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CAPÍTULO 2 – PROCESSOS CRIATIVOS PERFORMÁTICOS: EXPERIÊNCIAS

2.1 A PERFORMANCE

As cadeiras já estão na cena. Os assistidos se posicionam para iniciar mais uma vez a apresentação. Olhares atentos, pulso batendo forte e mãos suadas que cruzam umas as outras mãos. Sentem-se em casa quando o assunto é performance. Finalizam-se os abraços e chega até a largada da ação. A música, com uma batida forte marca os passos do performer.

Um participante entra na sala, observa e em seguida movimenta seu corpo criando relações com os espectadores e olhando atentamente para todo daquele ambiente. Este

performer produz com o corpo signos e sua expressão mostra uma verdadeira identidade de repetições de movimentos. Com passos lentos e sob um giro, em volta dos espectadores. O performer procura algo, sem saber se procura em si ou em meio ao ambiente. Essa procura que não cessa, vai recodificando sua expressão corporal e vocal. Em seguida, entra outro performer, com um quepe de soldado, parado ele observa o que está acontecendo, sempre com o olhar no participante anterior. Caminha pela sala e às vezes fica estático, repetindo uma sequência de movimentos.

O terceiro participante, ao entrar na performance, nos coloca a pensar sobre suas ações. Uma mulher de baixa estatura e com uma feição de cansaço. Ela penetra na performance como se estivesse dançando em câmera lenta. Os passos da dança tendem a aumentar e ela movimenta-se cada vez mais rápido no salão. Esta mulher rouba o olhar de todos os espectadores, levando-os a um incômodo intenso.

A quarta participante entra na performance com uma cadeira, coloca-a na cena e sobe, ficando parada, observando de cima as expressões dos participantes. Esta participante também traz consigo um quepe de soldado que é colocado embaixo do seu braço esquerdo. Passa-se cerca de 30 segundos e a primeira a entrar na performance, estabelece uma relação com ela, parando em sua frente.

A quarta participante, desce da cadeira, coloca o seu quepe que estava embaixo do braço, e começa a se movimentar na sala. O corpo da participante que estava inerte vai criando diversas possibilidades com a sua expressão. O participante que parou, subiu na cadeira e ficou estático, em plena concentração.

Fonte: Arquivo pessoal – 10/04/2012.

Num determinado espaço, as janelas se abrem para o mundo e o performer vai ao encontro dos espectadores em relações de conforto e desconforto, no qual as sensações vão tomar conta do ambiente criado para tal ação. Com os olhares fixos ao ponto de encontro, vai- se tecendo um caminho para a libertação do sujeito, pois o protagonismo é, contudo, concebido a partir da conexão dos fatores dominantes que estão em favor da cena criada. Desse modo, o encontro estabelecido na cena pelo performer traz um universo de imagens para o espectador que determina o encontro e o acesso a novas imagens.

Movimentar-se e repetir-se aos códigos já traçados pelo percurso que a cerca é, em certos momentos, estar à procura de novas repetições, mas também é acreditar em uma repetição que seja “irrepetível” diante dos movimentos corporais e dos sons que não cessam na cena. O movimento é contornado pelo fluxo interno da ida ao ponto de encontro e este encontro se dá pelo percurso do performer que vai passar pelos mais diversos “lugares” até se encontrar. O encontro, neste caso, está ligado à maneira que o performer se estabelece na ação enquanto processo de criação para o segmento de decodificação dos códigos corporais.

A variação de movimentos, na medida do seu desenrolar, se torna instável no caminho até o ápice das ações físicas do performer, pois sua variação é diversificada na medida de aproximação do foco a partir do objetivo traçado diante do desenrolar da performance. Na medida desse percurso, o giro que o performer executa possibilita uma maior conexão entre

público e participante, uma vez que as movimentações do performer estimulam a participação do público, tornando-se, o público, coparticipante dessa experiência criativa. Assim, haveria uma maior aproximação entre vida e arte e um trabalho mais humanista do processo artístico.

