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DA DISCIPLINA ÀS RELAÇÕES DE PODER E SABER

No documento helenacardosoribeiro (páginas 106-118)

escola, atender a um sistema de castigos e privilégios pode ter significado semelhante, já que ao cumprir todas as exigências dessa instituição, ou seja, avançar nas etapas constitutivas do sistema hierárquico de progressão, leva ao fim da permanência institucional.

Ademais, a máxima colocada por Goffman quanto às instituições totais aplica- se à instituição escolar: o que se conserva da vida institucional e diz muito a respeito dela, é que a posição no mundo externo nunca mais será a mesma.

2.2 DA DISCIPLINA ÀS RELAÇÕES DE PODER E SABER

Em sua obra Vigiar e Punir, Foucault (1987) apresenta como objetivo fazer a história da alma moderna e de um novo poder de julgar. Ele afirma que não se trata de uma mudança quanto à justiça e aos direitos ao abordar o sistema punitivo, mas de uma mudança na sociedade, nos mecanismos de poder que a sustenta e, principalmente, da incidência disso sobre o sujeito.

Se num primeiro momento, o evidente é a mudança no sistema de punição, na transformação ocorrida na ideia de justiça e nos mecanismos para sua efetivação, é indiscutível que o que Foucault busca com o seu trabalho é mostrar as mudanças ocorridas, concomitantemente, em diversas instituições e que fizeram surgir outras delas. Se levarmos em conta que as instituições são reflexo da sociedade onde estão inseridas, vemos também um caminho de mão dupla, no qual as instituições se transformam para se enquadrarem em uma nova forma social, política e econômica; ao mesmo tempo que dão embasamento para a consolidação dessas formas.

Destacamos, então, no processo histórico desenhado por Foucault, alguns pontos como a punição sendo algo com uma função social mais complexa, que desenvolve novas técnicas, traduzindo-se em uma tática política. Além disso, a constituição do sujeito moderno, somada à construção de um saber científico sobre o homem, traz uma mudança na maneira como o corpo é investido pelas relações de poder. Esses dois pontos interagem em um mesmo caminho: o de uma nova

organização/ordenação do mundo social.

Temos, no final do século XVIII, três táticas de poder. Aquela relacionada ao direito monárquico em que a punição é um cerimonial de soberania, abarcando rituais de vingança – o corpo supliciado e os espectadores presentes. E outros dois que se referem a uma “concepção preventiva, utilitária corretiva de um direito de punir que pertenceria à sociedade inteira; mas muito diferentes entre si ao nível dos dispositivos que esboçam” (FOUCAULT, 1987, p. 115). Uma que tem no projeto dos juízes reformadores seus desígnios, na qual a punição se justifica como um método cujo objetivo é requalificar os indivíduos como sujeitos de direito, utilizando-se de sinais, códigos, representações e universalidade. E por fim, um projeto de instituição carcerária em que a punição é realizada a partir de uma técnica de coerção dos indivíduos por meio do treinamento do corpo. Este treinamento deixa traços mediante hábitos e comportamentos e um aparelho administrativo cuja função é gerir a pena. Todas essas são formas de se colocar em exercício o poder de punir, são tecnologias de poder distintas, dentre as quais uma se sobressai e se impõe: a da instituição carcerária. Foucault, então, questiona

Como o modelo coercitivo, corporal, solitário, secreto do poder de punir, substitui o modelo representativo, cênico, significante, público, coletivo? Por que o exercício físico da punição (e que não é o suplício) substitui, com a prisão que é seu suporte institucional, o jogo social dos sinais de castigo, e da festa bastarda que os fazia circular? (FOUCAULT, 1987, p. 118).

