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Quebrando muros: loucura e processos criativos performáticos

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS

JOSÉ CLEBER BARBOSA DE LIMA

QUEBRANDO MUROS: LOUCURA E

PROCESSOS CRIATIVOS

PERFORMÁTICOS.

NATAL/RN

2017

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JOSÉ CLEBER BARBOSA DE LIMA

QUEBRANDO MUROS: LOUCURA E PROCESSOS CRIATIVOS PERFORMÁTICOS.

NATAL/RN 2017

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Departamento de Artes - DEART

Lima, José Cleber Barbosa de.

Quebrando muros : loucura e processos criativos performáticos / José Cleber Barbosa de Lima. - 2017. 96 f.: il.

Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Natal, 2017.

Orientadora: Prof.ª Drª. Nara Salles.

1. Criação (Literária, artística, etc.). 2. Performance (Arte). 3. Loucura. 4. Arte e doença mental. 5. Centro de Atenção Psicossocial (João Pessoa, PB). I. Salles, Nara. II. Título.

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FOLHA DE APROVAÇÃO JOSÉ CLEBER BARBOSA DE LIMA

QUEBRANDO MUROS: LOUCURA E PROCESSOS CRIATIVOS

PERFORMÁTICOS.

Dissertação de mestrado submetida como requisito para a obtenção de título de Mestre em Artes Cênicas, na linha de pesquisa Pedagogias da Cena: Corpo e Processos de Criação no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRN – PPGArC.

Aprovada em, ___ de ______________ de 2017.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________ Profa. Dra. Nara Salles

Presidente da banca – orientadora

__________________________________________ Profa. Dra. Larissa Marques

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - membro interno ___________________________________________

Profa. Dra. Urânia Maia.

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Dedicatória

À minha família, que sempre me apoiou e me estimulou, possibilitando a concretização deste sonho em minha vida. Vocês foram a base para a consolidação desta vitória.

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Agradecimentos

À minha querida família, Vera (mãe), Antônio (pai) e Miguel (irmão). Obrigado pelo apoio, amor, carinho e dedicação, os quais foram fundamentais nesta caminhada e finalização de mais uma etapa importante da minha vida. Vocês são meus maiores exemplos de vida e essa conquista também é de vocês. Amo vocês!

À professora e orientadora Dra. Nara Salles. Obrigado por todos os momentos em que trabalhamos juntos. Obrigado pela amizade, carinho, dedicação e estímulo, pois foram essenciais nessa trajetória.

As professoras da Banca de Qualificação e de Defesa desse trabalho: Dra. Larissa Marques e Dra. Urânia Maia. Obrigado por terem contribuído e enriquecido a construção desse estudo.

Aos meus queridos amigos e colegas do Grupo de Saúde Mental, obrigado por todos os momentos de aprendizado que compartilhamos vocês contribuíram significativamente em minha caminhada acadêmica.

À equipe e aos assistidos do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS III Caminhar), por terem me acolhido com carinho durante o período em que trabalhei e desenvolvi esta pesquisa. Agradeço por todos os momentos de trocas que passamos juntos!

Ao Ozinaldo (Assistido do CAPS), (in memoriam) pela sua contribuição a esta pesquisa.

Aos amigos Welington Rodrigues, Yuri Magalhães e Jerônimo Vieira pela contribuição a este trabalho.

Aos amigos e amigas: Alecrides Jahne, Anadeje Maria, Bernadete Souza e Aristeu Souza pela contribuição a este trabalho.

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À turma do mestrado, pelo companheirismo, amizade e principalmente por todos os momentos que passamos juntos. Cada um de vocês tem uma grande importância em minha vida. Muito obrigado!

A CAPES, pela disponibilização da bolsa do mestrado.

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MUITOS ANOS ATRÁS, quando eu ainda era estudante, comecei um trabalho voluntário semanal numa comunidade terapêutica. Eu respirava psicanálise e queria entender melhor os estranhos fenômenos da psicose: as alucinações, os delírios e os distúrbios de linguagem sobre os quais tinha lido, mas com os quais nunca tivera contato direto. Quase todas as pessoas que encontrei eram bastante calmas e davam poucos sinais de “loucura”. A medicação em longo prazo as tinha desgastado, e elas haviam se acomodado em sua rotina tranquila. Mas, havia um homem ávido por conversar e passávamos muitas horas discutindo filosofia, política e assuntos do momento. Ele era desenvolto, lúcido e extremamente inteligente. Fiquei pasmo ao saber que passara os últimos anos em hospitais psiquiátricos. Quando conversávamos, ele não me parecia nem mais nem menos perturbado que os amigos estudantes que eu encontrava depois do trabalho. (LEADER, p.7, 2011)

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RESUMO

Com a reforma psiquiátrica em todo o mundo, os profissionais da saúde começam a rever mudanças no contexto histórico da loucura. Em um cenário de críticas, fundamenta-se uma nova ideia à loucura e a sua nova estrutura psicossocial a partir dos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS. Estes são espaços terapêuticos que visam à substituição progressiva dos manicômios. Com uma abordagem diferenciada ao assistido, os CAPS, se diferenciam dos hospitais psiquiátricos pela sua consonância psicossocial e de reinserção frente à sociedade. Os assistidos, nesses serviços de saúde mental, participam das inúmeras atividades artísticas e terapêuticas oferecidos pelos mais diversos profissionais. Tendo o assistido como protagonista do trabalho de reinserção social do CAPS, esta pesquisa acompanha e discute o processo criativo da performance Quebrando Muros, realizados com os assistidos do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS III Caminhar, na cidade de João Pessoa, Paraíba. A partir do acompanhamento e das observações dos indivíduos na criação e nas apresentações são abordados qualitativamente os fenômenos decorrentes deste estudo de forma descritiva e indutiva, cujos procedimentos estão enraizados e em consonância com a performance e a loucura, discutidas por Renato Cohen (2011), Jorge Glusberg (2009) e Michael Foucault (2014). Em nosso estudo, enfatizamos a pesquisa qualitativa porque esta é uma ferramenta de bastante relevância para o processo social dos assistidos no CAPS III – Caminhar. Buscando visualizar o contexto em que estes estão inseridos, e a partir daí, teremos uma maior integração desse objeto de estudo que implique melhor compreensão do fenômeno.

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ABSTRACT

With psychiatric reform around the world, the madness begins to review changes in its historical context. In a critical scenario is based on a new idea madness and its new psychosocial structure from CAPS. Psychosocial Care Centers, CAPS, are therapeutic spaces aimed at the progressive substitution of asylums. With a differentiated approach to assisted CAPS, differ from psychiatric hospitals for their psychosocial line and reintegration against society. The survey monitors and discusses the creative process of Breaking Walls performance, conducted with beneficiaries of the Center for Psychosocial Care - CAPS III Walk in the city of João Pessoa. From the monitoring and observations of assisted in the creation and presentations are qualitatively addressed the phenomena arising from this study descriptive and inductively, whose procedures are rooted and in line with the performance and madness, discussed by Renato Cohen (2011) Jorge Glusberg (2009) and Michel Foucault (2014). In our study, we emphasize the qualitative research, because this is a tool very important to the social process of assisted in CAPS III - Walk. Seeking view the context in which they are inserted, and from there we will have a greater integration of this object of study involving better understanding of the phenomenon.

