CAPÍTULO 3 – QUEBRANDO MUROS: A PERFORMANCE E SUAS
3.2 QUEBRANDO OS MUROS COM A PERFORMANCE
Schechner compreende por performance o "ser, o fazer, o mostrar fazendo, o explanar mostrando como se faz" (SCHECHNER,2007, p. 28). Com esse entendimento podemos quebrar os muros que nos cercam na vida contemporânea. Ao mesmo tempo, ser a própria arte, fazendo de sua limitação social, uma ferramenta de bastante relevância para a ruptura de reinserção na arte. Removendo desse percurso, as melhores essências desse fazer artístico através dos trajetos que os cercam entre a paixão pela arte e a tensão da vida cotidiana.
Nessa vertente, usaremos a simbologia metafórica a partir do “quebrar o muro”, na medida em que essa especificidade vem à tona, no qual se torna uma vanguarda na performance diante da posição que se estabelece neste novo cenário para o assistido. O ato de corromper as barreiras entre instituição e público é, em certa medida, uma colisão com o tempo, em um lado o Estado e os poderes médicos. Em outro limiar, temos o público reprimido pela performance ininterruptamente popularizada entre os espectadores comuns da sociedade.
A partir dessa conjuntura de ruptura, o assistido na performance ganha certa notoriedade nesse jogo simbólico, representado pela arte. Quando suas ideias são jogadas diante os espectadores, é uma forma de assegurar as suas autonomias perante a qual os cercam. Assistindo os seus corpos na cena que vivem e revivem sua persona, assim como um fio condutor do seu próprio eu, pois o ato inconsciente é, sobretudo, o processo pelo qual a vida se aproxima da realidade e a realidade, torna-se vida, sem representações. Para Jung:
Se existem processos inconscientes, estes certamente pertencem à totalidade do indivíduo, mesmo que não sejam componentes do eu consciente. Se fossem uma parte do eu, seriam necessariamente conscientes, uma vez que tudo aquilo diretamente relacionado com o eu é consciente. A consciência pode até ser igualada à relação entre o eu e os conteúdos psíquicos. Fenômenos ditos inconscientes têm tão pouca relação com o eu, que muitas vezes não se hesita em negar a sua própria existência. Apesar disso, os mesmos manifestam-se na conduta humana [...] Há muitas provas de que a consciência está longe de abranger a totalidade da psique. Muitas coisas acontecem num estado de semiconsciência, e outras tantas sucedem inconscientemente (JUNG, 2000a, p. 170).
Contudo, o conteúdo do inconsciente é desconhecido pela consciência, haja vista que existem lacunas na subjetividade do assistido. Nessa especificidade, o fator da consciência do assistido não é o todo do indivíduo psíquico, pois as experiências do cotidiano são esclarecidas somente pela hipótese dos processos psíquicos do inconsciente que vem à tona, através dos chistes e de expressões artísticas, como no processo criativo da performance, nas cenas que vão sendo criadas, por exemplo, todavia, põem em questão o “eu” e seus conteúdos em conexão com o "todo".
Rosele e Goldberg (2006), analisando o percurso do artista performático Alemão Joseph Beuys, nos relatam da sua revolução diante a performance. Nas transformações que a arte poderia modificar tangenciando a vida cotidiana das pessoas e que a revolução deve ocorrer primeiramente no íntimo humano. Assim, sendo este humano livre e criativo, é capaz de conduzir um processo de transformação novo e original, revolucionado, todavia, a época e um tempo. Lutando consequentemente por uma revolução do pensamento humano.
Se o sentido original da palavra “humano” que é derivado do grego “húmus”, cujo significado é terra fértil, nessa perspectiva, a performance apresenta a fertilidade do encontro criativo entre o assistido, que é em sua gênese, um ser performático, pois engendram possibilidades em face de arte nas intervenções urbanas. No qual o ato performático é o encontro consigo mesmo. Para Merleau-Ponty, “Toda percepção interior é inadequada porque
eu não sou um objeto que se possa perceber, porque eu faço minha realidade e só me encontro no ato”. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 512).
Nessa ótica, a realidade do assistido se mantém intacta nesse encontro com a arte, e esse encontro é estabelecido a partir das trocas de saberes em sua performatividade. Sendo este um recurso que propõem uma quebra de significados e de mudanças diante o público é, por sua vez, colocar em discussão a ideia de “si - mesmo como um outro” (RICOEUR, 1991). Assim, a sua identidade pessoal se conecta a temporalidade da performance e, o tempo, passa a ser uma dimensão da existência humana no ato de desenvolvimento da performance.