Para Foucault (1987), são os mecanismos disciplinares que levam à mutação do regime punitivo no limiar da época contemporânea. Nesse sentido, é importante entender a concepção trazida por Foucault no estudo dos sistemas punitivos como revelador do desenvolvimento e transformações das técnicas de poder. No século XVIII, essas técnicas se cruzam com um processo de saber que se materializa na busca por “organizar o múltiplo, de se obter instrumentos para percorrê-lo e dominá- lo; trata-se de lhe impor uma ordem” (FOUCAULT, 1987, p.135). A punição, com o intuito de manter a ordem e combater a desordem, não se restringe aos castigos quanto aos criminosos. A ordem é mantida por meio de diversas instituições que se solidificam com a modernidade: os hospitais, as fábricas e as escolas, por exemplo. Assim, a disciplina é um mecanismo que tem como uma de suas primeiras

operações a formação de “quadros vivos” que visam transformar “multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas” (FOUCAULT, 1987, p. 135).

Ser uma multiplicidade organizada implica em pensar acerca da sociedade como um todo e cada indivíduo presente nela. Assim, é necessário fazer com que os indivíduos sejam úteis em um novo panorama econômico, político e social; e para que sejam úteis nesse cenário, é preciso também que sejam dóceis. Os métodos que serão capazes de prover o controle minucioso do corpo, que sujeitam as forças e que impõem a relação utilidade-docilidade, são o que Foucault (1987) chama de disciplinas. O momento histórico das disciplinas é o mesmo em que nasce uma arte do corpo, mesma arte que incide sobre a punição e o sistema carcerário. Seu objetivo é formar um mecanismo de relação mútua entre obediência e utilidade. O resultado é uma política das coerções, baseada no cálculo de cada elemento do corpo, de seus gestos, de seus comportamentos: uma “anatomia política”, uma “mecânica do poder”. A disciplina, então, fabrica os corpos dóceis; aumentando suas forças no sentido da utilidade e, ao mesmo tempo, diminuindo-a quanto à obediência. Conforme o autor:

Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada (FOUCAULT, 1987, p. 127).

A disciplina, desse modo, apresenta-se como um grande mecanismo utilizado nas instituições modernas, instituições nas quais se adquire habilidades, comportamentos, em que o indivíduo se aperfeiçoa para se inserir na sociedade. Não é sem fundamento, como Foucault afirma, que as prisões se pareçam com as fábricas, os quartéis, os hospitais e as escolas e que todos se pareçam com as prisões.

A disciplina é uma anatomia política do detalhe, uma arte de talhar pedras, que se traduz numa história da racionalização utilitária das minucias, na contabilidade moral e no controle político. Nenhuma particularidade é indiferente e

está inscrita no cotidiano, aparecendo em todas as formas de treinamento. A educação e a escola, então, aparecem como importantes exemplos desse mecanismo de poder na obra de Foucault.

Por meio desses exemplos, neste ponto da tese, convidamos o leitor a relembrar sua experiência escolar, ou contrastar a descrição e exemplos a seguir com o que uma criança ou jovem próximo tem a dizer a respeito de sua rotina nesse estabelecimento. Assim, será possível perceber que a escola, ainda hoje, tem, em maior ou menor intensidade, as marcas da disciplina (filas, horário para comer, conversar, brincar, estudar; pedir para ir ao banheiro; etc.).

A disciplina distribui os indivíduos no espaço utilizando algumas técnicas. O encarceramento é uma delas e, nesse sentido, os colégios internos aparecem como o regime de educação mais perfeito. Os espaços são homogêneos e bem delimitados. A clausura não é constante, é mais flexível e mais fina, utiliza-se do quadriculamento – cada indivíduo no seu lugar –, o que permite saber onde e como encontrá-lo, instaurar comunicações úteis ou interrompê-las, vigiar cada um, sancionar e medir qualidades/méritos. Conhecer, dominar e utilizar a disciplina permite a organização de um espaço analítico. Essas localizações funcionais codificam espaços que antes a arquitetura deixava livre. Além disso, cada um se define pelo lugar que ocupa sendo a disciplina a arte de dispor em fila.