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Sumário de Tabela

Tabela 1 -Equipe do CAPS III Caminhar...31 Tabela 02-Cronograma de Atividades CAPS III Caminhar...44 Tabela 03 - Perfil dos Participantes...65

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Sumário de Imagens

Imagem 1 - Sala de Oficinas ... 43

Imagem 2 – Experiência com os jogos para o processo criativo da performance com os assistidos do CAPS III Caminhar... 46

Imagem 3 – O processo de fiscalização... 47

Imagem 4 – Performance quebrando muros... 56

Imagem 5 – Performance quebrando muros... 60

Imagem 6 – Parte do grupo da performance no pátio da Reitoria da UFPB... 62

Imagem 7 - Apresentação na Educação Básica... 64

Imagem 8 - Frente do CAPS III – Caminhar... 70

Imagem 9 - Cantinho da Leitura ...70

Imagem 10 - A trilha dos Loucos... 72

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Lista de abreviaturas e siglas

CAPS Centro de Atenção Psicossocial

CAPSad Centro de Atenção Psicossocial

Álcool e Drogas

CAPSi Centro de Atenção Psicossocial

Infantil

CSM Centros de Saúde Mental

CT Comunidade Terapêutica

STOR Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação

CNS Conselho Nacional de Saúde

CRM Conselho Regional de Medicina

PASM Pronto Atendimento em Saúde

Mental

MTSM Movimento dos Trabalhadores de

Saúde Mental

NAPS Núcleos de Atenção Psicossocial

SRT Serviço Residencial Terapêutico

SUS Sistema Único de Saúde

TCLE Termo de Consentimento Livre e

Esclarecido

UBS Unidade Básica de Saúde

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 15

CAPÍTULO 1 –CORPO, LOUCURA E ARTE...23

1.1 O ENCLAUSURAMENTO DA LOUCURA...37

1.2 COMPULSÃO DOS CORREDORES DO CAPS ...44

CAPÍTULO 2 – PROCESSOS CRIATIVOS PERFORMÁTICOS: EXPERIÊNCIAS ARTÍSTICAS NO CAPS III...50

2.1 A PERFORMANCE...56

2.2 GRUPO PESQUISADO NA PERFORMANCE QUEBRANDO MUROS...66

2.3 SISTEMÁTICA DO ESTUDO...69

2.4 A TRILHA DOS LOUCOS ...73

CAPÍTULO 3 – QUEBRANDO MUROS: A PERFORMANCE E SUAS DECORRÊNCIAS ...79

3.1 A PERFORMANCE É UM CARRO!... ...81

3.2 QUEBRANDO OS MUROS COM A PERFORMANCE...83

3.3 EU GRITO, EU LUTO, EU VIVO!...87

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...90

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INTRODUÇÃO

Em 2006 tive meu primeiro contato com a saúde mental no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, em João Pessoa. Esse contato se deu a partir de uma pesquisa que resultaria na encenação teatral do espetáculo As mãos de Eurídice, do escritor Pedro Bloch, sob a direção de Daniela Machado que é professora e diretora de teatro. Como contrapartida para a realização da pesquisa, foi solicitada, por parte da direção do hospital, uma apresentação para os internos.

O espetáculo retrata a historia de loucura e de amor vivida pela personagem principal da história, Gumercindo Tavares, que decide abandonar a família e fugir com Eurídice, uma esbelta jovem ambiciosa. Os dois decidem ir para uma cidade na Argentina e ele a cobre de infinitas joias. E ela, por sua vez, destroi toda a fortuna dele em cassinos, acabando, assim, por levá-lo ao fracasso financeiro. Com o objetivo de reverter à situação, Gumercindo propõe vender todas as joias, mas Eurídice não aceita. Após sete anos, Gumercindo retorna para a sua antiga família, porém ela já não é mais a mesma. Após algum tempo, Eurídice reaparece em sua vida, Gumercindo pede as joias de volta. Ao recusar o seu pedido, Gumercindo a mata.

Para a construção da personagem convivi com os loucos no ambiente psiquiátrico, uma vez que naquele lugar existia toda as possibilidades narrativas da loucura. Convivendo com os loucos, pude me inspirar para a construção da personagem e posteriormente estrear o espetáculo para os internos do hospital. Convivendo no hospital com os loucos, pude enxergar a profundeza do abandono e o descaso com o ser humano em uma instituição pública. Tive a mesma sensação que Foucault relata em seu livro Historia da Loucura na Idade Clássica:

Vi-os nus, cobertos de trapos, tendo apenas um pouco de palha para abrigarem-se da fria umidade do chão sobre o qual se estendiam. Vi-os mal alimentados, sem ar para respirar, sem água para matar a sede e sem as coisas mais necessárias à vida. Vi-os entregues a verdadeiros carcereiros, abandonados a sua brutal vigilância. Vi-os em locais estreitos, sujos, infectos, sem ar, sem luz, fechados em antros onde se hesitaria em fechar os animais ferozes, e que o luxo dos governos mantém com grandes despesas nas capitais. (FOUCAULT, 2014, p. 49)

Em 2008 tive meu segundo contato com a temática da saúde mental a partir de uma seleção para fazer um curso de Terapia Comunitária, curso destinado apenas aos profissionais da saúde, da cidade de João Pessoa. Como eu não trabalhava na secretaria de saúde fui convidado a fazer o curso devido a minha contribuição artística à terapia comunitária. Na

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época eu era convidado para participar fazendo as dinâmicas e cantando as músicas nas terapias em grupo, realizadas por terapeutas ligados a secretaria de saúde. E assim, eu consegui fazer o curso e, em 2009, tornei-me terapeuta comunitário1, atuando em hospitais, Unidades Básicas de Saúde e escolas. Nesse período trabalhei com a médica Maria de Fátima de Lacerda Guerra CRM/PB 2842, que também é terapeuta comunitária.

A minha vida acadêmica fora pautada por umas práxis, se estabelecendo entre pedagogia e formação artística. Como eu vinha da prática artística, me aprofundei nas teorias e conteúdos empregados na graduação, embora já tivesse entrado na universidade com o registro no Ministério do Trabalho como artista profissional.

Como docente atuei, ainda no período que estava na Universidade, no curso de Licenciatura em Teatro/UFPB, no Centro de Atenção Psicossocial – CAPS II e CAPS III, ambos na cidade de João Pessoa. Para este último, atuei como arte/educador/terapeuta por três anos. Lá, tive contato com a loucura, arte e saúde mental. Posso dizer, com clareza, que foi uma das experiências mais significativas para a minha formação profissional devido à complexidade e abordagem do assistido no ambiente do CAPS. E que ainda hoje sistematizo a minha experiência vivenciada no CAPS III, no qual me conduziu a este mestrado acadêmico e com essa temática bastante relevante para a reinserção social a partir da performance para o assistido do CAPS; com a clareza de que nesta dissertação o foco é o processo criativo e a experiência estética.

Em face de essas questões vividas, convém lembrar alguns dados históricos sobre a compreensão da loucura e suas decorrências. Do ponto de vista histórico, a não normatização de alguns comportamentos convencionais sociais e a descaracterização de indivíduos socialmente e historicamente em determinadas épocas pela sociedade, estipulou-se um denominador comum para designar estas pessoas: “o louco”. Nesta especificidade, inicia-se a história dos loucos e, a loucura, uma condição sinequanon do enclausuramento do indivíduo que fora desprovido de seu lugar de origem, privando-o da liberdade.

Sob a ótica da Idade Média, em sua gênese, a sociedade burguesa reprovaria o ócio ao louco e a qualquer outro agrupamento improdutivo, tornando-se, os grupos banidos da sua conjuntura social, política e econômica. Nessa vertente, deu-se luz as casas de internamentos, cujo objetivo era a inibição desses “anormais” ao nada, por isso, as “casas de recuperação”,

1A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) foi criada no Ceará, na década de 1980 pelo Professor Dr. Adalberto

Barreto, professor do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará, Doutor em Psiquiatria e Antropologia, além de formação em Teologia. É hoje conduzida por mais de 7 mil profissionais capacitados por meio da Associação Brasileira de Terapia Comunitária – ABRATECOM. É conduzida em diversas regiões do Brasil e em alguns países da Europa, África e América do Sul.

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funcionavam com uma prática de autoritarismo, estabelecendo poder diante dos inativos e insanos ao trabalho.

