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2. Suportes teóricos

2.6. Mas do que se está a falar exatamente quando

No âmbito desta pesquisa, lembramos o conceito de Hans Kelsen (2000), que define a interpretação como um processo mental. De fato, trata-se em primeira instância de conjuntos de operações cognitivas realizadas no sentido de ativar e reunir o máximo de informações julgadas necessárias à reexpressão do conteúdo apreendido, daquilo que

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se deseja transportar, definindo assim, através de um processo de construção, um produto destinado a determinado público.

Kelsen destaca que a aplicação do Direito exige envolvimento mental para que, pelo menos, os aspectos gerais e genéricos dos textos legais sejam conduzidos ao aspecto específico focado. Aliás, o intérprete, o tradutor, o estudioso ou o aplicador dos textos legais costuma frequentar esta via de mão dupla, que migra do entendimento geral para o uso específico daquele mandamento legal, no caso particular, para enquadrá-lo; assim como em sentido inverso, ou seja, partindo da situação fática para encontrar um ou vários mandamentos legais que o alberguem.

O mesmo entendimento é esposado por Caio Mário da Silva Pereira (1999), alertando, ainda, que o processo mental de interpretação implica na pesquisa de seu conteúdo real, não somente em relação à forma do comando legal contemporâneo à criação da lei, como também nas demais situações que venham a ser desenvolvidas a partir da evolução das atividades humanas; muito embora inexistentes à época da sua criação.

Pereira (1999), na mesma obra, ainda indica a importância da pesquisa da vontade legal, conceituada como vontade do legislador originário, que deve balizar sua interpretação, no entanto, sem deixar de valorizar as pertinências que o intérprete enxerga relativamente à lei em qualquer tempo, mesmo que tenham se passado anos, décadas ou séculos. A essência do espírito da lei, que conduz o direito no rumo evolutivo, e diacronicamente, permite que o texto jurídico possa se atualizar no contexto social em que esteja inserido, permitindo conservar, vivificar e atualizar institutos antigos, que se mantém e se cristalizam em função do entendimento moderno de seus termos.

Tudo isto pode ser bem compreendido pela atuação frequente e intensa da hermenêutica jurídica, ciência da interpretação dos textos legais, conforme consta no dicionário jurídico de Neves (1992), intitulado: Vocabulário Prático de Tecnologia Jurídica e de Brocardos Latinos: “conjunto sistemático de regras que ensinam a conhecer o sentido e o alcance das normas jurídicas. Diz-se, ainda, da arte de interpretar as leis jurídicas e a origem do direito”.

Pode-se ver a hermenêutica jurídica em plena ação quando textos legais antigos, como o Código Comercial brasileiro, publicado em 1850, permanecem vigentes até os dias atuais. Para Pereira (1999), nem mesmo a complexidade do comércio nos dias atuais, que se estende por

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todos os cantos do globo, alcançando mesmo o universo virtual da informática, impede a aplicação dos preceitos legais existentes no Código Comercial Brasileiro. Entende-se, pois, desnecessário lembrar que todas as formas de comércio mudaram radicalmente na sua vigência.

O Código Napoleônico de 1804, que influenciou a construção de diversos outros códigos no mundo, assim como a Constituição dos Estados Unidos da América, de 1787, continuam tão vivos quanto na época de suas publicações. O esforço hermenêutico na área do Direito configura-se como atividade imensa e intensa, de forma que o intérprete possa dispor de dispositivos e ancoragens suficientes a ponto de lhe permitir enxergar o espírito da lei. Tal processo não é evidente, tampouco é percorrido pelo cidadão comum que não esteja envolvido com o referido campo.

Os mecanismos cognitivos de percepção não conduzem necessariamente à compreensão, tampouco à representação e/ou à reexpressão de algo que não seja familiar ao leitor. A compreensão deverá partir de algo previamente conhecido. Neste sentido, seria possível supor a necessidade de se interpretar um texto em uma língua X, partindo-se da transposição de obstáculos que não possam ser facilmente vencidos por usuários desta mesma língua X. Tal suposição pode se revelar verdadeira, tendo em vista que os níveis de língua, os jargões, as línguas de especialidade, são modalidades de uma mesma língua que podem apresentar características peculiares que as tornam de difícil acesso àqueles que não estejam familiarizados com tais tendências. Neste sentido, determinados termos, expressões e frases específicos à esfera jurídica poderão compor textos cujo acesso exigirá interpretação e reescritura de modo que venham a se tornar compreensíveis para leitores não especializados.