Quanto a isso, temos o exemplo dos colégios jesuítas, primeiramente com divisões em grupos que eram colocados em guerra e rivalidade para a realização de trabalhos, aprendizagens e classificações a partir da defrontação entre eles. A comédia romana a partir da guerra entre romanos e cartagineses era inspiração para disposição espacial: a legião com suas fileiras, hierarquia e vigilância piramidal. Era inspiração também para a ideia de liberdade, mas como um esquema ideal de disciplina. Porém, para Foucault (1987), o que havia de disciplinar nessa fábula foi superado pelos colégios jesuítas no final do século XVIII. O espaço escolar se desdobra, tornando-se homogêneo. A ordenação por fileiras efetiva-se como a grande forma de repartição dos indivíduos nesse ambiente: filas na sala, nos corredores, nos pátios; colocação por tarefas e provas com frequências semanais, mensais e anuais. Salas por idade, ordenadas por ascendência; sucessão de assuntos ensinados e questões tratados por nível de dificuldade. Assim, cada aluno,

em virtude de sua idade, seu desempenho e seu comportamento estaria destinado a ocupar um determinado lugar na fila. O aluno desloca-se por uma hierarquia do saber e das capacidades ideais e também por repartições de valores e méritos:

A organização do espaço serial foi uma das grandes modificações técnicas do ensino elementar [...]. Determinando lugares individuais, tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o espaço escolar como uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar (FOUCAULT, 1987, p. 134).

Os lugares tornam-se fixos e determinados para cada um dos alunos, além disso são regulados diante do olhar classificador do professor, podendo ser alterado apenas por consentimento de um inspetor.

As disciplinas criam, então, espaços complexos que são concomitantemente arquiteturais, funcionais e hierárquicos: fixam, circulam, marcam lugares, indicam valores, garantem obediência e também uma melhor economia do tempo e dos gestos. São espaços reais – edifício, salas, móveis –, mas também ideais – caracterizam, estimam, hierarquizam. Trata-se do que foi abordado anteriormente a respeito dos quadros vivos, da ordem. Nesse contexto, a construção de quadros ordenados numa repartição disciplinar como a escola tem como função “tratar a multiplicidade por si mesma, distribuí-la e dela tirar o maior número possível de efeitos” (FOUCAULT, 1987, p. 136). A tática disciplinar liga o singular e o múltiplo, é condição para o controle e o uso de um conjunto de elementos distintos, é a base para uma microfísica do poder “celular”.

O controle é dado por uma série de ferramentas, como o horário, a elaboração temporal do ato, a correlação corpo e gesto, a articulação corpo-objeto e a utilização exaustiva do tempo. Mais uma vez, temos, nas escolas, exemplo profícuo. Nas escolas elementares, a divisão do tempo é cada vez mais específica, onde as atividades se dão por ordens que devem ser respondidas imediatamente. No século XIX, há horário de entrada do monitor, de chamada, de entrada das crianças, de oração, de entrada nos bancos, da primeira lousa, do fim do ditado, da segunda lousa. Além dos horários, é necessário que se garanta a qualidade do tempo empregado: o tempo deve ser útil. Assim, há uma elaboração temporal do ato, pois o que é definido não é apenas um horário, mas um ritmo coletivo e

obrigatório: “O tempo penetra no corpo, e com ele todos os controles minuciosos de poder” (FOUCAULT, 1987, p. 138). O corpo e o gesto são colocados em correlação, pois um corpo bem disciplinado forma o contexto de realização do mínimo gesto, é a base de um gesto eficiente.

Ter um gesto eficiente também sugere saber articular o corpo com os objetos, saber manipular os objetos úteis e de maneira rápida. Ter o controle do tempo e dos objetos de forma eficiente é ter a utilização de ambos, exaustivamente. O princípio da não ociosidade, o não desperdício do tempo na realização de tarefas, tende a um ponto ideal em que o máximo de rapidez encontra o máximo de eficiência. A escola mútua teve, em sua essência, a intensificação do uso do tempo. Todas as suas normas visavam acelerar a aprendizagem e ensinar a rapidez como virtude.