Alguns exemplos dessa conjuntura artística sob essa sistemática da performance levariam mais humanidade para os coparticipantes desta experiência. Nesta perspectiva, “O trabalho do artista de performance é basicamente um trabalho humanista, visando libertar o homem de suas amarras condicionantes, e a arte, dos lugares comuns impostos pelo sistema”. (COHEN, 2011, p. 45). Ir ao encontro do outro é ir ao encontro de si mesmo e construir dialogicamente uma teia de significados entre vida e arte. Ainda neste sentido, nos adverte Cohen:

A arte lida com verdade, lida com transcendência, lida com imanência, é um dos veículos para o ser humano tomar contato com estados superiores de consciência. O artista lida com as dialéticas corpo/alma, cabeça/coração (razão/emoção), vida/morte, que são estruturais à condição humana. O verdadeiro artista lida com abstração, tendo consciência que a mídia é apenas uma função de transporte, o corpo para uma alma (que é esse ato artístico), o suporte para se atingirem os propósitos mencionados. (COHEN, 2011, p. 163)

Em seguida, cria-se um cenário de loja, onde há roupas nos cabides penduradas em uma “arara”. Duas performers conversam sobre a vida familiar e relatam sobre as questões do cotidiano. Essa situação é improvisada em cada momento de apresentação, deixando os performers livres para a exploração cênica.

Após esse momento começa a tocar a música e os outros participantes que estão sentados se posicionam para iniciar a passagem na trilha, passagem, essa, de conexão com o corpo e a mente, pois estão em bastante sintonia com o fazer artístico e com as vidas vividas no momento da apresentação. Um momento de não representação, momento que pulsa o real. Ou também pode representar uma

[...] necessidade indispensável à sua vida de enclausurado. Talvez seja esse o motivo para que as suas ideias alucinatórias, de grandeza, etc., venham a se objetivar demoradamente no mundo da realidade material. E dessa forma nós observamos um fato singular. Os doentes que se entregam a essas cogitações ficam calmos, trabalham com prazer, estilizam as suas manifestações de arte com inteira satisfação de ânimo. Dir-se-ia que os seus pensamentos se perdem num enorme mundo de belezas. (CESAR, 1929, p. 35)

Nesse sentido, mostra-se que se fazendo arte, o desenrolar da performance torna-se mais dinâmico, na medida em que, pelo grau de comprometimento cognitivo do indivíduo, a ajuda dos colegas para desenvolver a cena pelo performer é tão importante quanto a ação em si. Pois se tem ânimo para o participante informar algo na cena que possibilite a sua dinâmica na cena ou, por lado a sua própria satisfação em ajudar coletivamente os participantes.

Vejamos isso nesta cena, por exemplo, na medida em que o segundo performer está finalizando sua passagem pela trilha, os outros performers comunicam ao próximo participante que irá fazer o atravessamento. Como este não consegue lembrar-se do seu momento de entrada, foi acordado de que os demais o ajudassem na transposição da cena. Ficando à espera desta outra voz para seguir a travessia.

Outro ponto interessante deste momento é com relação à informação que é dada ao performer apenas para designar a hora de sua entrada, porém o mesmo irá desenvolver seu percurso integral a partir da sua criação, envolvendo os estímulos visuais e musicais da cena. Com esse procedimento, leva-o a uma confiança maior e segurança para desenvolver sua arte da melhor maneira possível, tendo um lugar de atuação mais próximo de sua vida. Com sua passagem concluída na trilha, recebe uma nova informação para voltar ao seu lugar de origem para o outro performer fazer o seu atravessamento.

A penúltima a fazer a passagem pela trilha se diverte naquele lugar. Brinca e mostra com o corpo o lugar lúdico. A partir das brincadeiras ela vai construindo e reconstruindo à sua maneira um ambiente de alegrias, onde se banha com as “águas”, águas mais cristalinas possíveis e se debruça em sua passagem performática.

