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3. Os estudos da tradução

3.1. O tradutor e o intérprete de textos jurídicos

Entre as ações prementes em prol do processamento de textos jurídicos, encontra-se a necessidade de investimentos na própria formação do tradutor especializado. As especializações e os estudos pós-superiores voltados à formação de tradutores, notadamente especialistas em textos jurídicos, parecem ainda serem tímidas, em se considerando as imensas proporções da atividade nos mais diversos setores da sociedade. Seria em vão tentar elencar os domínios nos quais a formação especializada de tradutores para a área jurídica se faz presente, pois em geral trata-se, num primeiro momento, de se buscar trabalhar a questão em grau guarda-chuva, ou seja: formações gerais que se especificam a posteriori através de interesses pontuais e empenhos individualizados.

Atualmente, grande parte dos estudos em tradução, em grau de mestrado e doutorado, se desenvolvem a partir de temas originais, quase sempre inexplorados, tendo em vista o grande leque de temas ainda em aberto, ou seja, a serem abordados pela primeira vez. Aliás, a interdisciplinaridade e a multidisciplinaridade inerentes aos Estudos da Interpretação e da Tradução levam a projetar as possibilidades por meio de cálculos geométricos diante de tantos desdobramentos possíveis. Muitos trabalhos, como o presente, permitem comparar seus autores (i.e. pesquisadores) a espécies de exploradores, tendo em vista a grande carência de trabalhos correlatos e o universo incógnito que se apresenta no horizonte que apresenta à Área.

Nas academias, grande número de pesquisas em Estudos da Tradução vêm sendo realizadas à ótica de modelos herdados dos estudos literários, linguísticos, filosóficos, sociológicos e antropológicos. Nos últimos vinte anos, todavia, observa-se forte tendência e interesse pela elaboração de bases método-epistemológicas próprias aos Estudos da

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Tradução, com vistas a gerar suportes adequados, bem como respostas a indagações deste campo específico. Os esforços no sentido de instaurar novos cursos de pós-graduação, núcleos de estudos, centros de pesquisas, revistas especializadas, contribuem para gerar recursos teóricos especificamente voltados aos Estudos da Tradução enquanto disciplina. A tradução firma-se, cada vez mais, como artéria central nas atividades que envolvem trocas entre códigos, deixando de ser acessório para tornar-se meio privilegiado.

Permanece, no entanto, uma grande lacuna em relação ao efetivo estabelecimento dos elos essenciais e prementes entre as pesquisas realizadas nas academias e a formação do professor do ensino fundamental e médio. Seria importante semear ideias científicas de base a respeito dos processos subjacentes aos diálogos entre códigos desde a formação básica. Em outras palavras, que o que se faz aqui, no escopo acadêmico, possa refletir nas práticas sociais, entre elas, nas escolas.

Trata-se de questionar o estigma criado no passado sobre a Metodologia Tradicional e sobre suas práticas anexas, desenvolvidas prioritariamente com base no método Gramática/Tradução, sobretudo como forma de viabilizar a elaboração de novos olhares sobre esses modelos que não precisam ser totalmente excluídos ou abominados, posto que podem oferecer contribuições importantes. Efetivamente, gerou-se um contrassenso, isto é, ao mesmo tempo em que as evoluções dos estudos avançados levam o meio acadêmico superior a abandonar o modelo GT; no ensino fundamental, de forma geral, a situação de seu uso continua pouco descrita e, logo, pouco conhecida. Como resultado, identificam-se duas faixas distintas em relação ao tratamento concedido à tradução em sua relação com o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras:

(i) uma visão de tradução difundida nos meios superiores. Meio em que, nos cursos de Letras constitui, por vezes, disciplina curricular;

(ii) outra visão difundida no ensino médio e fundamental, fórum em que os trabalhos realizados, sobretudo sobre o inglês, têm gerado resultados questionáveis, sobretudo na escola pública: poucos estudantes conseguem desenvolver as habilidades esperadas durante os anos que estudam inglês (cf. Bittencourt, 2012).