Já o exemplo da escola de Gobelins trazida por Foucault, explicita um fenômeno importante,

o desenvolvimento, na época clássica, de uma nova técnica para a apropriação do tempo das existências singulares; para reger as relações do tempo, dos corpos e das forças; para realizar uma acumulação da duração; e para inverter em lucro ou em utilidade sempre aumentados o movimento do tempo que passa (FOUCAULT, 1987, p. 142).

Assim, as disciplinas também são aparelhos para adicionar e capitalizar o tempo. A divisão da duração em segmentos, a decomposição do tempo em sequências separadas e ajustadas; a organização dessa sequência em um esquema analítico, a partir de uma complexidade crescente; a finalização dos segmentos temporais marcados por uma prova; o estabelecimento de séries em que cada indivíduo se encontra em um nível são formas como o tempo disciplinar se impõe na escola e, consequentemente, na prática pedagógica. O tempo disciplinar, com suas séries múltiplas e progressivas, forma-se, simultaneamente com uma pedagogia analítica e minuciosa. As atividades transcorridas em série permitem um investimento na duração do poder por meio de um controle detalhado e uma intervenção pontual, de correção ou castigo. Utilizando, assim, os indivíduos de acordo com as habilidades presentes em cada série.

Além disso, a disciplina não é apenas um mecanismo que reparte corpos, individualiza-os e extrai e acumula tempo; ela também compõe forças cujo objetivo é

obter um aparelho eficiente de diversas formas. Uma delas é que o tempo de alguns deve se ajustar ao tempo de outros visando extrair daí uma maior força de cada um e ligá-las para um resultado ótimo. Há a combinação de várias séries cronológicas para isso. No ensino primário, o ajustamento de diferentes cronologias será de forma sutil. Na escola mútua, todo tempo de todos os alunos estava ocupado e para que se extraia a maior força, é necessário um sistema preciso de comando. No treinamento de escolares, o sinal é uma técnica de comando e ao mesmo tempo a moral da obediência. Assim o aluno deve aprender o código de sinais e atender automaticamente cada um deles.

O poder disciplinar vai fabricar indivíduos, adestrá-los, não a partir de um poder triunfante, mas de um poder modesto que funciona por uma economia calculada que é permanente. Ele vai separar, analisar, diferenciar, levar seus processos de decomposição até as singularidades necessárias e suficientes. Em contraposição a rituais majestosos de soberania e aos grandes aparelhos de Estado, este poder de disciplina é quase invisível, mas pouco a pouco adentra as formas maiores. O caminho para isso parte de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e o exame.

Vigiar, olhar, ver e observar são dispositivos do exercício da disciplina e que permitem efeitos de poder. São construídos grandes observatórios da multiplicidade de homens, técnicas sutis de vigilância são desenvolvidas, nas quais olhares devem ver sem ser vistos. Há um encaixamento espacial das vigilâncias hierarquizadas. O encarceramento simples –muros e portas – é substituído pelo cálculo das aberturas, passagens e transparência. Assim, temos desde o hospital-edifício – instrumento de ação médica, operador terapêutico para melhor coordenação dos cuidados – até a escola-edifício, que deve ser um operador de adestramento. Essas instituições, nas quais as disciplinas tornam-se engrenagem, caracterizam-se como uma maquinaria de controle, servindo também como microscópio do comportamento.

A vigilância é determinante para o poder disciplinar e a escola como meio de sua aplicação tem isso arraigado a sua prática pedagógica:

Temos aí o esboço de uma instituição tipo escola mútua em que estão integrados no interior de um dispositivo único três procedimentos: o ensino propriamente dito, a aquisição dos conhecimentos pelo próprio exercício da

atividade pedagógica, enfim uma observação recíproca e hierarquizada. Uma relação de fiscalização, definida e regulada, está inserida na essência da prática do ensino: não como uma peça trazida ou adjacente, mas como um mecanismo que lhe é inerente e multiplica sua eficiência (FOUCAULT, 1987, p. 158).

