1. INTRODUÇÃO
3.2 A CONTRIBUIÇÃO DE KARL POLANYI
3.2.1 A Ressignificação do conceito de enraizamento na Nova
A NSE retoma a tese de Polanyi (2000, 2012) de enraizamento da economia na sociedade, porém, sem vinculá-la ao edifício teórico de Polanyi que a considera de uma perspectiva macrossociológica e histórica que, como visto, serve a ressaltar a excepcionalidade da sociedade de mercado em que não haveria enraizamento da economia na sociedade.
[...] se em Polanyi ele [o conceito de enraizamento] se encontra associado a um nível macro(económico) e é utilizado para evidenciar o carácter excepcional da economia capitalista de mercado – que se encontra desincrustada da sociedade –, na NSE, por seu turno, é normalmente associado a um nível meso (e até micro), sendo preconizado que todas as economias – incluindo a capitalista – estão incrustadas, ou seja, as acções económicas dos indivíduos estão sempre inseridas em redes de relações sociais. (MACHADO, 2010, p. 1)
A NSE, por sua vez, utiliza-se da tese do enraizamento para analisar de maneira empírica e microssociológica como se dá esse enraizamento nos mercados concretos. A posição defendida por Granovetter (2007) é de que não há uma distinção tão grande do grau de imersão do comportamento econômico nas sociedades não mercantis e nas sociedades modernas, ou seja, ele rejeita a posição de Polanyi sobre a autonomização do comportamento econômico nas sociedades de mercado atuais, ou ainda, ele considera que o capitalismo do século XX não é autonomizado como o capitalismo do século XIX analisado por Polanyi (2000, 2012).
Como explica Michele Cangiani (2012), Polanyi utilizou-se da noção de enraizamento em um sentido bem particular que o permitia distinguir o capitalismo como um sistema social de outros sistemas sociais anteriores. Enquanto a Sociologia Econômica trata de organização social como o contexto do comportamento econômico individual, Polanyi
estava preocupado com os sistemas econômicos e a atividade econômica como social e historicamente localizadas. Assim, o conceito de enraizado/desenraizado se refere a um nível mais abstrato de análise em que “a organização da sociedade de mercado é definida em seus traços gerais e em conformidade com outras formas sociais.” (CANGIANI, 2012, p. 13). Para Cangiani (2012), quando a Sociologia Econômica tende a afirmar que toda economia é sempre enraizada na sociedade, realiza uma falácia sociologista que torna difícil distinguir os sistemas econômicos entre si e deixa de visualizar as características gerais de configuram a sociedade de mercado.
No entanto, Granovetter, ao retomar o conceito de enraizamento, enfatiza que Polanyi realiza uma clivagem entre as sociedades primitivas e a sociedade de mercado, enfatizando que somente naquelas a economia estaria inserida na sociedade, enquanto na sociedade atual estaria descolada das relações sociais (STEINER, 2006, p. 41). O que Granovetter (2007) faz é, como explica Steiner (2006) abrir um campo de pesquisas empíricas em que se busca visualizar de que maneira e em que medida o mercado está enraizado nas relações sociais. Assim, diferentemente da abordagem de Polanyi, a NSE não faz uma abordagem puramente histórica, mas descreve de maneira original o suporte das relações mercantis.
A NSE, nesse sentido, maneja o conceito de enraizamento da economia, referindo-se ao mercado como uma estrutura social, ou seja, um conjunto de regularidades mantidas por mecanismos diversos117
(BRISSET, 2014, p. 105). A produção teórica da NSE possibilita tratar de perspectivas diferentes de enraizamento: nas redes sociais (estruturais),
117Ao explicar a noção de enraizamento (encastrement) na sociologia econômica, Brisset (2014) considera que Karl Polanyi foi o responsável pelo renascimento do conceito no âmbito da nova sociologia econômica. Para Brisset (2014), devido a sua perspectiva institucionalizada e enraizada da economia, Polanyi é capaz de realizar o vínculo entre a nova e a antiga sociologia econômica, esta representada por Durkheim e Weber, o que possibilita a Brisset (2014) sustentar a hipótese de que, ao rejeitar a ideia de enraizamento da economia na sociedade e enfatizar o enraizamento na Teoria Econômica, a sociologia performativista de Callon representa um rompimento com toda a sociologia econômica. Rejeito a tese de Brisset (2014) sobre o rompimento da sociologia performativista de Callon com a sociologia econômica, porque Callon não trabalha com a categoria de “sociedade”, fiel ao seu ferramental teórico da ANT, Callon faz uma análise da estruturação social dos mercados econômicos por meio das relações sociais (o que inclui a Teoria Econômica no agenciamento), uma análise que é típica da NSE.
política (regras formais), nas significações culturais e cognitiva (em certas formas de racionalização e dispositivos de cálculo)118. O enraizamento da
economia no aspecto cognitivo corresponde, entre outras análises, à Sociologia performativista de Michel Callon que estuda como a Teoria Econômica influencia a performação dos mercados.