Por volta da Revolução Francesa, algumas mudanças conotaram o seguimento da saúde mental, dando vida a uma nova abordagem sistemática a partir da loucura. É, neste período, que há uma mudança de paradigma em relação ao antigo regime de hospedagem do louco para a nomenclatura de tratamento, haja vista que o louco foi submetido à observação e aos estudos, no intuito da formulação conceitual e medicamentosa das enfermidades ali impostas. Pinel foi o médico psiquiatra que introduziu essa nova abordagem ao alienado. Primeiro no Asilo de Bicêtre, asilo masculino, onde trabalhou de 1793 a 1795 e no Hospício da Salpêtrière, um asilo feminino, onde foi nomeado médico em 1795, ambos em Paris. Nesse contexto, havia muitos doentes mentais acorrentados por períodos longínquos, chegando a mais de 30 anos que viviam acorrentados.

Os caminhos teóricos e as práticas psiquiátricas no que tange a Revolução Francesa, perdurou por um longo e conceituado processo, até a Segunda Guerra Mundial, sendo reconhecido em todo o mundo como uma potência renovadora desse campo até então inexplorado. Possibilitando para os alienados o internamento assistencial nos hospitais psiquiátricos, passando a ser uma grande referência nos procedimentos terapêuticos para os loucos, tendo em vista que os manicômios se constituíam como espaços opressores, de violência e situações desumanas para os insanos.

Face ao final da Segunda Guerra, houve uma intensidade de movimentos sociais em favor da destruição dos hospitais psiquiátricos, respaldado no fator excludente e na privação do convívio social e, é claro, no isolamento indenitário, pois nesses enclausuramentos, perdia-se o mais íntimo: a identidade. E todo o resto era o pertencimento aos agrupamentos dos loucos e desvairados. Esse movimento, de força humanitária, reivindicava melhores condições para o doente mental e a desconstrução desse modelo manicomial, assegurando-o a uma melhor abordagem neste seguimento da saúde e do processo de desinstitucionalização.

Pairavam as grandes reformas institucionais, dentre elas, podemos apontar a Psiquiatria Comunitária, que retrata o seguimento de renovação psiquiátrica, criada nos Estados Unidos. A psiquiatria Preventiva e por último a Psiquiátrica Democrática Italiana, fundamentada nas ideias de Franco Basaglia e que em meados do século XX, dá uma reviravolta na psiquiatria, transformando seu próprio hospital em um lugar de cunho terapêutico.

No Brasil, a primeira reforma psiquiátrica está contextualizada ao surgimento das colônias agrícolas, que estabelece o cultivo e as ações do campo como um procedimento

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terapêutico para o sofrimento mental. Este período é marcado pelo surgimento do Hospital Psiquiátrico Juqueri, na cidade de Franco da Rocha, São Paulo. O músico, psiquiatra e crítico de arte que se destaca é Osório César que propõe aos seus pacientes uma reabilitação e reinserção social a partir da arte. Talvez, seja essa, uma das práticas artísticas de forte conotação para o louco em um serviço especializado de saúde mental.

A impulsionalidade nas artes ganhou bastante prestígio e relevância nos trabalhos da psiquiatra Nise da Silveira, estabelecendo diálogos entre a arte e a loucura, esta se radicou como um influente trabalho psicossocial, através das artes, que oferecia a seus pacientes como importante catalizador das emoções. Ela, em suas oficinas de pintura e modelagem, possibilitou aos internos do Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro contato com a arte e, neste produzir arte, entendia melhor às relações com a loucura. Nise desenvolveu esse trabalho a partir de sua coordenação da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) no período de 1946 até 1974, período de sua aposentadoria compulsória.

Com o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM), no Brasil, começa a vigorar a Lei Federal 10.216/0, no ano de 2001, a partir do projeto de Lei Paulo Delgado, que regulamentou os direitos dos portadores de transtorno mental em face de melhores condições de tratamento e a progressão psicossocial e da extinção ao longo prazo dos manicômios com o objetivo de substituir por serviços de cunho comunitário. Neste processo de reforma psiquiátrica, houve de certo modo, um avanço significativo para os serviços de saúde mental, no qual se estabeleceu um atendimento humanitário e com intuitos terapêuticos psicossociais e de reinserção social.

Vários serviços de saúde mental foram criados, entretanto, os CAPS – Centro de Atenção Psicossocial se destacam pela sua aplicabilidade social e de reinserção social e, proporciona ao portador de transtorno mental um lugar acolhedor e um contato com as artes em processo de reabilitação. É importante evidenciar que os CAPS, geralmente em um formato de “casa”, rompe com a estrutura médica, havendo um forte contato com a arte numa perspectiva terapêutica.

A denominação “portadores de transtorno mental” tem sido utilizada pela psiquiatria para designar uma determinada enfermidade mental dos pacientes do CAPS. Neste estudo, deu-se preferência em não utilizar mais o termo “Portador de Transtorno mental”, nem o termo “usuário”, pois, entende-se que estes termos, trazem uma conotação de inferioridade e que normalmente vem acompanhado de boa dosagem de preconceitos, portanto, ao longo desta exposição vamos utilizar o termo “assistido”.

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O primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no Brasil foi inaugurado em São Paulo, no ano de 1987 e recebeu o nome do Professor Luiz da Rocha Cerqueira, psiquiatra que coordenou a rede de saúde mental da cidade de São Paulo em 1973. Os CAPS foram criados a partir das reivindicações dos profissionais da saúde que tinham como propósito a melhoria do serviço público de saúde mental, visando uma melhor condição para os assistidos que tinham como única referência os hospitais psiquiátricos.

A partir desta fundação, o CAPS Professor Luiz da Rocha Cerqueira, foi considerado um marco para a consolidação ao tratamento humanizado do assistido em sofrimento psíquico, pois propunha uma nova abordagem integral para o tratamento dos doentes mentais. Tendo como foco a reabilitação, o CAPS oferecia novas possibilidades de cuidados e uma terapêutica apropriada ao tratamento, uma abordagem sem exclusões e sem punições. Deste modo, a sistemática terapêutica e a utilização dos psicofármacos levaram aos assistidos a um direito de convivência em sociedade com seus familiares e uma atenção psicossocial mais humanizada. Os CAPS se dividem em cinco segmentos:

CAPS I: É destinado aos municípios com população entre 20.000 e 70.000 habitantes e seu horário de funcionamento é das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira. Este se destina ao atendimento de pessoas com transtornos mentais severos ou persistentes, oferecendo ao assistido oficinas terapêuticas e auxílio médico com o objetivo de reinserção social.

CAPSII: É destinado aos municípios com população entre 70.000 e 200.000 habitantes e funciona das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira. Em alguns casos, este pode funcionar no turno da noite, até as 21h. Este CAPS se destina ao tratamento e acompanhamento dos assistidos com transtorno mental severo ou persistente.

CAPS III: É destinado aos municípios com população acima de 200.000 habitantes e seu horário de funcionamento é 24h por semana, incluindo os sábados, domingos e feriados. Este CAPS tem objetivo de atender os assistidos com transtornos mentais severos ou persistentes, bem como a assistência medicamentosa e terapêutica 24 horas por dia, inclusive atuando no internamento do assistido em momentos de crise.

CAPSi: É destinado aos municípios com população superior a 200.000 habitantes e seu funcionamento se dá das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira. Este também pode funcionar no período da noite, ate até as 21h. O Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) está

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disponível apenas para o tratamento e acompanhamento de crianças e adolescentes com transtornos mentais graves ou persistentes.

CAPSad: É destinado aos municípios com mais de 100.000 habitantes e funciona das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira. Este também pode funcionar em um terceiro turno, até as 21h. O Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad) tem como objetivo fazer atendimento aos indivíduos que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas.