No caso dos textos jurídicos, naturalmente não se trata somente de nível de língua, de emprego de terminologias específicas, de usos sintáticos, ou de referências a códigos e leis camufladas por siglas e números. Trata-se, com efeito, e também, da integração de todos estes recursos em um gênero discursivo que se aliará ao estilo do legislador. Mais que isso, seria possível ainda falar em subgêneros na área do Direito. Por exemplo, o discurso do tribunal do júri não seria exatamente similar a um discurso de uma audiência relacionada com direito de família, ou o discurso presente num título de propriedade de um bem imóvel. Logo, apesar de serem todos, em seu conjunto geral,

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classificados como “jurídicos”, os subgêneros podem diferir sobremaneira no âmbito de uma mesma área. O emprego de um hiperônimo – espécie de guarda-chuva – como em qualquer outro domínio, possui características plurais que aceitariam ser estratificadas hiponimicamente, isto é, se conformariam a categorizações que sugeririam subgêneros talvez ainda desconhecidos. O mesmo se poderia aplicar ao Jornalismo, à Medicina, à Física, entre outros campos.

Alguns subgêneros da área jurídica podem colocar o indivíduo comum em situação bastante delicada no que concerne à interpretação de seu conteúdo, ou seja, tanto a significação de unidades isoladas, quanto o conjunto interpretativo podem adquirir significados muito diferentes dependendo do contexto em que estiverem inseridos. A partir desse fato, surge a necessidade das especializações concernentes às atividades de interpretação e tradução.

Não basta ser bacharel em Direito, ou mesmo advogado, para entender e interpretar adequadamente todos os meandros da linguagem adotada em sentenças, pareceres, acórdãos, petições, produzidos nas mais diversas áreas do Direito, é preciso especialização. Ao tradutor, tal relação também se aplicaria.

A título de exemplo, em relação aos fatos acima discutidos, observa-se que em alguns tipos de processos (e.g. cível) existe um autor e um réu. O primeiro representa a parte ativa da lide, que busca o seu direito. O segundo, a parte passiva, que se contrapõe aos pedidos do primeiro. Isto é básico! No entanto, quando temos contato com um processo penal, é muito frequente chamar o réu, ou seja, aquele que está sendo acusado de um crime, de autor dos fatos. Para o leitor desavisado, como já discutido acima, será difícil identificar se o suposto contraventor é o réu ou autor comprovado. Na Inicial, ou seja, antes da tramitação que culminará no Trânsito em Julgado com a sentenciação definitiva, a dúvida persistirá. Outrossim, para aquele que é acusado, ou para o leigo que não domina a terminologia, tal atribuição poderá gerar efeitos extremamente nefastos, execratórios e desconfortáveis.

Percebe-se que a perfeita identificação e interpretação do sentido da lei, bem como a identificação das cenas que a envolvem e o papel de seus atores, precisa ser avaliada à ótica de todas as modalidades semióticas que a permeiam, ou seja: linguagem expressiva oral, corporal, emocional, visual, tal como acontece nas audiências, onde as partes ficam frente a frente, onde defensores e acusadores assumem seus papeis. De forma similar, nos julgamentos no tribunal do

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júri, nos embates entre o advogado e o promotor perante a figura do juiz da causa e do conselho de sentença, formado também por leigos do povo, atuando nas decisões que refletirão sobre o futuro do indivíduo acusado.

Se, por um lado, as percepções experimentadas através dos sentidos humanos constitui um dos princípios para a sobrevivência do ser humano, a percepção do abstrato, do não-dito, do oculto, do indeterminado, e mais gravemente: o discernimento que permite desambiguizar, compreender fenômenos linguísticos, efeitos metafóricos, metonímicos, humorísticos, etc., constitui operação não inata, ou seja, trata-se de habilidades de processamento da língua que precisa ser desenvolvida através de exercícios realizados nas/sobre as línguas(gens) – em sentido amplo, mais especificamente com a(s) língua(s) vernacular(es) e estrangeira em suas diversas expressões possíveis – oral, escrita, gesticulada, sinalizada. Neste sentido, a tarefa de interpretar se estende além do ato de ler e entender as palavras de um texto, principalmente quando se trata de textos de especialidades pouco tratadas no cotidiano e em seus graus mais profundos.