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A perícia no crime de lesão corporal grave

As lesões corporais graves são caracterizadas pelo art. 129, § 1º, do Código

Penal, que orienta:

Art. 129 - Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano.

Lesão corporal de natureza grave § 1º - Se resulta:

I - incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 (trinta) dias;

II - perigo de vida;

III - debilidade permanente de membro, sentido ou função; IV - aceleração de parto:

Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos. (Vade Mecum, 2008, p. 530)

Ou seja, segundo Maranhão (2004, p. 277):

Para que uma dada lesão seja considerada grave é preciso que a ofensa (A) se acompanhe de consequências mencionadas no §1º do art. 129 do CP (B). Não é preciso a presença de todos os elementos mencionados ali; basta um deste grupo (B). Contudo, não pode estar presente nenhum dos mencionados no §2º (C).

Na primeira característica, tem-se a incapacidade para as ocupações habituais

por mais de 30 dias. Estas ocupações habituais se encaixam em falta de condições para

realizar atividades diárias, habituais. Segundo Mendes Cardoso (2009, p.39):

Por esta incapacidade deve-se entender a falta de condições para o exercício dos atos diários. Aí se encontram, também, as atividades profissionais e lucrativas, além daquilo que se faz corriqueiramente. Caso a lei não contemplasse dessa forma, não se puniriam aqueles que atentassem contra a vida dos incapazes e desocupados de toda espécie. Assim sendo, o termo da redação é inegavelmente genérico. Quanto ao tempo estabelecido, a análise pericial é que deverá estipulá-lo, reavaliando-se, se preciso for, a vítima após o fim de um mês da ocorrência do fato. Este exame será dito complementar.

Mais completa a exposição de Croce (2009, p.116):

Incapacidade é falta de habilidade, de aptidão; é a inabilitação. A lei não exige falta de capacidade absoluta, bastando apenas que a lesão caracterize não-impossibilidade, mas perigo ou imprudência no exercício das ocupações habituais, por mais de 30 dias. As ocupações habituais a que se refere o art. 129, §1º, I, do Código Penal, não têm sentido de trabalho diário, nem são aquelas de natureza lucrativa. São todas e quaisquer atividades corporais comuns. [...] Ocupações habituais da previsão legal incluem toda manifestação de diligencia lícita, física ou mental. Para avaliar o tempo de duração da incapacidade, os expertos reexaminarão a vítima, se não for revel, “logo que decorra o prazo de 30 (trinta) dias, contado da data do crime”, conforme estatui o art. 168, §2º, do Código de Processo Penal. É o exame complementar a que se submete uma segunda vez a vítima, um mês após, contado da data do fato delituoso e não do correspondente auto de corpo de delito, objetivando verificar se a incapacidade excede o trintídio.

A segunda característica é o perigo de vida, este deve haver a probabilidade

concreta de morte e não apenas um risco, uma hipótese. Segundo Mendes Cardoso

(2009, p. 40), é preciso diferenciar o perigo e risco:

O primeiro se traduz por algo concreto, mesmo que momentâneo, decorrente do processo consequente à ofensa, não ultrapassados 30 dias do fato; o segundo diz respeito a algo que leve a uma possibilidade de que a vida possa vir a correr tal perigo. Veja que se trata de algo no plano hipotético.

Trata-se, aqui, de decorrência direta da ofensa à integridade corporal, já provada (não confundir com expectativa de risco, como ocorre em certas eventualidades). Contudo, não se fará “prognóstico”, ou seja, não se aceitará que “poderá” ocorrer perigo de vida. É, antes, uma comprovação de que realmente ocorreu iminência de morte, em consequência da lesão corporal. Logo, trata- se de “diagnóstico” e com caráter retrospectivo. É claro que o perito se servirá dos informes hospitalares, da descrição de operações ou esclarecimentos do pronto-socorro. Esta iminência de morte pode ser imediata (ao tempo da lesão) ou posterior, até que se verifique completo restabelecimento da vítima: so se exige presença do nexo causal.