Nesse contexto, os CAPS se diferenciam dos hospitais Psiquiátricos pelo atendimento humanizado aos assistidos que buscam tratamento mental. Assim, os assistidos participam das inúmeras atividades oferecidas pela instituição, inclusive as oficinas artísticas terapêuticas. As oficinas são divididas da seguinte maneira:

• Oficinas expressivas

1. Expressão plástica: pintura, desenho, escultura, etc.;

2. Expressão corporal: dança, ginástica e dramatização (técnicas teatrais), etc.;

3. Expressão verbal: poesia, contos, leitura e escrita de textos, de peças de teatro e de letras de música, etc.;

4. Expressão musical/arte visual: atividades musicais (aulas de canto e de instrumentos musicais), fotografia, teatro, etc.

• Oficinas geradoras de renda – podem ser instrumentos de geração de renda viabilizados pelo aprendizado de uma atividade peculiar, que pode ser: culinária, marcenaria, corte e costura, venda de objetos, produção artesanato em geral, etc.

• Oficinas de alfabetização - colaboram para que os assistidos que não têm acesso ou que não podem permanecer na escola possam estudar, exercitar a escrita e a leitura. É uma estratégia interessante na reconstituição da cidadania.

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Assim, essas atividades estão divididas em três categorias: oficinas expressivas, oficinas geradoras de renda e oficinas de alfabetização. A primeira está ligada as atividades artísticas como: a dança, ginásticas e técnicas teatrais e a segunda está ligada as atividades de geração de renda como, por exemplo, as atividades de culinária, marcenaria, fabricação de velas, etc. E por último as atividades de alfabetização que são destinadas aos assistidos não alfabetizados (BRASIL, 2004).

Atualmente a rede substitutiva do município de João pessoa conta com quatro serviços de atenção 24 horas, sendo eles um pronto atendimento em saúde mental (PASM), que realiza acolhimentos de urgência e emergência aos usuários em sofrimento psíquico agudo ou grave, avaliando, medicando e acompanhando esse usuário durante um período, com o principal intuito de evitar as internações em hospitais psiquiátricos, vale ressaltar que o PASM fica localizado na Rua Ag. Fiscal José Costa Duarte, s/n no Bairro de Mangabeira II.

A rede ainda conta com três Centros de Atenção Psicossociais do tipo III, o CAPS caminhar, localizado no bairro Jardim Cidade Universitária, o CAPS Gutemberg Botelho, no bairro de Tambauzinho, que atendem adultos com transtornos mentais severos e persistentes através de atendimento multiprofissional, com psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, terapeuta ocupacional, arte terapeutas, farmacêuticos, enfermeiros, educadores físicos, entre outros. Além disso, esses CAPS realizam oficinas terapêuticas, visitas domiciliares, tratamento medicamentoso, apoio individual e familiar e leitos para eventuais acompanhamentos em situações de crise e um CAPS AD David Capistrano, localizado no bairro do Rangel; que atende a adultos, com problemas decorrentes do uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas, em morbidades ou não com o transtorno mental.

Complementa ainda a rede de saúde mental um CAPS Infanto - Juvenil, o qual realiza atendimento a crianças e adolescentes que apresentam transtornos psicóticos, neuróticos e usuários de substâncias psicoativas. Com relação às residências terapêuticas (RT), existem duas em funcionamento e previsão de abertura de mais duas residências, abrigando e assistindo pessoas com longas internações psiquiátricas e que tiveram alta hospitalar. Outros dispositivos complementam esta rede, incluindo uma atuação participativa do consultório na rua, que realiza abordagens em locais públicos com pessoas de situação de rua e vulnerabilidade social, a Unidade de Acolhimento Infantil, realizando acolhimento voluntário e cuidados contínuos para crianças e adolescentes com necessidades decorrentes do abuso de substância e vulnerabilidade social, o programa de “Volta pra Casa” e os leitos em hospitais gerais.

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A partir da oficina terapêutica de teatro, desenvolvi com os assistidos do CAPS III – Caminhar, na cidade de João Pessoa, um processo criativo que resultou na performance Quebrando Muros e que circulou no meio cultural e científico da cidade de João Pessoa. Esse processo se deu em um período de três anos de experiência junto aos assistidos e ao trabalho terapêutico na instituição.

As atividades eram realizadas três dias por semana com grupos diferenciados2, com carga horária semanal de 3 horas. Os participantes envolvidos no processo colaborativo construtivo possuíam idades entre 19 e 55 anos, totalizando 20 assistidos. Nessa perspectiva, a experiência individual de internamento dos participantes nos hospitais psiquiátricos trouxe uma nova possibilidade de inserção social, desse modo eles puderam expressar o passado preconceituoso como fio condutor para a criação da performance ao longo do trabalho que resultou nesta dissertação de mestrado.

Esta dissertação tem o objetivo de estudar o processo criativo da performance Quebrando Muros, realizado pelos assistidos no CAPS III Caminhar. E, neste sentido, se faz necessário conotar que “Entendemos por metodologia o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade”.(MINAYO, 1994, p.17). A partir desta compreensão, o trabalho se desenvolveu numa perspectiva exploratória, qualitativa, descritiva e explicativa referente ao tema. O Local da pesquisa foi o Centro de Atenção Psicossocial –CAPS III - Caminhar, localizado no bairro dos Bancários, João pessoa/PB. O universo abordado da pesquisa será estudada a partir do estudo bibliográfico e da análise dos vídeos, fotografias e diário do processo construtivo criativo da performance “Quebrando muros”, realizadas com os assistidos do CAPS III.

Meu interesse, sobretudo, frente a este objeto de estudo, propicia aos assistidos uma nova maneira de rever suas vidas a partir das lentes claras da cena performática em um contexto cultural a partir do processo construtivo criativo. Embora saibamos que neste percurso que se deu essa experiência sistemática, muitos não sobreviveram, pois trabalhar na saúde mental é estar em trânsito: ávido de vida e ávido de morte. Ao passo que o suicida se deixa levar pelas amarguras do estado mental que se consolida em cada crise e também ao profissional que facilita o processo psicossocial, tendo em vista que alguns profissionais se desestabilizam do seu comportamento comum do dia a dia, fazendo-o se afastar desse espaço de trânsito. Desta forma, justifica-se a relevância deste estudo, uma vez que há poucas produções de cunho científico sobre este campo tão complexo.

2Esses grupos são considerados diferenciados porque frequentam o CAPS III em dias alternados da semana, uma vez que ambos estão inseridos em tratamento de caráter semi-intensivo, não intensivo e intensivo.

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No primeiro capítulo serão abordadas questões de cunho histórico conceitual a partir do adoecimento do corpo louco ao longo do contexto histórico clássico/contemporâneo. E um estudo do segmento institucional do enclausuramento da loucura diante das problemáticas de tratamento do alienado pelo campo médico e social. Também abordaremos, neste capítulo, um fato que pode ser traduzido como uma espécie de compulsão dos corredores da instituição pesquisada, no qual os devaneios e as alucinações serviram de passagens para outro nível de loucura. Neste caso, os transtornos mentais severos ou persistentes dos assistidos.

No segundo capítulo, são apresentadas as finalidades e as relações entre a performance e a loucura, dando ênfase ao processo criativo no segmento psicossocial, pois ao descrever e analisar a trilha dos loucos, apontaremos os diversos caminhos criados e executados pelos assistidos numa performance que iria além dos loucos muros. Por sua vez, fecharemos este capítulo, com novos conflitos, uma vez que a performance passa a ter pelos assistidos uma forma política e metafórica de sobrevivência, onde as relações de poder estão em alta.

E, por fim, temos o terceiro capítulo, onde explicito a saída para o “mundo”, porque a performance fortalece seus mecanismos de intuição e, com a produção da performance, o assistido irá passar pelos loucos muros. No ir e vir das apresentações o seu amanhecer no CAPS III o torna diferente, onde a autonomia já se faz presente. Ela já detém o domínio de suas decisões e faz parte deste contexto tão complexo que é a sociedade, pois agora ele vai ao além. Mas, se contentar com isso é esquecer o passado, por isso para esquecer é preciso quebrar os muros.

