1. INTRODUÇÃO
3.5 A PERFORMATIVIDADE REPENSADA: ESPAÇO E TEMPO
coletivo e material que envolve a performatividade. As modalidades de realização performativa envolvem, necessariamente, uma coletividade que contribui a elaborar os enunciados performativos e a materialidade dos elementos sobre os quais se apoia esse trabalho (DENIS, 2006, § 15). Apesar de Austin ter ressaltado que os enunciados performativos não podem ser considerados de maneira solitária, porque precisam de um auditório que será performado pelo enunciado e que também participa na produção das condições de felicidade, sua ênfase, no entanto, se limita aos próprios enunciados e aos enunciados falados, ditos. O aspecto coletivo apontado pelos novos estudos sobre performatividade vai além do enunciado, especialmente quando os estudos saem da situação comum de palavras ditas e tratam também de escritos para revelar uma pluralidade de entidades enunciadoras: “l’énonciation performative est à la fois résultat et source d’un engagement collectif”139 (DENIS, 2006, §
17).
No campo dos Science Studies, Bruno Latour e Michel Callon, ao
138Na revista encontram-se trabalhos nos campos das ciências da informação e comunicação, gestão, sociologia, etnologia e antropologia (cf. DENIS, 2006). 139Tradução livre: “a enunciação performativa é, ao mesmo tempo, resultado e
estudarem a maneira pela qual os fatos científicos são estabelecidos, circulam e participam da performação do mundo que eles descrevem, enfatizam o aspecto coletivo da performatividade:
Pour qu’ils deviennent de « véritables » performatifs, les faits, les théories ou les formules doivent circuler dans des chaînes de traduction qui consolident l’assemblage des entités qui le composent et leur permet d’acquérir le statut de «
matters of fact ». Cette circulation nécessite un
travail collectif sans lequel ce qui est performé se délite et finit par disparaître.140 (DENIS, 2006, § 18)
O aspecto material, por sua vez, relaciona-se a uma preocupação em evitar a falsa impressão de que tudo se resume à linguagem, mas também sem cair em um culturalismo que atribua as condições de felicidade a convenções abstratas de uma cultura. Em especial os estudos sobre a performatividade dos escritos contribuem a revelar o papel desempenhado pela materialidade: há, por exemplo, um computador ou um papel que tem a sua importância na realização dos atos. Ao estudar a antropologia da escritura, Beatrice Fraenkel (2006) apresenta um bom exemplo do suporte material, segundo ela, uma proibição de adentrar a algum lugar se realiza como proibição caso esteja enunciada em um cartaz e afixada em um local visível. Fica evidente, nesse exemplo, que a força da performatividade depende não somente da forma gramatical e da situação de enunciação, mas também das características formais e materiais dos objetos (DENIS, 2006, § 19).
Em seu estudo de Sociologia Econômica sobre a performatividade, Callon também trata desta preocupação material ao mostrar que a performação da economia pela Teoria Econômica se realiza por meio de agenciamentos sociotécnicos em uma relação mútua de ajustes entre os enunciados teóricos e esses agenciamentos (cf. DENIS, 2006, § 20; CALLON, 2007).141
140Tradução livre: “Para que eles sejam ‘verdadeiramente’ performativos, os fatos, as teorias ou as fórmulas devem circular nas cadeias de traduções que consolidam a reunião das entidades que a compõe e lhe permitem adquirir o status de 'matéria de fato'. Essa circulação precisa de um trabalho coletivo sem o qual o que é performado se reduz e termina por desaparecer.”
141“[...] la « performation » de la pratique (economics) par la théorie (economy) s’opère dans un jeu d’ajustements mutuel entre des « agencements sociotechniques » et les énoncés. Insister sur ces agencements, et donc rappeler encore l’intérêt de la théorie de l’acteur-réseau pour les objets techniques, est
Por fim, a questão temporal implica em considerar a performatividade para além do momento de pronunciação do enunciado. Performar é um processo dinâmico e contínuo de estabilização, pois não se performa de uma vez por todas (DENIS, 2006, § 25). Assim, a performatividade não é vista como uma qualidade, mas como um processo que deve ser sempre alimentado. Nos trabalhos de Michel Callon sobre a performatividade em economia, o aspecto temporal fica evidente com a lenta estabilização dos enunciados que são colocados à prova em situações reais: “C’est lorsqu’ils arrivent à durer, c’est-à-dire à
s’inscrire dans le monde (par l’intermédiaire d’objets, de textes, de
dispositifs techniques complexes) que leur performativité s’accomplit.”142 (DENIS, 2006, § 24).