A abordagem da NSE implica em consequências analíticas e políticas bem distintas de abordagens como a de Polanyi, que vê o mercado como uma esfera institucional autônoma. Partindo do pressuposto de que os mercados estão imersos nas relações sociais, a NSE estuda como essas relações influenciam o funcionamento dos mercados:
118 A ideia de enraizamento estrutural nas redes sociais encontra-se especialmente na obra de Granovetter (2007), para quem as redes tratam das ligações bilaterais que unem os atores entre si: “l’action économique est socialement située, et ne peut se comprendre qu’en tant qu’elle prend place au sein d’un réseau caractérisé par sa densité, sa forme et la nature de ses liens.” (BRISSET, 2014, p. 106, Tradução livre: “a ação econômica é socialmente situada, e somente pode se compreendê-la quando tem lugar no seio de uma rede caracterizada por sua densidade, sua forma e a natureza de suas ligações.”). Essas redes estruturais ao mesmo tempo facilitam e limitam as estruturas e recursos disponíveis as ações das instituições econômicas construídas pelos indivíduos (BRISSET, 2014, p. 108). Ao tratar do enraizamento da economia no direito, a sociologia econômica considera a regulação econômica não somente como a estrutura que permite as trocas econômicas, mas como parte constituinte das ofertas e demandas. Brisset (2014, p. 111) cita o exemplo do trabalho de Le Vally e Bréchet, que estudaram o fornecimento de alimentação coletiva na França e visualizam a relação entre oferta e demanda como um reencontro entre diferentes regulamentações que estruturam as incertezas e também as margens de manobra (os atores compõem com a regulamentação para ajustar seu espaço de atuação). A economia também é produzida e delimitada pela cultura. Um exemplo é a fronteira que existe entre o que pode e o que não pode ser vendido no mercado, Brisset (2014, p. 112) evoca o conceito de mercadoria fictícia de Karl Polanyi (2012, p. 53). Para DiMaggio, a cultura, entendida como cognição social compartilhada, atua em diferentes níveis como guias normativos que delimitam o campo de ação econômica, como os rituais e sistemas simbólicos constitutivos dos papéis de cada um no sistema econômico e os gostos dos atores (BRISSET, 2014, p. 113). Outro exemplo é o trabalho de Viviana Zelizer retratou a dificuldade encontrada nos EUA até final do século XIX para a implementação do mercado de seguros de vida: “as representações culturais são decisivas para se rejeitar, quer para se aceitar que relações mercantis estejam presentes no seio de relações íntimas (a morte, a infância); ela mostra também como os domínios axiológicos e econômicos interagem.” (STEINER, 2006, p. 44). Como explica Steiner (2006, p. 46) esses estudos tratam de qual será a humanidade a emergir com a mercantilização desses bens.
Uma das mais importantes preocupações da nova Sociologia econômica consiste em estudar os mercados como construções sociais e não como entidades mágicas e diabólicas cujo funcionamento corrói a cultura, a ciência e os próprios vínculos sociais. Portanto, os mercados não serão vistos como esfera institucional autônoma da vida social e sim analisados a partir de sua construção social. Isso envolve uma crítica tanto à ideia canônica dos manuais de economia em que mercados são mecanismos neutros de equilíbrio entre indivíduos isolados uns dos outros, como à noção de que são fatores de corrupção e pasteurização da cultura humana e das formas mais nobres de existência social. Mercados não são entidades impessoais em que unidades autônomas e anônimas se encontram de maneira ocasional, orientados pelos sinais emitidos pelos preços. Mas tampouco são formas em que os indivíduos apenas obedecem, sem o saber, a determinações que vão além de sua capacidade e de sua vontade. (ABRAMOVAY, 2009, p. 76).
A implicação política dessa proposta é, explica Abramovay, buscar interferir na maneira como os próprios mercados se organizam, inserindo outras exigências não meramente econômicas:
a ação política terá que se dirigir não apenas às organizações do Estado e da sociedade civil, mas também à própria maneira como se estruturam e agem as firmas. […] O desafio central não está apenas em alargar o campo de empresas explicitamente guiadas por justiça, solidariedade e integração construtiva com os ecossistemas, e sim em fazer com que esses valores guiem - sob o efeito da pressão social organizada - o conjunto da vida empresarial. (ABRAMOVAY, 2009, p. 84). Essa postura fica evidente na abordagem de Callon sobre os mercados como agenciamentos de mercado em que sua preocupação central é entender seu funcionamento, mas também apontar para uma engenharia política dos mercados preocupada em modelá-los em conformidade com certos objetivos políticos.
3.3 O ESTUDO DOS MERCADOS NA NOVA SOCIOLOGIA