Movido pelo interesse em avaliar se este trabalho poderia contribuir frente à pesquisa científica, fizemos uma consulta ao banco de teses da Capes. Isto foi possível graças a uma análise quantitativa e qualitativa do banco de teses através de palavras-chaves, chegando ao seguinte resultado: performance – 1340 teses, loucura– 150 teses, CAPS III -12 teses, CAPS – 178 teses e performance loucura – 3 teses. A consulta ao banco de teses e dissertações da CAPES demonstra o interesse científico neste tema ainda incipiente. Assim, o potencial de acréscimo da presente pesquisa nesse campo consiste no esforço em indicar possíveis caminhos ainda pouco explorados.

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CAPÍTULO 1 - CORPO, LOUCURA E ARTE

O amanhecer no CAPS não é diferente das casas antigas. Nas manhãs sempre há o gosto da boa comida e o cheiro do café quente e do chá que é servido diariamente para os assistidos. Eles, na verdade, chegam bastante cedo em relação ao horário de funcionamento da instituição. Neste intervalo até começar a servir o café da manhã, ficam sentados no jardim ou na sala assistindo televisão. Outros, por um lado, preferem ficar conversando sobre as questões do cotidiano e revezando os demasiados cigarros de fumo artesanal, conhecidos popularmente como “pé de burro”.

Em uma mesa farta, contendo bastantes frutas, é servida a primeira refeição do dia. Assim é iniciada a alimentação, embalados pelas mais diversas Músicas Populares Brasileiras fazem a festa diante a partilha usualmente repetida com os demais assistidos. Sem dúvida que todos se sentem em casa. É uma rotina que é sempre lembrada por todos. Quando se dão conta da ausência das músicas, começam a cobrar, pois o fator artístico já está incorporado àquele ambiente. Comer ouvindo música é uma pulsação para vida.

Nesse tempo no refeitório, aproveitam para conversar e reafirmar participação em algumas oficinas que serão desenvolvidas naquele dia. Algumas vezes se justificam das faltas passadas ou que não irão participar neste dia. Evidenciando assim, o interesse e cordialidade para com o trabalho que está sendo desenvolvido para melhores condições de vida com suas famílias. Desse modo, reintegram o compromisso nas atividades e nas ações promovidas pelo serviço de saúde mental, tornando-o mais agradáveis e mais participativo na integração social.

Estar nesse ambiente é sistematizar uma nova possibilidade de reintegração social. A partir daí, os assistidos participam ativamente da rotina do lugar que, na medida de sua integração, faz-se de um novo jeito no que tange lidar com os novos desafios que surgem na dinâmica de cada manhã. E, por um lado, a vivência cotidiana, que é fator determinante da experiência coletiva, onde se eleva a um fazer individual, nas obrigações que concerne a uma nova visão de mundo e de vida. Na medida do aprendizado corporal que é colocado na prática a partir das pequenas ações. Segundo Greiner:

As relações entre corpo e ambiente se dão por processos co-evolutivos que produzem uma rede de pré-disposições percentuais, motoras, de aprendizado e emocionais. Embora corpo e ambiente estejam envolvidos em fluxos permanentes de informação, há uma taxa de preservação que garante a unidade e a sobrevivência dos organismos e de cada ser vivo em meio à

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transformação constante que caracteriza o os sistemas vivos. (GREINER, 2006, p. 130)

As maneiras efetivas entre corpo e ambiente no CAPS III estão de certa forma, condicionadas as perspectivas dos laços humanos de convivência coletiva. Se historicamente os assistidos perderam esse fator coletivo de autonomia e de humanidade, agora, por outro lado, se evidencia a um novo modelo de reinserção social a partir da conexão com os saberes e a construção de uma nova identidade social. Esta, que já foi foco de privações, agora recebe, em certa medida, um caminho de alegres manhãs na criação e na partilha. Como nos mostra Courtine:

[...] a modernidade se caracteriza pela solidão dos indivíduos, forçados a enfrentar aquilo que não sabem mais nomear, a doença e a potencialidade de morte que encerra. Os antropólogos constataram isto, integrando a doença sob uma nova rubrica, a infelicidade, estabelecendo padrões para uma comparação das culturas sob esse registro ampliado. (COURTINE, 2008, p. 21)

A partir desta perspectiva, podemos traçar, sobretudo, uma analogia desta solidão do assistido frente ao seu “asilo antissocial”. Para tecer essas considerações é preciso compreender os padrões de condutas da modernidade ou, talvez, a metafísica Artaudiana, pensada aquém do vazio institucional. Este, por ser excludente, é ineficaz para as manhãs que recriam os corpos diante a nomenclatura da experiência coletivizada nas instituições. A partir disso, se encerra a solidão e forma-se através da performance maneiras de lidar com o vazio institucional.

Se nas manhãs os trabalhos instauram coletividade no café, trazendo poesias corporais na criação performática, na medida em que o alimento massificado incorpora o organismo ativo do indivíduo, um diálogo os acompanha em cada amanhecer, pois o que está em jogo é o sentido experienciado. E sobre esse aspecto, vai trazer à tona possibilidades avaliativas de entendimento da situação atual. Fazendo de suas manhãs, vida e arte. E a performance, uma sistematização dessa vida na arte, de espontaneidade e naturalidade a partir do corpo presente que se relata no dia a dia.

Guimaraes Rosa, no conto Soroco, sua mãe, sua filha retrata a amargura das manhãs vividas pelas personagens nas tristes histórias de Barbacena, como nos mostra o texto a seguir:

A gente reparando, notava as diferenças, assim repartindo em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. [...]

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Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe. (ROSA, 1969, p. 48)

A expressão “trem de louco” tão popular em Barbacena, Minas Gerais, quanto a Nau dos Loucos, no ocidente, apontada por Foucault, em a História da Loucura na idade clássica, resultado do seu doutoramento na Université Paris-Sorbonne em 1961. Essas duas expressões podem ter conotações parecidas em contextos históricos distintos. Trem de louco era o termo empregado para a locomotiva que levavam os loucos a colônia psiquiátrica em Barbacena com o objetivo de exclusão social. Lá, todo tipo de pessoas eram internadas: doentes mentais, mulheres que perdiam as virgindades prematuramente, homossexuais, militantes políticos, pessoas tímidas, dentre outras. Por outro lado, a Nau dos loucos, indicada por Foucault, apresentava os mesmos propósitos: levar as pessoas que não pertenciam a um padrão social estabelecido em seu contexto para a exclusão social. Os doentes mentais, deficientes, leprosos, etc.

Mas, se voltássemos ao tempo, entenderíamos as mais diferentes abordagens que teve o enclausuramento da loucura em suas especificidades e contextos diversificados ao longo da história. Segundo Pereira (1984), a loucura é a ruptura com a realidade, é a esquizofrenia, os transtornos, as alucinações, isto é, doença mental. Toda vez que há uma suspensão do tempo, um desligamento do real, e é vivido esse “real” como se fosse a própria verdade, podemos pensar em um estágio da loucura, ou em uma psicopatia.

As psicoses se diferenciam das neuroses devido ao comprometimento psíquico do indivíduo. Se as psicoses são os conflitos mentais patológicos vividos fora da realidade, as neuroses seriam as perturbações nervosas nas quais o indivíduo se conscientiza diante do fator psicológico da sua ação cotidiana real. Assim, as psicoses apresentam um comprometimento mental no que tange as alucinações e ao mundo imaginário. Já, por outro lado, as neuroses se delimitam ao construir um sentido crítico e um juízo de valorem face de sua avaliação neurótica. Nesse sentido, as psicoses, compreenderiam o fator da loucura em sua gênese e, sob esse segmento patológico, os assistidos do CAPS III – Caminhar estão inseridos nesse fator psicótico da loucura.

