A pesquisa a respeito da merenda escolar teve origem no esforço de integrar trajetórias de investigação realizadas por minha orientadora e por mim. Minha trajetória de pesquisa tem um lugar comum: a educação e, consequentemente, a escola. E é esse o lugar do coração desse trabalho, onde se levanta as questões aqui trazidas, que como fruto de minha vinculação ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, busca trazer uma reflexão acerca desta instituição. Procuro pensar a respeito da escola em perspectiva com as políticas voltadas para ela, ou seja, as práticas educativas em processo, como resultado das práticas sociais, bem como as normas estabelecidas para o seu funcionamento. Tudo isso por uma abordagem qualitativa.
O tema “merenda escolar” apresenta-se como um desafio, pois, apesar da dimensão que ocupa, poucas são as pesquisas/reflexões que extrapolam abordagens convencionais em torno dos saberes biomédicos. Esta constatação, de fato, promove a seguinte reflexão: este silêncio – ao cuidado cotidiano de milhares de crianças brasileiras e portuguesas numa instituição que cada vez mais alarga seu papel no processo de socialização – não se deveria à própria naturalização das práticas alimentares?
A preocupação no que se refere à seleção das escolas para participar da pesquisa se deu por meio de horas e dias observando o censo escolar e refletindo a respeito de uma estratégia. Foi então que, contando para uma amiga a respeito do meu Projeto de Doutorado, recebi um convite para ir até a escola na qual ela trabalha como supervisora. Aceitei o convite e o primeiro passo foi dado. Mas e as outras escolas?
De posse das dimensões e da estrutura de uma pesquisa de doutorado foram elencados os critérios para a definição das escolas: município, densidade demográfica, redes de ensino. Já tendo iniciado o trabalho de campo na escola selecionada no processo de busca virtual de fontes de referências bibliográfica para esse trabalho foi identificada a pesquisa “Entre a Escola e a Família: conhecimentos
e práticas alimentares das crianças em idade escolar” financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/CS-SOC/111214/2009). Este relatório foi realizado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa sob a responsabilidade da Professora Doutora Mónica Truninger. Tal pesquisa realizada em Portugal foi uma descoberta importante, pois além de pertencer à área das Ciências Sociais, parte de concepções semelhantes a que buscamos, como pôde ser visto nos textos publicados pelo grupo de pesquisadores envolvidos. Desse modo, submetemos a proposta de realização de Doutorado Sanduíche na Universidade de Lisboa, sendo executado ao longo do ano de 2015.
Para que o intercâmbio fosse realizado, era preciso adiantar a pesquisa no Brasil. Desse modo, a vivência nessa primeira escola e suas características levaram à escolha de uma segunda escola que se diferenciasse dela, mas que por questões estruturais fosse no mesmo município. Essa escolha representou um cuidado metodológico em se conhecer diferentes perspectivas da alimentação no ambiente escolar. Assim, uma segunda escola foi definida, pertencendo a uma instância gestora diferente, ou seja, enquanto a primeira escola é estadual, a segunda é municipal, outras características que as diferenciam refere-se ao número de alunos, já que na segunda escola era menor, consequentemente seu ambiente físico era bastante diverso em relação ao da primeira, além de apresentarem localidades diferentes: uma pertencente à área central e outra a um bairro. Para fins de identificação, optou-se por denominar as escolas nesta pesquisa de acordo com a rede de ensino: Escola Estadual de Juiz de Fora (EEJF) e Escola Municipal de Juiz de Fora (EMJF).
A escolha das escolas foi feita de forma aleatória, sendo consolidada em virtude da aceitação das diretoras em participar da pesquisa. Em ambas as escolas em que o trabalho de campo foi feito, realizou-se um encontro com as responsáveis e foi apresentado o objetivo a ser alcançado. Para tanto, solicitou-se uma autorização das diretoras para que esta pesquisa fosse realizada e para que fosse liberada a frequência às instituições. O período de pesquisa de campo nas escolas aconteceu durante o ano letivo de 2014, com visitas semanais abrangendo tanto o turno da manhã quanto o da tarde. Essas visitas aconteciam duas vezes por semana em cada escola, porém não homogeneamente, ou seja, não foram feitas o mesmo
número de visitas em cada turno.
O ano de 2015 estava designado para a realização do mesmo trabalho de campo em Lisboa, Portugal. No entanto, em virtude de questões burocráticas que envolviam a realização da pesquisa nas escolas, como a emissão de autorização necessária pelos setores responsáveis, não foi possível executar as visitas às escolas. Com o auxílio da orientadora portuguesa, que disponibilizou o material já coletado pela pesquisa na qual era coordenadora, deu-se andamento a investigação no intuito de superar o contratempo mencionado. Nesse sentido, foi possível ter acesso aos cinco relatórios da pesquisa, sendo que destes, apenas o primeiro está disponível para acesso ao público. Os relatórios foram a principal fonte de dados referente a Portugal para esse trabalho. Desse modo, em um universo de oito escolas que fizeram parte da investigação no território português, duas escolas foram selecionadas para compor a pesquisa.
Assim como no Brasil, as duas escolas portuguesas em que o trabalho de campo foi realizado, estavam situadas no mesmo município. Além disso, adotou-se como critério a seleção de escolas da mesma cidade, a saber: Lisboa, para a apresentação dos dados. A primeira escola atende ao primeiro ciclo do ensino básico (6 a 10 anos) e outra contempla o segundo ciclo (10 aos 12 anos). É importante destacar ainda que a opção por manter a pesquisa em Lisboa deveu-se às características demográficas mais compatíveis com as de Juiz de Fora, em contraste com os demais municípios que tiveram escolas investigadas em Portugal.
Diante das informações expostas nesta subseção, faz-se necessário ressaltar que os dados acessados a respeito das escolas brasileiras foram coletados pela autora, durante pesquisas de campo ao longo do ano de 2014. Enquanto que os dados das escolas portuguesas estão inseridos no 3º Relatório de pesquisa denominado “Conhecimentos e práticas alimentares das crianças em idade escolar em duas escolas de Lisboa”, produzido por Mónica Truninger, Ana Santana, Vanessa Amorim, Ana Horta e José Teixeira8.
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O relatório de pesquisa mencionado não consta nas referências bibliográfica, pois ainda não foi publicado.