considerados hipossuficientes economicamente, são dispensados do pagamento das custas processuais, muito embora elas existam, pelo menos na legislação de regência. A dispensa para os empregados é a regra, o eventual pagamento, a exceção; muito rara, diga-se de passagem.
Se, por ventura, o advogado for atuar num processo da área cível, poderá ter alguma dificuldade em interpretar adequadamente a ordem do juiz e adotar providências descabidas. Por isso a necessidade de especialização.
Procura-se, pois, elucidar aqui o significado pontual, e mais comum, da palavra preparo contextualmente inserida no despacho acima, que apesar de compor despacho aparentemente simples pode acarretar graves consequências, caso não seja devidamente interpretada e traduzida subliminarmente.
Quando o juiz determina, por meio de despacho, que o processo deva seguir ao preparo, estará ordenando que as custas judiciais devem ser quitadas. Reiterando-se, preparar um processo significa pagar as custas devidas. Surge, todavia, um questionamento: A que se devem estas custas?
De fato, as taxas podem remeter a diversos referentes: (i) custas iniciais (ii) intermediárias ou; (iii) finais. Podem referir-se ainda a custas relacionadas com diligências de oficiais de justiça, honorários periciais, custas de publicação de editais, custas cartorárias ou custas recursais.
Os oficiais de justiça, por exemplo, têm como uma de suas atribuições a de promover as comunicações externas às partes envolvidas, ou a terceiros, também envolvidos no processo (e.g. testemunhas, informantes). Assim, o oficial de justiça precisará se dirigir à residência ou local de trabalho, ou outro local qualquer indicado, onde entregará ao destinatário um documento judicial, de natureza diversa. Pode se tratar de citação, intimação, notificação, ou
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mandado. Poderá também proceder à penhora de bens, avaliação, realização de laudo de constatação, efetuar cumprimento efetivo do mandamento judicial relacionado com a busca e apreensão de bens que estejam em posse de alguém, ou executar outras ações determinadas pelo juiz. Em todas as suas providências, o oficial de justiça precisará se deslocar de ônibus ou com seu veículo próprio para adotar as providências determinadas pelo juiz, sendo sua presença física indispensável. Os gastos despendidos pelo oficial de justiça para cumprimento de alguma demanda deverão ser suportados pela parte que as requereu.O artigo 19, do Código de Processo Civil determina as situações em que devem ser pagas as custas dos processos.
Art. 19. Salvo as disposições concernentes à justiça gratuita, cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo, antecipando-lhes o pagamento desde o início até sentença final; e bem ainda, na execução, até a plena satisfação do direito declarado pela sentença.
§ 1o O pagamento de que trata este artigo será
feito por ocasião de cada ato processual.
§ 2o Compete ao autor adiantar as despesas
relativas a atos, cuja realização o juiz determinar de ofício ou a requerimento do Ministério Público. (Novo CPC).
Se as custas referentes às diligências não forem devidamente quitadas o oficial de justiça não as realizará e assim a parte que requereu aquelas providências ficará desprovido dos supostos benefícios que aquelas ações deveriam ensejar. O não pagamento poderá, igualmente, gerar retardamento na tramitação dos processos, com evidentes prejuízos às partes envolvidas.
Os retardamentos ocorreriam pelo fato de o juiz poder se manifestar novamente nos autos, por meio de despacho judicial determinando nova intimação para que a parte interessada providencie o pagamento de forma que o oficial de justiça possa cumprir a determinação judicial. A eventual repetição de intimação não representa
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a regra; mas a exceção, posto que, comumente, a perda do prazo para preparo de um processo provoca sua extinção e arquivamento em relação ao autor ou a sucumbência, em relação ao réu.Percebe-se, assim, as reclamações da sociedade em relação ao fato do poder judiciário brasileiro estar acometido de inexplicável morosidade pode não ser atribuída apenas à burocracia jurisdicional, mas também em função dos procedimentos exercidos pelas partes, muitas vezes de forma omissiva ou comissiva, justamente quando deixam de adotar providências ordenadas por juízes por falta de entendimento do significado dos despachos, ou por desleixo explícito.
Não é incomum que despachos sejam publicados diversas vezes até serem cumpridos por quem de direito. Nestes casos, o juiz pode até mesmo determinar a intimação pessoal da parte que tem a obrigação de fazer o preparo do processo. Isto é mais comum no pagamento das custas finais, quando o processo já foi concluído e a parte deixou de adimplir com suas obrigações processuais finais.
Por outra vertente, existem situações em que o descumprimento do despacho que apontamos no despacho examinado, a saber: ao preparo, pode ocasionar dano irreparável à parte que tinha o dever de providenciar tal pagamento. Tal situação poderá ocorrer nos casos em que a lei determinar prazo improrrogável para o pagamento.
A previsão legal para esta situação encontra-se no artigo 511 do Código de Processo Civil.
Art. 511. No ato de interposição do recurso, o recorrente comprovará, quando exigido pela legislação pertinente, o respectivo preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, sob pena de deserção. (Redação dada pela Lei nº 9.756, de 1998)
§ 1o São dispensados de preparo os recursos
interpostos pelo Ministério Público, pela União, pelos Estados e Municípios e respectivas autarquias, e pelos que gozam de isenção legal. (Parágrafo único renumerado pela Lei nº 9.756, de 1998)
§ 2o A insuficiência no valor do preparo implicará