Voltando na historia, a loucura foi vista em diferentes períodos com conceitos totalmente diferentes. Para (SILVEIRA, BRAGA 2005) os antigos, na idade média, acreditavam que a loucura era possessão do demônio. Por isso, talvez, temos a definição de epilepsia que permanece até os nossos dias, trazendo certa lembrança desse contexto. O termo epilepsia está dividido em duas palavras: epi, que significa abater-se e lepsis, que significa por

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cima, ou seja, abater por cima. Pois no passado, acreditava-se que vinha o demônio e chacoalhava o corpo da pessoa, que na verdade estava a ter um ataque epilético. Outra conotação era quando vinha o demônio por cima e se apoderava das ideias e sentimentos dos indivíduos, desse modo, começava a falar e ver coisas que ninguém entendia. Essas falas desconexas seriam as alucinações e delírios, o que poderia determinar uma doença mental, que coincidem com as psicoses. Também tinha uma terceira maneira de compreensão da loucura nesse contexto clássico, que era o bruxo, o ser com poderes aliado ao diabo, sendo entendido como as personalidades psicopatas.

Esse pensamento clássico perdurou até a idade média. A partir do século XVI há uma transformação na concepção da ideia da loucura, ao contexto de possessão do demônio sobre os seres humanos. A mudança de concepção do louco se dá em 1563, marcado pelo lançamento do livro Praestigiis Daemo num et Incantationibus ac Venificiis, conhecido no Brasil pelo título Da ilusão dos demônios, do médico e escritor holandês Johann Weyer. Revelando que a loucura não se trataria de possessão demoníaca, mas de questões de cunho natural. É de se pensar, obviamente, que esta ruptura é apenas apresentada como um marco histórico, no qual o pensamento se constituiria nesse período da renascença. Também é importante associar esse período as epistemologias engendradas sob a ótica de Copérnico (1473-1543), Kepler (1571-1630) e Galileu (1564-1642), tendo uma relevante contribuição no que tange as revoluções epistemológicas acerca do mundo natural e as relações do universo para com os seres humanos.

No final do século XVIII, com a revolução francesa, Pinel3 faz uma grande transformação no cenário psiquiátrico europeu. Pinel liberta as pessoas que ali estavam, no hospício de Paris, deu a liberdade aos loucos que estavam presos há mais de 40 anos. Libertou um padre que acreditava ser Jesus Cristo, e que assumindo as ideias proféticas, pregava as profecias para toda a população, utilizando seus conhecimentos, quando foi padre, para coagir as pessoas daquela determinada comunidade. Outra figura que Pinel libertou foi um alcoolista crônico, todavia, ambos não apresentavam nenhuma periculosidade para a população. Ao todo, Pinel, libertou cerca de 80 doentes mentais.

Assim, os conceitos apontados por Pessotti (2006), nos revela que a loucura é a força de não ser a razão, neste caso como potência, ou seja, só há loucura porque existe a razão, com razão não há loucura. Por isso, os loucos eram aprisionados, tendo seus diretos sociais cassados e desprovidos do convívio na sociedade dotada da razão. Mas, o que seria a razão?

3Philippe Pinel foi um médico francês, considerado o pai da psiquiatria devido as suas contribuições ao

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E, o que seria o louco? Nessa vertente em que o ser sem a razão era excluído, ficando nas casas de internamento, mas também as prostitutas, os deficientes, os doentes venéreos e os bandidos. A razão, neste caso, compreendia uma aceitação coletiva de um paradigma idealizado por alguém. Não podia o ser humano ser diferente, não podia fazer o que não devia, não podia viver de um jeito que não era reconhecido pela sociedade como um corpo dócil e adaptado as normas vigentes. Só em 1793 é que os loucos foram separados das outras pessoas, este se deu a partir de Pinel, ao introduzir a função médica no hospício Bicêtre em Paris.

Há de pensar em uma conjuntura política, onde as relações de poder se intercruzam perante as razões contemporâneas e, desse modo, reafirmam uma hierarquização do corpo apresentável4. “Se é necessário o silêncio da razão para curar os monstros, basta que o silêncio esteja alerta, e eis que a separação permanece”. (FOUCAULT, 2014, p.13). O silêncio da razão, nesta perspectiva, compõe rotinas já traçadas pela mídia e as pessoas repetem de modo sistemático esta referência, aprimorando a cada instante sua receita para o corpo perfeito e para a bela imagem do horror5. O pensamento foucaultiano engendra uma série de

significados a partir do corpo do século XXI, cuja dimensão se dá numa ótica das construções significativas em seu período histórico.

No que se refere ao tratamento aos insanos, estes eram muito diversificados, todos grotescos, que ressurgiam em cada crise. O mais comum era utilizar choques sensoriais, purgantes e de uma engenhosa giratória, no qual se amarrava os doentes numa cadeira giratória, segura por um eixo central que girava até o louco ter convulsões, vômitos, colapso circulatório, com o objetivo de “reiniciar” o cérebro e as ideias. Assim, abdicando de sua própria vontade, infligindo seus direitos mais íntimos e humanos. Foi a psiquiatria da dor e da desumanização que perdurou por vários séculos.

O louco, muito antes de ter lhe atribuído esta denominação e statusde doente mental, já construiria a sua identidade e individualidade. Essas prerrogativas valeriam mais do que uma simples definição das unidades médicas, conotando para este louco como um ser humano, bem antes das eventuais categorizações patológicas. Ao finalizar a Idade Média, segundo Foucault (2014), as individualidades se reprimiam diante do mercado medicamentoso, elegendo o tratamento ao poder médico.

4 Quando falamos de corpo apresentável, estamos nos referindo a manutenção e transformação de um corpo midiático. Corpo, este, que está em mutação na contemporaneidade. Assim, “o corpo contemporâneo é adorado e laboriosamente esculpido como uma imagem que deve permanecer sempre lisa e polida”. (SIBILIA, 2004, p. 126)

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No Continente Europeu, período da Renascença, foi sistematizado uma maneira arcaica de lidar com o louco, retomado os saberes e as velhas ideias pelo alienado. Nessa vertente, tem-se ao investimento ao conhecimento artístico e cultural e, sob este acontecimento, surgem os primeiros hospitais para tratamento mental, tendo a arte como um instrumento de mediação para o tratamento do louco, pois compreendia comprometimento em sua totalidade: corpo, loucura e arte.

A totalidade entre corpo, loucura e arte tem na performance uma forte potência de transformação do cenário caótico construído pelos poderes médicos sob uma “ideia” de corpo, onde, todavia, era o fator de domínio e de repressão dos loucos em uma tortura eminentemente social e normatizada pela classe da saúde com objetivo de enclausuramento. E, nesse limiar, a performance tem como objetivo coagir a libertação dos indivíduos na frente de batalha, onde o aprisionamento é o cenário das lutas e das insurreições que foram construídas historicamente. E neste momento devo lembrar que, para Artaud:

[...] por mais delirante que possa parecer essa afirmação, que a vida presente se mantém em sua velha atmosfera de estupro, de anarquia, de desordem, de delírio, de desregramento, de loucura crônica, de inércia burguesa, de anomalia psíquica (pois não é o homem, mas o mundo que se tornou um anormal), de proposital desonestidade e de insigne tartufice, de imundo desprezo por tudo aquilo que tem raça, de reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma injustiça primitiva, de crime organizado, enfim. (ARTAUD, 1970, p. 256)

Após a Revolução Francesa, com o tratamento moral difundido por Pinel, no Continente Europeu, o louco torna-se mais vulnerável, haja vista que a alienação agora sob novos conceitos perde seu caráter institucional de filantropia, passando ao internamento do louco difundido em tratamentos, cujo trabalho se evidenciou ao tratamento do alienado, ligando seu tratamento ao trabalho e, sob esta prática, consecutivamente a saúde.