A adoção da ideia de performatividade pelo campo conhecido como Science Studies (SS) é que me interessa aqui. A terminologia em inglês refere-se a um campo que congrega os estudos de História, Antropologia ou Filosofia que se preocupam com os efeitos que as atividades científicas produzem na realidade.
Para Callon, a contribuição dos estudos nesse campo é mostrar um terceiro caminho possível entre o realismo e relativismo, entre internalismo e externalismo, ou seja, entre a visão de que os fatos científicos são logicamente (metodologicamente justificados) ou socialmente causados, respectivamente143. Essa terceira via considera que
as ciências realizam um duplo trabalho de representação e intervenção ao
selon M. Callon essentiel pour détacher le modèle de la performativité de celui de la performance au sens théâtral du terme et ses excès culturalistes”. (DENIS, 2006, § 20) Tradução livre: “[...] a ‘performação’ da prática (economics) pela teoria (economy) se dá em um jogo de ajustamentos mútuos entre os 'agenciamentos sociotécnicos' e os enunciados. Insistir sobre esses agenciamentos, e então reavivar o interesse da teoria do ator-rede pelos objetos técnicos é segundo Callon essencial para afastar o modelo da performatividade daquele da performance em um sentido teatral do termo e seus excessos culturalistas.”
142Tradução livre: “É quando eles chegam a durar, quer dizer à se inscrever no mundo (pelos objetos intermediários, textos, dispositivos técnicos complexos) que sua performatividade se realiza”.
143“A intenção era opor-se a uma história puramente intestina das ciências que se contentasse em buscar uma genealogia das descobertas científicas, e conceber o máximo de atenção aos trabalhos que acentuavam as ligações com uma história externa, levando em conta o contexto social, desfazendo-se de ‘certas tendências marxistas’ que queriam reduzir a ciência a um objeto socialmente construído.” (DOSSE, 2003, p. 30)
mesmo tempo:
[…] as ciências e as técnicas “explicitam” a realidade ao construí-la e a constroem ao explicitá- la. Este processo de explicação mantém simultaneamente a existência de uma realidade que resiste, que não faz simplesmente qualquer coisa, e a idéia de que esta realidade, envolvida em diversas provas, pode resistir de várias maneiras; resumidamente: ela é múltipla, ambígua e, porque não, construída ou instituída, instalada. (CALLON, 2009, p. 386)
Esse campo de pesquisa se debruça não somente sobre os efeitos das ciências naturais, mas também sobre os efeitos que as Ciências Sociais produzem e, dentre elas, as ciências econômicas. O projeto de estudar os efeitos das ciências econômicas foi proposto e desenvolvido por Michel Callon. Seu conceito de performatividade é herdeiro do conceito de Austin: um discurso é performativo quando contribui para construir a realidade que ele descreve (CALLON, 2007, p. 316). Segundo Callon, Austin teria produzido a “virada pragmática” nos estudos da linguagem ao afirmar que todos os enunciados são performativos (ou ilocucionários) e que não há enunciados puramente constativos.
Porém, para que esse conceito se aplique aos estudos sobre a economia, Callon (2007, nota 6) afirma que o conceito de Austin deve ser enriquecido, por meio da virada semiótica e da virada da Actor-Network Theory (ANT) ou Teoria do Ator Rede (TAR).
A virada semiótica implica em se insistir no fato de que o contexto da enunciação está incluído na enunciação, a enunciação produz o contexto, ele não existe previamente. Isto quer dizer que se um enunciado age é porque não pode ser separado do ato de enunciar e este não pode ser separado de seu enunciador e seu receptor (cf. DUMEZ, 2007, p. iv).
Para ir além do discurso não basta a virada semiótica, é preciso também passar pela virada que se faz possível pela ANT ou Sociologia da tradução que implica em considerar a materialidade na composição desse contexto: o contexto instituído pela enunciação não se compõe somente de linguagem, mas de elementos heterogêneos, do que Callon chama de
agenciamentos sociotécnicos.
A compreensão do que são os agenciamentos exige uma breve imersão na proposta da ANT, pois essa proposta teórica que se iniciou nos anos 1980 e teve continuidade nos anos 1990, deu origem à teoria dos agenciamentos sociotécnicos dos anos 2000 (CALLON, 2009, p. 399).