Após o último participante fazer a sua passagem pela trilha, os corpos dos participantes se transformam em um coletivo varal, na qual são colocadas as roupas, estendidas feitas um depósito de utensílios que ficam ali guardados nos corpos. Esse momento bastante metafórico pode representar várias linhagens de ideias ao receptor. Na medida em que o peso é colocado sobre o corpo, o corpo o torna diferente do que era no passado e, assim, o transforma em uma nova imagem.

Depois desse momento as roupas são retiradas por dois participantes e, após dobrá-las, as colocam em suas cabeças e seguem para guardá-las. Ao som musical, os performers vão cantando coletivamente e caminhando para a finalização. Em seguida, finaliza a apresentação e os participantes fazem o agradecimento.

Imagem 5 – Performance quebrando muros.

Fonte: Arquivo pessoal – 25/08/2012.

Momento em que os assistidos estão fazendo a cena do Varal.

A performance Quebrando Muros revelou uma hierarquia de poder entre os assistidos envolvidos. Atribuindo as ordens a quem tem menos poder, quebrando os muros das diferenças em todos os laços vividos diariamente. Apresentando-se como um ato político da imagem opressora da sociedade. Pois, “Do outro lado desses muros do internamento não se encontram apenas a pobreza e a loucura, mas rostos, bem mais variados e silhuetas cuja estatura comum nem sempre é fácil de reconhecer”. (FOULCAULT, 1972, p.79)

Por esse panorama, Glusberg diz que:

A performance se investe dessa função anafórica: uma sequência só é entendida se relacionada com o que a precede com o que a segue. A natureza anafórica da performance se origina amplamente do efeito da experiência em termos de significados e da relação estabelecida entre o emissor e o receptor, pois a performance indubitavelmente envolve um ato verdadeiro de comunicação, de transmissão de significados. (GLUSBERG, 2009, p.76)

A performance compreende a magia de significação, estabelece relações segmentadas ao receptor e atribui ao emissor uma nova codificação de significados. Para manter uma estrutura no percurso da espontaneidade corporativa que se alimenta de cada ação imprevisível e faz da ação um ato político.

A espontaneidade para a criação da performance no CAPS III – Caminhar possibilitou novas ações no decorrer das apresentações nos espaços públicos. Essa transformação revela os campos de visão da prática performática e suas relações com o meio e com o performer. A ação se deu a partir das especificações da performance Quebrando Muros diante o cenário artístico entre espectador e performers:

Ação Apreciação Reversão

PERFOMANCE QUEBRANDO

MUROS

Codificação Leitura Interpretação

Os seis pilares mostrados acima, apresentam a dinâmica da performance. Nesta ação, é colocada a codificação enquanto mote para dar luz, vida a performance. Em sua decorrência é indispensável à leitura feita pelo espectador ao enxergar as devidas referências da interpretação que pode conduzir as poéticas do corpo em uma reversão no que concernem as mudanças ocorridas no percurso performático.

Os pilares deste processo naturalmente induzem a sensações a partir da ação e recepção, constituídas pelas pelo percurso do performer ao longo de sua prática. Nesta visão, a conexão entre ambos, facilita os diálogos de uma ação/recepção ou recepção/ação. Esta ação/recepção, propiciada pelo ato performático, emite para os espectadores uma série de significados ao longo de sua execução.

A informação verbal ou visual emitida pelo corpo do performer que propõe uma ação, uma dinâmica, tenderá a levar o espectador a construir uma ação também provida de dinâmica. Esses dois tipos de dinâmicas são distintos e procedem de uma mesma ação. Só que a dinâmica/ação do espectador, mostra o lado do pensamento, enquanto ideia de criação. E na dinâmica/recepção, o performer, por meios corporais se expressará em seus movimentos.