Sobre este acontecimento histórico, Foucault (2014) nos alerta diante deste campo das artes como um procedimento terapêutico, pois perdera as artes, sua praticidade terapêutica diante dessa nova sistematização institucional a partir do tratamento moral, uma vez que a ênfase se dava ao trabalho para o tratamento aos insanos. Por outro lado, as artes, as peças teatrais, a música e os espetáculos eram vistos como insultos a moralidade, pois, representavam, naquele período, desconexões para os loucos, no qual, o espetáculo, se formava de ilusões e disfunções mentais para o alienado.

A loucura também se evidencia a partir de interesses pelos artistas diante a sua obscura subjetividade. Suas obras se propunham a uma proximidade entre arte e loucura, onde essas

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duas dicotomias se esvaneciam diante do poder criativo construtivo da arte, como uma condição da vida, que altera em cada ciclo e se contorna em cada sensibilização nesse campo “inapreeendido” acima da consciência.

Temos como grandes premissas a loucura e as ideias filosóficas assim como nas artes, a exemplo de Nietzsche, Artaud e Van Gogh que aparecem com grandes evidências de pertencimento a este universo da loucura, sendo que suas obras de arte fazem parte de suas identidades e do seu mundo vivido. Artaud, Nietzsche e Van Gogh, no século XIX, aceitam a loucura e dão um significando de grande valia para sua ambiguidade filosófica e artística. A partir daí, a psiquiatria denota certa preocupação diante das produções deste corpo louco, analisando não só seus processos construtivos criativos, mas também seu caráter psicossocial diante dos transtornos mentais aos alienados.

No Brasil, temos dois criadores bastante importantes que exploram a questão da loucura na arte: Qorpo-Santo e Machado de Assis. Este último, no século XIX, se especializou em escritos relacionados ao tema da loucura, buscando experiências que pudessem dialogar com questões da loucura vivenciadas pelos seus inúmeros personagens, como por exemplo, em seu conto “O Alienista” que retrata a discussão pela norma e pela busca da existência entre loucura e razão, pautada na exploração da alma humana.

Qorpo-Santo, por sua vez, tem o contato com a loucura em sua vida e obra. Sendo conhecedor do que se passava no manicômio no qual foi interno, dedicou-se ininterruptamente ao exercício da escrita. Para ele, o fator da escrita era indispensável em sua vida, algo essencial a sua existência. O ato da escrita fez dele uma pessoa de bastante conhecimento neste campo da loucura. Outrora, o seu grito em seus textos, o tornaria conhecido no meio literário e artístico.

Nesse seguimento artístico da saúde mental, a arte não será apresentada a partir de uma técnica estabelecida a priori, contudo, a uma arte do ser sensível, em uma totalidade humana. E a arte, para o louco, em sua prática, desperta suas sensações e emoções, atingindo o campo sensível, o emocional. Assim, a criação desse corpo louco em sua totalidade é arte e vida, pois pulsa a cada amanhecer e funde em cada estação, ela é uma forma de expressão do inconsciente coletivo.

O inconsciente coletivo, para Jung (2000a), é um conjunto de sensações, sentimentos, lembranças que são compartilhadas pela humanidade ao longo do tempo. Assim, ele é herdado diante um reservatório de imagens que cada pessoa herda inconscientemente de seus ancestrais do passado. O ser humano não lembra conscientemente das imagens arquivadas, mas estabelece uma predisposição para reagir ao mundo de forma como seus ancestrais o

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faziam. Sendo assim, esse campo teórico do inconsciente coletivo estabelece que o ser humano nasce com inúmeras predisposições para pensar, agir e entender de certas maneiras. E, nesse segmento, apresenta uma teoria da percepção, como nos mostra Merleau-Ponty:

A teoria do esquema corporal é implicitamente uma teoria da percepção. Nós reaprendemos a sentir nosso corpo, reencontramos, sob o saber objetivo e distante do corpo, este outro saber que temos dele porque ele está sempre conosco e porque nós somos corpo. Da mesma maneira, será preciso despertar a experiência do mundo por nosso corpo, enquanto percebemos o mundo com nosso corpo. Mas, retomando assim o contato com o corpo e com o mundo, é também a nós mesmos que iremos reencontrar, já que, se percebemos com nosso corpo, o corpo é um eu natural e como que o sujeito da percepção. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 278)

Nesse sentido, o corpo é a porta de conexão com o mundo e sua relação se estabelece no momento do desenvolvimento das relações nas mais diversas culturas. Em cada lugar, o corpo se conecta ao contexto em que ele imerge, trazendo consigo seus costumes, crenças e valores experienciados ao longo da vida. Podemos pensar, sob esta esfera, a condição do louco no ambiente psiquiátrico e sua relação cotidianamente com a privação da liberdade.

Trazendo este contexto para a reforma psiquiátrica, o Brasil inicia suas discussões a cerca da reforma psiquiátrica em termos terapêuticos em saúde mental com grande influência da psiquiatria Italiana. Essa luta se deu pelas condições precárias no país, no âmbito institucional, que teria como intuito assegurar uma reforma consistente na psiquiatria brasileira. Com a criação de leis e de várias portarias em saúde mental no Brasil, com o forte intuito de atenção psicossocial e numa perspectiva de inserir o louco na sociedade, foram criados os CAPS.

Os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, são espaços terapêuticos que visam à substituição progressiva dos manicômios. Com uma abordagem diferenciada ao assistido, os CAPS, se diferenciam dos hospitais psiquiátricos pela sua consonância psicossocial e de reinserção frente à sociedade. Ao proporcionar ao assistido um tratamento mais humano, torna-se uma verdadeira potência ao tratamento diante os profissionais que ali atuam, tendo sua autonomia preservada para participar ativante em seu contexto cultural e social.

Em sua estrutura de funcionamento, os CAPS, tendem uma maior abertura para a inserção desses assistidos a partir da arte, uma vez que as oficinas terapêuticas são consideradas de bastante relevância para o tratamento mental. As oficinas de arte tem sua importância pela conjuntura do trabalho coletivo oferecida pelos profissionais da saúde

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mental6. Neste sentido, as oficinas proporcionam ao assistido o trabalho criativo a partir de suas expressões e emoções, funcionando também como um apaziguante do processo de resoluções de dificuldades, potencializando a cidadania do assistido e fomentando seus direitos e deveres diante do seu contexto.

Tabela 1: Equipe do CAPS III Caminhar

CAPS III – Caminhar

Profissão Números de profissionais

Assistente social 2 Assistente de farmácia 2 Almoxarifado 1 Auxiliar administrativo 1 Educador Físico 2 Enfermeiro 4 Farmacêutico 6 Limpeza 5 Médico 2 Músico 1 Técnico em artes 3 Técnico em Informática 2 Técnico em enfermagem 5 Vigia 4

Fonte: Arquivo Pessoal.

As oficinas terapêuticas não apresentam em suas finalidades uma produção do objeto estético, nem tão pouco formar artistas. Elas são redutores de riscos, um instrumento de conotação positiva para indivíduos, pois ela é a chave que leva aos sonhos e aos prazeres mais primitivos. E, o sonho, na saúde mental, é uma qualidade de aceitação e de pertencimento, outrora a ausência de sonho é o corpo louco enclausurado, é o corpo sem as suas amarras condicionantes, é a obscuridade da vida.

Os corpos dos participantes, na cena, foram decodificados pelas suas expressões, que demonstravam, muitas vezes, perturbações, devaneios, entre outros aspectos. Há de se destacar os delírios, as movimentações, falas, interação e intervenção, todas numa perspectiva real da vida de cada indivíduo. O pensamento desorganizado ou a habilidade motora fora dos padrões “normais” são algumas atitudes de um assistido com transtorno mental severo ou

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persistente, por exemplo. Um dos participantes fazia um roteiro estabelecido pelo seu estado físico e mental. Pautado nesse percurso, na performance, ora gritava, ora falava alguma coisa desconexa com a realidade.