Essa dimensão pode ser compreendida sob a especificidade dos campos onde “quebrou-se os muros” com a performance nos diferentes lugares, onde se manteve uma ruptura com os diversos seguimentos sociais. A ruptura impôs a entrada dos assistidos em lugares pouco explorados e por essa medida, tornou-se uma intervenção e apropriação dos lugares até então desconhecidos para os participantes. Assim, em certa medida, a performance se concretizou além das barreiras institucionais fazendo da ação coletiva, um ato múltiplo.
Na medida em que a performance se desenvolvia, a contextualização do lugar era suprimida do roteiro e passava a ser parte integral do desenvolvimento artístico. Desse modo, o performer, se conecta diante as interações impostas pelo lugar da ação. Portanto, “o “onde” deixou de ser apenas o lugar em que o artista se apresenta, transformando-se em um parceiro ativo dos produtos cênicos. Ao invés de lugar, o onde se tornou uma espécie de ambiente contextualizado”. (GREINER, 2006, p. 130). E, por outras vias, o ambiente contextualizado passa a ser um mecanismo de ação na performance para o assistido.
Entende-se que a performance permite aos assistidos uma convivência com seus problemas do cotidiano, medos, conflitos internos, problemas familiares e ansiedades de uma maneira menos dolorosa. Nesse sentido, o fator artístico para o assistido representa uma ferramenta de bastante relevância para canalizar de modo positivo as faces da doença mental. Consequentemente percebe-se que há uma diminuição bastante relevante dos fatores negativos de ordem afetiva e emocional, como, por exemplo: briga com a família, angústia, estresse, irritabilidade, isolamento social, indiferença, etc.
Desse modo, o trabalho performático com os assistidos deve centrar-se na articulação de suas práticas, no sentido de criar novos modos existenciais que sirva de referência para o assistido. “Nada sentimos sem representar o que sentimos” (NASIO, 2009, p. 141). E essa representação se consolida com afetividade na vida cotidiana do indivíduo, formando, assim, laços humanos.
As experiências artísticas realizadas pelos assistidos em sofrimento mental buscam integrar o produzir com a criatividade e o criar com satisfação. Nessa perspectiva, a performance torna-se um instrumento de bastante importância para a inserção e a expressão de novas subjetividades do assistido, produzindo um novo universo a partir da arte e outros modos de ser e de estar no mundo.
Diante desse fator, a arte está imbuída de potência para a reinserção do individuo, neste caso a partir da performance, proporcionou-se o desenvolvimento livre da imaginação, possibilitando que o indivíduo participe concretamente da produção da arte. A arte, de tal modo, despotencializa a carga energética emocional das imagens negativa da experiência pessoal de cada assistido, promovendo a reorganização interior e reconstruindo suas vidas de modo mais real. Nesse viés, Vera vai dizer:
Sempre quando participo da oficina de teatro me sinto melhor. Queria que todo dia tivesse aula de teatro no CAPS. Só aqui é que me sinto bem. Gosto muito do teatro. E gosto de me apresentar, de ir para outros lugares e levar tudo que aprendi para os outros. Fazendo performance me sinto viva.
Assim, estimular a expressão de subjetividades singulares dos assistidos, que rejeitam qualquer tentativa de preconceito e rótulos sobre a loucura, é de fundamental importância para a modernização e organização do trabalho coletivo envolvendo a arte nesta esfera da atenção psicossocial.
Por fim, deve-se compreender que as atividades desenvolvidas por esse viés artístico como um espaço que propicia o convívio entre múltiplas singularidades, por meio de diferentes formas de expressão e de contatos com o meio e o mundo, tornando cada vez mais saudável a convivência do assistido com ele mesmo no ambiente que ele não tinha convivido antes.
Espera-se, em certa medida, que o livre movimento de expressões como a performance e as criações artísticas na sociedade, para que, a partir daí, se possibilite uma transformação nos modos de compreensão acerca dos assistidos com transtornos mentais severos ou persistentes. A performance potencializa a expressão de emoções, criando assim, novas subjetividades e outras maneiras de ser e estar no mundo. O trabalho a partir da arte é um importante meio de superação da estigmatização e exclusão da loucura, além de contribuir para a reinserção social desses assistidos que por muito tempo permaneceram enclausurados e esquecidos.