Será por meio da vigilância hierarquizada que o poder disciplinar consolida-se como um sistema integrado. Seu funcionamento é dado a partir de uma rede de relações que se dissemina por todos os lados e direções. O poder, nesse contexto, é indiscreto, pois está em toda parte, mas é também discreto, porque funciona no silêncio. O poder relacional que emana da disciplina e se autosustenta em seus próprios mecanismos. Esse poder que incide sobre o corpo é, em aparência, muito menos corporal por ser mais físico.

As disciplinas reprimem uma série de comportamentos que eram despercebidos pelos grandes sistemas de castigo. Por leis próprias, nos sistemas disciplinares, funciona um pequeno mecanismo penal.:

Na oficina, na escola, no exército funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de ser (grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes “incorretas”, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, toda uma série de processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações. Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações mais tênues da conduta, e de dar uma função punitiva aos elementos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora (FOUCAULT, 1987, p. 159).

Porém, é importante ressaltar que a disciplina traz uma forma específica de punir, e que tem como foco os desvios daquilo que ordena. O aluno comete uma falta, por exemplo, por inaptidão em cumprir suas tarefas. Outro exemplo da ordem/desvio que a disciplina cria é que, numa escola, os alunos nunca devem ser colocados em uma lição com a qual eles não estejam aptos a aprender, por outro lado, as etapas de aprendizagem são fixadas e devem ser cumpridas com a pena de o aluno ser colocado no “banco dos ignorantes”. O castigo, nesse sentido, tem a função de reduzir os desvios.

sanção. O professor, por exemplo, tem que evitar os castigos e tornar a recompensa mais frequente do que as penas. Esse quadro coloca em evidencia a qualificação do comportamento e dos desempenhos a partir de valores opostos do bem e do mal. Nada, assim, é proibido como na justiça formal, mas distribuído entre esses polos. A quantificação e uma economia em números como notas, e pontos indicam perto de qual polo o aluno está. A justiça escolar, como afirma Foucault (1987), vai levar muito longe esse sistema, muito mais do que outras instituições, como o exército ou as oficinas. Será a partir do cálculo das notas que os aparelhos disciplinares se tornarão capazes de hierarquizar e apontar bons e maus indivíduos. Essa microeconomia de penalidades coloca em destaque a diferenciação entre os indivíduos.

A divisão criada pela classificação serve tanto para marcar os desvios, hierarquizar as qualidades, as competências e as aptidões quanto para castigar e recompensar. O efeito de uma penalidade hierarquizante na escola distribui

os alunos segundo suas aptidões e seu comportamento, portanto segundo o uso que se poderá fazer deles quando saírem da escola; exercer sobre eles uma pressão constante, para que se submetam todos ao mesmo modelo, para que sejam obrigados todos juntos „à subordinação, à docilidade, à atenção nos estudos e nos exercícios, e à exata prática dos deveres e de todas as partes da disciplina‟. Para que, todos, se pareçam (FOUCAULT, 1987, p. 163).

São essas características que vão produzir o poder da Norma, o qual Foucault (1987) indaga se não seria a nova lei da sociedade moderna. O Normal – em contraposição ao anormal, ao desviante, ao monstro deixado fora da sociedade – vai aparecer no ensino como princípio de coerção por meio de uma escola estandardizada e pela criação de escolas normais. No hospital, para organizar o corpo médico e um quadro hospitalar que promovam normas gerais de saúde. Na indústria, para a regularização dos processos e produtos. As normas que se estabelecem nessas diferentes instituições afirmam-se por sua regulamentação como um grande instrumento de poder, assim como a vigilância, a qual é uma grande aliada. Segundo o autor:

As marcas que significavam status, privilégios, filiações, tendem a ser

No documento helenacardosoribeiro (páginas 106-118)