Estes corpos, na maioria das vezes, permanecem em uma alucinação que reage a esses “estímulos”, ficando como se estivesse sempre “representando”. Estas simbologias, do cotidiano dos participantes, revelam sua forma de andar, a fala ininterrupta, os gritos e as movimentações, causadas pelo transtorno mental e assim nos conduz a uma performance corporal. Desse modo, a performance se conecta ao seu fator histórico, pois ela apresenta em sua história uma ligação com o individual: o performer. Segundo Cohen, (2007, p. 102) “Na performance, a ênfase se dá para a atuação e o performer é geralmente criador e intérprete de sua obra”.

Os ditos “loucos” a exemplo de Qorpo Santo, Bispo do Rosário, Artaud, Van Gogh, dentre muitos artistas que a sociedade rejeitou por fugir das normas convencionais empregadas pela sociedade, deixaram uma variedade de obras artísticas, que impressiona quem vê. O fato de esses artistas enxergarem a vida fora dos padrões pré-estabelecidos pela sociedade, foram alvos de julgamentos prematuros e prisões convulsivas. Sobre essa analogia podemos pensar os assistidos do CAPS e o processo criativo da performance, realizado por eles. Para Tonezzi:

Por muito tempo – como, por vezes, ainda hoje – buscou-se afastar do espaço social as pessoas que, de alguma maneira, não se enquadravam nos padrões estabelecidos de corpo e de comportamento. A deformidade física, bem como os distúrbios de comportamento, a partir de um julgamento reforçado por crenças, leis e hábitos exercidos durante séculos, eram considerados motivo de isolamento, de privação do convívio social ou, até mesmo, de execração pública. (TONEZZI, 2011, p.20)

Essas privações sociais e rejeições preconceituosas, presentes ainda nos dias atuais, podem inibir o “louco” da apresentação e criação artística de sua obra, seja ela em qual esfera for. Sobre este aspecto, nos relata Silva:

Muitas vezes a loucura, como estado de extremo sofrimento psíquico, faz calar o artista, mergulhando-o em um sintomático silêncio existencial e criativo. Outras vezes, sua subjetividade deteriorada o conduz a uma cantilena infinda, ininteligível, desastrosa, cujo sentido beira a um grau zero e que, ao final, equivale àquele mais profundo silêncio. Essa tagarelice porta uma lógica própria da linguagem da loucura e, interpretada na escuta psicanalítica, pode alcançar um sentido para o aparente nonsense de fragmentos, repetições, palavras em liberdade. (SILVA, 2008, p.125)

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Por esse viés, há de se evidenciar, a partir da reforma psiquiátrica, uma nova possibilidade de criação artística no ambiente do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). A ação artística dos assistidos do CAPS apresenta uma variação entre o real e a representação, podendo ser entendida por um ato performático em meio aos corredores da instituição. A movimentação corporal do participante nos remete a uma performance, providos de inúmeras variações de signos no espaço de convivência. Engajando e fazendo da ação do performer uma movimentação coletiva imprevisível. Nessa compressão podemos associar as ideias de Artaud, diante do seu manifesto teatral. Assim,

O teatro seria um delírio provocado pela desarmonia criada entre forças físicas e espirituais contrárias, fazendo com que o verdadeiro eu ou o outro venha à tona, o duplo, que vem provocar transformações. Esta suposição cênica foi aquela que Artaud nomeou Teatro da Crueldade, que para ele tinha o significado de um rigor cego desencadeado pela vida, pela tensão que provoca no espírito das pessoas. A vida por si traz uma tortura diária e um constante espezinhar de tudo. Nessas bases, podemos encontrar, desde o nosso nascimento, uma estrutura cultural pronta a que devemos nos adaptar. Na maioria das vezes, esta adaptação é permeada por questionamentos sobre as estruturas encontradas durante o exercício da vida, causando muitas vezes um sofrimento físico ou espiritual. Como podemos ver, esta inquietação pode ser apaziguada também pelo teatro de acordo com teoria postulada por Artaud e entendido como eficácia mágica, próxima do ritual religioso ligado, portanto, ao sagrado e ao que as religiões são capazes de operar na vida das pessoas. (SALLES; OLIVEIRA, 2012, p.61)

As possibilidades de criação performática numa visão Artaudiana, refletem seu longo campo de atuação prático em sua vida. O teórico teatral, portador de transtorno mental, que viveu durante muito tempo preso em manicômios. Artaud treinava no manicômio seu corpo e sua voz, além de escrever e desenhar, com o intuito de se distanciar das energias negativas que o cercava. Desenvolveu habilidades e denominou esse processo como Teatro da Crueldade. “No ponto de desgaste a que chegou nossa sensibilidade, certamente precisamos antes de tudo de um teatro que nos desperte: nervos e coração”. (ARTAUD, 1999, p.95)

Os sentidos e a sensibilidade que se aproximam desse “despertar” nos movem e nos ensina algo de novo, pois nesse pulsar da vida cotidiana é o que nos impulsa para a percepção do mundo. De modo que as nossas sensações fiquem cada vez mais fragmentadas e desconexas do campo sensível. Courtine (2008, p. 16) nos mostra uma parcela dessa perda, nos alertando que “Antigamente, a doença se desenrolava em tempo real, e o corpo era nesse caso o teatro de um drama repleto de majestade. Instalava-se um ritual que se estendia por dias, ritual que a família vivia com angústia, mas também na esperança da cura. ”

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A dicotomia entre angustia e esperança é de enorme poder para estabilidade emocional. Na medida em que ela se estabelece, torna-se equilíbrio o ritual da vida na cena. Allan Kaprow (1983, p. 36) aponta que “A arte Ocidental possui duas vanguardas históricas: uma é a arte como arte, outra é a vida como arte.”. Para este último, a arte está conectada a vida. Talvez, seja este tipo de conexão que a arte que nos desperte não só nervos e coração, mas também todos os nossos órgãos, o nosso sangue e o nosso corpo. E,

Meu corpo é a materialização daquilo que me é próprio, realidade vivida e que determina minha relação com o mundo. Dotado de uma significação incomparável, ele existe à imagem de meu ser: é ele que eu vivo, possuo e sou para o melhor e para o pior. Conjunto de tecidos e de órgãos, suporte da vida psíquica, sofrendo também as pressões do social, do institucional, do jurídico, os quais, sem dúvida, pervertem nele seu impulso primeiro. (ZUMTHOR, 2007, p. 23)

Seguindo a seara aberta pelos estudos de Artaud, a performance será entendida como uma potencialidade de reorganização da existência do ser humano em seus meios, mostrando aos espectadores o sentido real de suas perturbações. Artaud acreditava que a única forma merecedora de incentivo era a libertação do ser humano. Em sua libertação, o teatro não vai estar ligado diretamente às potencialidades da “arte e da beleza”, pois representa em seu sentido natural uma reestruturação da vida em si mesma, mostrando uma realidade das alucinações, levando a imagens e sentimentos no momento das crises.

Esses sentimentos são evidentes nas potencialidades dos assistidos, cuja expressão representa um mundo, uma imagem que traz da realidade dos “loucos” um universo de liberdade e, sem dúvida, o performer. E sendo a arte da performance um mecanismo forte de criação, se faz presente com a fala do corpo, ao refletir sobre suas intimidades improvisadas nas cenas.

As performances adentram inúmeras possibilidades de codificação corporal desse universo real, reproduzindo além de poéticas do corpo, musicalidades e danças na “ressurreição” do próprio corpo. Assim, o corpo submetido aos caminhos da arte parece ir reencontrando o significado da vida, se opondo aos mecanismos das internações e mostrando a força em querer participar da sociedade de modo efetivo. Para Virmaux:

A necessidade de comunicar-se com os homens toma também a forma do desejo de ser reconhecido por eles, e é terceiro modo de provar que o teatro é uma chave decisiva para o universo de Artaud. Ser reconhecido pelos homens significa, primeiramente, ser aceito como um deles, e, depois, ser

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