E, Croce (2009, p. 118), dá bons exemplos:

À autoridade interessa saber se há ou se houve perigo de vida, o que é diagnóstico, expressado através de dados objetivos, como, por exemplo, temperatura corporal, pulsação, pressão arterial, volume hemorrágico, anemia aguda implantada, toxemia pronunciada, estado de coma e outros fatores significativos desse estado periclitante, e não se haverá, o que é prognóstico, visto estar este sujeito a erros.

No que tange a debilidade permanente de membro, sentido ou função, como

terceira característica de lesão corporal grave, esta é dita por Croce (2009, p. 120),

como sendo “a fraqueza, a diminuição de forças, enfraquecimento, embotamento,

debilitação. A debilidade pode ser consequência de dano anatômico (amputação de

dedo), ou funcional (paralisia por seção nervosa).” A debilidade permanente também é

explicada por Mendes Cardoso (2009, p. 40):

Por membros entendem-se os quatro apêndices do tronco humano; por sentidos temos o olfato, a visão, o tato, a audição e o paladar; por função ficam subentendidas as atividades fisiológicas importantes de um órgão, aparelho ou sistema como a locomoção, a digestão, a micção, a potência sexual, etc. Já por debilidade, devemos entender a diminuição de força, ou seja, o enfraquecimento em si. Como o próprio enunciado diz, tudo isto de forma perene. Em relação à perda de um órgão duplo – um dos olhos, uma das audições, um dos rins, por exemplo-, tal fato se constitui em debilidade permanente e não, perda.

E, por último, tem-se a aceleração de parto, que segundo Maranhão (2004, p.

278) “trata-se de expulsão de feto vivo em consequência de ofensa à integridade física

da gestante.” E na exposição de Mendes Cardoso (2009, p. 41):

Trata-se da antecipação da data prevista para o nascimento. É, portanto, referencia a processos e atitudes que afetem a estabilidade gestacional, induzindo contrações uterinas antes do período fisiologicamente previsto. A fim de diferenciar juridicamente tal condição do aborto, ressalta-se que o produto da concepção (concepto) deverá vir ao mundo vivo e em condições de sobrevivência extra-uterina. Traumas mecânicos, físicos, químicos ou até mesmo psíquicos, podem induzir tal acontecimento. Caso o concepto venha a óbito após algum tempo decorrido deste tipo de parto prematuro, o agressor responderá por crime culposo juntamente com a lesão grave. Caso nasça inviável ou já morto, tal agressor responderá por aborto, sendo esta uma lesão gravíssima. Desconhecendo o agressor a condição de gestação da vítima, não responderá por fato qualificado, mas apenas ao que diz respeito o caput do art. 129 do CP.

Seguindo a observação de Croce (2009, p. 125):

Se, em consequência das lesões sofridas pela mãe ofendida e pelo neonato, este viável vier a morrer posteriormente ao parto, o agressor responderá por homicídio culposo em concurso material com a lesão grave. Será também homicídio a morte posterior à expulsão do concepto em consequência de fatores independentes de manobras aceleradoras do parto (ou abortivos), exempli gratia a ação ou a omissão voluntária do agente.

Ainda, os quesitos na área penal já vêm designados e neste caso específico, as

perguntas, conforme Gomes (2004, p. 41), serão:

Primeiro – Se há ofensa à integridade corporal ou à saúde do paciente; Segundo – Qual o instrumento ou meio que produziu a ofensa; Terceiro – Se foi produzida por meio de veneno, fogo, explosivo, asfixia ou tortura, ou por outro meio insidioso ou cruel (resposta especificada); Quarto – Se resultou incapacidade para as ocupações habituais por mais de 30 dias; Quinto – Se resultou perigo de vida; Sexto – Se resultou debilidade permanente ou perda ou inutilização de membro, sentido ou função (resposta especificada); Sétimo – Se resultou incapacidade permanente para o trabalho, ou

enfermidade incurável, ou deformidade permanente (resposta especificada); Oitavo – Se resultou aceleração de parto ou aborto (resposta especificada).

Após analisada a perícia em relação ao Direito Penal, no próximo item

será feito um estudo de perícia no Direito do Trabalho, a que ocorre em caso de

acidente de trabalho.

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