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No Brasil, nos últimos anos, a explosão de subcampos do conhecimento científico, cada qual com suas disciplinas específicas, aliada a consequente instauração de domínios pontualmente demarcados para a constituição dos chamados cursos de... (ciências em geral) provocou a exclusão das organizações curriculares de disciplinas que os tornavam híbridos e, por extensão, mais amplos. Foram extintas, por exemplo, de muitos cursos de Direito, ou mesmo de Letras, matérias especificamente voltadas ao estudo da língua portuguesa, do latim, do grego. Tampouco se encontram nas organizações curriculares atuais disciplinas dedicadas à retórica, ao canto, à técnica vocal, à teoria musical, à arte (pintura e desenho), ao teatro ou mesmo à expressão corporal. Seria redundante enumerar os pontos positivos em relação às correlações práticas, críticas e teóricas que poderiam ser desenvolvidos no âmbito dessas disciplinas. Analogicamente, o trabalho com tradução, apesar de todas as críticas que se possa fazer, seguiu trajeto similar e somente muito recentemente, como já mencionado, a tradução foi retomada com vigor nos mais diversos campos do conhecimento, paralelamente ao valor devido ao trabalho dos intérpretes e dos tradutores enquanto profissionais de carreira.

Sem o objetivo de estabelecer hierarquias ou ordens de importância, podemos afirmar que a tradução pode promover, entre outros:

 exercícios exegéticos de análise do texto para o desenvolvimento do pensamento filosófico (sobre a obra de um autor, sobre um período de produção);  aperfeiçoamento da precisão e da clareza na expressão,

ao mesmo tempo em L1, L2 ou LE;

 ampliação da cultura e acesso a informações específicas, conduzindo à elaboração de conhecimentos plurais indispensáveis à interpretação e à tradução;  desenvolvimento do senso estético e criação de olhar

apreciativo para outras linguagens;

 estabelecimento de relações mais próximas entre arte e ciência: cinema e literatura, pintura e filosofia, gerando a convergência necessária entre saberes para a composição e aperfeiçoamento da própria competência do tradutor.

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 exercícios hermenêuticos para o tratamento de textos sensíveis, não somente de cunho religioso ou de caráter sexual, mas também em relação a documentos circunscritos por segredo de justiça (caso dos textos jurídicos).

Tendo em vista o universo de questões implicadas nos Estudos da Tradução, enquanto disciplina, os profissionais da área deparam-se, a cada dia, com novos questionamentos. Procura-se, abaixo, levantar alguns pontos de discussão, como por exemplo:

(1) Seria razoável propor a prática da tradução entre estudantes considerados não-proficientes em leitura e composição textual na sua língua materna? Retrocedendo a este questionamento e rebatendo a pergunta, podemos questionar: o que se entende por tradução nesse contexto? A paráfrase poderia ser considerada como tradução na perspectiva da recriação, posto que toma como fonte L1 e como alvo também L1? Tal questionamento se aplicaria ao profissional do Direito, ao buscar clarificar textos aplicando variações sobre o grau de língua?

(2) Pressupõe-se que a tradução é uma atividade essencialmente bilíngue. Seria coerente trabalhar a tradução com estudantes julgados monolíngues ou em graus iniciais de interlíngua? Esse exercício poderia promover a perda das poucas referências que os estudantes debutantes possuem de uma outra língua? Isto se aplicaria também à tradução intralinguística, gerando conflito nas concepções do estudante em relação tanto às diversas modalidades existentes em uma mesma língua, bem como aos seus vários níveis?

(3) Podemos nos perguntar também se o domínio apurado da língua materna se torna condição incontornável para que o estudante se lance nos estudos da tradução, patamar a partir do qual ele se lançaria em outras atividades, tal como a prática e a crítica da tradução.

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(4) A partir de qual grau de interlíngua seria razoável expor o estudante aos meandros teórios e críticos trabalhados nos Estudos da Tradução, ou mesmo à prática e reflexão sobre a tradução de textos diversos, sejam eles literários ou científicos (leia-se aqui: da esfera jurídica)?

Não se trata de buscar respostas exatas e suficientes, mas de levantar discussões, pois não podemos supor que todos os profissionais do Direito estejam aptos a clarificar o conteúdo de textos de base da área a partir da variação do nível de língua. Parece-nos necessário, antes de se lançar em tal atividade, o desenvolvimento de conhecimentos aprofundados sobre pontos teóricos que envolvem a questão, sobretudo no que concerne à preparação desde os níveis iniciais da formação do indivíduo. Por tal razão, se procedeu aqui a breves alusões ao contexto escolar.