Com esse entendimento, a performance “quebrando muros” se constitui a partir das apresentações em três lugares distintos. Com ela, foi-se uma ferramenta de luta por parte dos assistidos e também por parte de toda uma equipe de profissionais que acreditavam na arte e sua força de transformação social diante o cenário da luta antimanicomial. Por vezes fomos convidados a participação efetivas nos eventos promovidos pela Secretaria de Saúde do Município de João Pessoa e, dessa maneira, compor a programação dos eventos de saúde mental.

O nosso primeiro lugar de apresentação da performance foi no prédio da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba. Esta nos convidou para uma apresentação do Grupo de Estudo em Saúde Mental da Universidade Federal da Paraíba- GESAM/UFPB, coordenado pela professora Ana Luiza do Centro de Ciências da Saúde. A apresentação foi destinada aos estudantes e pesquisadores do grupo de pesquisa e também ao público em geral, uma vez que no espaço da apresentação havia pessoas de diferentes cursos e profissionais da administração pública.

Fonte: Arquivo pessoal - 8/07/2011.

O espaço acadêmico é um lugar bastante transitável por diferentes linhas de pensamento. Estando em um lugar onde o pensamento médico prevaleceu e ditou as regras diante o corpo e a sanidade mental, representa, agora, ao assistido, um lugar de luta e de reconstrução do lugar que foi historicamente banido de anestesia social. Essa forma de poder, na sociedade disciplinar, como nos mostra Foucault (2014), é o que a sociedade disciplinar constituía aos meios de enclausuramento. Isso se deu parte dos hospitais, oficinas, escolas e prisões. E a universidade, uma das formas de educação aqui no ocidente com mais 800 anos, hoje com novas formas de integração social.

O segundo lugar de apresentação foi no Espaço Cultural, Instituição Estadual onde nela há teatros, museu, cinema, salas de exposição e palco para shows musicais. Neste local compomos a programação da semana de luta antimanicomial, promovida pela Secretaria de Saúde da Cidade de João Pessoa e coordenação de Saúde Mental do Estado da Paraíba. A apresentação neste local se deu em um espaço alternativo. Após os participantes saírem da palestra que aconteceu no Teatro Paulo Pontes, conduzimos a apresentação da performance “Quebrando Muros”.

Nesta apresentação os assistidos tiveram um contanto com artistas e pessoas que trabalhavam com a temática da saúde mental e, diante o público, “A performance, portanto, marca a identidade, submete o tempo, remodela e adorna o corpo e conta histórias”. (MOSTAÇO, 2007, p. 20). Assim se fez vida, se fez pulso, contando as histórias mais

profundas e mais apaixonantes, pois na medida em que o tempo vai passando, as impurezas vão saindo e lapidando a memória para esculpir depois os corpos que estão nas cenas ou quadros que se alteram em cada segundo e em cada confronto com o público.

Tivemos um fato curioso na apresentação. Neste terceiro lugar da apresentação, algo se tornava diferenciado neste novo cenário artístico, pois a performance se deu em um espaço onde o público era exclusivamente de estudantes da educação básica. Assim, constituiu-se uma espécie de intercâmbio performático, portanto, a performance, foi a escola e a escola foi ao CAPS III, construindo, todavia, discussões e reflexões a cerca da arte e possíveis perspectivas de reinserção social com a comunidade escolar. Deste modo, acredita-se que esse viés venha à tona como uma possível construção coletiva de igualdade para os assistidos.

Imagem7 - Apresentação na Educação Básica.

Fonte: Arquivo pessoal – 10/10/2012.

Se a performance por ser efêmera nessa conjuntura imaterial, ela é, sobretudo, uma fiel expressão para lidar com os sentimentos do passado, causando no público uma memória onírica de significações. Ao mesmo tempo falando de nossas lembranças ou dos sentimentos. Assim, o público de estudantes teve uma reação de igualdade diante a expressividade que foi apresentada, onde se envolveram nas trilhas da criação e na loucura da arte. Quando a

performance irradia os sentidos, constroi um ato político para os alunos em formação e reafirma, para os assistidos, uma sociedade inclusiva e menos preconceituosa.

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